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    II - O Comércio de Escravos

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    Aythusa
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    II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Aythusa em Qui Dez 17, 2015 3:03 am

    Capítulo II - O Comércio de Escravos



    A aurora despontava no horizonte e as ruas de pedras da calçada dos portos já estavam fervilhando. Haviam homens gritando ordens e carregando cordas que pareciam muito pesadas, o ruído das botas nos cascos dos barcos despontavam surdos enquanto descarregavam sacas e barris de especiarias e bebidas. Próximo dalí o comércio já fervilhava com crianças vendendo coisas inúteis em seus carrinhos de madeira, prostitutas oferecendo seus serviços, noviços tentando roubar um rapaz desatento, comerciantes de lã discutindo com os pesqueiros argumentando que o cheiro dos peixes barateava as suas ricas lãs. Toda a cidade parecia ruidosa e atarefada, montando as barracas nobres para expor seus artigos de comério, pois todos sabiam que aquele dia seria um dia especial naquele ano na Costa Negra.
    Foi pensando nisso que todos os que trabalhavam pararam para observar a fileira de crianças, mulheres e homens que caminhavam descendo a prancha dos navios. Haviam criaturas de todas as idades e raças, tamanhos e cores, e todos estavam acorrentados e sujos enquanto alguns estavam visivelmente doentes, feridos ou mesmo morrendo. Os contra-mestres dos navios estavam seu chicote para impedir que parassem e, no meio de choros, gritos e sangue, os navios vinham descarregando os escravos que viriam a ser leiloados naquela tarde.
    E foi aos gritos de Frac’Eido, o contra-mestre do Marlin Negro,  que Acognir desceu a rampa para as pedras, os ruídos e odores da cidade que por dias imaginou como seria.

    ~*~

    Não tão próximo do centro do comércio, mas no meio da grande movimentação de entrada e saída de mercadorias,Brifitz BigodeLongo estava debruçado energicamente em seu grande livro, controlando absolutamente tudo o que entrava e saía do porto, verificava absolutamente tudo, especialmente o que brilhava dentro das caixas e barris e nenhuma seda era perdida de sua vista astuta. Seu sabre de esgrima ficava em sua cintura todo o tempo e por várias vezes ele alisava seu bigode, ou remexia uma moeda para pensar melhor.
    O lugar era muito grande e muito bem arquitetado. Parecia um palácio com grandes pilares de pedra esmaltada, dando um ar totalmente gracioso e rico, fazendo com que todos sentissem entrar em uma outra cidade. No entanto o local inteiro era mais um túnel arquitetado para que se possa ter o controle de mercadorias. Em resumo, todos os que queriam entrar na cidade pelo porto, tinha que entrar por ali.
    Havia um grande corredor onde ficava os impacientes fornecedores gritando e se queixando da demora... Mais um dia agitado para BigodeLongo, que ficava sentado em uma mesa sobre uma plataforma no centro ao final do longo corredor, entre duas grandiosas portas decoradas ricamente: em uma das portas os fornecedores seguiriam caminho para dentro da cidade e seu destino com os compradores de seus produtos; já na outra porta ficariam os produtos a serem confiscados e que precisariam de mais tempo de Brifitz e que, por muitas vezes, ficavam proibido de comerciar.
    Isso se devia principalmente a acordos políticos, produtos em especial que o governo pedia para que o gnomo separasse para interesse deles. Obviamente, o pequenino pagava a parte aos fornecedores, mas sempre mantinha uma parte a mais consigo... afinal, todo trabalho é um trabalho e o outro sempre parecia mais brilhante em sua bolsa.
    A manhã se passava lentamente. Brifitz acabou por decidir que um de seus funcionários cuidassem das passagens dos escravos e os contabilizassem, como era de costume nesse dia na cidade, e ele se encarregava das outras mercadorias que necessitavam de mais atenção. No entanto um dos  escravos chamou a atenção de BigodeLongo, um que era muito magro, tinha os cabelos ruivos como o fogo e causava alvoroço devida a sua mão de osso... Quando se deu conta, o escravo estava olhando para o gnomo com os olhos atentos e um sorriso peculiar no rosto.
    Brifitz ainda segurava a pena, sustentando o olhar dele.

    ~*~

    Enquanto as coisas borbulhavam nas águas do porto, na cidade o cheiro doce dos tempeiros das comidas da região deixava os viajantes ansiando pelo desjejum. Além do cheiro de cervejas, licores e vinhos, haviam barracas de alimentos cozidos com vários grãos e especiarias raríssimas e que davam um sabor totalmente único a comida.
    As mulheres mais ricas alisavam as sedas e os tecidos de cores vibrantes que eram pendurados, enquanto as mulheres mais simples pechinchavam logo entre as primeiras horas do comércio o fio da lã para fiarem.
    Mas foi próximo a um ferreiro que Radin Padan estava, ouvindo o som do aço sendo temperado no meio do ruído que crescia a cada hora que passava. Ele havia encontrado um beco com um velho que guardava muitos pergaminhos de histórias, contos e lendas e, como amante dos conhecimentos, ele acabou parando para olhar uma ou outra folha do pergaminho.
    O lugar era pequeno, o que fez com que o meio-elfo se abaixasse para se acomodar dentro da casa escuro. Havia uma espécie de lampião lá dentro com uma luz tão clara que não podia ser natural, entretanto entrou calado e aliviado por fugir um pouco do barulho e encontrar o aconchego de livros.

    O homem idoso não se deu ao trabalho de cumprimentar o meio-elfo que entrara na pequena casa, mas tinha os olhos atentos para o lado de fora das vidraças. Seus cabelos eram brancos e tão ralos que era possível ver a pele branca de seu couro cabeludo, seus olhos eram azuis e cansados, carregados pela idade e usava roupas largas demais para seu tamanho, ao menos se comparado com a grossura de seu braço, que mais parecia a de uma criança. Era visível que o senhor daquele lugar fora esquecido pela família a muitos anos e viveu escrevendo em seus pergaminhos e vendendo-os aos curiosos e amantes de conhecimentos.
    E eram para a fileira de escravos que seguia lentamente na frente da loja, passando pelos ferreiros e pelos tecidos. E Radin Padan perdeu-se momentaneamente observando a fissura que uma pequena jovem, humana de pele clara e olhos verdes, suja e cheia de hematomas em sua têmpora e braços, tinha ao olhar os pergaminhos dentro do local. A jovem ainda era muito moça e estava maltrapida e ferida, e ainda assim chamou atenção de uma tal forma que Padan só tirou os olhos curiosos dela quando ouviu o velho cuspir maldições para os ratos que haviam passado por debaixo da mesa em que estava.
    Quando ele olhou de volta, a fila de escravos havia se adiantado e a menina simplesmente desaparecera no meio do comércio.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por bitenco em Qui Dez 17, 2015 9:35 pm

    Acognir chegou a prancha com o pé direito e um sorriso largo no rosto. A fila que vinha ainda atrás dele não o permitiu que parasse, mas não impedia que ele aproveitasse aquele momento. Em sua caminhada uma forte e demorada respiração marcou parte de seus passos, deixando abertura para que sua tagarelice começasse.

    - Este cheiro não é ótimo - indagou inclinando a cabeça um pouco para frente sem se importar se a pessoa responderia ou não. - Sabe, parece cheiro de desjejum logo pelos primeiros raios de sol. Você sabe o que é desjejum, não sabe - continuou com suas indagações. - É quando a gente come depois de um tempo sem comer nada. Mas acho que você não é muito de conversar, não é!? Eu também estaria assim na sua situação. É uma pena. - Parou um curto tempo voltando com sua cabeça antes de falar mais uma vez próximo do escravo. - Eu sou Acognir, a propósito. É um prazer conhecê-lo.

    Infelizmente para o mágico as correntes lhe atrapalhavam em sua passada mais alegre. Felizmente a verdade não era reciproca para seus olhos. Acognir observava toda a movimentação da cidade, das pessoas as estruturas da casas, tentando entender como aquilo tudo funcionava. Era claro que não lembrava se já havia passado por estas terras alguma vez, mas com certeza desta ele não esqueceria mais. E isso lhe trazia um sorriso constante no rosto.

    - Woooooou, um gnomo - exclamou feliz. - Um gnomo, amigo. Dizem que quando se dá doze maçãs para um gnomo você terá todo um ano de sorte e prosperidade. E se não acredita em mim, você vai ver, vou perguntar a ele sobre as maçãs.

    O escravo sorridente esperou pela oportunidade para saltar o mais próximo da mesa possível para perguntar.

    - Você gosta de maçãs?

    Aproveitou também para olhar o que tinha ali por cima, ainda que isso lhe rendesse algumas chicotadas.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Pallando em Sex Dez 18, 2015 1:54 am

    Para o meio-elfo que já conhecera de vilarejos até lugares desertos, o lugar onde se encontrava agora estranhamente lhe agradava em parte, pois a diversidade e a sensação de que poderia encontrar algo novo a cada rua que virava atiçavam sua curiosidade, mesmo que ainda sentisse um imenso desejo de ver todos parando e ficando quietos. Mas agora Radin Panda encontrava-se realmente próximo de algo interessante, seguindo por um beco onde avistara um velho com seus pergaminhos. Foi em direção à casa e, após momentaneamente incomodar-se com os afazeres de um ferreiro, entrou de maneira habitual no estabelecimento dos pergaminhos, bastando isso para que se sentisse aliviado em um ambiente de atmosfera mais "familiar" e sem toda àquela barrulheira.

    Seus olhos varreram o lugar como se investigasse algo, era um hábito do meio-elfo, dando atenção especial ao estranho lampião e ao velho, que sequer dignou-se a cumprimenta-lo. O escritor de pergaminhos tinha o olhar cansado direcionado para o lado de fora, olhando através das vidraças, e Radin não ousaria perturbar o homem enquanto não fosse necessário. Sua aparência e atitude indicavam experiência, alguém cuja vida era dedicada à escrita, e isso somente impulsionada mais o meio-elfo a ler os melhores pergaminhos, mesmo que tivesse certo medo de desapontar-se por criar altas expectativas.

    Foi quando estava pronto para obter algum pergaminho e sem saber descrever o motivo, algo na fileira de escravos lhe chamou a atenção. Era uma simples jovem humana, olhos verdes e pele clara repleta feridas, aparentemente uma pobre escrava que não encontraria felicidade no fim de sua caminhada, porém dedicava um olhar fissurado aos pergaminhos. E de um instante para outro, Radin viu seu interesse desperta pela história da escrava que apreciava pergaminhos. Qual a razão para encarar escritas com tanta fissura, mesmo quando indo em direção ao triste fim que a esperava? Como uma criança havia acabado no meio de escravos? O meio-elfo viu-se sufocado ao ver o estado da pequena humana, sentimento esse que só aumentou ao ver os outros escravos que seriam leiloados, uma sensação de indignação crescente apoderou-se de sua vontade. Sentiu tristeza e odiava isso.

