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Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

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Elminster Aumar
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Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Seg Maio 08, 2017 10:47 pm



Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos


O relógio no alto de uma torre badalava, marcando a virada de hora.

Seus ponteiros assinalavam às dez horas e mesmo tão perto do fim da noite, as ruas no mercado a céu aberto continuavam movimentadas. A procura por todo o tipo de item a preço baixo era grande e os vendedores disputavam a atenção dos possíveis compradores a gritos de esgoelar a garganta. Em meio a essa multidão, Raven caminha sem ser notada.

Ao longe, ela via as formas da grande muralha que rodeava Caspia. De tão bem guarnecida, muitos viam a cidade como uma prisão. Dos cerca de um milhão de habitantes, grande parte deles habitavam o distrito norte, com humanos e gobbers dividindo espaço em casas comunitárias pequenas. O grande atrativo daquela região era o mercado, que expunha itens reconhecidamente ilegais em suas barracas, e para Raven, a parte boa era poder passar despercebida para onde quer que fosse.

Seus passos chapinharam uma poça de água proveniente da chuva que caíra mais cedo naquele dia quando ela ouviu uma discussão acalorada irromper entre dois mercadores: um era um gobber e o outro, um trolloide. Duas raças distintas e de forças incomparáveis. O duelo era injusto, e terminou com o gobber sendo desmaiado por um só soco do trolloide. Ninguém impediu aquela brutalidade de acontecer.

Mais a frente, Raven começava a chegar perto do destino que queria. O letreiro acima da porta indicava o nome da oficina de Mattieu Croix, mas como a porta estava trancada, ela teve que tocar a campainha.

- Já vou, já vou – Raven ouviu a velha voz rabugenta de Mattieu do outro lado da porta, seguido pelo som de passos pesados sobre o piso de madeira. Ela ouviu o primeiro trinco ser destrancado, em seguida, ouviu as outras seis trancas serem desarmadas uma por uma. Sendo um antigo parceiro e mestre do crime, Mattieu sabia como ser precavido. A porta se abriu e Mattieu fitou sem surpresas o rosto de Raven, pois ele já devia ter visto quem era através do olho-mágico da porta, além dela ser uma visita prevista. - Entre.

Estava bastante escuro no interior da oficina. Uma lâmpada a gás de luminosidade minguante aos fundos do estabelecimento era a única fonte de luz. Pelo silêncio que a casa estava, era provável que Thomie, filho único de Mattieu, já estivesse dormindo.

Mattieu conduziu Raven até uma passagem secreta no piso, que levava aos porões. Raven sabia que o que viera fazer naquela noite era discutir assuntos de negócios. Não havia tempo para frivolidades. No porão, Mattie acendeu uma luz e sentou-se numa das poltronas velhas e puídas que havia.

- Trago mais uma oferta de trabalho – disse o experiente homem, indo direto ao assunto.
Raven percebeu que ele ainda estava com um avental por cima de seus trajes e que portanto devia ter trabalhado até poucos momentos atrás. Ele parecia mais cansado do que o habitual, também. Ao redor de todo o lugar, havia bugigancas e engenhocas dos mais diferentes tipos, com engrenagens faltando ou apetrechos metálicos enferrujados. Ele aparentemente usava o porão como depósito para este tipo de quinquilharia.

- Eu sei que os últimos trabalhos que eu trouxe não foram tão lucrativos, mas esse... esse é tão lucrativo quanto é perigoso. – O velho fitou novamente o rosto de Raven, tentando ver algo mais do que o seu rosto parcialmente escondido pelo capuz mostrava. – Estamos falando de uma figura importante. De um conde.



Rosenrot
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Seg Maio 08, 2017 11:59 pm

⁠⁠⁠The law ain't never been a friend of mine
I would kill again to keep from doing time
You should never ever trust my kind







Seus olhos escuros voltaram-se na direção do relógio, quando esse badalou marcando as horas. Deu-se um instante, observando os ponteiros e os símbolos e o Tempo que passava e os deixava para trás, voltou a si quando sentiu um esbarrão de algum transeunte na feira, olhou para o lado muito brevemente e retornou seu caminhar calmo. Os muros sempre lhe chamavam atenção também – não tanto quanto o relógio -, era um figurativo interessante da humanidade, achava Raven. O modo como se prendiam para se salvar, como cercavam-se em prisões – físicas e emocionais – para fugirem das coisas que tinham que enfrentar.

Mas lá estava o Tempo. E do Tempo ninguém podia fugir, o Tempo não pertencia a nenhuma prisão e nenhum muro deteria o Tempo. O Tempo chegava para todos, eventualmente. Até mesmo para si.

Caminhava, sem muitas pretensões pela rua, sua atenção era constantemente mudada de direção: curiosidade era uma natureza constante em ambientes não hostis como aquele e gostava de ver a vida fluir naqueles à sua volta, como uma dança as pessoas iam e vinham, como uma dança tudo se encaixava quando deveria se encaixar. Era bonito, achava, a beleza nas coisas simples, nas cores dos tecidos, nos cabelos da jovem, no sorriso apaixonado…

E na violência.

Não detinha um gosto particular por violência – brigar não era muito seu aspecto – ainda que para sobreviver, às vezes fosse possível e necessário. Tinha em mente que heróis eram apenas covardes que não conseguiram fugir. Mas também havia certo tipo de beleza na violência alheia, no jeito que o sangue sobe à cabeça, a voz se exalta e o coração dispara cargas e cargas de adrenalina no sangue. E a briga lhe captou a atenção, mas a coisa se perdeu rápido demais para que pudesse ter algum reles interesse mais real e suspirou voltando a caminhar. Raven perguntava-se às vezes se as pessoas se contentavam com apenas aquilo…

Apenas os muros, apenas as feiras, apenas o cheiro e a comida. Apenas o amor. O que mais elas buscavam? O que mais queriam? O que mais Raven queria? Sentia às vezes que sua busca era tão incompleta quando a ausência de um nome, de  uma linhagem. Sentia-se apenas inteiro quando matava. Quando ouvia o último suspiro, o último bater de um coração, às vezes também sentia-se plenamente são na cama de outrem, mas essas vezes eram raras. Suas paixões eram poucas e saciáveis. Suas bestas eram muitas e sempre famintas. O Tempo escorria como areia.

Quanto Tempo o Eterno tinha? Às vezes, apenas um segundo.

Não gostava muito do tempo fechado do dia, gostava de observar o céu escuro, de olhar as estrelas, aqueles seres brilhantes e distantes, em suas posições de destaque, servindo vezes de inspiração para os poetas, vezes de guia para os viajantes… Vezes de conforto para os apaixonados e aquelas nuvens lhe tiravam o pouco prazer que conseguia ter em seus momentos de solidão: a companhia silenciosa das estrelas, mas era o Tempo, sabia, e sendo o Tempo deveria se conformar.

Puxou as ambas do sobretudo mais para si, fechando-o no corpo esguio. Particularmente não gostava daquela engenhoca chamada campainha, e revirou os olhos muito brevemente quando se viu na obrigação de tocá-la. E com a paciência de um predador sempre na caçada, aguardou.

Seu olhar passeou pelos arredores, do jeito desconfiado que tinha adquirido desde que virou alvos de ‘histórias’ no submundo. Era um pouco irritante às vezes, mesmo que algumas histórias lhe divertissem quando contada por terceiros, a maioria não tinha uma descrição exata do seu rosto, mas todos eles citavam a luva esquerda com garras negras e pontudas e quando lhe estavam contando sobre essas histórias e notavam que falavam exatamente com o alvo delas, as reações eram divertidas.

Sorriu meio de canto, movendo muito levemente a cabeça no instante em que a porta seu abriu, andou, entrando sem muitos rodeios ou trivialidades. Não via necessário naquele momento, silenciosamente agradeceu por não ver o moleque por ali. Tinha às vezes uma necessidade estranha de desejar silenciá-lo quando começava a alfinetar-lhe, porém sua consideração pelo velho homem que lhe abrirá a porta não apenas agora, mas em muitas outras ocasiões fazia com que as bestas dentro de si se calassem em respeito.

Raven o acompanhou em silêncio – era uma criatura silenciosa como o velho bem sabia – e olhava para todos os cantos, a luz incomodou-lhe os olhos e Raven moveu as mãos – a esquerda enfiada naquela luva estranha com garras negras como um corvo – e baixou o capuz. Tinha o rosto pálido e um olhar vazio que direcionou as bugigangas – o velho já tinha notado o ‘gosto’ da criatura por bugigangas, principalmente relógios – Raven tocou algumas com a luva escura curvada nas garras escuras, deixando que o velho falasse. Ele provavelmente já tinha se habituado ao fato de Raven não falar muito. Mas Raven deu de ombros.

- Não é sobre o dinheiro. – Disse-lhe, ao ouvir sobre os últimos trabalhos. - É sobre a mensagem, é o Tempo. – E ele também provavelmente já tinha se habituado com o modo como Raven não fazia o menor sentido às vezes. Voltou-se na direção dele, os olhos escuros fitando-o.

– Por quê? – Questionou, era uma pergunta constante que lhe fazia diante das ofertas. - Por quê ele deve morrer? - Ignorou o fator 'risco', ao menos por enquanto.
Elminster Aumar
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Qui Maio 11, 2017 10:09 pm



O velho Croix via o interesse de Raven em suas bugigangas, e especialmente uma havia atraído mais a atenção do assassino do que todas as outras. Era um relógio de bolso, cujos ponteiros eram movidos por três engrenagens de tamanhos diferentes. Era uma peça bonita e destacava-se de todas as outras velharias por estar em bom estado. O velho guardou aquela informação para si e se reacomodou na poltrona. O olhar que lançou a Raven indicava que ele ainda não se acostumara completamente com a figura que o seu pupilo havia se tornado.

