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    Cenário: A Magia

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    Aythusa
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    Cenário: A Magia

    Mensagem por Aythusa em Seg Fev 29, 2016 4:06 pm


    A Magia no Cenário


    Para entender um pouco melhor a idéia de magia no meu cenário, vou usar como BASE (e apenas como guia de raciocínio, visto que não utilizarei isso ao pé da letra) a explicação da “Magia” no fantástico e exuberante livro O Nome do Vento de Patrick Rothfuss, primeiro livro da trilogia dO Matador de Reis.

    Princípios, Segundo Rothfuss:

    CAPÍTULO 10
    Alar e diversas pedras

    BEN SEGUROU UM PEDAÇO de pedra comum, ligeiramente maior que seu punho.
    ― Que acontece se eu soltar esta pedra? Pensei um pouco. Durante as aulas, as perguntas simples raríssimas vezes eram simples. Por fim, dei a resposta óbvia:
    ― É provável que ela caia. Ben ergueu uma sobrancelha. Fazia meses que eu o mantinha ocupado, de modo que ele não tivera a oportunidade de queimá-las acidentalmente.
    ― Provável? Você parece um sofista, menino. Por acaso ela não cai sempre?
    Mostrei-lhe a língua:
    ― Não tente me enrolar descaradamente. Isso é uma falácia. Foi você mesmo quem me ensinou.
    Ele riu.
    ― Ótimo. Seria lícito dizer que você acredita que ela cairá?
    ― Bastante.
    ― Quero que acredite que ela subirá quando eu soltá-la. ― Seu sorriso se alargou. Tentei. Era como fazer ginástica mental.
    Passado algum tempo, balancei a cabeça.
    ― Está bem.
    ― Até que ponto você acredita?
    ― Não muito ― admiti.
    ― Quero que acredite que esta pedra sairá flutuando. Acredite com uma fé capaz de mover montanhas e sacudir árvores ― instruiu. Fez uma pausa e pareceu mudar de estratégia. ― Você acredita em Deus?
    ― Em Tehlu? De certo modo.
    ― Não é o bastante. Acredita em seus pais?
    Dei um sorrisinho.
    ― Às vezes. Não posso vê-los neste exato momento.
    Ben deu um grunhido e soltou do gancho o bastão que usava para instigar Alfa e Beta quando eles estavam com preguiça.
    ― Acredita nisto, E’lir? ― perguntou. Só me chamava de E’lir quando achava que eu estava sendo de uma teimosia especialmente proposital. Segurou o bastão para que eu o examinasse. Havia um brilho malicioso em seu olhar. Resolvi não desafiar a sorte.
    ― Sim.
    ― Ótimo ― retrucou, e bateu com ele num dos lados da carroça, produzindo um estalo agudo. Uma das orelhas de Alfa girou ao ouvir o ruído, sem saber ao certo se era ou não dirigido a ela.
    ― É esse o tipo de fé que eu quero. Chama-se Alar: a convicção do rebenque. Quando eu largar esta pedra, ela sairá flutuando, livre como um pássaro.
    Abenthy brandiu de leve o bastão e acrescentou:
    ― E nada da sua vã filosofia nem eu o faremos arrepender-se de ter gostado deste joguinho. Assenti com a cabeça. Esvaziei a mente, usando um dos truques que já tinha aprendido, e fiz força para acreditar. Comecei a transpirar. Passados talvez 10 minutos, tornei a balançar a cabeça. Ben soltou a pedra. Ela caiu. Comecei a ficar com dor de cabeça. Ele tornou a pegá-la.
    ― Você acredita que ela flutuou?
    ― Não!
    ― retruquei, amuado, esfregando as têmporas.
    ― Ótimo. Ela não flutuou. Nunca se deixe enganar enxergando coisas que não existem. Há uma diferença sutil, mas a simpatia não é uma arte para quem tem espírito fraco.
    Tornou a exibir a pedra:
    ― Acredita que ela vai flutuar?
    ― Ela não flutuou!
    ― Não faz mal. Tente outra vez. ― E a sacudiu. ― Alar é a pedra angular da simpatia. Se você pretende impor sua vontade ao mundo, tem que exercer controle sobre aquilo em que acredita. Tentei sem parar. Foi uma das coisas mais difíceis que já tinha feito. Levei quase a tarde toda. Por fim, Ben pôde soltar a pedra e eu mantive minha firme convicção de que ela não cairia, a despeito das provas em contrário. Ouvi o baque e olhei para ele.
    ― Entendi ― disse calmamente, sentindo-me um bocado convencido. Ele me espiou pelo canto do olho, como se não acreditasse muito, mas não quisesse admitir.
    Pegou a pedra com uma unha, distraído, depois encolheu os ombros e tornou a levantá-la.
    ― Quero que você acredite que esta pedra cairá e não cairá quando eu a soltar.
    E sorriu.”