    No momento seguinte, seu estado de transe foi interrompido pelo velho tagarelando algo com os ratos que passavam por baixo da mesa e Radin pensou por alguns instantes que fosse agredir o escritor ali mesmo, tamanha era a raiva que direcionou sobre ele. Mas logo seus olhos voltaram-se para a rua em busca da pequena humana, mas para sua frustração ela já não estava lá, fazendo-o novamente pensar que fosse espancar o velho por aquilo, porém, para a sorte do maldito velho mal-educado, Radin Panda precisava fazer algo.

    Radin compraria alguns pergaminhos apressadamente e partiria dali, seguindo para onde a fileira de escravos rumava.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por TheDuck em Sab Dez 19, 2015 12:39 am

    Brifitz cheirava a brisa do mar, a maresia adentrava suas narinas junto com o cheiro de fezes e urina  a pouco tempo limpas das ruas do cais do porto, ele alisava seu lindo bigode com a ponta dos dedos e tinha um leve sorriso nos lábios.

    Se sentou em sua cadeira de administrador, acolchoou seu bumbum na almofada colocada devidamente para que ele pudesse enxergar o que estava sobre a mesa, compensando sua estatura baixa, alisou novamente o bigode, passou uma moeda de ouro por entre os dedos e colocou-a debaixo de seu nariz, respirou profundamente, soltando o ar com um suspiro de prazer, guardou sua moeda cuidadosamente em seu bolso frontal.

    Brifitz então começava assim sua rotina matinal, com a mão direita pegou sua pena de cor rosa que estava apoiada no tinteiro, molhou seu bico, olhou calmamente para o caderno de entradas e saídas enquanto que com a outra mão novamente alisava seu bigode, desta vez alisando a outra extremidade, e iniciava suas anotações.

    Mercadorias, especiarias, alimentos, tecidos e claro, dinheiro, principalmente dinheiro, com seu grande olfato ele cheirava cada naco de moeda que adentrava aquele porto e claro cobrando quantias módicas pelo seu serviço ali prestado.

    Com o tempo dedicado olfativamente ao cobre, a prata e especialmente ao ouro, ele não poderia averiguar os "suvacos" fedorentos que desembarcavam esta manhã. Escravos, esses ele não colocava o nariz e se desse não administrava, deixava que seu encarregado fazia por ele. Mas neste dia algo diferente lhe chamou os olhos, em meio a luz solar com certa dificuldade, Brifitz cerra os olhos vendo um ser esguio, magro, e com mãos de ossos. Mão de ossos? Brifitz perdeu algum tempo acariciando seu bigode e fitando aquele ser que descia do navio e vinha em sua direção, percebia que o homem balbuciava algumas palavras, mas devido a distância não as ouve. O homem se aproxima e Brifitz está perdido em pensamentos e questionamentos, enquanto o homem lhe dirige a palavra, saltando em frente a mesa Brifitz se assusta com a ação do homem e disfarça tentando manter a compostura, arrumando seu chapéu, seu bigode e sua pena.  

    - Oh, Oh, me perdoe meu rapaz, mas poderia ter um pouco mais de polidez sim, não me entenda mal, mas não se deve bisbilhotar a mesa de ninguém hein.

    Brifitz fechava seu livro de controle, repousava sua pena e olhava para o escravo de cima para baixo. Era raro estar naquela posição e isso Brifitz não deixava escapar.

    - E respondendo sua pergunta, sim meu senhor, eu gosto de maças. Espero que isso satisfaça seus desejos de conhecimento sobre minha pessoa, agora siga seu caminho antes que seu dono o veja aprontando em meio aqueles que você não pertence, sim.

    Brifitz o fita com os olhos, ele falava com seriedade mas um olhar de curiosidade sobre aquele homem tinha sido despertado em seu ser, os desejos de aventura de Brifitz eram aflorados pelas diferenças de povos que passavam por ali. Quem seria ele? De onde vem toda sua diferença física, e como ele tinha as mãos de ossos? Aquilo ficou encucando Brifitz por algum tempo.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Aythusa em Sex Jan 01, 2016 8:16 pm

    Acognir - A Fila de Escravos

    Acognir começara seu dia importunando a todos com sua tagarelice costumeira. Várias vezes durante a viagem no navio, isso impacientara vários outros escravos e os piratas, rendendo a todos chibatas e jejum por dias de viagem. A verdade é que ele cultivou muitas inimizades entre os escravos e ninguém gostava de ouvir ele falando. Quando ele saiu do navio falando alto como sempre, ninguém lhe dava atenção e caminhavam de cabeça baixa, inclusive o escravo a sua frente.

    O homem parecia ter a idade avançada e tinha o semblante cansado e exausto, mas era possível saber que as rugas e sulcos marcados em seu rosto era de dor e pesar por ter sido o único de sua família a sobreviver. Várias vezes Acognir o havia observado quieto junto aos ratos e urina do navio e agora ele estava a sua frente enquanto caminhava com tão pouca vida que parecia que já estava morto a muito tempo.

    Ao caminharem no lugar onde seriam contados e classificados antes de entrarem na cidade, os soldados se distraíram olhando para as mercadorias e as bolsas cheias de moedas dos fornecedores. Com tanta distração e ruídos, foi quase fácil que Acognir saísse da fila para falar com o gnomo que sentava na grande mesa do lugar, perguntando-lhe sobre maçãs e olhando para a mesa com o grande livro que BigodeLongo logo correu a ocultar do escravo curioso, fitando-o e falando com desprezo.

    Antes que o gnomo terminasse de falar, o palhaço sentiu a pele queimar às suas costas, uma dor atordoante e já quase familiar a para ele o fez travar uma respiração e não conseguiu concentrar-se em nenhuma resposta para Brifitz, e logo brotou a sensação do líquido escorrendo por suas costas e o gosto de sangue lhe saltou à boca. Acognir estava sendo castigado por um dos guardas do porto que o avistara sair de seu lugar na fila para falar com o gnomo, interrompendo toda a operação cansativa daquela fila de fornecedores agora mais raivosa que antes.

    Quando foi levado de volta para seu lugar na fila, seus dentes estavam vermelhos do sangue que brotara em sua boca após o seu castigo, suas costas estavam latejando e tão quente quanto uma fornálha. Todavia, ao retornar para seu posto, ainda carregava o doentio sorriso que sempre tinha, embora a dor fosse visível em seu rosto, parecia que alguma nova motivação ou prazer aparecera em seu rosto, talvez fosse apenas impressão causada pelo sorriso do homem. Não se sabia...afinal não sabiam nada sobre o Mão de Osso.

    Quando voltaram a andar, o homem a sua frente o surpreendeu dizendo-lhe:

    - Eu também gosto de maçãs.

    Em nenhum momento se virou para encarar Acognir e continuou seu caminho em silêncio. Fora a primeira vez que ouvira a sua voz, parecia rouca pelo desuso ou poderia ser por conta da idade... não sabia ao certo.

    Eles caminharam por um longo trecho até chegarem em um armazém lotado de outros escravos. O cheiro ali era quase pior que o lugar onde viveram nos navios. Todos os escravos que desembarcavam no porto estavam se reunindo ali e o lugar parecia não ser suficiente para a grande fila que se formava lá fora. Ele ouviu os homens comentarem que matariam os doentes para fazer caber todos ali dentro e todos sabiam que era verdade.
    Sentaram-se todos e tinham ordens de permanecerem calados, embora fosse impossível juntar tantas pessoas juntas em um mesmo lugar e não haver ruídos de conversas, choros e preces.

    Foi quando Acognir estava concentrado tentando não pensar na dor que desatinava em suas costas que uma jovem, magra como um graveto e tão esfarrapada quando se podia estar, veio em sua direção e pediu que tirasse a camisa que usava:

    - Preciso de um pano para limpar o sangue de suas costas, senhor - dizia ela, sem olhar nos olhos do homem, apenas para suas mãos que, curiosamente, estavam ensanguentadas. Parecia que ela se ocupara limpando as feridas dos escravos dali e chegara a Acognir por avistar a mancha de sangue em sua camisa.

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    Brifitz - O Registro de Entrada.

    Logo após a partida do escravo, o gnomo se pôs a se ajeitar novamente na grande cadeira, abrindo seu livro de registros e molhando sua pena. Antes de chamar o próximo fornecedor que se aproximou com alguns itens muito sem graça, ele mexia em seu longo bigode acentuando ainda mais a curvo dele enquanto pensava na mão de osso que ele tinha e na ousadia que ele apresentou ter.
    Passou a manhã inteira ali e depois se retirou para o almoço. Poderia imaginar que ele ficaria cansado de trabalhar tantas horas seguidas, mas na verdade ele estava muito animado e decidiu que percorreria a cidade para ver os preparativos do grande comércio que se iniciava gradativamente.
    Obviamente, o gnomo não pagava pela comida que consumia ao longo do mercado que se instalara nas ruas da cidade, afinal os fornecedores eram gratos poro ele deixar passar vários itens que seriam considerados de má conduta em outros lugares, então todos lhe serviam pequenas porções do melhor que trouxeram, em agradecimento.

    Da mesma forma que ele era bem aventurado com alguns comerciantes, outros não lhe eram tão gratos assim, especialmente os que possuíam os itens confiscados. Foi quando encontrou três ou quatro destes infelizes e mau humorados, decidiu que era hora de voltar ao trabalho antes que o grande leilão começasse.
    Voltou pelo caminho mais longo e lotado que encontrou e observava tudo, esperando que pudesse se interessar por alguma coisa que lhe rendesse alguns trocados ou alguns presentes, mas tudo parecia desinteressante se comparado com a instigante mão de osso que vira naquela manhã.
    Ao virar descuidadamente uma esquina, se deparou com uma loja de produtos místicos. Era uma loja da cidade e não dos novos comerciantes locais, o que fez com o que o gnomo se perguntasse como não conhecia o local... mas ao observar melhor o lugar aparentemente imundo e com um cheiro tão forte que imaginou que poderia desmaiar, entendeu o motivo de não conhecer o lugar. Parecia deserto... Quando olhou pelo vidro empoeirado tentando olhar algo de interessante dentro da loja sem precisar entrar, uma ave gritou acima de sua cabeça e a porta se abriu.

    O animal que gritara era um corvo negro com um olho cego que encarava brifitz de uma forma sinistra. Porém antes que ele pudesse sair dali para voltar ao trabalho e inspecionar melhor os itens que reteve, uma mulher de pele murcha pálida, cabelos grisalhos e crespos, e olhos tão claros que pareciam de vidro, saiu pela porta e perguntou a ele:

    - Quer entrar e procurar mais alguma coisa para bisbilhotar? Ou é apenas um mau educado que olha as coisas de dentro pelo lado de fora?

    A voz dela era gritante e esganiçada e ela tinha aquele mesmo odor horrível que sentia naquele lugar. O estado dela era deplorável e sujo e ela agora o encarava esperando uma resposta.

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    Radin - A loja de pergaminhos.