- Porque... - começou o velho, lentamente, como se suas palavras estivessem caminhando sobre metal em brasa - ele é alguém que subiu muito no poder. Quanto maior a posição que a pessoa alcança, mais inimigos ela atrai. Tem gente que quer vê-lo morto... e estão dispostos a pagar bem por isso.

Mattieu deu uma pigarreada. Já fazia algum tempo que ele não estava bem de saúde, o fumo que consumia diariamente era um tormento aos seus pulmões, e Raven até estranhou ele ainda não ter acendido o seu cachimbo. Ele observou novamente o seu pupilo mexer no relógio.

- Pode ficar com ele - disse o velho. Parecia que a idade estava o deixando amolecido e cada vez mais distante da presença destemida de outrora, embora sua voz soasse ranzinza mesmo tentando ser gentil. - Talvez a minha resposta não o tenha deixado tentado a pegar esse trabalho, pois sei de seus princípios. É importante que você saiba, Raven, que até mesmo gente da própria família do conde o quer morto, e isso irá acontecer, seja por suas mãos ou pelas mãos de outros, seja amanhã ou mês que vem, será inevitável.

Mattieu se levantou da poltrona e se dirigiu até o regulador do gás acoplado à parede e mexeu nele para diminuir a potência da lâmpada, deixando o porão um pouco menos claro. Ele havia percebido como a claridade incomodava Raven. Voltando-se a se sentar, ele prosseguiu falando sobre a proposta de trabalho, dando maiores detalhes sobre o que teria que ser feito.

- O conde está em Caspia nesse momento, mas já comprou passagens de trem para retornar a sua cidade natal. Ele partirá amanhã ao entardecer, e junto com ele, estará um pequeno séquito de pessoas. Alguns seguranças e outros meros empregados a seu serviço. As informações que chegaram até a mim é que eles são em doze. - Mattieu parou de falar e encarou Raven, esperando para ver ouvir qualquer colocação ou dúvida que ela poderia ter. Em seguida, continuou: - Você deve eliminá-lo durante a viagem de trem e fazer com que pareça que foi um acidente. Não pode haver suspeitas de que um assassino de aluguel o matou. Essa é a parte difícil do trato. A parte que pode te ajudar, é que esse conde tornou-se conde hoje, e ele deve estar aproveitando sua nomeação neste exato momento.

Aquela altura, até Raven começava a ficar curiosa sobre quem era essa pessoa. Ela não conhecia tantos nomes na política do reino, mas sabia que ser um conde significava ser uma pessoa de alta influência em toda a sociedade, especialmente dentro do Ducado de Caspia. Mattieu, percebendo que era hora de revelar o nome do alvo, diz:

- O conde, antes apenas barão de Ellsporth, chama-se Gregory Belgarten. O trabalho foi ofertado a algumas guildas de assassinos da cidade, mas todas se mostraram relutantes em aceitar. Só sobrou você e eu preciso de uma resposta ainda hoje.


Rosenrot
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Sab Maio 13, 2017 3:17 pm

Time has stopped before us
The sky cannot ignore us
No one can separate us
For we are all that is left
The echo bounces off me
The shadow lost beside me
There's no more need to pretend
Cause now I can begin again”

The Beginning Is The End Is The Beginning



Suas mãos, de maneira delicada e cuidadosa passeavam pelas bugigangas, como um Corvo, atraído pelos brilhos extravagantes e cores douradas e cinzas. Observado de longe poderia parecer até pertencer a outro mundo: um mundo só seu, particular e inaceitável para outros. Quando seus dedos alcançaram o relógio, Raven pareceu parar de fazer parte daquele momento em questão, os olhos escuros focaram-se nos ponteiros que se mexiam e ambas as mãos seguraram o artefato, os dedos enluvados de uma delas percorriam os contornos do relógio quase com um fulgor carnal, mas então a voz de Croix soou pelo ambiente e pareceu lhe trazer de volta a realidade atual. Suas sobrancelhas finas se arquearam brevemente e Raven virou-se para ele. A primeira parte da equação não lhe interessou muito: pessoas queriam pessoas mortas com frequência, isso não queria dizer que Raven as queria matar. Havia um… Tempo para isso, sabe? Algo que apenas Raven achava que compreendia.

A respeito do relógio, Raven moveu levemente a cabeça em um contido tom de agradecimento e guardou o mesmo num dos bolsos. Ouvia com atenção o que Croix falava, enquanto sua cabecinha estranha começava a traçar suas próprias possibilidades.

“- Bem quanto?” - Perguntou Raven que tinha voltado a andar no cômodo, observando o ambiente de maneira aleatória. Suspirou com o resto das informações que lhe eram passadas. Não gostava muito desses prazos apertados, não tinha tempo para estudar sua presa, entender a mente daquela pessoa com quem o Tempo seria compartilhado. Franziu o cenho levemente em desgosto principalmente quando ouviu que tudo deveria parecer um acidente.

Raven recostou-se a uma das paredes e cruzou os braços, era bem claro que começava a pensar a respeito de tudo aquilo que tinha ouvido até então, era algo um bocado fora do modus operante que tinha… Mas talvez servisse de alguma lição para futuros trabalhos parecidos e Croix parecia bastante interessado no tal serviço.

Raven, diferente da maioria das pessoas, não se interessava muito pelos assuntos políticos e nobres das cidades. Achava futilidades desnecessárias e também não influenciava muito na sua vida, num geral. Mas era verdade que quando essas figuras surgiam em propostas de trabalho, despertava certa curiosidade a respeito do alvo.

“- Por que tem que ser no trem?” - Perguntou. “- Parece a porcaria de uma armadilha.” - Resmungou, revirando os olhos levemente. “- De qualquer forma, posso fazê-lo. Quem é o contato? E você tem uma seringa vazia? E o endereço de onde ele está, hoje.”
Elminster Aumar
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Sab Maio 20, 2017 9:49 am



- Cinco mil coroas de ouro.

Essa foi a resposta de Mattieu Croix sobre a quantia de dinheiro que seria paga ao assassino, caso ele conseguisse cumprir a missão. Era um dinheiro bastante generoso; Raven nunca teve em mãos uma quantia tão alta de coroas de ouro, uma das moedas mais valiosas de todos os reinos. Com essa quantia, o assassino poderia comprar uma arma e uma armadura com engenharia mekânica e ainda sobrar uma parcela razoável para usar como fundo. Ou, se quisesse, poderia empreender esse dinheiro num imóvel. Uma casa pequena numa região mais abastada de Caspia estava custando mais ou menos algo em torno desse valor.

O velho, já acostumado a ter de responder uma série de perguntas de Raven, aproveitou para acender o seu cachimbo enquanto ouvia as colocações de sua pupila do crime.

- Tem de ser no trem porque irá levantar menos suspeitas. Se você o matar aqui e agora, muitos nobres dessa cidade se sentirão insultados e até ameaçados, e levantarão mundos para descobrir quem teve a audácia de encomendar esse assassinato uma vez que eles próprios poderiam ter sido o alvo. Não, tem de ser durante a viagem do conde. Trens podem descarrilar no meio de uma curva.

Mattieu assoprou a fumaça do seu cachimbo após dizer a última frase, que mais soara como uma sugestão do que qualquer outra coisa. Ele tossiu logo em seguida, por duas vezes, antes de prosseguir:

- O nosso contato pediu sigilo absoluto. Ele não se encontra nessa cidade, então é inútil eu dizer o seu nome. Sobre a seringa, eu a tenho, é claro. Quaisquer outros equipamentos ou armas que precisar, como granadas de fumaça, você sabe que pode me pedir. - Ele olhou uma vez mais para Raven, possivelmente analisando se era adequado responder a última questão levantada pelo assassino. Raven viu a dúvida transparecer no semblante do velho, se ele podia ou não confiar nela. Por fim, ele resolveu contar: - Ele está no distrito central, é claro. Pelo que me contaram, ele alugou por uma noite uma das estalagens mais luxuosas da região e a fechou para os seus convidados. Nesse momento deve estar dando uma festa lá, com a presença de muitas moças bonitas. Por favor, Raven, não faça nenhuma besteira... - pediu o velho, quase como uma súplica, pois ele sabia que não detinha mais nenhuma autoridade sobre os atos do assassino, se é que alguma vez o teve.

O distrito central referido pelo velho era o local em que a maior parte da aristocracia caspiana vivia. Era também onde ficava o castelo da família real cygnarana, e portanto, era uma das regiões mais bem protegidas do reino. Vendo que aquela reunião estava para terminar, Mattieu colocou o cachimbo numa mesa e começou a remexer nos muitos bolsos internos de seu traje. Depois de procurar por um certo tempo, ele encontrou o que procurava: uma carta.

- Antes de você sair, e antes que eu me esqueça, tome.

Ele empurrou a carta sobre a mesa para perto de Raven. O assassino sabia quem era o remetente antes mesmo de pegar o envelope em mãos: Meilanie Delon. A jovem aristocrata pedia para ter um novo encontro com Raven naquela mesma noite. A sorte, se é que podia chamar assim, é que ela também morava no distrito central.


Rosenrot
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Sab Maio 20, 2017 7:03 pm

O dinheiro não lhe interessava muito em partes. Claro, precisava dele para aprimorar seu material de trabalho, assim como para manter os cuidados de seu animal. Mas não era apenas o dinheiro que fizera Raven seguir por aqueles caminhos, também não era o dinheiro que o mantivera ali. O que o fazia prosseguir era a sensação. A mesma que sentia cada vez que uma vida deixava de existir por suas mãos. Não podia dizer que era prazer…

Era algo maior que isso.

