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Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

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Elminster Aumar
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Ter Ago 15, 2017 11:18 pm


As palavras de Raven soaram para Meilanie como uma batida seca de um martelo em gelo duro. Despedaçou todas as suas esperanças e planos para aquela noite. Não que Raven estivesse se importando, mas com tristeza em seu semblante, a Sra. Delon apenas acenou afirmativamente com a cabeça e procurou pela saída do lugar. Os guardas devolveram as armas de Raven, e o assassino levou a jovem nobre até as proximidades de sua casa numa viagem rápida e silenciosa. Ele não encontrou problemas pelo caminho.

A volta para a oficina de Mattieu Croix foi mais longa e serviu para Raven pensar se o breve encontro com o conde fora de algum modo produtivo. Pelo menos agora ele já não era um rosto desconhecido na multidão. Mattieu demorou para atender a campainha, e quando o fez estava mais rabugento do que o normal.

- Raven, você sabe que horas são? - questionou ao esfregar os olhos. - Ah, você quer a seringa. Eu pensei ter dito para você passar aqui só pela manhã. Mas tudo bem, eu tenho aqui em algum lugar...

Mattieu fez Raven esperar do lado de fora por dez minutos antes de voltar trazendo uma seringa e uma agulha.

- Espero que essas coisas lhe sejam úteis. Você tá com uma cara péssima. Algo me diz que você foi se encontrar com a Sra. Delon.

Ele esperou que ela dissesse algo, especialmente sobre o que andara aprontando durante a noite toda, mas estava consciente da possibilidade dela não dizer nada ou até mesmo mentir. Era realmente tarde da noite e Raven se retirou para o seu refúgio. O dia seguinte prometia.


A estação caspiana de trem estava lotada e barulhenta. Dali havia trens que levavam as pessoas para todas as partes do continente, desde os charcos nublados de Ord até o império agressivo de Khador. O trem que Raven buscava era um que a levaria para Ellsport, e ela o encontrou. Uma locomotiva escura como piche e que possuía poucos vagões, afim de diminuir o peso e acelerar a viagem.

A plataforma que dava para esse trem estava um pouco menos cheia do que as outras. Com os seus olhos aguçados, ela observava de longa o local antes de se aproximar. Não demorou muito para avistar o conde e o grupo de seguranças que o cercava. Mas havia uma novidade naquele grupo: Gregory Belgarten estava acompanhado de um gigante-de-aço robusto movido a carvão.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Qui Ago 24, 2017 10:34 am




Raven estava diferente, quando retornou à entrada para recuperar suas armas: a graça inicial com o segurança não se estendeu, ali ela apenas recuperou o que lhe pertencia, deu o braço para Delon - eram pequenos detalhes que sabia como acrescentar - não custava nada manter Delon envolta em seus pequenos devaneios, e então partiu.

Não disse uma palavra sequer pelo caminho, ao menos nada que pudesse ser considerado uma conversa, às vezes Raven olhava para cima, observando o céu afim de encontrar estrelas, às vezes ela murmurava como quem deixa os pensamentos escaparem pela boca, mas não falava coisa com coisa ou algo que fizesse sentido prévio para a jovem agarrada em seu braço. No final das contas, sua mente era o olho de um furacão, que lhe consumia a sanidade pouco a pouco.

Deixou a jovem Delon em casa e aguardou até que a aristocrata entrasse nos domínios da segurança que o dinheiro dos seus pais podiam prover a ela. Observou, lá fora, até que a jovem estivesse atrás das portas do casarão e então deu as costas àquele lugar, Raven não tinha traços de romantismo em sua personalidade, mas por um leve instante suas ideias giraram em torno da possibilidade de nunca mais ver qualquer coisa daquelas: Delon, a casa, a rua e o céu. Afinal de contas, com a vida que levava, eventualmente alguém teria a lamina ou o gatilho mais rápido que o seu, porque o Tempo era traiçoeiro e ele cobrava suas dividas.

Ela caminhou sem pressa, pelas ruas da cidade, as mãos atrás das costas, o olhar às vezes perdido na movimentação noturna que acontecia, mas sentia-se distante e deslocada, como se alguma peça não se encaixasse em todo aquele quadro, Raven sempre fora bastante simplicista em suas concepções, ela não guardava muitas memórias além das que julgava necessária e seu passado continuava a ser uma neblina numa noite escura, já que em muitos níveis, sua mente se recusava a lembrar-se de quem ela tinha sido antes de ser Raven. Não podia dizer se aquilo era uma bênção ou uma maldição, mas podia afirmar que era um fardo.

Quando bateu à porta do velho - sua segunda e última parada naquela noite - ela o encarou com seus olhos escuros e inexpressivos e não se importou em tecer uma resposta a sua pergunta. Achava aquele tipo de interação tão desnecessário e desinteressante que não conseguia enquadrar-se nele, era como uma falha em seu próprio modo de ser. Aguardou em silêncio do lado de fora, novamente por puro instinto erguendo o olhar para o céu e observando as nuvens e as estrelas, baixou a cabeça apenas quando o velho retornou e diante de suas afirmativas, Raven esboçou um leve sorriso no canto dos lábios.