    Aqui eu quero que compreendam uma questão importante sobre o uso da Magia no cenário: É preciso acreditar no que você pretende fazer, mesmo quando todas as ciências e lógicas racionais duvidem disso.
    É preciso que você tenha certeza que uma pedra irá flutuar com tamanha força e verdade quanto se tem que se pode pisar o solo. Ou que você inspira o ar para respirar.
    É dessa certeza que movemos as coisas... Pois é a partir de nossas próprias certezas e convicções que as coisas de fato existem.

    Um exemplo disso é o Milagre.
    O milagre só existe porque acreditamos – e damos forças com nosso credo – a uma divindade ao qual chamamos de Deus.  E este deus, por sua vez, só existe perante nossa certeza (fé) de que ele existe.
    Portanto: Nossa convicção criou uma divindade, que teve forças para realizar um feito ao qual chamamos de Milagre.
    O Milagre, dentro do cenário, nada mais é do que uma magia provinda da certeza de que o aparentemente impossível podia ser feito. Da mesma forma que uma pedra pode flutuar quando acreditamos que ela possa, mesmo parecendo impossível.


    Mais um trecho para explicar a Magia. Porque esse livro é incrível e fantástico.


    Conexão de Magia, segundo Rothfuss:
    “CAPÍTULO 11
    A conexão do ferro

    EU ESTAVA SENTADO NA TRASEIRA da carroça de Abenthy.
    Era um lugar maravilhoso para mim, sede de uma centena de frascos e feixes, saturado por mil odores. Para minha mente juvenil, em geral era mais divertido que a carroça de um latoeiro; mas não nesse dia. Chovera forte na noite anterior e a estrada se tornara um denso lodaçal.
    Como a trupe não tinha nenhuma programação específica, decidíramos esperar um ou dois dias para que as estradas tivessem tempo de secar. Era um acontecimento bastante comum e caiu num momento perfeito para Ben aprimorar minha educação. Assim, sentei-me diante da bancada de madeira nos fundos de sua carroça, impaciente por desperdiçar o dia a ouvi-lo me ensinar coisas que eu já havia compreendido.
    Meus pensamentos devem ter transparecido, porque Abenthy deu um suspiro e se sentou a meu lado.
    ― Não é bem o que você esperava, hein?
    Relaxei um pouco, sabendo que seu tom significava um adiamento da lição. Ele recolheu um punhado de ocres de ferro que estavam na mesa e os chacoalhou na mão, pensativo. Olhou para mim e perguntou:
    ― Você aprendeu a fazer malabarismos de uma vez só? Com cinco bolas de cada vez? E com facas também?
    Enrubesci um pouco ao me lembrar. No começo, Trip não me deixara nem mesmo tentar com três bolas. Fizera-me jogar com duas e eu até as deixara cair algumas vezes. Foi o que contei a Ben.
    ― Certo ― disse ele. ― Domine este truque e você aprenderá outro.
    Esperei que se levantasse e recomeçasse a aula, mas não foi o que ele fez. Em vez disso, exibiu o punhado de ocres de ferro e indagou:
    ― O que acha destes? ― E bateu uns nos outros na mão.
    ― Em que sentido? Em termos físicos, químicos, históricos...
    ― Históricos. ― Ele sorriu. ― Assombre-me com a sua compreensão das minúcias históricas, E’lir.
    Eu lhe perguntara uma vez o que significava E’lir. Ele tinha dito que significava “sábio”, mas eu tinha minhas dúvidas, por seu jeito de torcer a boca ao dizê-lo.
    ― Muito tempo atrás, as pessoas que... ― comecei.
    ― Quanto tempo?
    Franzi o cenho, esboçando um ar severo.
    ― Mais ou menos 2 mil anos. Os nômades que vagavam pelos sopés da cordilheira de Shalda foram reunidos sob o comando de um chefe.
    ― Como era o nome dele?
    ― Heldred. Seus filhos eram Heldim e Heldar. Quer que eu lhe dê a linhagem inteira, ou devo ir direto ao ponto? ― indaguei, fechando a cara.
    ― Desculpe-me, senhor ― disse ele. Sentou-se empertigado na cadeira e assumiu uma expressão de atenção tão absorta que ambos começamos a rir. Recomecei.
    ― Heldred acabou controlando os contrafortes de Shalda. Isso significou que passou a controlar as próprias montanhas. Eles começaram a cultivar a terra, abandonaram seu estilo de vida nômade e, aos poucos, foram...