Ficou em silêncio para ouvir o resto das explicações sobre toda a tramoia – aquela coisa aristocrata lhe enchia a paciência – e detestava ver-se diante de algo daquele tipo… Mas não havia muito para onde fugir, quando se vivia do modo que vivia. Revirou os olhos, mas sorriu de leve, um sorriso carregado de sarcasmo.

- Não ia ser divertido, Mattieu? – Indagou. - Eles, descabelando-se uns aos outros, escondendo-se em baixo das saias de sua laia. Imagina a confusão. – Quase chegou a rir, mas esses momentos eram raros, e Raven apenas moveu a cabeça, voltando a seriedade da questão. Não respondeu sobre o trem: não pretendia usar aqueles métodos. Além de matar quem não deveria ser morto, para quem o Tempo ainda deveria correr, poderia correr o risco de errar. E se o velho sobrevivesse a um acidente forjado? Tinha outras coisas em mente para executar a tarefa.

A segunda parte era um pequeno problema, não gostava muito dessa coisa de sigilo, porque se algo desse errado não saberia a quem cobrar ou a quem caçar. Mas Mattieu conseguia lhe passar algum grau de confiança em relação aos trabalhos que lhe ofereciam. Raven de novo pareceu desinteressado do assunto, mas quando a dúvida surgiu no semblante do velho, Raven voltou-se para ele e abriu seu sorriso de muitos dentes, mas nada sincero. Aproximou-se de Mattieu e lhe segurou uma das mãos, passando a outra pelo torso do velho, como um cavaleiro tirando uma dama para dançar e assim Raven moveu-se – levando o velho junto – pelo cômodo empoeirado simulando uma dança. – Hoje cedo, quando você bateu em minha porta… – Cantarolou Raven. – Eu disse: “Olá, Satã. Acredito que seja hora de ir” – Raven parou de mover-se e segurou o rosto do velho Mattieu com a luva que tinha garras projetadas para parecerem com as de um corvo -  luvas que ele tinha feito para Raven -, aproximou o rosto pálido do velho homem, os olhos escuros e profundos nos olhos dele. - Eu e o demônio, andando lado a lado... – Sussurrou Raven e sorriu, afastando-se do homem.

– Posso ser considerado fora dos padrões de sanidade, Mattieu, mas estou longe de agir com estupidez. – Declarou, diante da súplica para não fazer besteiras. – A seringa será o suficiente. Preciso de um vestido também. Mas acho que esse tipo de material você não poderá prover. Encontrarei um modo.

Agora, contemplando as possibilidades, Raven tinha um aspecto mais centrado e de fato, pretendia se retirar. - Meu cavalo está no lugar de sempre, se algo me acontecer, vá buscá-lo, por favor. E cuide dele. – Falou, já tinha lhe dado as costas, quando ouviu a voz do velho de novo, Raven virou-se para ele, uma das sobrancelhas arqueadas. Foi fácil notar como sua expressão se alterou para um profundo desgosto. Agarrou o envelope e o abriu, lendo rapidamente seu conteúdo, depois o amassou com uma ira contida.

Mas então respirou fundo, clareando os próprios pensamentos. – Espalhe um recado para mim, Mattieu. – Falou Raven, puxando o capuz de volta para cima da cabeça. - Diga que o infeliz quem conta à Meilanie sobre minha chegada à Cidade deve dormir com um dos olhos abertos. Ou acabará sem os dois.

Mas por incrível que parecesse, naquela noite Meilanie poderia ser útil. Muito útil. Raven curvou-se para Mattieu e voltou a cantarolar a canção. – Agora irei ver meu homem, até que me satisfaça… Eu e o demônio, andando lado a lado.

Terminou o cumprimento pomposo à Mattieu. - Volto mais tarde para buscar a seringa e a agulha. – Avisou. Então rumou para fora da casa, para o encontro com Meilanie.
Elminster Aumar
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Qui Maio 25, 2017 9:16 pm


Mattieu ia responder sobre a caótica cena imaginada por Raven caso ela aparecesse no meio da festa do novo conde, mas o velho homem percebeu no último instante que aquilo não era necessário. Por outro lado, quando ela pegou-lhe em sua mão praticamente o chamando para dançar, ele pareceu honestamente perplexo.

- Raven...

Sua negativa não teve força o suficiente para sair pela boca, e o velho se deixou levar pela assassina. Eles trocaram alguns passos de dança no porão cheio de bugigangas como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Raven falava coisas que assustariam qualquer homem descorajado, mas Mattieu ainda tinha um pouco de sua velha fibra consigo. Ele sorriu ao ver seu rosto sendo tocado pelas luvas em formas de garra que ele mesmo projetara para ela. Lembrar-se de suas criações sempre eram motivos para animar o velho.

- É mesmo bonita - ele disse de modo sonhador quando ela se afastou, e Raven ficou em duvida se Mattieu estava se referindo a ela ou a luva. Ele acenou positivo com a cabeça quando ouviu sobre a seringa. - Amanhã eu já terei ela em mãos. Apareça por aqui antes de se dirigir para a estação de trem.

Quando a carta da aristocrata foi entregue, ele não se surpreendeu pela expressão de desgosto de Raven, nem pela ameaça a quem revelava o seu paradeiro. Era realmente difícil saber quem fazia tal papel, pois uma pessoa de tão poder aquisitivo quanto Meilanie podia contratar até mesmo os guardas que vigiavam os portões de Caspia. Raven subiu as escadas cantarolando, deixando o velho Mattieu para trás.

De volta as ruas da cidade, a assassina tinha um destino: uma taverna de luxo localizado no distrito central, onde a jovem aristocrata marcara o encontro. Conforme se aproximava da região após um longo tempo de caminhada, os contornos do enorme Castelo Raelthorne tomava forma, com as suas numerosas torres dando um toque especial ao lugar. Aquela era a moradia do Rei Leto, além de servir como um ponto de encontro para a Assembleia Real e o Conselho de Guerra da Vossa Majestade. Como de costume, quanto mais perto chegava do local, maior número de guardas de prontidão era visto. O distrito central tem estado na posse das mesmas famílias de nobres por gerações e raramente mudam de mãos. A taverna ficava localizada numa esquina e ocupava boa parte das duas ruas. Raven, de fato, já conhecia o lugar. Foi ali que ela e Meilanie haviam tido o primeiro encontro.

Logo que a assassina entrou no estabelecimento, ela viu a aristocrata sentada numa mesa rente às janelas, o seu lugar preferido. Meilanie estava observando, distraída, o movimento das ruas, pois não notara a chegada de sua amada e já achava que ela não vinha mais. Ela estava esplêndida naquela noite. Sua pele alva e olhos claros pareciam em perfeita harmonia com os seus brincos em argolas de prata e o seu vestido de cores claras, saias longas e um generoso decote à frente. Seus cabelos dourados estavam soltos, caindo-lhe pelo começo das costas.

O salão tinha quase todas as suas mesas ocupadas, mas não havia barulho. Os ricaços conversavam pouco e em voz baixa enquanto comiam suas refeições. Meilanie tirou um relógio de bolso para olhar as horas, e estava estampado em seu rosto que ela já havia perdido qualquer esperança do encontro.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Sex Maio 26, 2017 11:17 am

- É uma canção de ninar. – Raven murmurou, para ninguém em particular quando chegou às ruas. Suas finas sobrancelhas se uniram por um momento, franzidas em sua tez. Levou os dedos até a testa e a massageou levemente, não tinha ideia do motivo de se lembrar de uma porcaria de canção de ninar e isso vinha acontecendo com mais frequência, nos últimos anos, como se estivesse se deslocando no Tempo e vivendo duas vidas paralelas.

Lá fora, respirou fundo sugando o ar da noite chuvosa para seus pulmões: não gostava do cheiro das cidades, achava-os maculados e imundos, mas a chuva costumava lavar boa parte da imundice humana para longe das vistas. Sentia-se ligeiramente cansado, não fisicamente considerando que não tinha feito nenhum esforço físico até então… Mas sua mente estava repleta de pensamentos e trabalhando de maneira exaustiva para lidar com a nova situação em suas mãos. Fazer parecer um acidente não era tão fácil quanto a maioria achava que era.

E Raven não sabia se gostava da ideia de trabalhar para alguém que desejava a morte de outrem porém sequer tinha coragem de pôr a cara às luzes. Era um sentimento conflitante: o dinheiro em partes seria bom, daria a Sangue de Gelo melhores comidas, talvez conseguisse comprar um pedaço de terra por onde o cavalo pudesse correr livre e sem problemas. Podia talvez… Mudar? Não isso não, isso estava fora de questão. Havia sangue demais nas mãos, agora, para mudar.

Enfiou a mão no bolso, retirando de lá o relógio que ganhará de Mattieu e o observou por um momento, não para ver as horas ou para medir o tempo, mas para apreciar suas engrenagens funcionando, seus ponteiros movendo-se lentamente, calculando… Mostrando que as coisas ficavam para trás, quer queiramos, quer não. Sorriu de leve com o pensamento e observou o céu enquanto andava, as coisas estavam acontecendo num ritmo do qual não gostava e isso talvez fosse um sinal.

O Tempo era curto, afinal de contas.

Raven avançou pela escuridão, parando apenas em um momento para pegar algo em um canteiro de uma casa.