    Radin permaneceu mais algum tempo na loja e o velho rabugento pareceu ter seu humor acalorado quando viu que ele compraria realmente algum pergaminho seu e mostrou todos os mais caros que tinha, ansioso para sentir algumas moedas tilintando em sua fraca mão suja de tinta. Ele mostrou vários pergaminhos que toda sorte de homens procurava e contou histórias dos maiores magos e estudiosos que passaram por ali para adquirir seus pergaminhos. Embora Radin não acreditasse nas histórias, se interessou em comprar um conjunto de pergaminhos que contava a história e a ascensão de uma das cidades ao Norte dalí. Seria uma leitura longa e cansativa, porém lhe interessou saber mais sobre a região. Pagou ao velho homem e saiu para a feira.

    Descobriu que passou mais tempo na loja empoeirada do que havia calculado e logo era hora do almoço. Ficou desapontado em descobrir que a menina que vira na fila, maravilhada com os pergaminhos, sumira da longa fila que se estendia e, mesmo chegando até o final dela, não encontrou a menina.
    Teve o cuidado de olhar atentamente todas as crianças mulheres da fila para ter certeza de que não a deixara passar, mas ela era inconfundível com os olhos azuis destacando-se na pele branca imunda e cheia de machucados, com os cabelos negros desgrenhados.

    Sendo assim decidiu que almoçaria na praça, próximo de uma fonte que havia no centro dela, observando o movimento do comércio que se iniciava. Como havia gastado algumas das poucas moedas que possuía, decidiu comer sua carne salgada e seu pedaço de pão duro e velho que carregava consigo na viagem, empurrando tudo com água de seu cantil.

    Ele ainda tinha algumas horas para desperdiçar antes de ter a esperança de rever a garota (quando o comércio se iniciaria). Ele deveria escolher o que fazer até então e, obviamente, a cidade estava fervendo de oportunidades, lugares e pessoas para conhecer ou passar o tempo. Além disso, ele ainda tinha um novo moterial de estudo: os pergaminhos que comprara.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por TheDuck em Seg Jan 04, 2016 8:46 pm

    Brifitz responde para o escravo e antes mesmo de terminar sua fala o soldado marcava a pele do mão de osso, ele o conduzia para a fila enquanto a boca ensanguentada do escravo respondia que também gostava de maçãs. Brifitz se compadeceu e além disso realmente estava intrigado com aquele escravo, e indaga ao soldado.

    - Ei soldado, como se atreve a marcar o escravo agora que ele está indo para a averiguação de mercadoria? Você quer pagar pelo prejuízo, se quiser posso debitar agora? O que acha?

    Brifitz estava curioso, era raro algo que não fosse uma boa, linda e cheirosa moeda de ouro lhe trazer curiosidade, mas aquele escravo, a mão de osso, e até mesmo a forma que ele entrou e falou com Brifitz, era uma forma meio real, Brifitz estava acostumado a bajuladores ou devedores, haviam poucas conversas sinceras que Brifitz participava, no máximo com seu pupilo o pequeno humano, que já estava maior que Brifitz, Thalo. Thalo era o garoto que ajudava os afazeres de Brifitz, prestativo e animado sempre pronto a atender os desejos do mestre gnomo e ali ia mais um deles.

    - Ei. Ei Thalo, por favor faça as contas, finalize o processo do livro e verifique por favor se estão cuidando bem do escravo enxerido que acabou de entrar, me faça um relatório sobre ele, aparentemente ele é uma mercadoria importante. Volto logo.

    Brifitz saiu pela cidade, passou pela rua dos ratos, um dos locais mais imundos que havia no porto, o resto e peixes, e mercadorias alimentícias  forrava o chão e os ratos não perdiam tempo, o cheiro de podre se misturava ao cheiro de suor, sal e urina depositada na água. Alguns mercadores lhe ofereceram comida, mas a real era que o Gnomo tinha nojo daquela rua, ele queria sair logo dali.

    Brifitz virou a esquina subindo a ladeira da prosperidade, ao subir a ladeira era nítido a diferença social que havia naquela cidade, Brifitz filou uma cigarrilha de um dos marinheiros deu apenas um pito, contou uma piada, todos riram e continuou sua caminhada, passando pela estalagem da Garoupa Arredia o bom e velho senhor Thompsom estava aguardando a passagem de Brifitz, ele lhe deu uma pequena bolseta, Briftiz abriu viu ali duas moedas de ouro, Briftiz acariciou seu bigode devidamente e inseriu seu cheirador dentro da bolseta, respirando fundo. Ele agradeceu e ainda recebeu uma coxa de peru assada na laranja, uma especialidade da casa eum prato devidamente caro para a região.

    Brifitz, não quis aceitar de primeiro mas Sr Thmpsom insistiu, então Brifitz segue a caminhada mascando aquela carne tenra de peru aromatizado pelas laranjas que chegavam ao porto. O prazer da carne foi interrompido pelo desgosto de encontrar devedores cheios de razão. Brifitz não deu muita atenção, eram apenas capangas do Mão de Onça, era como Brifitz o chamava, pois era o maior pão duro e enrolador da cidade, muitas foram as vezes que eles duelaram, por sorte Brifitz venceu a maioria deles. Pensando bem, Brifitz venceu todos eles.

    Briftiz pega um caminho diferente e em meio as mordidas ele imaginava como estava o mão de osso, o que seria dele e para onde ele iria? Se ele veio de navio, será que ele tem muitas histórias para contar? Briftiz enfia a mão no seu bolso frontal e agarra a maior moeda que ele ja teve na vida, era esculpida com desenhos de seu deus, o deus da sorte Sésío, tal moeda era utilizada para tirar as dúvidas da cabeça de Briftiz, ele a jogava sempre pedindo respostas por suas questões. Em meio a sua dúvida, Briftiz, guarda sua moeda, fazendo um aceno com a cabeça de que ainda não precisava disso. Arrumou longamente seu lindo bigode e percebeu que em meio ao seu devaneio havia errado seu caminho, Briftiz percebeu um local novo, ali ele ainda não tinha cobrado ninguém, era um local obscuro, mais fechado e um cheiro de pó pairava no ar, parecia que aquela esquina estava anos atrasada em relação a cidade, apenas um candelabro sustentava a pequena luz que permeava a rua acima da placa da loja, Briftiz olhou e não reconheceu o nome e nem mesmo a língua que fora escrita aquela placa.

    E mais uma vez naquele dia Briftiz se sente intrigado, curioso e devidamente desajustado de seus toques e manias, ele fitou a vitrine e se aproximou para enxergar melhor o interior da loja, o silencio foi quebrado pelo grasnar de um corvo, Briftiz percebeu o quanto interagiu com o local com o susto que tomou, mais uma vez intrigado pela curiosidade que andava sentindo pelas coisas diversas da vida.

    Na sequencia de seu susto uma velha senhora, o indaga.

    - Quer entrar e procurar mais alguma coisa para bisbilhotar? Ou é apenas um mau educado que olha as coisas de dentro pelo lado de fora?

    Briftiz se desarma, aquela era a segunda pessoa naquele dia que falava com ele com sinceridade, que não devia e não o bajulava, sua forma grossa e rude de falar quebrou os modos de Briftiz e ele se lembrou vagamente como era ser cordial, ser gentil e educado por apenas ser e não por imagem.

    - Oh, oh, - dizia o assustado Briftiz - Desculpe esse rapaz bigodudo, Dizia arrumando seu bigode  não tinha a intenção de afronta-la ou de demonstrar desrespeito.

    - Confesso que fiquei curioso, quais são as suas mercadorias boa senhora? Será que talvez você tenha aquilo que estou procurando?

    Briftiz olhava para a senhora com ar de curiosidade, e apesar de não saber nada daquele local, senhora ou mercadorias ele despertava a curiosidade, e de alguma forma Briftiz começava a maquinar alguns planos diferentes. O que se passava naquela cabeça, nem mesmo Briftiz ainda sabia.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Pallando em Sex Jan 08, 2016 1:29 am

    Satisfeito com o que havia conseguido na casa dos pergaminhos, Radin deixou o lugar com uma boa leitura sobre a história da região em mãos. Entristeceu-se ao perceber que havia perdido não tempo do que imaginara, já era quase hora de almoçar e não havia sinal da pequena jovem. Mesmo quando procurou na longa fileira que se estendia a sua frente, a única coisa que encontrou foi a sensação ruim que o assombrava quando os escravos. Depois acabou decidindo por sair dali, antes que resolvesse ajudar outro escravo.

    Olhou de um lado para o outro, um pouco desorientado por mergulhar novamente naquela confusão da cidade, considerou continuar a procura por algum tempo, mas optou por adiar a entrega do pergaminho para a menina escrava. Paciência era uma de suas virtudes algumas vezes. Então seguiu para a praça, onde provavelmente encontraria algum atrativo enquanto come.

    Radin sentou-se próximo a uma fonte que havia no centro da praça, observando atentamente o comércio em busca de algo interessante. Optou por guardar as poucas moedas que lhe restavam e comer o que tinha consigo, afinal o meio-elfo não tinha um paladar exigente, bastava ser digerível e matar a fome que bastava.

    Usou do tempo em que comia para pensar, mais especificamente se deveria gastado moedas com pergaminhos para uma escrava desconhecida. Não demorou para que chegasse a conclusão de que era um estúpido idiota e que ainda agia muito por impulso, pois bastou apiedar-se da situação da menina para que agisse como um herói chato de leituras infantis. Porém, apesar de todo o tempo já perdido, odiava histórias tristes e ainda estava relutantemente decidido a entregar os pergaminhos para a pequena humana.

    Assim que terminou de comer, Radin, ciente de que ainda tinha algum tempo até poder entregar os pergaminhos, resolveu lê-los um pouco, ansioso para saber um pouco mais sobre os lugares próximas a região.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por bitenco em Sab Jan 09, 2016 12:20 pm

    As pessoas esqueciam o que era sorrir depois que haviam recebido tantas provas contrárias para isso. Aquele homem a sua frente não era diferente e para Acognir também não. Pelo menos em seu passado. Hoje a realidade era diferente. O palhaço havia dito em sua infância que nunca mais demonstraria tristeza e que seria mais forte que isso. Este sentimento o fazia sorrir mesmo quando recebera o açoite do soldado. Só tendo que superar a dor para fazê-lo.

    Dor esta que veio por uma atitude de Acognir, e sem a ajuda do bigodudo do gnomo, estragaram seus primeiros passos na cidade. Era difícil fazer com que suas palavras e ações fossem compreendidas. A sociedade se preocupava mais com seus padrões e suas calças do que com a vida e, isso era motivo para qualquer filósofo fazer suas teorias. Acognir tinha as suas e aos poucos ele conquistava cada uma delas.

    - HA - exclamou o início da sua gargalhada contida ao receber as palavras do velho.

    Seus passos dali em diante seguiram mais leves apesar do peso da dor em suas costas. A caminhada era boa para aliviar as pernas depois de tanto tempo em alto mar. Algo que fazia Acognir pensar em como aqueles homens aguentavam esta vida. Poderia ser o motivo de tanta agressividade e mal cheiro. Mal cheiro? O palhaço cheirou de baixo dos braços e percebeu que estava ficando igual a eles.

    - Preciso de um banho - comentou para si na caminhada pela cidade até o armazém. Assim ele também podia olhar em volta sem chamar muita atenção. Sempre era bom saber o caminho que travava para não se perder e pegar os detalhes.