- Ela pode ser útil, um dia. - Foi o que lhe disse, no fundo era apenas parte do que achava sobre Delon e seu fascínio no que Raven era, Delon poderia ser uma peça importante no seu Tempo, mas Raven não sabia exatamente como lidar com a moça e suas paixões romancistas, já que diferente de Delon, não se via enroscada em tramites de relacionamentos que não fossem interpessoais. Não criava laços desnecessários, não tinha interesse nessas experiências. Raven andava sozinha e sozinha deveria viver. - Boa noite Mattieu, espero que nos vejamos em breve. - Ela curvou-se levemente numa falsa e jocosa reverencia, antes de dar as costas ao homem e voltar a caminhar. Guardará os itens recebidos dentro dos bolsos das roupas e rumou para o único lugar em que se sentia completamente sã.

[...]

Raven ergueu o torço como um afogado saindo da água, tinha os olhos tão arregalados que podia jurar que suas orbitas iam estourar e cair em suas mãos; mãos essas que usava para se apoiar e a outra estava em cima de uma de suas muitas cicatrizes, como se cobrisse um ferimento que não estava mais lá.

Ela se levantou e caminhou até a janela, puxando de leve as cortinas que a cobriam; tinha dormido o que? Duas? Três horas talvez. Suas mãos tremiam como as mãos de um viciado em abstinência. Passou as mãos no rosto, observando o interior do cômodo: não havia decoração ou qualquer toque pessoal que desse a impressão de que aquilo era um lar; não fixava residência, não se prendia.

Havia algo naquele sonho em particular que lhe perturbava: a sensação de familiaridade. Aquela sensação de que já estivera lá, mas não se lembrava onde "lá" era. E acrescentava mais uma gota em um copo transbordante de dúvidas.

Retornou ao amontoado de tecidos que chamava de 'cama', o sono viria, ela sabia, precisava apenas esperar. Porque o Tempo era tudo.

Não houve mais sonhos e quando se levantou muito antes do sol, Raven vestiu-se com vagareza e cautela, lembrando de puxar o ar para dentro da seringa armada e guardá-la dentro da bota. Então rumou para a estação.

Lá, como um rato esgueirando-se pelos esgotos, observou o local e as pessoas, até identificar e localizar o que realmente lhe interessava.

Quando avistou o Conde e notou a pequena mudança de "cenário", Raven respirou fundo, mas não se deteve em seguir na direção do vagão, ao que tinha planejado, não acreditava que o constructo pudesse ser um grande empecilho, mas deveria manter essa informação em mente. Ela puxou o capuz para cima da cabeça, preferia não ser vista, ao menos, não por enquanto.

O Tempo tinha começado a correr. Agora era fazer ou morrer.


Elminster Aumar
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Seg Set 11, 2017 11:25 pm


O conde e sua trupe foram os primeiros a embarcar, num dos vagões da frente. Raven percebeu que o vagão inteiro havia sido reservado para Gregory Belgarten e seus seguranças, além do gigante-de-aço cujo propósito dele estar ali era uma incógnita para ela. Apesar de imponente o construto parecia possuir feições quase humanas. Ao aproximar-se da plataforma, Raven teve que encarar uma pequena fila de embarque. Seu bilhete, obtido graças a Mattieu, era destinado ao quinto vagão da locomotiva. Ela estava, portanto, a três vagões de distância de seu alvo.

Apesar de fazer muito tempo que Raven não andava de trem, ela não estranhou nenhum pouco o seu interior. Os vagões eram divididos em pequenas cabines para dois a quatro passageiros, e Raven teve que dividir a sua cabine com uma família de anões da distante Rhul. Era um casal e um filho, e não levou muito tempo para ela descobrir que eles estavam aproveitando suas férias para conhecer as "cidades dos humanos". Não havia nada de anormal neles, além da aparente péssima necessidade de querer compartilhar as impressões de sua monótona viagem com Raven. Eram criaturas contraditórias, os anões. Eles eram capazes de se manter fechados num casulo tanto quanto se abrir para um misterioso desconhecido. A assassina, contudo, não estava lá para ouvir suas histórias.

Raven reparou em duas coisas: ninguém a impediu de entrar com as suas armas; e havia apenas um segurança em cada extremidade do vagão. Os homens armados estavam ali para, além de evitar quaisquer problemas, cuidar para que ninguém fosse de um vagão para outro o qual não tinha direito. Mas não havia problema caminhar por entre as cabines, e em cada cabine havia uma janela.