Particularmente detestava aquela parte da cidade, ainda que as sombras estivessem por ali, era como se elas se esgueirassem para baixo de determinados lugares, sentia-se desnecessariamente exposto. Tinha baixado o capuz e fechado o sobretudo para que a possibilidade de ser incomodado pelos guardas fosse diminuída. Cada passo que dava em direção ao lugar era como se alguém enfiasse agulhas em baixo de suas unhas e por mais de uma vez pegou-se pensando por que infernos estava indo àquele encontro.

Parou frente a porta da taverna, pensativo e especulativo. Quais eram as possibilidades de Delon lhe enfiar numa armadilha? Bom, eram muitas, não eram? Ela tinha recursos para isso e talvez fosse do interesse da própria que Raven fosse de algum modo, capturado. Afinal de contas, poderia fazer-se de bem feitora pessoal e livrar-lhe a cara. - Eles correram no meio da noite. – Falou, para a porta e pela segunda vez naquela noite não tinha a menor ideia do que suas palavras significavam.

Raven empurrou a porta. Não gostava a ideia de morrer aos poucos, se fosse para morrer que seja de uma única vez. Seu descontentamento pelo lugar era tão evidente em seu rosto que provavelmente algumas pessoas se perguntariam porque diabos estava ali; suas roupas também não se encaixavam no lugar. Explorou o lugar com o olhar de maneira breve, porém atenta antes de localizar a jovem Delon. Raven tinha as mãos às costas quando começou a se mover na direção da mulher.

Não negaria a ninguém que perguntasse: Meilanie Delon era belíssima, talvez uma das mulheres mais bonitas que Raven tinha visto em toda sua vida, até agora. Tinha modos recatados e uma educação invejável, também era uma moça inteligente, na maior parte do tempo se não fosse considerar as asneiras que falava às vezes. Mas ela lhe irritava profundamente. Lhe irritava porque lembrava-lhe constantemente sua incapacidade de criar qualquer laço, que sentir falta de qualquer um. Meilanie Delon era a prova viva e falante de que algo dentro da sua cabeça não funcionava direito e que Raven gostava que fosse assim.

Quando se aproximou da mesa, Raven depositou uma rosa silvestre frente a jovem Delon: era uma rosa de jardim, isso era mais do que visível e provavelmente mais do que esperado; era impossível imaginar Raven entrando em um lugar para comprar uma flor ou qualquer bugiganga do nível. Raven vestia-se de maneira bastante simplicista: o sobretudo escuro agora aberto revelava o cinto onde o coldre da arma estava. Assim como a calça folgada acinzentada e as botas de cano alto. Havia uma espécie de colete por cima da blusa branca que usava, e assim nenhuma parte do seu corpo, além da cabeça e do pescoço ficava exposta ou visível.

Raven moveu-se e se sentou na cadeira frente a jovem aristocrata, não era de pomposidades ou cumprimentos exagerados. A rosa fazia seu trabalho, por agora. - Você gostaria de me ver morto? – Perguntou, num tom de voz calmo, olhando em volta uma vez mais. – Às vezes me parece que gostaria. – Completou e suspirou de maneira pesada. Sentia-se estranhamente preso naquele lugar, como se a qualquer momento alguém fosse pular em seu pescoço; não entendia exatamente o motivo, mas sua mão repousou silenciosamente na pistola. - Tenho trabalho a fazer, Miss Delon, no que posso ser útil esta noite?
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Ter Maio 30, 2017 10:01 pm


Meilanie Delon foi retirada de seus próprios pensamentos ao se ver diante de uma rosa de jardim. Ela pegou a flor primeiro e virou o rosto depois, já sorrindo. O seu sorriso - um dos mais doces e bonitos que Raven já conhecera - só aumentou ao ter sua expectativa confirmada sobre quem lhe dera a rosa. A assassina logo sentou na cadeira defronte a Meilanie, que continuou olhando para a sua amada de um modo até abobalhado.

- Você veio... - disse em voz baixa, quase sem acreditar no que via. Raven perguntou se ela gostaria de vê-lo morto, e a jovem aristocrata negou de prontidão. - Não, de forma alguma, eu jamais iria querer que qualquer mal acontecesse a você! Você sabe disso!

A Sra. Delon estava mais agitada do que o normal devido a surpresa do encontro. As três tentativas anteriores de se encontrar com Raven haviam sido um fracasso. Ela viu, é claro, a arma que Raven não fazia questão de manter escondida, e quando esta lhe disse que tinha um trabalho a fazer, uma espécie de calafrio percorreu o corpo de Meilanie. Ela sabia da natureza do trabalho da assassina, e ao mesmo tempo em que havia uma admiração pelo estilo de vida que Raven levava, havia também um temor. Um temor de que talvez algo desse errado e que no dia seguinte ela não estivesse mais no mundo dos vivos.

- Hoje? - perguntou Meilanie, sua expressão mudando de alegria para tristeza muito rapidamente. - Eu esperava poder passar um tempo com você... - ela olhou para a superfície vazia da mesa. - Eu não pedi nada para comer ainda, pois fiquei te esperando todo o tempo. Por algum motivo eu pressentia que você iria vir hoje. E você veio! Por favor, não saia daqui tão logo, a não ser que seja pra me levar com você!

Ela provavelmente não sabia o que estava falando. Era uma filha de nobres renomados, passou a vida inteira na segurança de seu lar e longe dos perigos das ruas. Até mesmo suas aulas de esgrima ou hipismo, se é que ela havia tido tais aulas, podiam se considerar inúteis frente a uma situação de perigo real. Meilanie, contudo, encarava Raven com o seu par de olhos claros. Como se tivesse acabado de se lembrar de algo, a jovem soltou uma exclamação e pegou a sua bolsa. Guardou a flor ali e retirou uma pequena caixa de madeira.

- Tome, é para você! Não é tão bonita quanto a flor que você me deu, mas eu mandei fazer especialmente para você. Quero que abra.

Ao abrir a caixa, Raven encontrou um anel sobre um acolchoado de veludo. Ele possuía uma pedra preciosa negra; Raven não era das mais entendidas sobre o assunto mas acreditava que podia ser ônix. A pedra fora toda entalhada e trabalhada para que tivesse a forma da cabeça de um corvo. O resultado final era digno de elogios, e esse "singelo" presente devia ter custado uma quantia bastante gorda de coroas de ouro.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Qua Maio 31, 2017 1:49 pm

Não respondeu ao ‘você veio’, era meio óbvio que estava ali e que aquele tipo de confirmação era tão desnecessária quanto sua presença naquele lugar. Quando a negativa a sua pergunta veio, Raven gesticulou com uma das mãos, indicando o lugar ao seu redor. - Ratoeira. – Disse Raven, antes de com a mesma mão indicar a si. - Rato. – E moveu as sobrancelhas, certo de que não tinha um jeito melhor de explicar a Delon que aquele lugar era uma grande terrível ratoeira para ele.

Se mexeu na cadeira, sentia-se extremamente desconfortável naquele lugar, como alguém que é obrigado a usar uma roupa que não lhe agrada ou não lhe cabe, do mesmo modo como todos os seus sentidos entravam num estado constante de alerta, ficava atento até a cada pequeno barulho, captando trechos de conversas alheias aqui e ali e isso embaralhava seus pensamentos mais diretos.

- Não. – Respondeu, os olhos baixando para as mãos, uma delas ainda próxima a arma. Não era a resposta, não era aquela noite, mas não era tudo que Delon receberia, não costumava dar detalhes de seus ‘trabalhos’ para ninguém. Nunca confie e ninguém era um lema válido, naquela vida. - Talvez seja sua noite de sorte. – Disse-lhe, e sejamos sinceros, Raven não prestava muito atenção no que Delon falava, captava uma coisa aqui e ali, e depois juntava aos poucos o que conseguia digerir, mas não se atentava totalmente a frase inteira ou ao pensamento apresentado. E também não acreditava em sorte, havia o destino e o tempo. E ambos eram cruéis. Mas o pensamento lhe veio rápido como um corvo: talvez Delon pudesse ser útil naquela noite, afinal… Tinha que estudar seu alvo, nem que fosse por algumas horas.

Então a jovem mudou de súbito, com aquela exclamação e quatro pensamentos passaram pela cabeça de Raven muito rápido:

Cai numa armadilha.

Quantos será que consigo derrubar antes de cair?

E se eu atirar nas luzes?

Qual gosto será que ela tem?

Todos os quatro foram deixados para trás bem rapidamente.

Sua mão já estava agarrada a arma como se fosse uma boia num mar revolto, mas Raven arqueou as sobrancelhas ao observar o que Delon fazia, a expressão de surpresa foi substituída por uma de curiosidade, quando a pequena caixa foi deixada à mesa, Raven levou a mão até ela e a abriu observando o anel que lá estava. O silêncio se estendeu mais do que Raven pretendia, enquanto esse encarava a joia à sua frente. Não estava habituado a receber esses tipos de presentes, suas atenções voltavam-se a coisas mais… Praticas, por assim dizer. Um pensamento engraçado lhe veio à mente, imaginando em quantas horas provavelmente teria os dedos ou a mão inteira, arrancados por algum ladrão, quando perambulasse pelos locais onde costumava perambular com aquela coisa no dedo.

– É muito bonito, obrigado. – Concluiu, fechando a caixinha e levando-o até o bolso. Não pretendia usá-lo, claro, era pouco prático quando suas mãos geralmente são os seus instrumentos de trabalho, mas isso não vinha ao caso agora.

- Mas como eu dizia antes… – Lambeu os lábios de leve, enquanto tentava fracassando terrivelmente relaxar.- Ouvi a respeito de uma festa que está acontecendo por aqui, em alguma estalagem luxuosa e há algo que preciso… Fazer por lá. Então, talvez, você possa me levar. Podemos considerar como uma noite para nós.