    ― Quer ir direto ao ponto? ― interrompeu Abenthy. Em seguida jogou os ocres de ferro na mesa à minha frente. Ignorei-o tanto quanto me foi possível.
    ― Eles assumiram o controle da única fonte de metal que era abundante e de fácil acesso numa grande extensão, e logo se tornaram também as pessoas mais habilidosas no trabalho desse metal. Exploraram essa vantagem e conquistaram grande riqueza e poder. Até essa ocasião ― prossegui ―, o escambo era o método de comércio mais comum. Algumas cidades maiores cunhavam sua própria moeda, mas, fora delas, o dinheiro valia apenas o seu peso em metal. As barras de metal eram melhores para o escambo, mas as grandes barras eram inconvenientes para carregar.
    Ben me exibiu sua melhor expressão de aluno entediado. O efeito só foi ligeiramente inibido pelo fato de ele ter queimado de novo as sobrancelhas, uns dois dias antes.
    ― Você não vai entrar no mérito das moedas representacionais, vai? ― perguntou. Respirei fundo e resolvi não atormentá-lo tanto quando ele me desse aulas.
    ― Os ex-nômades, já então chamados de ceáldimos, foram os primeiros a criar uma moeda padrão. Cortando uma daquelas barras menores em cinco pedaços, obtinham-se cinco ocres ― continuei. Comecei a juntar duas fileiras de cinco ocres cada uma, para ilustrar o que dizia. Eles ficaram parecendo pequenos lingotes de metal. ― Dez ocres valem o mesmo que um iota de cobre; 10 iotas...
    ― Basta ― interrompeu Ben, dando-me um susto.
    ― Então estes dois ocres de ferro poderiam ter vindo da mesma barra, certo? ― E segurou um par para que eu o inspecionasse.
    ― Na verdade, é provável que eles os cunhassem individualmente... ― Deixei a voz morrer, sob seu olhar severo.
    ― Apesar disso, ainda há alguma coisa que os conecta, não é? ― E tornou a me olhar da mesma forma.
    Eu não tinha certeza, na verdade, mas sabia que não convinha interromper.
    ― Certo.
    Ben pôs os dois na mesa.
    ― Logo, quando você movimentar um deles, o outro deve se mexer, não?
    Concordei, a bem da argumentação, e estendi um braço para mexer num deles. Mas Ben deteve minha mão, abanando a cabeça.
    ― Primeiro você tem que lhes recordar isso. Tem que convencê-los, na verdade.
    Buscou uma tigela e a usou para decantar lentamente uma massa de piche de pinho. Molhou um dos ocres no piche, grudou o outro nele, disse várias palavras que não reconheci e separou lentamente as duas moedinhas, com fios de piche se esticando entre elas. Colocou uma na mesa, mantendo a outra na mão. Depois murmurou mais alguma coisa e relaxou. Levantou a mão e o ocre que estava na mesa imitou o movimento. Girou a mão para lá e para cá e o ocre de ferro oscilou no ar. Olhou de mim para a moeda.
    ― A lei da simpatia é uma das partes mais básicas da magia. Ela afirma que, quanto mais semelhantes são dois objetos, maior é sua conexão por afinidade. Quanto maior a conexão, maior a facilidade com que eles se influenciam mutuamente.
    ― A sua definição é circular.
    Ben soltou a moeda. Sua fachada de professor deu lugar a um sorriso enquanto ele tentava com sucesso precário limpar o piche das mãos com um trapo. Ele pensou um pouco.
    ― Parece bem inútil, não é? Balancei a cabeça com hesitação, já que as perguntas traiçoeiras eram bastante comuns durante as aulas.
    ― Você preferiria aprender a chamar o vento?
    Seus olhos dançaram diante de mim. Ele murmurou uma palavra e a cobertura de lona da carroça farfalhou à nossa volta. Senti um sorriso voraz tomar conta do meu rosto.
    ― É uma pena, E’lir ― comentou Ben, cujo sorriso também era voraz e selvagem. ― Você precisa aprender as letras antes de ser capaz de escrever. Precisa aprender a dedilhar as cordas para poder tocar e cantar. Pegou um pedaço de papel e rabiscou umas duas palavras. ― O truque é manter o Alar firme em sua mente. Você precisa acreditar que eles estão ligados. Precisa saber que estão.”