    Quando chegou a vez de seu pelotão de escravos entrar no armazém, Acognir olhou em volta toda a estrutura e suas saídas e entradas, e os outros aprisionados ali dentro. Deveria existir alguns que eram mais fortes e provavelmente seriam vendidos mais rápidos. O cheiro ali não lhe agradava e seria bom arranjar um mínimo de brisa que pudesse, mas´provável que não conseguiria por causa da limitação da corrente em seus pés o ligando a outro escravo.

    Forçado então a se sentar pela dor e pela dispensa de mais um açoite, o palhaço tentou relaxar por um tempo. Contudo uma menina mal aproveitada havia se aproximado. Acognir abriu um longo sorriso e não pestanejou quando a menina fez menção para que tirasse a camisa.

    - Tiraria tudo que me pedisse, até meu coração - como sempre exagerava. - Mas me diga: o que uma bela donzela faz neste antro de fedor e gente suja - Perguntou sem dar tempo de resposta mais uma vez. - Não acredito que seja uma escrava. És muito bela para isso. Deve vir aqui por caridade, não é mesmo?! Porque então não seja gentil comigo e me diga quando é o comércio de escravos.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Aythusa em Seg Jan 11, 2016 12:12 am


    Acognir - O Salão dos Escravos

    Ainda era meio dia, mas dentro do salão parecia anoitecer.
    Essa foi a primeira coisa que o palhaço descobriu ao entrar no lugar. A estrutura por fora era tão bela quanto o resto da cidade, mas por dentro parecia ter sido abandonada. Os castiçais estavam quebrados, havia pouco mais que as próprias pilastras que sustentavam o lugar, o armazém parecia um grande salão em desuso e talvez alí realmente já tivesse sido um grande salão, no entanto quem poderia afirmar isso não poderia ser um dos escravos que estavam ali, aguardando o ''grande momento''.
    Haviam poucas janelas alí, em formatos que lembravam pequenas capelas. Elas não tinham grades e poderiam ser alcançadas se subissem no andar de cima. Havia um corredor por toda a lateral do salão na parte de cima que facilmente caberiam 5 homens adultos e fortes lado a lado. Observando isso, o palhaço teve uma visão mais realista do verdadeiro tamanho do espaço alí dentro: estava abarrotado de escravos pelo chão, mas certamente era um lugar imenso.
    Haviam duas portas visíveis alí: a que eles tinham atravessado para entrarem uma outra no final do salão, provavelmente que levaria para outro cômodo. As duas eram feitas de madeira aparentemente muito pesada, com detalhes entalhados nelas, como desenhos contando uma história... mas Acognir não conseguia observar pela baixa luz que adentrava as janelas. Pensou por um vago momento que deveriam ter velas, mas descartou o pensamento... Era um escravo, por que pensaria em velas?
    Também pôde observar que no centro do lugar havia uma espécie de tablado, que fazia barulho quando alguém andava por cima dele (percebeu quando duas crianças escravas decidiram passar correndo por ali, ignorando as correntes que as prendiam. Tropeçaram quando o espaço das correntes acabou e caíram fazendo um ''baque'' alto e despertando a maioria que haviam adormecido. Alguns ousaram sorrir...). O mão-de-osso esticou um pouco o pescoço, tentando olhar por cima dos outros escravos que estavam ali, não querendo levantar-se ainda, e com dificuldade conseguiu observar que no final do salão havia uma escadaria, provavelmente que levaria para o piso superior. Estava escuro demais e ele ainda muito longe para ter certeza, mas era a resposta mais lógica para as escadas ali.

    Por todo o lugar haviam amontoados de caixotes cobertos por velhos panos brancos, pesados como chumbo. O que havia dentro delas ninguém ali poderia responder.
    Na porta por onde entraram, era possível ver um amontoado de guardas. Esses eram diferentes dos outros que acompanharam os escravos, provavelmente os guardas da cidade. Usavam capas vermelhas, com bordas douradas, armaduras recém polidas e, embora tivessem espadas presas nas bainhas na cintura, eles estavam empunhando grandes lanças, com fitas brancas amarradas às suas pontas, mostrando que estavam em paz, embora estivessem em serviço.

    Após observado o ambiente escuro a sua volta, a jovem havia chegado próximo a ele pedindo para cuidar de suas feridas.
    Obviamente o palhaço não conseguia parar de falar, especialmente ao lado de uma criança tão jovem e bela. ela deveria ter cerca de 12 anos, mas já mostrava pequenos contornos da mulher que seria. Talvez ela parecesse bela entre os escravos ali, porém a verdade é que estava imunda, vestindo trapos e estava com o rosto inchado e coberto por hematomas causados por espancamento.

    Quando falou que lhe entregaria seu coração, a menina ruborizou instantaneamente, mas antes que ela pudesse lhe dizer algo ele já estava fazendo outra pergunta, e outra e outra... A jovem já estava atônita quando ele parou com um último pedido e a encarava com seu maior sorriso.

    A jovem ponderava as perguntas enquanto pegava, com cuidado e delicadeza, a roupa do homem e se remexia inquieta e com a testa franzida, procurando uma forma de começar a responder.
    Se ajoelhou nas costas dele e começou a passar um pano úmido que trouxera com ela em suas costas, tirando o excesso de sangue. Acognir pode sentir com ardor o toque suave da menina limpando sua pele quando ouviu ela responder por detrás dele:

    - Senhor, agradeço imensamente seus elogios, mas sou tão livre quanto as algemas me permitem ser. - e tilintou os elos de sua corrente, intensificando o que dizia. Sua voz era suave e macia, mas carregada com tamanha tristeza e amargura que, se o palhaço não a tivesse visto antes, acharia que era um sussurro da própria morte.

    - Se for caridade cuidar de suas feridas, senhor, então sim...estou aqui por caridade.

    Ele sentiu um sopro dela em uma de suas feridas, e depois voltou a passar o pano mais suavemente agora, com receio que doesse.

    - Soube que nos comprarão após a terceira badalada da catedral atrás de nós. Sabia que estamos em uma igreja? Esta parte os santos não usam e a igreja a usa para abrigar os pobres da cidade. Hoje está abrigando nossas almas.

    Dito isso, ela começou a sussurrar uma canção muito baixo, onde Acognir não conseguiu compreender a letra por se prender demais na melodia de sua doce voz. Ela cantava tão bem que, por um segundo de tempo que durou a canção, pareceu realmente ter sua alma abrigada.
    Ao terminar ela passou novamente o pano úmido em suas costas, agora com mais força que antes. Porém o palhaço não sentia mais dor ou ardência com a esfregada... Na verdade não sentia nada. Suas feridas haviam sido curadas.

    Ouviu o tilintar das correntes da menina quando ela se levantou e lhe deu um sorriso:

    - Majstra é uma boa mãe, senhor. Perdoa nossos pecados e cura nossas dores físicas. Me chamo Daphnne, senhor.

    ~*~


    Briftiz - A Loja da Velha Senhora.

    A ave deu mais uma grasnada.
    A ave parecia idiota, e medonhamente caolha, mas a velha parecia não se interessar em despistar a ave dalí de sua loja e fitou BigodeLongo enquanto ele tentava ser cortês.
    Após ele perguntar quais os itens que ela vendia ela o encarou cutucando uma verruga em seu queijo de uma forma que fez o gnomo ter um pouco de nojo. Após algum tempo em silêncio constrangedor, ela praticamente grita:


    - Se tenho o que você procura? Ora homenzinho, como diabos vou saber!? Entre logo e veja o que quer!


    Dizendo isso ela puxou o gnomo pelo braço para que ficasse na frente da porta, com ela à suas costas. Feito isso ele pode olhar melhor a loja...se é que podia chamar aquilo de loja. Sem ter o que fazer decidiu por entrar no lugar e descobrir quais itens a mulher teria para oferecer.

    A loja estava em uma desordem completa. A vela no lustre negro acima de suas cabeças estava quase acabando e o lugar parecia muito escuro, apesar das grandes janelas de vidro que eram a vitrine da loja e da chama daquela única vela. A velha se debruçou em algumas caixas empilhadas e empoeiradas e descobriu outros dois tocos de vela, que colocou e outros dois castiçais negros: um que estava na parede e outro sobre a mesa.

    O corvo negro e caolho entrou na loja e pousou no amontoado de caixas, mas como estavam em desordem e meio roídas, despencaram quebrando vários frascos que tinham dentro e fazendo a ave gritar sem parar. O líquido que escorria pelo chão era uma mistura de várias cores.
    Apesar de tudo isso, a velha pareceu não se importar e olhava com os olhos saltados para o gnomo, de forma sinistra... Da mesma forma que um faminto olha um prato de comida.

    O gnomo decidiu se distrair no lugar e percebeu que não autorizou a entrada daqueles itens recentemente. Deveriam ser artesanais, suspeitou. Sua mente não parava de pensar enquanto olhava para todos os produtos.

    Haviam frascos com várias coisas em conservas, muitas que o gnomo suspeitou estarem ainda vivas. Havia um jarro lacrado com vários insetos dentro com um bilhete informando ser uma mercadoria em promoção. Se atentou para observar melhor os produtos num armário com porta de vidro que pareciam muito elegantes, embora grandes mais para ele. Era uma capa de frio muito bonita, com pequenas jóias presas ao longo do tecido grosso.
    Do outro lado havia uma mochila que lhe chamou a atenção, mas ainda não fez perguntas, apenas a observava. Abaixo de onde a mochila estava pendurada tinha encostado na parede alguns bordões e cajados com formados e insígnias desenhadas em um tom azulado. Outras tinham pedras cristalinas, como as que ele via os fornecedores deixarem dizendo que eram de cavernas de toda a sorte de lugares.

    Atrás do balcão havia uma coisa curiosa que prendeu a atenção do gnomo por um tempo: crânios de vários tamanhos e de várias espécies estavam sendo iluminados pela luz de de uma chama arrozeada de uma cera de vela negra. Curioso ele continuou olhando, vidrado, aqueles ossos...haviam o que pareciam ser ossos dos braços e das pernas, alguns animais empalhados também, um vidro com uma aranha do tamanho da mão de BidogeLongo, ainda viva e se alimentando de larvas que a velha havia lhe dado.

    O lugar tinha toda a sorte de sortilégios, e um amontoado de potes e vidros em um armário com porta de vidro.
    O gnomo poderia pagar por quase tudo o que vira ali, mas o que lhe interessava mais? O que ele procurava?

    Ficou ali andando e pensando por vários momentos enquanto a velha alimentava uma criação de gafanhotos, misteriosamente calada enquanto pegava os insetos nas mãos. Apesar do seu silêncio, ela não tirava os olhos do gnomo de forma intensa e maliciosa.


    ~*~

    Radin - A Praça da cidade.

    A praça estava movimentada naquele dia ensolarado.
    Radin podia observar todas as diferentes raças e criaturas que vinham desfrutar daquele dia ali no que era o festival do comercio mais conhecido naquela parte do mundo.
    Todos lhe pareceram barulhentos demais e ele decidiu que apenas leria próximo da fonte no centro da praça.