Não era das mais carismáticas criaturas na fase da terra, mas bom, Delon não era também uma das mais espertas. Se ela conseguisse colocá-lo para dentro da festa de seu alvo, Raven poderia observá-lo sem causar problemas. Era uma jogada útil, no final das contas. Ambos teriam o que queriam.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Qui Jun 01, 2017 9:34 pm


A jovem olhou de soslaio para o amplo salão à sua volta. Meilanie tinha o terrível hábito de levar a sério tudo o que Raven dizia, e quando ele falou sobre ser um rato numa ratoeira, a própria aristocrata passou a ver com outros olhos o lugar em que estavam, como se temesse que algo de fato pudesse acontecer aos dois. Quando um atendente se aproximou da mesa para perguntar se eles iriam querer algo, a garota não pensou duas vezes em dispensá-lo.

- Não queremos nada - disse Meilanie de modo rígido e sem ousar olhar nos olhos do atendente que, confuso, se afastou da mesa. A garota se ajeitar em sua cadeira, tentando relaxar os músculos e a se concentrar novamente em Raven, que naquele momento abria o seu presente. - Ah, que bom que gostou! Eu tive um certo receio de que você não fosse homem para usar esse tipo de anel...

Às vezes era difícil decifrar a Sra. Delon. Se por um lado ela era razoavelmente inteligente, devido aos estudos que recebera, por outro ela parecia completamente ingênua quando estava com Raven. Que ela sentia uma paixão - ou seria um amor? - obsessivo por Raven era notório pela forma como os seus olhos o encaravam. Quando o assassino falava, Meilanie involuntariamente sorria e se debruçava com os dois cotovelos sobre a mesa, para estar mais perto de seu amado. O pedido para que ela o acompanhasse até uma festa fora feito, e Meilanie não podia ter ficado mais feliz com aquilo.

- Jura? Você está me convidando para uma festa? - ela demorou um pouco a entender que ela seria o convite para que Raven pudesse adentrar a festa e fazer o seu trabalho. Mesmo assim a vontade de aproveitar um tempo maior ao lado de Raven era maior do que tudo naquele momento, e ela perguntou onde seria a tal festa. Raven não soube responder, mas informou-lhe que se tratava da comemoração do novo conde do Ducado de Caspia, Gregory Belgarten. - Eu sei onde é isso! - exclamou sorridente a Sra. Delon. - Fica a uns três quarteirões daqui. Mas será que nos deixarão entrar? - ela mordeu os lábios, em dúvida.

Só havia um jeito de descobrir, e por isso os dois se levantaram da mesa e rumaram para a saída do estabelecimento. Nas ruas, Meilanie agarrou o braço de Raven e não se desgrudou dele durante o trajeto de alguns poucos minutos. Durante o caminho ela falou sobre trivialidades do seu dia, um assunto que certamente desagradava Raven. Os dois finalmente chegam às portas da estalagem Paraíso, que mais se parecia com um hotel luxuoso do que com uma estalagem. Havia pelo menos uma dúzia de seguranças fazendo a proteção do lugar pelo lado de fora.

- Hoje o local está fechado. Só entra quem tem convite - disse um dos guardas.

Meilanie deu um passo a frente, ansiosa para se fazer de útil na frente de Raven.

- Eu sou uma Delon. Imagino que você conheça minha família?

O guarda engoliu o seco, mas ele não cederia tão facilmente.

- Sim, Sra. Delon, me desculpe a minha falta de educação. Conheço muito bem a sua família, é que eu não posso contrariar as ordens do meu patrão... Esse lugar foi alugado pelo conde, e bem, ele disse que depois de certo horário só era para permitir a entrada de mulheres. Ordens dele.

Após ter dito isso, o guarda olhou para Raven por mais tempo do que deveria. Havia uma jovialidade masculina misturada com toques femininos que deixava qualquer um em dúvida sobre o seu sexo, e Raven quase que podia ler os pensamentos do homem transparecendo em sua face.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Sex Jun 02, 2017 12:00 pm

Os dedos tamborilaram no tampo da mesa, enquanto Delon olhava em volta e sua cabecinha começava a funcionar num meio mais prático, Raven achava que poderia até ouvir as engrenagens movendo-se aqui e ali e apenas observou em silêncio o modo como a jovem dispensou o atendente: não se importava, não achava que existisse nada no cardápio que lhe interessava muito de qualquer forma. E não estava com fome ou sede, ao menos não por enquanto.

Arqueou, muito sutilmente as sobrancelhas quando Delon disse-lhe que talvez não usasse a joia por não ser homem. Particularmente Raven não se importava muito com essas coisas. As pessoas eram estranhas nesse sentido, que diferença fazia o que tinha entre as pernas com usar uma joia? Às vezes se questionava quantos Deuses ou Demônios tinha ofendido durante toda a vida para merecer determinados destinos. Que não o entendessem mal, Delon era de uma forma ou de outra, divertida, mas às vezes Raven se questionava severamente o motivo de manter aquele “relacionamento”, poderia matá-la com a facilidade que respirava, ou simplesmente ignorá-la pelo resto da vida, então porque infernos, queria saber, estava sentado naquela mesa ouvindo aquelas baboseiras?

Passou as mãos no rosto, instantaneamente com a mente cansada, Delon tinha esse efeito sobre si, imaginava que era uma sensação parecida com a de um opioide, e então uma nova linha de pensamentos se formava: era por isso que tantos e tantos sujeitos casados preferiam as bebidas às suas mulheres? Com a facilidade de uma criança hiperativa, seus pensamentos seguiam diversas direções, mas Raven procurou se focar e escutar o que a jovem Delon dizia.

- Não. – Respondeu, de novo naquela forma monossilábica, Raven não a estava convidando para coisa alguma, nem poderia, era só um maldito assassino enfiado em uma ratoeira da nobreza. - Você está me convidando. – Resolveu acrescentar, para tonar as coisas mais simplicistas. Quando revelou sobre a festa, sem saber exatamente em que lugar poderia encontrá-la e viu Delon dizer que conhecia e sabia como chegar, Raven teve vontade de beijá-la; era instintivo, determinadas coisas. Via como uma espécie de recompensa não probatória, afinal não lhe traria nenhum significado maior. Não fez-se de rogado, ao final e se levantou, desesperado para deixar aquele lugar.

Lá fora, pode ter seu prazer devolvido ao observar o céu noturno e sorver do ar quase fresco daquela noite, quando Delon parou ao seu lado, Raven não se moveu inicialmente, sua mente acelerada martelava tantas possibilidades e decisões que sentia-se ligeiramente tonto, acordou de seu quase transe quando sentiu o braço da jovem envolver-se no seu e isso o trouxe de volta ao mundo real. Então Raven se moveu – naquele momento, ele não pensou muito sobre isso – e talvez em outro momento, outra noite, Raven retornasse para lá em memórias, para se perguntar e analisar porque infernos tinha feito o que fez.

Como dito, ele se moveu e moveu-se rápido, e só se deu conta de que tinha se movido quando sentiu o corpo de Delon pressionando o seu e suas mãos contra a parede do lugar onde tinham estado segundos atrás; Raven tinha “semi erguido” Delon, usando a parede como apoio para o corpo da jovem. Usando as mãos para mantê-la naquela posição – Delon era mais baixa que si, e aquilo ajudava a mantê-la na mesma altura – O Corvo encarou a Aristocrata com seus olhos escuros, desprovidos de qualquer sentimentalismo que pudesse se esperar naquele instante: não havia muito romance ali, sejamos sincero. Ele a segurava contra a parede, semi erguida como se estivesse prestes a lhe arrancar as roupas.

Então Raven a beijou, de maneira rude e violenta: não era uma criatura adepta a qualquer tipo de comportamento maneirado. Tinha lábios frios – e pensou que talvez com gosto de sangue – não podia ter certeza. Mas ele a beijou como um afogado em busca de ar, mas o beijo não durou muito quando Raven separou os lábios de modo súbito. Todo seu corpo tinha travado num estranho possesso de que aquilo era um dejá-vù, de que aquilo tinha sido vivido antes, em outra época, outro tempo. O Corvo a soltou – e sejamos sincero, ele não se importou se ela ia cair ou ficar de pé – a verdade é que ele simplesmente a soltou, deu uns passos para trás, olhou em volta e ajeitou sua roupa. O demônio na sua mente tinha sido contido, por enquanto, mas a noite era longa e Delon era a porra de um problema. Raven lhe ofereceu o braço, como se absolutamente nada tivesse acontecido. E talvez Delon já tivesse se acostumado o suficientemente a isso para seguir em frente.

Quando finalmente chegaram ao lugar, Raven já estava mais… Bom, já estava mais ele por assim dizer. Deixou Delon tomar à frente sem problemas, enquanto observava o lugar e absorvia algumas informações que em suas explicações, o guarda deixava escapar. A ideia do vestido tornou-se ainda mais interessante diante disso. Talvez, imaginou, fosse mais fácil do que achava inicialmente. Raven ficou parado, feito um dois de paus, aguardando e só notou que o sujeito olhava para si uns segundos depois do fato, arqueou levemente as sobrancelhas – tinha perdido metade da conversa, vale dizer absorvido apenas o que lhe interessava –, mas sabia claramente o motivo do sujeito lhe olhar.

Fato corrido; sabia que não podia dizer fazer parte da nobreza, suas roupas denunciavam isso, não portava-se ou vestia-se suficientemente bem para dizer que era alguém importante. Não poderia cair na cilada de se achar superior: era mais inteligente, isso era outro fato, mas… Raven sorriu de leve, um sorriso tão falso quanto agradável, sabia-se ser gentil quando necessário, era a porra de um manipulador frio afinal de contas.