    Neste trecho tive a intenção de deixar claro uma coisa: A MAGIA não é criada a partir de um nada, a partir de uma mera força de vontade ou de ''mudar a realidade'' a partir de um Alar forte o suficiente para isso.
    Para que a magia realmente aconteça, é preciso que cada uma das coisas a serem conectadas tenha algo em comum.
    Por exemplo: O Ferro e a Espada ; O calcário e a pedra ; O calor com o Fogo.

    Além de você convencer a si mesmo que as pedras são iguais, por terem a mesma composição, você precisa convencer as duas pedras de que elas são idênticas ou semelhantes. Para isso muitas vezes é preciso que você “crie” ou “reforce” essa conexão, como foi o caso do Piche usado na história.

    É importante lembrar que isso exige uma capacidade mental e física muito alta, como será explicado mais a frente, é muito perigoso e exaustivo fazer MAGIA.
    Aythusa
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    Antediluviano

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    Re: Cenário: A Magia

    Mensagem por Aythusa em Seg Fev 29, 2016 4:12 pm

    Uso de Magia: Conexão.


    Mais um exemplo, retirado do livro O Nome do Vento, do Rothfuss:

    Trechos: O Nome do Vento:

    CAPÍTULO 14
    O nome do vento

    Ele se empertigou no assento e se dirigiu a mim num tom que eu passara a interpretar como “ora se tenho um quebra-cabeça para você!”.
    ― Como você faria uma chaleira de água ferver?
    Com uma olhada ao redor, vi um pedregulho à beira da estrada. Apontei para ele.
    ― Aquela pedra deve estar quente, imóvel sob o sol. Eu faria uma ligação com a água da chaleira e usaria o calor da pedra para fazer a água ferver.
    ― Pedra com água não é uma conexão muito eficiente ― repreendeu-me Ben. ― Apenas uma em cada 15 partes acabaria aquecendo a água.
    ― Funcionaria.
    ― Admito que sim. Mas é um trabalho malfeito. Você pode fazer melhor do que isso, E’lir.
    Em seguida pôs-se a gritar com Alfa e Beta, sinal de que estava realmente de bom humor. Eles acolheram os gritos com a calma de sempre, apesar de serem acusados de coisas que nenhum burro jamais faria de propósito, especialmente Beta, que possuía um caráter moral impecável. Parando no meio da descompostura, Ben me perguntou:
    ― Como você derrubaria aquele pássaro?
    E apontou para um gavião que sobrevoava um trigal ao lado da estrada.
    ― Não o derrubaria, provavelmente. Ele não me fez nada.
    ― Em termos hipotéticos.
    ― Estou dizendo que, hipoteticamente, eu não o derrubaria. Ben deu um risinho.
    ― Entendido, E’lir. Exatamente como você não o faria? Detalhes, por favor.
    ― Eu mandaria o Teren abatê-lo com um tiro.
    Ele balançou a cabeça, pensativo.
    ― Bom, bom. Mas a questão é entre você e o pássaro. Aquele gavião ― fez um gesto indignado ― disse uma coisa grosseira sobre a sua mãe.
    ― Ah. Nesse caso, minha honra exige que eu mesmo defenda o nome dela.
    ― Sem dúvida que sim.
    ― Eu tenho uma pluma?
    ― Não.
    ― Que Tehlu detenha e... ― Mordi a língua, silenciando o resto do que ia dizer, ante seu olhar de reprovação.
    ― Você nunca facilita nada, não é?
    ― É um hábito irritante que aprendi com um aluno que era inteligente demais para o seu próprio bem. ― Sorriu. ― O que você poderia fazer, mesmo que tivesse uma pluma?
    ― Eu a conectaria ao pássaro e a cobriria com espuma de sabão de barrela. Ben franziu as sobrancelhas, se é que elas existiam.
    ― Que tipo de conexão?
    ― Química. A segunda catalítica, provavelmente.
    Uma pausa pensativa.
    ― Segunda catalítica... ― fez ele, coçando o queixo. ― Para dissolver o óleo que deixa as penas lisas?
    Assenti com a cabeça.”

    Neste exemplo, vemos o que no D&D poderia ser considerável (eu acho) como “componente de magia”. A Conexão Química nada mais é que usar algum princípio químico para estabelecer uma conexão, sabendo-se que o que é feito nas plumas (como no exemplo) se refletirá no outro item (gavião).


    Cuidado! Magia é perigoso quando feito sem atenção...

    Ainda no Capítulo 14, vou dar um exemplo de coisas perigosas e que
    TODOS OS JOGADORES QUE BRINCAREM COM MAGIA OU COISAS RELACIONADAS ESTÃO VULNERÁVEIS A PASSAR:


    Trechos: O Nome do Vento:
    “(...)
    ― Eu simplesmente chamaria o vento ― respondi, com ar displicente ― e o faria derrubar o pássaro do céu.
    Ben me deu uma olhada calculista, deixando transparecer que ele sabia exatamente o que eu pretendia.
    ― E como faria isso, E’lir?
    Senti que ele talvez estivesse finalmente pronto para me revelar o segredo que tinha guardado durante todos os meses do inverno. Ao mesmo tempo, ocorreu-me uma idéia. Inspirei bem fundo e proferi as palavras para ligar o ar de meus pulmões ao ar de lado de fora. Fixei mentalmente o Alar com firmeza, pus o polegar e o indicador diante dos lábios franzidos e soprei entre eles.
    Houve um leve golpe de vento em minhas costas, que desalinhou meu cabelo e fez a cobertura de lona da carroça esticar-se por um instante. Podia não ter passado de uma coincidência, mas, ainda assim, senti um sorriso exultante inundar meu rosto. Por um segundo não fiz nada além de rir feito um maníaco para Ben, que tinha o rosto pasmo de incredulidade. Então senti alguma coisa me apertar o peito, como se eu estivesse embaixo d’água. Tentei respirar, mas não consegui.
    Levemente confuso, continuei tentando. A sensação era a de ter-me estatelado de costas e de o ar ter sido arrancado de mim. Súbito, compreendi o que eu tinha feito. Meu corpo explodiu em suores frios e agarrei freneticamente a camisa de Ben, apontando para meu peito, meu pescoço, minha boca aberta.
    O rosto dele passou de chocado a pálido, olhando para mim. Notei como tudo estava quieto. Nem uma haste de capim se mexia. Até o som da carroça parecia emudecido, como que a uma longa distância. O pavor parecia gritar em minha cabeça, abafando qualquer pensamento. Comecei a agarrar minha garganta e rasguei a camisa para abri-la.
    Meu coração trovejava, zumbindo em meus ouvidos. A dor apunhalou meu peito distendido, enquanto eu arquejava. Mexendo-se mais depressa do que eu jamais o vira fazer, Ben me agarrou pelos retalhos da camisa e me arrancou do banco da carroça. Ao pular na grama à beira da estrada, derrubou-me no chão com tanta força que, se houvesse algum ar em meus pulmões, teria sido expulso de dentro de mim.
    As lágrimas me rolavam pelas faces, enquanto eu me debatia às cegas. Sabia que ia morrer. Senti os olhos quentes e vermelhos. Arranhei loucamente a terra, com as mãos dormentes e frias como gelo. Tive consciência de alguém gritando, mas o som me pareceu muito longínquo. Ben se ajoelhou a meu lado, mas atrás dele o céu empalideceu. Ele me pareceu quase transtornado, como se escutasse algo que eu não conseguia ouvir. Depois olhou para mim. Só me lembro de seus olhos, que pareciam distantes e cheios de uma força terrível, desapaixonada e fria. Ele me olhou. Sua boca se moveu. Ben chamou o vento. Como uma folha sob o relâmpago, estremeci.