    O seu pergaminho escondia toda a sorte de informações, aparentemente, mas não conseguiria ler tudo naquele tempo. Tinha apenas algumas poucas horas para o comércio começar próximo da Catedral de Majstra na cidade, fora o que ouvira os vários homens que passavam fomentar em suas conversas desinteressantes.

    Decidiu que leria um pouco sobre a regiao em si, embora houvessem textos sobre lendas, aventuras, guerras e lugares aparentemente importantes que a região guardava.

    Spoiler:
    Pallando, vou postar no tópico do Cenário o que descobriu da região.
    Me diga se quer passar as três horas lendo ou se fará alguma outra coisa, interação, lojas, conversar com alguém, qualquer coisa, ok? Senão vou adiantando o lado do pessoal e depois que o Leilão dos Escravos começar você volta, certo? Sinta-se a vontade pra fazer o que quiser na cidade...

    ~*~

    Agnis – A Catedral de Majstra.

    A cadetral estava tão agitada quanto o resto da cidade.
    Agnis já estava na cidade a dois meses e descobrira que realmente todas as partes da cidade funcionavam junto, especialmente quando se tratava de algum evento de comércio, afinal, era isso o que movia toda a cidade.
    Ela havia passado muitos meses na estrada passando fome, frio, sede...sem contar os dias que os pés não agüentavam andar. Descobriu que qualquer raça nesse planeta olha os pobres e andarilhos da mesma forma desprezível que qualquer outro, e nunca ajudavam alguém faminto. Certamente, não morreu de fome por conseguir encontrar poucas pessoas que aceitavam seus serviços em troca de um banho e um prato de sopa, um templo – normalmente de Majstra – que abrigavam os necessitados por uma noite e compartilhavam o pão sovado e duro que conseguiam.
    Ninguém nunca a molestara, afinal ela aprendera a se defender muito com o uso de sua magia, mesmo assim precisou brigar algumas vezes para se preservar quando não conseguia simplesmente fugir de uma situação perigosa.
    Foi doente e faminta que chegou à cidade do comércio meses atrás. Procurou toda a sorte de ajuda, mas ninguém estava disposto a auxiliar a jovem menina que ninguém conhecia. Foi quando encontrou o clérigo na catedral de Majstra no centro da cidade e lhe pediu algo para comer e lhe esquentar.
    Foi então que o templo a acolheu. Cuidaram de sua doença nos pulmões, causada por tanta chuva e mudanças climáticas, a alimentaram e lhe banharam. No dia em que estava se sentindo melhor, decidiu que não incomodaria mais os clérigos e partiria. No entanto, para sua surpresa, não deixaram que partisse e lhe ofereceram um trabalho no Templo.
    Não era remunerado, mas não passaria fome, nem sede, nem frio novamente. E, em gratidão, aceitou o trabalho contente em poder ajudar quem tanto lhe ajudou durante a enfermidade e trabalhou muito para que tudo ficasse agradável.

    A igreja também tinha um papel importante no festival de comercio na cidade que aconteceria junto com o leilão de escravos. O templo deveria apresentar alguns aspectos da deusa, outros clérigos que viajavam para visitá-la. E a verdade era que a catedral não estava pronta para que isso acontecesse... Estava imunda, com poucas pessoas ajudando e trabalhando, sem nenhuma administração. Foi exatamente nisso que Agnis se propôs em ajudar, e não tardou muito estava ensinando coisas novas às cozinheiras, trabalhando na limpeza e colhendo flores diárias para enfeitar todo o lugar. Não demorou muito para que ela descobrisse quais eram os jardins com as flores mais belas e sempre voltava lá no dia seguinte.

    A catedral era enorme, tomando mais de um quarteirão com vários cômodos, cada um destinado a uma coisa. Existia uma escola para as crianças, uma biblioteca com vários pergaminhos, um depósito imenso que antes era usado para festas que fora doado para o templo e que, hoje, usavam para abrigar quem precisava. Ela possuía toda a sorte de enfeites e um design totalmente diferenciado da cidade, com grandes janelas para entrar mais luz, um altar lindo na frente, após um ilustre corredor com chão de mármore. Nas pilastras haviam desenhados vários emblemas ligados à deusa e por toda a parte haviam flores enfeitando o lugar.

    Finalmente chegara o dia do grande comércio de escravos e Agnis estava ocupada como sempre, verificando a cozinha, e colhendo flores pela cidade para receber os visitantes enquanto os clérigos recitavam falando os bons feitos e histórias da deusa para todos. Foi quando a jovem descobriu que o armazém estava sendo usado para abrigarem os escravos antes do leilão começar.

    Já se passara a hora do almoço e ela tinha a tarde livre para fazer o que quisesse. Normalmente ela passava horas na enfermaria, aprendendo como curar feridas e tratar doenças, porém aquele era um dia especial, e Agnis podia fazer o que quisesse até o começo da noite.

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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Larissa Aprill em Seg Jan 11, 2016 4:28 pm

    Spoiler:
    Aperte o play






    Fazia muito tempo desde que Agnis não se sentia bem e acolhida em algum lugar. Quando ela tinha 4 anos sua casa pegou fogo e seu pai veio a falecer no incêndio. Sem ter como sustentá-las, sua mãe partiu com a menina para outras regiões, durante essas viagens elas foram bem recebidas por algumas pessoas e por outras que só se interessavam pelo pouco dinheiro que tinham. Mesmo com a pouca idade Agnis aprendeu que o mundo gira de acordo com o interesse das pessoas e sentiu na pele as palavras: fome, frio e medo.

    Sua mãe fez tudo que pode para protege-la, mas o fardo devia ser muito grande para ela suportar sozinha e esta começou a adoecer muito rapidamente. Logo ninguém mais queria abrigar a mulher com uma criança pequena e cada dia mais sua mãe se tornava mais fraca, nem de longe lembrava ser a mulher alegre e sorridente que a menina lembrava. Havia dias em que sua mãe não tinha forças para se levantar e ficavam as duas largadas na rua. Eram dois objetos descartados pela sociedade, ninguém as percebiam ou simplesmente não se importavam. Sua mãe faleceu alguns dias depois, mas por sorte do destino, nesse momento estava passando uma caravana de magos e um deles se compadeceu da garota.

    Com isso Agnis foi levada para outra cidade onde ficou sob custódia desse mago, que a ensinou tudo sobre magias. Muitos anos se passaram e os treinamentos exigiam cada vez mais da jovem, mas ela estava feliz, por finalmente estar sendo útil e tinha o reconhecimento daquele mago, que para ela era como se fosse seu pai. Mas o destino foi cruel e traiçoeiro mais uma vez e Agnis perdeu a última pessoa que amava. Foi numa emboscada, havia atiradores por toda a parte, a jovem ainda tentou salvá-lo, mas não tinha mais tempo, preparada ou não ela precisava fugir se quisesse continuar a viver. Nem ela sabia como conseguiu escapar dos atiradores. No fim do dia, percebeu que estava ferida, mas aquilo não era importante. Pois ela não tinha para onde voltar, seu tutor estava morto e ela tinha certeza que quem mandou os atiradores até eles, cedo ou tarde iriam atrás dela, pois agora ela também tinha a magia.

    Sem alternativa, Agnis voltou a vida de andarilha, passou por muitas e muitas cidades e durante muito tempo ela apenas vagou por ai, pois ela não tinha um objetivo ou um propósito para viver, seria mais fácil ela apenas desistir. Quando ela adoeceu e seu corpo já não conseguia mais dar um passo, ela apenas se deitou numa escadaria. E que ironia, no fim, teria o mesmo destino de sua mãe.

    Qual foi sua surpresa quando viu um velhinho a sua frente, ele se aproximou da jovem e tudo que ela conseguiu pedir fui ajuda antes de desfalecer. Ela foi abrigada por uma igreja, onde puderam tratar sua enfermidade e pouco a pouco seu corpo ganhou força e vigor. A jovem se sentia imensamente grata, mas sentiu que precisava partir. Mas ao tentar dizer isso para o clérigo ele lhe mostrou a imagem esculpida da "Mãe Majstra" e lhe disse:

    Clérigo- Sou apenas um servo da nossa bondosa Mãe. Acredito que se ela te enviou até aqui, com sua infinita bondade, você deve ter algo a oferecer.

    Então ficou combinado de que Agnis iria ajudar os serviços administrativos e que poderia continuar com seus estudos, para achar algo eficaz na cura das pessoas, o que seria muito útil para a cidade. Sendo assim, já fazia alguns meses que Agnis tinha uma rotina a cumprir e hoje era um dia como qualquer outro, exceto pelo leilão de escravos que todos falavam.

    Agnis estava quase de saída para ir ao mercado, quando o clérigo a chamou e entregou um pergaminho em suas mãos.

    Clérigo- Minha filha, você poderia me fazer um último favor. Vá até o armazém e conte quantas caixas tem por lá, depois está dispensada.

    Com um pequeno aceno de cabeça ela partiu, não era um local que ela gostaria de entrar, pois odiava a palavra escravidão, odiava ter que admitir que haviam pessoas nesse mundo que se julgavam melhores que as outras e o pior que o prazer delas dependia do sofrimento alheio.

    Perdida nesses pensamentos logo percebeu que já se encontrava na frente do armazém, havia muitos guardas na porta e uma fileira de pessoas acorrentadas entravam no armazém escuro. Com um longo suspiro, ela guardou seus pensamentos para si e se aproximou de um das guardas da porta.

    - Preciso checar as caixas no armazém - Disse numa voz firme e pausadamente.

    Antes que os guardas contestasse, ela abriu o pergaminho na frente do rostos deles.

    - Ordens do superior da catedral.

    Agnis iria aguardar a resposta dos guardas e entraria no armazém se assim permitissem.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Pallando em Ter Jan 12, 2016 9:09 pm

    Com seus pergaminhos no colo e a barriga cheia com o pão duro, Radin olhou ao redor tentando ficar minimamente interessado por algo. Seria difícil, pois quanto mais olhava para toda a "diversidade" e confusão dos comércios, mais desejava sentar-se em um beco e ler até o hora de entregar os pergaminhos. Estava ansioso para livrar-se da situação em que havia se colocado.

    Deitou-se como um mendigo próximo a fonte no centro da praça, após desistir de procurar algo para fazer, fitando o céu a cima com um olhar vazio. Mas antes que sua mente se perde-se nas questões de sempre, Radin abriu um dos pergaminhos e pôs-se a ler.

    Não conseguiria ler tudo a tempo e o plano inicial era ler um pouco para caminhar depois, mas o lugar descrito no pergaminho, a Lua Argêntea, prendeu-lhe a atenção.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por TheDuck em Seg Jan 18, 2016 11:51 am

    Brifitz se assusta com a maneira grosseira da velha, e sente um calafrio em sua espinha ao fitar aquela loja da porta, e ainda mais por ter aquela velha em suas costas. Por fim decidiu adentrar a loja. Ela era sombria e empoeirada, o cheiro de velharia e mofo adentrava o nariz de Brifitz, que olhava os itens da loja mexendo em seu bigode, com a mão direita e a esquerda permanecia em suas costas de punho cerrado.