- Perdoe-me, sou a guarda pessoal da Srta. Delon. – Falou, aquela voz tão… Tão dúbia, referindo-se a si pela primeira vez naquela noite em um gênero específico. - Tenho certeza de que o Conde não se importará que nós duas entremos. Srta Delon está curiosa e eu estou aqui unicamente para garantir que ela chegue em segurança em casa. – E calou-se, dando um passo para trás, na mais pura e teatral atitude de serventia à Delon. O mundo era um teatro, senhores, e Raven era um ótimo ator – ou ao menos achava-se assim.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Ter Jun 06, 2017 10:56 pm


Levou algum tempo para Sra. Delon entender o que Raven queria dizer com a frase "você está me convidando", mas ela parecia ter compreendido a essência da coisa enquanto as duas saíam do restaurante. Mal haviam pisado do lado de fora, e Raven tomou uma atitude inusitada, que surpreendeu a aristocrata na mesma medida em que a agradou. Ela pressionou Meilanie contra a parede, sentiu por um momento as curvas da jovem pressionadas contra o seu corpo e a ergueu - literalmente - com a força de seus braços. Raven era surpreendentemente forte para quem não aparentava ter músculos bem trabalhados.

A Sra. Delon sorriu diante o olhar frio e escuro de Raven; olhar este que responsável por incutir medo na maioria das pessoas que o encaravam. Contudo, com a Sra. Delon ele não parecia causar o efeito esperado e talvez este fosse um dos motivos de Raven gostar e não gostar dela ao mesmo tempo. No fundo Meilanie era uma tola apaixonada, cega por seu grande amor. Ela não conseguia enxergar o assassino que estava à sua frente. Ele poderia muito bem tê-la matado ali, se quisesse, mas ao invés disso, lhe aplicou um beijo. Não foi um beijo qualquer. Havia uma indelicadeza no ato, uma selvageria semelhante ao instinto animal. Raven sentia os lábios doces da Sra. Delon enquanto suas línguas se tocavam com certa intransigência, e tudo terminou tão subitamente quanto havia começado.

A jovem aristocrata não chegou a cair quando Raven a largou, pois ela usou a parede para se manter apoiada, mas a Sra. Delon estava completamente ofegante e boba. O ato havia atraído a atenção de algumas poucas pessoas que passavam pela rua; não que Raven se importasse com aquilo. Enquanto o Corvo apenas precisou dar um tapa em seu traje para que eles voltassem a seguir viagem, Meilanie levou um tempo a mais para se recuperar do beijo. De braços dados, os dois chegaram até o local da festa, onde foram interpelados pelos seguranças. Um deles parecia ter duvidas quanto ao sexo de Raven, uma vez que era bem difícil definir a primeira vista se tratava-se de um homem ou de uma mulher. O assassino resolveu se passar por guarda pessoal da aristocrata, e fez questão de se colocar como uma mulher, o que era bem estranho. Não havia muitas mulheres que faziam esse tipo de trabalho, mas de certo modo, havia atiçado a imaginação do guarda.

- Acho que então não tem problema as duas entrarem - disse o guarda -, mas vocês terão que passar por uma revista. Especialmente você - disse olhando para Raven. - Suas armas devem ser deixadas comigo.

Era bastante óbvio que ele já havia notado a pistola na cintura de Raven, mas a lâmina do assassino era uma arma mais fácil de esconder, se assim Raven desejasse. As duas passam pela revista. Raven nota que o segurança mal ousou tocar na Sra. Delon, enquanto que em si suas mãos procuraram minuciosamente por armas escondidas. No final, o segurança liberou a entrada das duas.

O Paraíso não recebia esse nome à toa. Para começar, o cheiro de vários incensos se fazia presente no térreo. Uma música relaxante era ouvida através de algum gramofone instalado no local, além, de é claro, do barulho das conversas de dezenas de convidados. Haviam compartimentos separados por cortinas de veludo avermelhado, espécies de cabines privativas para que as pessoas tivessem mais privacidade em suas conversas. Havia muita gente bonita, e muitas mulheres. O clima era de diversão total. Uma pessoa ou outra reconhecia a Sra. Delon e vinha cumprimentá-la. Essas pessoas estranhavam a figura soturna de Raven, mas nada comentavam a respeito. A jovem olhou para Raven, com os seus olhos mais sonhadores do que nunca.

- Este lugar é lindo, não acha? Espere até ver a piscina no topo do prédio.

Era para lá que a Sra. Delon a levava. Os dois próximos andares se mostraram menos barulhentos do que o térreo, e com quartos que garantiam privacidade total. Ao saírem por uma porta que dava para o topo da estalagem, o Corvo viu uma piscina ocupando um belo espaço do local. Vapor saía de suas águas em direção ao céu noturno de Caspia, o que indicava que a piscina devia ser aquecida por um sistema interno. Imediatamente os olhos ágeis do assassino viram o seu alvo. Ele não precisava saber como era o rosto do novo conde. A julgar pela quantidade de pessoas que estavam a sua volta, só podia ser ele a figura que procurava.

O conde era um sujeito de estatura baixa, notoriamente acima do peso e com um grosso bigode com pontas viradas para cima e uma barba. Ele estava sentado numa mesa à beira da piscina e conversava com três mulheres, uma delas sentada numa cadeira ao seu lado e outras duas estavam dentro da piscina. Eram todas mulheres bonitas e uma das meninas submersas na água estava sem a parte de cima do biquíni. Não era a única no local a estar vestida daquela maneira mais ousada. Ao redor da mesa do conde havia alguns homens que apenas os olhos afiados de Raven pôde perceber suas armas escondidas por trás dos sobretudos. O Sr. Belgarten parecia levar uma conversa alegre com as três moças, regada a muitas risadas e um bom vinho servido em taças.

Entrementes, a Sra. Delon não reparara em nada disso e tentava levar Raven para se sentar com ela numa mesa próxima a beirada do prédio, onde poderiam apreciar uma vista interessante do distrito central.

- To tão feliz que você veio comigo aqui - disse sorridente e despreocupado; ela provavelmente ainda estava pensando no beijo que recebera minutos atrás.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Seg Jun 12, 2017 4:12 pm

Raven mantinha a mesma postura: tinha os braços atrás das costas, uma mão segurando o outro pulso, um passo atrás de Delon, seu olhar passava de um para o outro de maneira bastante discreta enquanto eles pensavam. Raven achava que as pessoas demoravam demais para pensar a respeito de determinados assuntos, as coisas poderiam acontecer muito mais rápido se não gastassem tanto tempo pensando em bobagens: Raven tinha visto o olhar do guarda, tinha notado o brilho diferente de quando a imaginação se acende, era algo que muitos podiam se permitir, menos Raven.

- É claro. – Raven disse, abrindo o sobretudo e retirando o cinto onde o coldre ficava acoplado: não se importava muito e dispor de suas armas daquela maneira, não acreditava mesmo que fosse necessário fazer uso delas naquele local. Raven não entregou a Lamina do Assassino – que mantinha prontamente enfiada no cano da bota -, mas o faria se o guarda a encontrasse. Ela se aproximou e abriu os braços, para que o sujeito pudesse revistá-la sem muitos problemas. Ele encontraria o relógio dado por Mattieu em um dos bolsos e a caixa com o anel de Delon em outro, além disso, Raven não carregava mais nada.

Quando liberada, Raven sorriu para o sujeito, um sorriso carregando segundas, terceiras e quartas intenções: era sempre bom atiçar a imaginação alheia.

Lá dentro, buscou absorver detalhes que a maioria ignorava: saídas e entradas, janelas e portas, seguranças e guardas, pessoas armadas e afins. Mas deixava que Delon lhe guiasse sem muitos problemas. Raven não tinha nenhum interesse num lugar como aquele. Aquilo só lhe parecia a porra de um bordel de luxo e particularmente, não gostava muito de luxo. As pessoas ficavam propensas a tornarem-se cada vez mais procrastinadoras quando acostumadas ao luxo.

- Beleza é questionável. – Falou Raven, ao ouvir o comentário de Delon, mas deixou-se guiar pela jovem, sem muito interesse em interagir ou fazer parte do cenário em questão. Atravessou os andares em total e contemplativo silêncio, mantendo-se atenta ao que acontecia a sua volta, detestaria ser pega de surpresa por se deixar levar nos delírios de Delon. Quando finalmente atingiram o último piso, Raven esquadrinhou o perímetro, os olhos aguçados e a mente astuta da assassina marcaram todos os pontos que achava necessário.

Ela atentou-se rapidamente ao conde, mas não deixou-se demorar muito nisso: não podia levantar suspeitas, principalmente antes mesmo de começar o que precisava fazer. Notou também os seguranças e essa imagem guardou bastante na mente para o dia seguinte. Seguiu com Delon para a mesa, onde se sentou. E Delon lhe trouxe de volta a realidade, como quase sempre trazia, ao falar sobre sua felicidade, Raven lhe olhou por um momento, como quem tenta compreender sobre o que a jovem aristocrata falava.

Felicidade era algo inconstante, achava Raven, não lembrava-se de ter sentido qualquer coisa na vida que pudesse declarar como felicidade e perguntava-se muitas e muitas vezes porque tal sentimento marcava a vida das pessoas, as buscas incansáveis para se atingir o que consideravam felicidade. Raven satisfazia-se apenas com o contentamento.

O assassino levantou a mão enluvada, onde as garras de corvo tornavam-se protuberantes, tocou a face da jovem aristocrata com a luva áspera, num quase carinho. Não deferiu sorriu ou qualquer outra conjectura, sua mente estalou num alerta secundário, enquanto imagens brotavam da sua própria imaginação – aquela que lutava tanto para manter em cheque – e quase pode sentir o toque macio da pele de Delon e o gosto, sentiu a boca salivar e forçou-se a retomar seu próprio controle.