    E o trovão foi negro. Minha lembrança seguinte é de Ben me ajudando a ficar de pé. Tive vaga consciência das outras carroças parando e de rostos curiosos olhando para nós. Mamãe desceu de sua carroça e Ben foi encontrá-la a meio caminho, rindo e dizendo alguma coisa tranquilizadora. Não consegui discernir as palavras, porque estava concentrado em respirar fundo ― inspirar e expirar. As outras carroças seguiram adiante e acompanhei Ben de volta à dele, calado. Ele fez que se ocupava com uma coisa e outra, verificando as cordas que mantinham a lona esticada.
    Eu me recompus e já estava dando a melhor ajuda possível quando a última carroça da trupe passou por nós. Ao levantar a cabeça, dei com os olhos de Ben, furiosos.
    ― Que idéia foi essa? ― ele sibilou.
    — Bom? E então? Que idéia foi essa?
    Eu nunca o vira daquele jeito, com o corpo todo crispado num nó de raiva. Chegava a tremer. Levantou o braço para me bater... e parou. Passado um momento, deixou a mão pender junto ao corpo. Movendo-se metodicamente, verificou o último par de cordas e tornou a subir na carroça. Sem saber o que mais fazer, decidi segui-lo. Ben puxou as rédeas e Alfa e Beta puseram a carroça em movimento.
    Agora éramos os últimos da fila. Ben olhava fixo para a frente. Passei a mão no peito rasgado da camisa.
    Fez-se um silêncio tenso.
    Em retrospectiva, o que fiz foi de uma estupidez gritante. Quando conectei minha respiração ao ar do lado de fora, isso me tornou impossível respirar. Meus pulmões não tinham força suficiente para mover tanto ar assim. Seria preciso que eu tivesse um peito como um fole de ferro.
    Minha sorte seria a mesma se eu tentasse beber um rio ou levantar uma montanha.”


    Aqui vimos as conseqüências de fazer uma conexão errada.
    No meu jogo é importante descrever o caminho que usou para efetuar a magia e é importante que explique de onde e como retirou cada força de energia para executar o que quer que seja. Portanto: quer ser conjurador? Ok. Seja. Mas se lembre que você estará mexendo com energias maiores que o ser humano...
    Isso deveria ser compreensível em todos os sistemas de jogos que existem magias, mas não é. O jogador simplesmente fala que fez e o seu personagem não sofre nada com aquilo. Mas não é, nem nunca foi, assim tão simples o uso de magia. E é importante que aqui seja levado a sério o uso dela...
    E quando digo sério é caso de vida ou morte.

      Data/hora atual: Dom Nov 19, 2017 4:52 am