    Brifitz de soslaio percebeu o olhar faminto da velha para Brifitz, que novamente sentiu um calafrio, Brifitz começava a se perguntar se aquele local era realmente algo bom de se estar, os espécimes ali envasados não lhe interessavam, o manto de frio era grande demais. Logo a mente de Brifitz começa a sair daquele lugar, não havia um item que lhe chamasse a atenção, muitos penduricalhos também para dar sorte e ossos de diversos tipos e tamanhos.

    Brifitz percebe novamente o olhar malicioso da velha, e seu instinto diz que ali não seria um bom local para negociações, apesar de querer informações sua mente se enevoava e isso era algo que Briftiz não gostava de sentir. Por um momento sua cabeça lhe levou a Thalo, será que ele tinha feito o relatório, em consequência veio em mente o mão de osso. Pensando melhor, Brifitz resolve levar um agrado a Thalo por seu trabalho e dedicação, por que não agradar aqueles que ele gosta,

    - Boa senhora, gostaria de levar aquele pequeno vaso de trevos de 4 folhas, um símbolo de boa sorte para um rapaz que desejo boas coisas.

    Briftiz além de ter realmente fé nas pequenas coisas de boa sorte e desejar realmente que o menino Thalo pudesse ser abençoado por Sésio e a boa sorte, era algo que lhe chamava realmente a atenção, o único item que viu ter vida ali dentro. Talvez aquilo fosse um sinal.

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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por bitenco em Ter Jan 26, 2016 10:04 am

    Acognir relaxou por um momento muito breve ao ouvir as preces da menina as suas costas. Suas mãos tampadas pela camisa que não passava pelas correntes repousava sobre os joelhos arqueados. Suas dores haviam se esvaído de seu corpo por completo depois disso, permitindo que o palhaço esticasse o máximo de seu pescoço e coluna para trás para ver a menina de ponta-cabeça.

    - Daphnne - disse com a voz rouca pela pressão no pescoço. - Uma bela menina com uma bela canção, que para nossa salvação, precisará colocar um pergaminho em branco em minhas mãos antes que o badalar nos transformem em peças de negociação. - Riu voltando com a cabeça, mas não sem deixar de falar. Se ela havia entendio o recado ou não, não haveria brecha pra uma segunda chance.

    - Você conhece muitos lugares? Eu já viajei um pouco e conheço lugares lindos. Adoraria te levar a um monte deles. Principalmente a um reino dos gnomos. Dizem que a diversão começa de manhã e só para nas inúmeras refeições que eles fazem por dia. O que você acha de comer umas oito vezes por dia? Hummmmm... Aquele pão fresquinho com alguns legumes cozidos ao molho de cogumelos com uma carne de porco com molho de mostarda, mel e ervas. Já consigo até sentir o gosto... Á! - Praticamente gritou ao lembrar de uma coisa que já ia esquecendo. - Não pode faltar aquele vinho típico dos gnomos.

    Acognir chegou com a cabeça um pouco para frente para enxergar a fileira de escravos que se prendiam na mesma corrente para contá-los, mas o amontoado de pessoas ali lhe impedia. Sua solução foi se levantar, mas ainda era quase impossível fazer sua contagem.

    - Guardas! Guardas! - Gritou de repente esperando que alguém viesse lhe atender. - Preciso. Preciso. Preciso. - Repetiu enquanto contorcia as pernas. - Algum lugar se não farei aqui mesmo. Vai diminuir o valor das encomendas e ainda falo pro meu vendedor que a culpa foi sua.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Aythusa em Qua Fev 10, 2016 4:03 pm

    Agnis – O Salão dos Escravos

    Agnis poderia desfrutar do belo dia que fazia, não fosse a tarefa do clérigo do templo, pedindo-lhe que fosse para o único lugar da cidade que ela não gostaria de ir naquele instante: o armazém.
    Ela poderia ter ido por dentro da catedral, passando pelos longos corredores iluminados pelas velas com cheiros de laranjeira que estava em abundância naquela época do ano, mas decidiu que preferiria tomar um pouco de ar fresco e saiu pela escadaria da frente da catedral e deu a volta caminhando pelo asfalto movimentado e cheio de pessoas que entravam agitadas e impacientes nas lojas ali perto.
    Mergulhada em seus pensamentos, a jovem percebeu que estava no lugar após sentir o odor forte de suor, sangue e falta de banho que vinham dos escravos que passavam em fila para adentrar o armazém e, apenas depois de notar o odor e o estado dos escravos, se viu parada na frente de um dos guardas da cidade.

    Haviam três homens parados ali na porta, mas apenas o da esquerda se dispôs a dar-lhe atenção enquanto os outros dois conversavam sobre alguma coisa que aconteceria a noite, nada que Agnis deu atenção...afinal não estava ali para saber os planos de dois guardas da cidade.
    Ele era alto, muito mais alto que a pequena jovem, com cabelos ruivos que desciam lisos e pousavam em seus ombros, sua pele era alva e tinha algumas manchinhas de queimaduras do sol em seu rosto, provavelmente de quando usava o elmo e acabou por ficar marcado. Sua armadura brilhava, devia ter sido polida naquela manhã por ser um dia festivo na cidade. Quando ele lhe sorriu, ela notou seus olhos de cor castanho escuro, parecendo dois poços negros em um rosto tão claro.

    Ele ouviu tudo o que ela dissera-lhe com um ar divertido e no entanto, antes que pudesse disser-lhe algo que lhe afastasse dalí, ela estendeu o papel com as ordens do clérigo regente. Sem ter o que fazer, o homem apenas lhe acenou com a cabeça e deu espaço para que a moça passasse, sem dizer uma única palavra.

    Quando ela entrou, precisou de alguns minutos para digerir tudo o que avistava.
    O cheiro lhe invadiu com tamanha intensidade que ela achou que iria desmaiar, mas conseguiu se recompor. A queda da iluminação do local também a preocupou um pouco no começo, mas logo seus olhos se acostumaram com a iluminação do ambiente e ela põde ver a imensidão de escravos que crescia ali dentro.

    Tentando se concentrar no seu dever, mas não conseguindo, percebeu ao olhar as crianças doentes e os velhos famintos que tudo o que vira na pequena enfermaria não se comparava com a realidade à sua frente. Seu primeiro sentimento foi pena, e depois compaixão. Lentamente ela foi caminhando para um do amontoado de caixas cobertas por mantos pesados que a jovem tentaria puxar para fazer a contagem das sacas ali debaixo.

    Após retirar o manto de um dos amontoados percebeu que  todos os escravos a encarava com uma estranha aparência de famintos. O amontoado não era apenas de sacas de trigo e grãos, como também havia alguns caixotes de frutas que deveriam ser consumidas em breve.
    Alguns se levantavam e a jovem podia ouvir o tilintar das correntes, já que todos no salão estavam em silencio. Outros caminhavam quase em transe em sua direção, vidrados.

    Ela estava quase no meio do armazém, mas se gritasse os guardas poderiam ouvi-la se prestassem atenção, pois o lado de fora do armazém fazia muito barulho e os três guardas eram distraídos. Ela também podia conversar com os escravos, ou ignorá-los, ou simplesmente sair de lá antes da sua tarefa ser pronta. Ela ainda tinha este e outros 3 montes para conferir e sabia que nos outros, com os barris em conservas, poderia ter uma reação um pouco pior dos escravos.

    ~*~

    Briftiz – A Loja da Velha Senhora.


    O gnomo sentiu que o ambiente da velha senhora era mais sinistro do que interessante, mas decidiu que compraria algo para o jovem Thalos, coisa que não era comum fazer mesmo depois dos anos de trabalho e dedicação do jovem.
    Embora BigodeLongo tivesse achado o preço do vaso de trevos muito alto, não questionou o valor que a velha lhe cobrou, saiu da loja com a cabeça erguida e não foi seguido quando se afastou do lugar, embora pudesse sentir os olhos da velha senhora queimando-lhe a nuca e o irritante barulho do corvo incomodar seus pensamentos enquanto caminhava de volta para a sua cadeira.
    Chegando na imensa estrutura em que trabalhava, entrou arrumando a curva do bigode enquanto observava que a imensa fila de pessoas ainda o aguardava para inspecionar todos os produtos. Como ele não havia deixado instruções para que Thalos cuidasse disso para ele, todos ficaram esperando que o almoço do gnomo terminasse.
    Mas o baixinho ainda tinha algumas coisas a resolver antes de se sentar na cadeira.

    Ele passou direto pelos guardas, que arrumaram a postura assim que Briftiz passou. Olhava tudo e todos mesmo com a mente cheia de burburinhos. Adentrou um dos aposentos em que Thalos deveria estar trabalhando, mas não encontrou o rapaz naquele escritório. Ele deu um longo suspiro e decidiu que cruzaria a sala para adentrar o outro cômodo em que guardava as mercadorias mais valiosas (ou de favores mais importantes), carregava o vaso consigo embora alguma coisa o instigasse... Havia algo de diferente, mas o que poderia ser? Talvez não ter encontrado Thalos no lugar de costume o perturbara ou fosse apenas o encontro com a velha senhora o assombrando. De qualquer maneira percebeu que caminhava um pouco mais rápido que de costume e parecia ansioso quando chegou do outro lado do salão para a porta do depósito.

    No entanto quando ele abriu a porta, o barulho surdo do vaso se quebrando no chão fez todo o salão paralisar e observarem mudos o gnomo ficar aturdido: O depósito estava vazio e Thalos morto no chão.

    ~*~

    Acognir – O Salão de Escravos.

    Acognir era uma criatura incrivelmente curiosa, ao menos era assim que Daphnne pensava. Parecia não se importar com a sua condição de escravo e de ter recebido chicotadas a meros instantes atrás, ele continuava a se comportar e falar como se fosse realmente alguém ali, e não mais um condenado ao abismo do sofrimento como os outros.

    - Um pergaminho? – Daphnne falou surpresa demais com o pedido, como se repetir aquela solicitação a tornasse menos impossível de se realizar. Mas era uma criança, e como toda criança achava divertido toda a sorte de coisas estranhas e resolveu sorrir para o palhaço que a olhava de cabeça para baixo.

    - Fico feliz que esteja se sentindo melhor para me confundir com a própria Majstra, senhor. Porém, infelizmente, não dou dotada de poderes milagrosos para lhe conseguir um per---.
    Ela foi interrompida quando ele voltou a falar novamente. Ele parecia gostar daquilo. A jovem sentou-se perto dele, afastando as correntes para que se sentasse o mais ereta que conseguisse para observar o palhaço.

    Quando ele começou a falar de comida a menina pareceu parar de ouvi-lo e entrar em transe, daqueles que somente os que sofreram com demasiada fome poderiam entender. Daphnee, assim como todos os demais ali que ainda não perderam a sanidade, havia descoberto que a fome, exaustão e excessos de sofrimentos e azar podiam transformar as pessoas em monstros, em cascas vazias, ou em mentes excessivamente criativas que beiravam a loucura total. Ela conheceu um homem no navio em que viera que estava desde a pilhagem anterior, provavelmente a quase um mês navegando ali sem ter o que comer, que devorava lentamente um pouco de seu braço a cada dia.
    Naquele dia ela chorou até as suas lágrimas secarem, e rezou até ser espancada para que se calasse prometendo que nunca chegaria aquela situação.