“Eu e o Diabo”. O pensamento lhe veio rápido. “Andando lado a lado.” – Raven baixou a mão, ajeitando-se desconfortável na cadeira em que se sentava. Voltou a olhar na direção do conde.

- Quero que contrate um guarda-costas. – Não disse que pedia, ou que achava melhor: Raven queria, praticamente uma exigência. - Tenho sangue nas mãos, Delon, problemas nos meus calcanhares e inimigos na minha sombra. Você precisa ter mais cuidado.

Sinceramente? Não se importava tanto assim com Delon a ponto de achar que sua morte fosse lhe causar algum desconforto, mas Raven não gostava de saber que o Tempo agia de maneira para lhe atingir diretamente e tão pouco estava a fim de entrar em uma semi-jornada para dar cabo de alguém que podia achar que matando seus próximos lhe afetaria. E Delon poderia ser útil num futuro próximo. Respirou fundo.

- E pare de pagar pessoas para me encontrarem, isso me irrita. – E irritava. Porque sentia-se vulnerável e não gostava da sensação. E além do mais, expunha-lhe demais aos caprichos de uma aristocrata. Esse tipo de coisa sempre poderia ser usado por alguém mais inteligente. - Fale apenas com Mattieu. Quando eu puder virei, quando não puder… Paciência. Você compreende o que te digo? - E suspirou, olhando em volta, não gostava dali, ah infernos, não gostava nada dali. - Diga-me, já andou de trem?
Elminster Aumar
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Sab Jun 24, 2017 10:40 pm


- A tentativa foi boa, mulher.

O guarda havia percebido a arma escondida de Raven e prontamente a retirou. Quanto ao relógio e a caixa com o anel, o homem apenas admirou-os por um milésimo de segundos antes de devolvê-los aos bolsos em que os encontrou. Ele deu passagem para as duas, e em seguida ficou sem reação com o sorriso cheios de intenções lançado por Raven em sua direção.

Já no terraço do último andar, a Sra. Delon ficou paralisada mediante o toque do assassino em sua face - não era uma paralisia gerada por medo, estava mais para uma paralisia de alguém que tinha tantas expectativas com o momento que não sabia o que fazer ou como proceder. Ela ouvia as palavras de Raven, os rostos relativamente próximos um do outro, e ela mexia levemente a cabeça enquanto o seu olhar deslizava dos olhos do assassino até em direção a sua boca. Em sua mente, ela possivelmente estava idealizando em sua mente um novo beijo que não veio a acontecer. Quando pareceu voltar ao presente, ela respondeu:

- Eu não tenho medo dos seus inimigos ou de quem quer que seja, não quando estou com você. Guarda-costas? Meus pais vivem querendo que eu ande com cinquenta homens me vigiando para onde quer que eu vá, mas não posso permitir isso, não quando venho me encontrar com você. Eu espero por semanas, às vezes meses, só para poder me encontrar contigo.

Era a menina apaixonada falando novamente. As duas se sentaram em uma mesa à beira da piscina. Delon só tinha olhos para Raven, ela quase que ignorava completamente o resto de toda a paisagem, enquanto a cada segundo que Raven observava os detalhes da cena, mais desgosto ela tomava por aquele lugar. As suas impressões iniciais sobre aquilo parecer um bordel de luxo caminhava por uma direção certa. Algumas das mulheres que ela viu na festa possivelmente eram profissionais do sexo, e Raven se imaginou como seria se encontrasse Cherry Bomb naquele local. A conversa prosseguiu, e Meilanie pareceu se encolher em seu assento quando ouviu o pedido para ela não pagasse mais pras pessoas procurarem por Raven.

- Desculpa, eu não faço por mal... Mas se isso pode prejudicá-la, eu paro de fazer. - Ao ouvir o Mattieu ser citado, a aristocrata pergunta genuinamente em dúvida: - O que ele é para você? Digo, ele parece sempre saber onde achá-la. Ele é incrível também.

Em seguida, Raven perguntou se ela já havia andado de trem.

- Sim, claro, muitas vezes. Pelo menos uma vez por ano minha família apronta as malas e viaja de trem. Mas por que a pergunta...?

Logo após a resposta de Raven, ela vê um homem se aproximar - um dos homens do conde. Ele tinha um volume na cintura que deflagrava o porte de uma pistola, mas ele vinha pacificamente. Chegou perto o suficiente das duas para apoiar ambas as mãos nos encostas das cadeiras. Ele deu uma rápida olhadela para Raven, mas o seu rosto logo virou em direção à Sra. Delon.

- Com licença, desculpe interrompê-las. Eu vim aqui dizer que o meu patrão tem interesse em conhecê-las. Ele está ali na última mesa - e apontou para o lugar em que o Conde Belgarten estava, agora com menos mulheres à sua volta do que antes.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Dom Jul 02, 2017 11:16 am

- Pois deveria. - Disse Raven, quando ouviu de Delon que ela não temia seus inimigos. Era novamente sua mente distorcida trabalhando. Raven conhecia o suficiente de si para saber que temer não era sinal de fraqueza, mas sim um instinto primitivo de sobrevivência. Não teria sobrevivido até ali, chego onde chegou se não temesse. Temer era parte primordial da existência. - A humanidade comete dois erros tolos com frequência: subestimar os outros e superestimar a si. - Falou, agora voltando a olhar para a jovem a sua frente. Delon era ridiculamente inocente em frente a vida, Raven achava, ao menos a vida de verdade. Aquela que pessoas como Raven e Mattieu estavam envolvidos.

- Eu temo meus inimigos e você deveria temê-los também, pois esse é o primeiro passo para sobreviver a eles. - Voltou sua atenção ao que acontecia a volta delas, seus pensamentos flutuando de maneira aleatória em prestar atenção no que Delon falava e no que acontecia. Raven deu de ombros levemente. - Mattieu pode arrumar alguém para ser seu Guarda-Costas, alguém que agradará você e a seus pais. - Não achava que fosse difícil encontrar um sujeito no meio de tantos, mas não tocaria mais no assunto, se ela quisesse bem, se não quisesse... Bom, paciência.

Raven ficou em silêncio, quando Delon explicava que não fazia as coisas por mal, de boas intenções o inferno estava cheio, não era. Seu olhar vagou aqui e ali, enquanto ouvia a nobre falar, até ouvir a pergunta a respeito de Mattieu, Raven lhe lançou um olhar curioso. - Alguém em quem posso confiar, por agora. - Resumiu, ou tentou, seu relacionamento com o velho. Era bem mais do que isso e Raven tinha essa plena consciência, mas não achava que seria uma boa ideia entrar em detalhes a respeito da importância do velho para si ou as coisas que ele fazia. Raven tinha suas próprias reservas a respeito de sua vida e aquela era uma delas.

Não dava a Delon mais do que ela realmente precisava saber, Mattieu era um aliado, isso era o básico e além disso, perigoso. Quando a resposta sobre o trem veio, Raven atentou-se as palavras de Delon, ignorando a pergunta. - Curiosidade. Não é dos meus transportes favoritos. Como é a segurança lá dentro? - Fez-se uma pausa e Raven notou a movimentação na direção das duas: instintivamente sua mão vagou por onde o coldre da arma estaria, mas pousou numa das pernas, enquanto a jovem se ajeitava na cadeira.

Raven o analisou de cima a baixo, como costumava fazer com qualquer estranho: focou-se nos detalhes. Na postura e em como ele pousava as mãos na mesa, numa pose quase relaxada. Determinava que sentia-se suficientemente seguro naquele lugar o que a fez olhar na direção do conde novamente, mas voltou sua atenção ao que o homem dizia.

Seu olhar vagueou do homem para Delon, aguardando. Afinal... Era ela quem "mandava" por ali, agora.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Sex Jul 14, 2017 11:57 pm


A Sra. Delon ouviu Raven falar sobre o temor que ela deveria sentir por seus inimigos. Enquanto ouvia com atenção, como se fosse uma aluna disposta a aprender sobre as lições da vida, ao mesmo tempo havia uma expressão indagadora que se acentuava em seu rosto.

- Mas quem são os seus inimigos? Por que eles querem o seu mal? - Delon provavelmente já esperava por uma resposta vaga ou mesmo nenhuma resposta, mas ainda assim arriscou a fazer a pergunta. Em seguida ela ouviu a proposta de Mattieu encontrar alguém para ser o seu guarda-costas. - Eu não quero ninguém me seguindo, me desculpe. Eu quero ser livre. Ir para onde quiser sem precisar dar satisfações a ninguém. Eu quero ser como você!

Os olhos sonhadores de Delon mostravam toda a sinceridade de sua afirmação. Ela via o assassino como alguém para se espelhar. Sobre a conversa do trem, Meilanie teve que parar para pensar um pouco antes de responder sobre a segurança das locomotivas a vapor.

- Bem... normalmente não tem muita segurança. Quer dizer, eles verificam as passagens, você embarca e segue viagem. Tem alguns guardas que ficam andando de vagão a vagão, mas não sei dizer quantos. Acho que isso depende, não?

Estava claro para Raven que a Sra. Delon não costumava reparar ou se preocupar com esse tipo de coisa. Provavelmente porque em suas viagens sua família devia levar os seus próprios seguranças.