    Foi quando o palhaço se levantou num salto de repente que ela voltou a recobrar os sentidos. Ele estava fazendo muito barulho com as correntes e o som delas se debatendo contra o piso repercutia em todo o salão, acordando os escravos que adormeceram e fazendo as crianças chorarem sem saber o que esperar a seguir.
    Quando ele finalmente fez seu pedido, os mais idosos viraram a cabeça sacudindo-a em desaprovação. Outro amontoado simplesmente rio do palhaço, outro tanto ficou encarando-o como se não conseguisse vê-lo de fato.

    Com todo o estrondo Acognir conseguiu chamar a atenção de algumas pessoas, uma delas era a moça que entrara no salão e remexia nas caixas que tinha comida, que estava cerca de 30 metros dalí, e de dois guardas que se aproximavam gritando com o escravo, erguendo as pontas das lanças que usavam:

    - Fique quieto, inseto imundo! Pode se aliviar na boca de qualquer um desses vermes que não me importo, apenas fique calado ou descobrirá que não somos tão bons quando um contra-mestre maldito com suas chicotadas frouxas!

    Eles estavam a cerca de 70 metros de Acognir e mesmo assim eram ouvidos com tanta clareza que o salão voltou a ficar em total silêncio, como se todas as almas daí tivesse corrido para sua camada do abismo.

    ~*~

    Pallando – A Praça da Cidade.


    A praça realmente fervilhava de pessoas cada vez mais e sua leitura se tornava cada vez menos possível de ser concluída.
    Algumas crianças rondavam a fonte da praça tentando pegar um gato que corria por ali, tacando-lhe pedras e rindo contentes.

    Havia tantas pessoas que era quase impossível de se observar alguns sujeitos mais afastados, de roupas marrons e capuz escuros, observando onde o palco estava sendo montado. Seriam apenas algumas pessoas que estavam ociosas aguardando o horário do Leilão?
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Larissa Aprill em Qua Fev 10, 2016 8:47 pm

    A situação era pior do que ela imaginava. A multidão se aglomerava dentro e fora do armazém, o cheiro de dejetos humanos impregnava o local, mas o pior era o choro das crianças, choro de fome, de frio, de abandono. Isso trouxe memorias de sua infância a tona e foi com muito esforço que ela conseguiu reprimir essas emoções e entrar no local.

    A iluminação era fraca e o cheiro era mais forte aqui dentro, conforme caminhava pelo local Agnis conseguia distinguir os rostos das crianças e velhos, rostos doentes e cheios de sofrimento. Ela tentava com muito custo ignora-los.

    "Preciso apenas checar as caixas e sair daqui."

    E que ironia, as caixas continham mantimentos, quilos e quilos de grãos e trigos, além de caixotes com frutas, mesmo que elas estivessem um pouco amassadas, estava própria para consumo. Os escravos famintos também perceberam e se aproximavam rapidamente, ela não sabia o que fazer e antes que fizesse qualquer ação, um homem começou a gritar e a sacudir os braços fazendo as correntes tinir. Isso chamou a atenção dela e dos outros guardas.

    Os guardas foram ríspidos e então Ignis decidir agir. Ela falou em alto e bom tom, usando sua autoridade no local.

    - Guardas, eu quero que vocês levem essas sacas de grão daqui. Coloquem para fora do armazém, antes que esses "vermes" roubem tudo

    Agnis preferiu entrar no jogo deles, não poderia demonstrar compaixão pelos escravos. Mas mesmo assim esperou que suas ordens fossem acatadas e que eles desviassem a atenção do palhaço. Ela começou a retirar as caixas de frutas e colocar no chão, sorrateiramente entregou uma maça para uma criança que estava próxima. Enquanto espalhava as caixas no chão, fingiria não ver se alguém pegasse as frutas.

    - O que vocês estão esperando?? Me ajudem com isso...

    Diz novamente aos guardas.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Pallando em Sex Fev 12, 2016 3:11 pm

    Ao ritmo que a praça lotava-se de pessoas cada vez mais, Radin perdeu a vontade de continuar a leitura. Guardou o pergaminho e levantou-se sem vontade, como se seu corpo estivesse relutante em obedece-lo. Sua expressão de cansaço dava-se ao exaustivo processo que foi convencer-se de que, agora que havia esperado tanto, não poderia deixar de entregar o "presente".

    O meio-elfo olhou ao redor, vasculhando a praça em busca de algo com que pudesse preencher seu tempo. Distraiu-se por alguns instantes observando um grupo de crianças perseguir um gato com pedras, mas logo um grupo de pessoas lhe chamou a atenção. Elas estavam afastadas, usavam capuzes escuros e roupas marrons e voltavam-se para onde o palco estava sendo montado.

    Radin caminhou até elas, próximo ao palco, e quando chegou perto parou ao lado delas como um vagabundo intrometido qualquer.

    - Não quero ser rude, mas se vocês ficarem parados aqui com esses capuzes escuros vão parecer suspeitos.- Disse em tom de zombamento, um zombamento amigável.- Estão só aguardando o leilão de escravos?
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por TheDuck em Ter Fev 16, 2016 12:26 pm

    Briftiz saiu da loja da velha dividido em sentimentos, sentia os arrepios na espinha e ao mesmo tempo estava ansioso pelo presente comprado para Thalos, percorreu as ruas caminhando e assoviando em direção a administração. Desceu a rua do porto e seguiu em frente até ver a torre principal do grande salão.

    Adentrou, foi cumprimentado pelos guardas, Brifitz acenou com a cabeça e continuou sua andança, viu a fila enorme que se formou em sua ausência, aquilo lhe causou uma certa depressão e deu um longo suspiro em tristeza de ter que voltar a atender todos aqueles paquidermes de boca mole bajulando seu lindo bigode para poderem entrar com algo ilegal ou até mesmo subornar Brifitz. E nesse devaneio Brifitz lembrou do cheiro das moedas de ouro, não era assim tão ruim ser subornado.


    Ao entrar nos aposentos de Thalos, estranhou estar vazio, viu por cima da mesa a nota que tinha deixado com os afazeres, escrita pelo punho de Thalos, provavelmente escreveu para não esquecer de nada, ele sabia o quanto esquecer de algo irritava Brifitz. Mas onde estaria o garoto? Brifitz coçou a cabeça e pensou nos cofres de produtos, seguiu pelo grande salão e um calafrio percorreu seu pescoço, o lado direito de seu bigode eriçou, e pela experiência do gnomo supersticioso ele sabia que isso era um sinal de que algo ruim estava acontecendo, por um momento sua mão vai ao bolso com a grande moeda de Sésio, e um pequeno pensamento de pedido de benção ao seu deus passou.

    Briftiz apertou o passo e adentrou o grande salão da mercadoria, sua mão estremeceu e o vaso com o trevo caiu, a visão do pequeno garoto em sangue quente estirado no chão choca por um momento a mente de Brifitz, mas um milissegundo foi o suficiente, sua visão era de vazio, tudo vazio, tudo se foi, o cofre estava va zi o. Uma gota de baba escorre pela boca de Brifitz que boquiaberto observa aquele local.

    O salão estava emudecido, ninguém falava, apenas olhavam Brifitz e esperavam sua reação, e ele  limpa sua boca, agacha e recolhe o trevo no chão, caminha até Thalos, pega suas mãos e coloca o trevo no meio delas.

    -Que a boa sorte esteja contigo querido Thalos. Que Sésio o proteja na passagem dos barqueiros.


    - FEEEEECHEEEMMM A ENTRAAAAADAAA. CÓDIGO 5 CÓDIGO 5.


    Gritava Brifitz correndo pelo corredor e balançando um lenço vermelho que guardava em seu bolso para ocasiões como essa, um procedimento padrão ensinado pelos velhos administradores, que outrora passaram seus conhecimentos a Briftiz. Nunca imaginou que usaria esse lenço, mas era hora, e ali estava ele, o lenço vermelho sendo hasteado ao desespero de tantas mercadorias desaparecidas.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por bitenco em Sex Fev 19, 2016 2:26 pm

    Acognir alargou ainda mais seu sorriso deixando todos seus dentes perfeitos a mostra. Não eram dentes de escravos, isso todos entendiam, muito menos suas atitudes.

    - Vocês não ouviram a donzela – perguntou no maior tom que possuía na voz. Só que ao contrário da intenção da mulher, o palhaço chamava pela atenção dos escravos. - Comida boa e de graça. O que são umas chibatadas? Eles são poucos, mas com armas. Nós somos muitos e com garras. – Completava seu discurso incentivador levando sua mão para trás para pegar a menina.

    Em sua cabeça seria o suficiente para que os escravos avançassem e lhe dessem uma brecha para abaixar e falar com a menina em tom mais baixo para que só ela ouvisse.

    - Fique comigo e lhe darei abrigo.

    Dito isso, ele a puxou para que se aproximassem junto aos demais das caixas com comida. Sua vontade não era comer, mas arranjar algum objeto fino. Sua mão de osso seria o suficiente para servir de alavanca para retirar os pregos da tampa da caixa.

    - Abrir e fechar é uma arte se pensar. Abrir e fechar é uma arte se pensar. Abrir e fechar é uma arte se pensar. Abrir e fechar é uma arte se pensar. – Disse repetidamente até que conseguisse ter um prego em uma de suas mãos. A outra ainda segurava firme a menina. Só então ele se viraria para as algemas sem calar a boca, ainda no meio da confusão, e tentaria abrir as duas algemas dela e a sua dos pés. Assim ela livre junto a ele desimpedido poderiam correr até as escadarias que levavam ao segundo andar.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Aythusa em Sex Fev 19, 2016 3:56 pm

    Agnis e Acognir – O Salão dos Escravos

    Agnis estava visivelmente comovida e incomodada com a situação que assistia dentro do armazém da catedral. Se questionava como as pessoas podiam achar aquela situação divertida, ou lucrativa, e decidiu parar de pensar antes que seu estômago se revirasse por completo, afinal ela não tinha o que fazer para ajudar toda aquela gente.
    Após uma sequência de acontecimentos dentro do local, a jovem não conseguiu se conter e extravasou uma pedido – que soou como ordem – aos guardas da cidade.

    Por um instante os três guardas que estavam na porta ficaram aturdidos com o pedido de uma mulher, jovem ainda, funcionária da catedral, dando ordens a eles. É verdade que a jovem possuía alguma influência por trabalhar na catedral e ter conquistado o respeito de alguns moradores mais pobres graças aos seus atos de caridade (especialmente com feridos, já que trabalhava na enfermaria da catedral também), no entanto ela não possuía autoridade na cidade para mandar nos guardas da cidadela, mandados pelos governantes da cidade para ficarem em seus postos.
    Antes que um dos guardas mais rudes dos três que estavam na porta, com a obrigação de manter os escravos sob controle,  se opusesse com atitude grosseira para Agnis, o mesmo guarda que havia lhe atendido na entrada, de cabelos ruivos, colocou a mão no peitoral do companheiro nervoso e respondeu à jovem:

    - Podemos lhe fazer este favor, senhorita, já que pediu tão educadamente.

    O outro guarda, irado com a atitude do parceiro ao querer sair de seu posto para ajudar uma mulher, falou algo para ele e depois seguiu à porta dando um murro de raiva na parede ali próxima, como se isso fosse apaziguar seu visível mau humor.
    Como haviam muitas caixas, e eram grandes e pesados demais para uma pessoa erguer os barris, o guarda chamou o outro companheiro – que não estava tão bem disposto assim a ajudar a mulher – para que o ajudasse a fazer o serviço mais rápido. Dessa forma, ficou apenas um guarda na porta zelando a entrada de uma fila de encravos que adentrava o salão, tão grande que não se via o fim. Quanto mais entrava os escravos,menos espaço havia entre a porta de saída e a concentração de escravos dentro do armazém.

    Enquanto Agnis trabalhava com a ajuda de dois soldados, deixando escapar algumas maçãs ou conservas para as crianças mais próximas, fingindo ter sido acidente para que os guardas não a intercedessem, e ela parecia certa de que tudo daria certo... Se um dos escravos não chamassem a atenção de todos os outros para a comida que tinha nas caixas que Agnis remexia com os dois guardas.

    Muitos ficaram interessados, crianças se aproximavam temerosas quase fazendo fila para chegarem até Agnis, com os olhos brilhando com a esperança de provar o gosto de alguma comida novamente. Os jovens mais fortes tentaram correr até as caixas, pulando alguns escravos moribundos estirados pelo chão do armazém. Alguns realmente conseguiram chegar, outros foram abatidos pelos guardas que estavam em volta de Agnis, e outros foram impedidos pelas correntes presas nos outros escravos mais fracos, mortos ou morrendo.

    Acognir continuava seu discurso falando de comida e isso incitou mais escravos a se arriscarem a ultrapassar a parede que os guardas, agora com as lâminas de suas lanças manchadas de sangue, tentava impedir que os escravos roubassem a comida da Catedral ou machucassem Agnis. Os escravos que entravam pela porta estavam sendo impedidos pelo único guarda que estava na porta, ameaçando-os e rogando pragas, além de ter alguns guardas (de hierarquia mais baixa que as deles) que ajudavam a controlar a movimentação. Mesmo com um movimento de controle sendo instalado na entrada, o caos dentro do armazém estava por conta dos dois guardas que Agnis chamou para ajudá-la e alguns meros vigilantes que entraram correndo para ajudar a controlar o tumulto.

    Nesse ínterim Acognir pegou Daphnee pelos pulsos e sussurrou algo em seu ouvido.  A menina estava dividida entre tentar conseguir um pouco de comida e seguir com o homem que parecia estar louco, mas ele não pareceu lhe dar essa escolha. Logo ela se viu seguindo o homem que a puxava para perto do aglomerado de escravos famintos. Os guardas não notaram sua aproximação e, enquanto Daphnee se preocupava em tentar pegar uma simples maçã que rolava pelo chão ou até mesmo sementes de trigo que caiam dos sacos que eram rasgados, Acognir procurava um prego... e o encontrou preso em uma caixa próxima de onde Agnis estava.

    A jovem que incitara inocentemente aquela situação estava afastada das caixas agora. Ela fora empurrada pelo guarda ruivo, que sempre fora bondoso com ela, para junto da parede a cerca de 3 metros de onde se encontrava a última pilha de caixotes daquele lado.
    No meio do tumulto, ela conseguiu notar que o escravo que incitara tudo o que aconteceu parecia procurar alguma coisa, mas não comida. Foi quando ela o viu raspando um dos dedos de sua mão de osso para tirar algo de uma das caixas: um prego.
    Em seguida, como um movimento ensaiado, o escravo conseguiu abrir as algemas de suas mãos e pés, bem como as da jovem que ele agarrava pelo braço.

    Enquanto ele fazia isso, a jovem Daphnee tentava pegar uma das maçãs que rolara. A pobre garota ainda não tinha conseguido pegar nenhum alimento sequer graças a pressa e concentração de Acognir que, mesmo segurando a menina, parecia não se dar conta que ela estava de fato presa a ele pelo braço... assim como outros escravos. Quando ela se deu conta, estava livre das algemas e grilhões e Acognir procurava um meio de chegar até o outro lado do salão e subir as escadas para o segundo andar. Quando ele, Daphnee e Agnis conseguiram ouvir a conversa dos dos guardas em meio ao tumulto:


    - Precisamos avisar BigodeLongo dos abates! – Dizia o guarda ruivo para o outro homem.

    - Está louco! Nós quem pagaremos por ter matados esses malditos...  E ele não nos descontará os que estavam loucos, doentes e semi-mortos!

    Nesse instante os vigilantes da feira de comércio do lado de fora do armazém haviam alcançado a aglomeração e puxavam os escravos, batendo-lhes forte com bainhas de espadas e o lado sem fio da espada para que os atordoassem.
    Isso se seguiu por um tempo até que foram interrompidos por um grupo de escravos que forçaram caminho por entre eles até a comida e não houve mais conversas entre eles que não fossem ordens, ameaças e estratégias para controlar o caos dos escravos.

    ~*~

    Radin - A Praça da Cidade.




    Radin decidiu que aquele grupo de pessoas eram mais estranhos do que qualquer outro grupo normal e optou por tentar descobrir algo de respeito.
    Caminhou despreocupado até onde o palco estava sendo montado, recostou-se em um tronco fincado em um dos cantos do tablado, tendo apenas aquele grosso separando ele de uma das outras pessoas daquele grupo encapuçado.
    Ao chegar perto descobriu que eram homens, pelo porte e não pelo rosto. Apesar de ser de dia ainda, e estarem encapuçados, esses homens usavam máscaras discretas por debaixo do capuz, tão discretas que só se notaria se chegasse perto o suficiente para tentar ver o rosto deles, como Radin fizera.

    Após sua pergunta, ele pôde contar que quatro dos membros desse grupo que estavam mais afastados se aproximaram discretamente, ficando a cerca de 6 metros do meio-elfo. Não fizeram nenhuma movimento brusco, nem o encararam... apenas caminharam e se apoiaram em barracas ou paredes próximas de comércios próximo dalí.

    Inicialmente Radin acreditou que o homem não lhe responderia, no entanto após longos minutos de espera ele o ouviu dizer:

    - Se parecemos suspeitos parados aqui, você vir falar conosco também lhe torna suspeito.

    O homem não fez menção de que iria sair dalí, ou virar-se para Radin, ou responder a sua pergunta. A voz dele era grave e séria, apesar de abafada por causa da máscara.
    Todos os homens usavam a mesma veste marrom escuro e não havia nenhum símbolo ou algibeira a mostra. Nada que desse alguma pisca do que faziam ali.

    ~*~


    Brifitiz - O Salão de Administração.

    Foi um choque maior do que o gnomo poderia admitir.
    Thalos estava estirado no chão, com suas roupas tão bem escolhidas no tom azul celeste e carmim agora com uma mancha rubra escorrendo pelo ferimento nas costas. Fora tão recente sua morte, que BigodeLongo conseguiu notar os espasmos dos músculos em seu ombro, mãos e rosto. Seu olhar estava fixo à porta por onde ele entrou, com a boca entreaberta como se estivesse com alguma frase engasgada pela morte precoce.

    Mas quando Brifitiz olhou ao redor da sala, seu luto foi suplantado pelo golpe de ver seu galpão de mercadorias ilegais ou valiosas demais, simplesmente vazio.
    Haviam caixas reviradas, folhas de pergaminhos caídas e voando por sobre a sala que agora fedia o fúnebre cheiro da morte.
    O gnomo não se lembrava da última vez que se sentiu tão vazio e ao mesmo tempo tão inundado de ira. Após um breve momento observando a sala e o corpo de thalos, finalmente soltou o ar de seus pulmões e saiu em disparada bradando e sacudindo o lenço vermelho.

    Todos conheciam aquele sinal e os - surpreendentemente poucos - guardas que estavam no grande salão que era a entrada da cidade pelo Porto e onde tudo acontecera, correram fechar as portas. O baque estrondoso das grandes portas se fechando foi espantoso demais para qualquer reação possível da parte dos comerciantes que estavam dentro e fora do grande salão.
    Desde que aquela imensa construção fora erguida para ser a entrada do comércio, as portas esmaltadas em marfim nunca foram fechadas antes.

    Após um breve instante de silêncio em que os guardas se ocupavam ordenando que os poucos escravos que ainda restavam para entrar na cidade ascendessem velas para iluminar melhor o grande salão, o burburinho começou. Muitos comerciantes permaneciam calados, no entanto a maioria estava desconfortável e era possível ouvir os uivos de reclamações dos que ficaram presos do lado de fora. Não apenas comerciantes, como aventureiros, clientes, compradores, moradores e muitos outros que vinham pelos mares para desfrutar do maior leilão de escravos daquela região do mundo.

    Mas a cidade estava fechada para o Porto.
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    Re: II - O Comércio de Escravos

    Mensagem por Pallando em Sab Fev 20, 2016 4:44 pm

    O meio-elfo tentava buscar em cada detalhe, vestes, portes e manias visíveis algo que fosse útil para descobrir algo mais sobre os encapuzados. Eram homem mascarados, discretos e obviamente não eram muito de falar. Eles não só aparentavam ser suspeitos, mas a atitude deles indicava que não eram simples espectadores ali, atiçando ainda mais a curiosidade do andarilho.

    Radin percebeu a movimentação de quatro deles, aproximando-se discretamente enquanto a pergunta feita permanecia sem resposta. O meio-elfo não moveu um muculo sequer em resposta, permaneceu calmo, mas agora estava alerta. Por alguns momentos pensou ter sido um erro falar com aquelas pessoas, porém, como o grande aventureiro que julgava ser, iria até onde conseguisse com aquilo.

    O silêncio durou alguns minutos, provavelmente com os encapuzados próximos analisando Radin por razão de desconfiança. Não importava, na verdade, pois permaneceria ali até que obtivesse uma resposta ou forçasse a retirada deles por causar-lhes desconforto. Mas então veio a resposta evasiva.

    - Realmente, sou muito suspeito.- Disse com um sorriso zombador no rosto, tentando arrancar alguma reação do misterioso homem na base da provocação.- Peço que o senhor e seus amigos perdoem minha curiosidade. Sou só um andarilho vagabundo que fica incomodado ao ver pessoas usando máscaras em plena luz do dia.

    Olhou para o palco em construção, tentando adivinhar de alguma maneira quanto tempo levaria para o leilão começar. Pretendia deixar a cidade assim que entregasse o pergaminho para a pequena escrava, mas enquanto isso ficaria onde estava, incomodando um grupo de pessoas que hora ou outra com certeza fariam alguma besteira.

    - O senhor é daqui?- Interrogou amigavelmente. Esperaria uma resposta e depois prosseguiria.- Já ouviu falar de um lugar chamado Lua Argêntea? Pretendo visita-lo depois daqui...
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    Re: II - O Comércio de Escravos

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