Quando o homem do conde chegou à mesa, ele ficou esperando por uma resposta de Delon, e a garota, por sua vez, olhou para Raven como se esperasse alguma dica do que dizer. Raven não tinha muito o que fazer; ela estava ali com o disfarce de ser apenas uma guarda-costas, e evidentemente quem deveria dar a resposta ao homem era a própria Sra. Delon. Ela falou depois de um breve momento de silêncio constrangedor.

- Sim, claro, adoraríamos! - disse ela, lançando o seu sorriso mais simpático que certamente devia ter aprendido em alguma aula sobre etiqueta. E depois do homem dizer que o prefeito as estaria esperando e se virar de costas, Delon voltou a olhar para Raven, parecendo novamente a garota perdida.

- O que será que ele quer com a gente?

Independente da resposta do assassino, os dois tiveram que se dirigir até a mesa do conde. Gregory Belgarten estava sentado a sós e convidou-as a se sentarem assim que chegaram com um sorriso largo em seu rosto bonachão e estendendo os braços de modo expansivo.

- Fiquem a vontade, garotas, fiquem a vontade. Tomem, se sirvam desse delicioso vinho! - Ele mesmo tratou de encher duas taças com o vinho pela metade que ainda se encontrava em sua mesa. Era possível notar uma aliança de casamemto presa em um dos seus grossos dedos. - Como devo a honra de chamar as duas damas?

- Meilanie, Meilanie Delon, senhor.

- Sério mesmo? - perguntou o conde, surpreso. - Fico encantado em ter uma Delon em minha festa. Mas me diga, ela é mesmo sua guarda-costas? - perguntou olhando para Raven. - Você não faz muito o tipo. Quer dizer, não me leve a mal, mas é apenas a minha impressão. Você parece tão... delicada.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Sab Jul 15, 2017 6:25 am




- Se eu soubesse quem são, não teria que me preocupar com eles, pois estariam mortos. - Raven não se preocupava muito com aquilo, com a vida que levava, era mais que natural que criasse inimizades aqui e ali, mas não podia viver as sombras de seus próprios temores, deveria respeitá-los e cuidar para que não tomassem proporções devastadoras. Eventualmente, saiam das sombras e então teria de lidar com eles.

Voltou seus olhos escuros na direção da jovem, quando ela falou e então Raven riu, movendo a cabeça muito levemente. Liberdade, não era? Conceito interessante que a maioria levava levianamente. Raven estava longe de se considerar uma criatura livre, muito pelo contrário, sentia as correntes em seus pés e em sua mente. Era seu proprio prisioneiro e carcereiro, escravo da sua própria vida. Mas não achava que Delon fosse entender essas coisas. Não achava que ela entendesse muitas coisas, no final.

Ouviu atentamente o que lhe era dito sobre os trens, mas já imaginava coisas assim, portanto a informação só acrescentava certeza. Teria de se preocupar mais com os seguranças do alvo do que com o trem em si. Raven respirou fundo, e então o homem chegou e Raven se calou.

Quando Delon lhe olhou daquela forma, Raven apenas olhou de volta, mas tinha aquela expressão plácida e vazia, de quem não está realmente prestando atenção no que acontecia. Deixara a cargo da jovem decidir o que fazer. Quando Delon finalmente resolveu por ir, Raven, servil, se levantou, ajeitou o sobretudo e esperou Delon dar os primeiros passos, cruzando as mãos às costas, Raven moveu-se atrás dela.

Raven não se sentia exatamente bem ao se aproximar do alvo, sua mente explodiu em possibilidades. Chegou a respirar fundo, enquanto suas ideias tomavam tantos e tantos rumos.

Ninguém pode me salvar agora. - Pensava, e sorria, e tremia e respirava fundo de novo. Sentiu a boca salivar junto com um coração acelerado. Tudo aquilo parecia levar uma eternidade, mas não passavam de um segundo, quando os passos cessaram e Raven estava lá, de pé, como uma rocha em um muro. Em momento algum seu olhar fora para o homem, Raven olhou a mesa, olhou as peças dispostas, as peculiaridades. Achava que podia até mesmo sentir o cheiro do vinho e decifrar sua marca, porque sentia seus próprios sentidos ampliados como um felino.

O único som é o chamado do Tempo. É fazer ou morrer.

Não se sentou, claro. Estava a "serviço" de Delon e deveria manter a pose. Estava um passo atrás da cadeira da jovem, as mãos às costas.

- Charlotte Crow. - Respondeu, sem pestanejar, sem parar para pensar ou qualquer coisa. Charlie era um de seus nomes. Charlie, Charlotte, qualquer um que lhe servisse no tempo que precisasse. Raven não tinha nome - ao menos não se lembrava de ter um - Charlie/Charlotte vinham de uma necessidade de criar-se identidades. Era Charlie quando precisava ser, era Charlotte quando era conveniente ser.

Mas sempre era Raven.

Então o tempo piscou e Raven foi com ele.

Negou-se a fechar os olhos, mas a visão era tão clara, tão presente que ela poderia tocá-la. Podia sentir a lamina penetrando a carne, ouvir o coração bater suas últimas batidas e o cheiro do vinho tornou-se cheiro de sangue.

Uma vez mais antes de eu ir, deixo você saber... Ninguém pode nos salvar agora.

E o último suspiro, ah, o último suspiro. Respirou fundo, quase num êxtase pessoal, mas retornou ao seu próprio tempo. Os olhos escuros pela primeira vez indo na direção do Conde.

- Até a mais delicada rosa tem espinhos. - Falou.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Seg Jul 24, 2017 12:15 am


O Gregory Belgarten soltou uma sonora risada após ouvir a frase dita por Raven, levando-o a tomar algum tempo antes de se recompor. Quando o fez, ele se virou para Sra. Delon, ainda com o esboço do riso brincando pelos seus lábios ao dizer:

- A sua guarda-costas fala pouco, mas quando fala demonstra ser boa com as palavras! Eu gostei dela, gostei muito dela - disse o conde. - Mas me diga, minha senhora, está gostando da festa?

A Sra. Delon olhou para os lados. Ela viu uma menina passar seminua perto dela e seu corpo se enrijeceu levemente. Era um sinal de desconforto com aquilo, mas a sua resposta foi dentro da etiqueta que levara anos aprendendo.

- Ah, sim, claro, eu estou adorando. A festa está muito agradável, senhor, e eu devo os meus parabéns pela sua nomeação. Como conseguiu se tornar conde?

Gregory pareceu não notar na rápida mudança de assunto proposto pela Meilanie e respondeu com orgulho na voz.

- Sabe como é, boas relações constroem muito mais do que amizades. Graças à Menoth, eu tenho muitos amigos e pessoas de confiança. E deixando a modéstia um pouco de lado, Sra. Delon, eu faço um ótimo trabalho em Ellsporth. A cidade cresce e prospera a cada dia que passa, e espero fazer o mesmo com todo o ducado caspiano. Temos muito por fazer, a instalação de mais linhas férreas se faz necessária. Sabia que muitas cidades dentro do ducado ainda precisam se utilizar de carruagens para fazer suas viagens? A sociedade e a tecnologia avançaram muito nos últimos anos, mas isso não chega para todos na mesma velocidade.

Era o político falando. Meilanie acenou com a cabeça, concordando, e olhou para Raven, reparando em como ela estava perdida ali, ainda mais com toda essa última falação do conde.

- Você tem toda a razão, Sr. Belgarten. Eu espero... eu espero que todos os seus planos deem certo. Hã, eu e Rav... quer dizer, Charlotte, não poderemos ficar até muito tarde. Sabe como são os meus pais, eles são chatos com essa coisa de horário. Então receio que devemos deixar o senhor e aproveitar um pouco mais da festa antes de irmos embora. Espero que o senhor entenda.

- Eu entendo, é claro - disse o conde, olhando para as duas e imaginando coisas em sua cabeça. - Se vocês quiserem aproveitar com alguma privacidade, há quartos disponíveis no andar debaixo. Eu daqui a pouco estarei indo para o meu também, é o quarto de número doze - e terminou dizendo lançando uma piscadela sugestiva para as duas.

Meilanie agradeceu e puxou Raven para longe de Gregory. As duas andavam a beira da piscina em direção as escadas pros andares inferiores. Meilanie pegou delicadamente no braço de Raven, e disse aos sussurros:

- Sabe, até que não seria ruim pegarmos algum quarto para nós duas. Só eu e você.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Sex Jul 28, 2017 12:48 pm




Raven ficou em silêncio de novo, preferia observar os trejeitos do conde do que realmente conhecê-lo. Ela tinha os olhos e ouvidos bastante atentos ao que ele fazia ou falava. Aquilo era bem mais importante do que se focar nas pomposidades desnecessárias. As pessoas gostavam de falar demais, achava. Havia uma latente necessidade de excessos de palavras, de atenção. Jogos dos quais Raven raramente gostava de fazer parte.

Delon poderia lidar com isso sem muitos problemas e Raven não precisava se preocupar com essas coisas. Mas Delon tinha feito uma boa pergunta quando buscou mudar de assunto e Raven atentou-se a resposta como um caçador a espreita.

Mas para sua infelicidade, era apenas aquele velho blábláblá de qualquer político. Raven suspirou e olhou em volta, antes de prestar atenção neles novamente. Deu um passo para trás, ao ver Delon se levantar e moveu a cabeça para o conde, ignorando todas as leves insinuações nas palavras do velho.

Raven acompanhou os passos de Delon, mas sua cabeça já estava em outro lugar ha algum tempo, planejando e idealizando seus próximos passos. Quando a jovem falou, Raven apenas lhe lançou um olhar breve e desprovido de qualquer sentimentalismo.

- Vou levar você para casa. Tenho trabalho a fazer. - E então seguiria para a saida, afim de recuperar suas armas.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

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