A locomotiva logo se deu a soltar os seus sonoros apitos, indicando que estava de partida. Raven não se recorda da última vez em que esteve fora de Caspia; ela passara quase toda a sua vida vivendo nas ruas da metrópole, que de tão grande, fornecia tudo o que ela precisava. Certamente a última vez em que esteve para viajar foi para também realizar algum trabalho, como aquele que estava prestes a fazer. O trem começou a se mover sobre os trilhos, e a medida que foi ganhando velocidade, a estação e a cidade foi ficando cada vez mais longe, até que o trem virou uma curva e elas sumiram de vez. Não era uma viagem longa até Ellsporth, Raven sabia, e se ela quisesse terminar o serviço antes de chegarem em seu destino, ela precisaria agir rapidamente. Em meio aos seus devaneios, a voz do anão pai se fez ouvida quando ele lhe fez uma pergunta:

- O senhor 'tá bem? Você quase não disse nada desde que entrou na cabine.

Ela percebeu que os três anões a estavam encarando, com olhares que expressavam uma mistura de apreensão e dúvida. O filho, de fato, parecia estar com medo com as esquisitices da assassina.

- Cê tá com fome? Quer algo para comer? Eu tenho ração de viagem comigo - insistiu uma vez mais o pai.


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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Qua Out 04, 2017 4:00 pm




"But I won't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive"
Ordinary World,
Duran Duran




Eu tento evitar olhar para mim todos os dias. Não aquela aparência vista do espelho, o que tento fazer a cada segundo, a cada badalada inacabável do Tempo é não enxergar o que está aqui, dentro do que sou, do que fui. Vejo as pessoas, sinto seus corações, seus cheiros. A vida. E então, sinto nada.

Andei, passo após passo entre a multidão, mas meu olhar é vazio e minha existência é parca, não faço parte disso, nunca fiz. E é quando as feras despertam selvagens e sedentas. Minha mente entra em torpor e meus sentidos são tudo o que restam. Então, como clarões elas vem: nunca se afogaram, sobreviveram, livres e soltas, inibidas, limitadas até que tudo seja destruído. E é com elas - as memórias - que tenho certeza que estive num trem antes e antes.

Os corredores transformaram-se e moldaram-se, mas bastava apenas um piscar para trazer minhas feras para o agora; tínhamos um trabalho a fazer, poderíamos enlouquecer mais tarde. As pessoa comigo falam, mas a verdade é que não as escuto. Estava pensando; era um trabalhinho de merda, não era? O contratante sequer teve a decência de facilitar a entrada, de subornar os guardas. Valia a pena? Questionava-me num momento. Arriscar-se tanto para matar a porcaria de um gordo nobre? Não tinha a menor intenção de morrer por conta de um sujeito como aquele.

Morrer não me incomodava.

Morrer por nada era inadmissível.


Mas então sou puxada de volta por uma voz, arqueio levemente uma sobrancelha quando meu olhar paira pelo trio que volta-se a mim. Há um misto, entende? De tantos sentimentos e sensações.

- Há algum modo de entrar em contato com um passageiro de outro vagão?

Ignorei sobre a comida. Minha fome não é saciada, minha fome não tem fim.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Sab Out 07, 2017 10:25 am


Era estranho para Raven estar num vagão de trem, compartilhando uma cabine com pessoas absolutamente normais e tediosas a não ser pelo fato deles serem anões. Ela se sentia como um corvo fora do ninho, mas com a vontade de encontrar uma carniça para beliscar, e por isso perguntou para eles como fazia para entrar em contato com um passageiro de outro vagão.

O anão pai pareceu pensar no assunto por trás de sua espessa barba.

- Hm... não conheço muito bem os seus costumes... - começou o anão, indeciso. - Por que 'cê não chama o guarda e pergunta para ele? Eu os vi, tem dois guardas, um no inicio do corredor e outro no fim dele.

Raven ainda percebia o olhar inconveniente do anão filho sobre ela. O garoto - se é que podia chamar um anão assim - chegou até mesmo a puxar a manga da roupa da sua mãe para comentar algo que ele achou provavelmente achara esquisito no Raven. O pai não compartilhava nem estava atento aos medos de seu filho, e, em tom de brincadeira, comentou:

- Veja bem, na pior das hipóteses 'cê pode subir em cima do trem pela janela e pular para o outro vagão - e ele riu em seguida, obviamente achando aquela situação um absurdo.

As opções de Raven não eram muitas. Era verdade que ela teve poucas informações e pouca ajuda para fazer aquela tarefa. Não era de se estranhar que nenhum outro assassino tivesse aceitado o trabalhou. Ela pretendia matar um dos homens mais importantes de Caspia e nem mesmo sabia direito os motivos disso ou quem era o contratante. Era um trabalho de mercenário. Valia apenas pela alta quantia de ouro que ela receberia, cuja quantia era de cinco mil coroas de ouro, segundo Mattieu. Contudo Raven não viu nem mesmo o brilho de uma única dessas moedas. A seringa e a passagem no trem foram as únicas ajudas que recebeu. Nenhuma dica de como executar o trabalho. Era ela por ela. A impressão que passava era que o próprio Mattieu não acreditava muito no sucesso daquela missão, e que talvez por isso ele tenha evitado falar os nomes das pessoas que queriam o conde morto.

Raven precisava agir. A orientação era para assassiná-lo enquanto o trem estivesse viajando e que se parecesse com um acidente. Essa segunda parte seria a mais difícil, ela sabia disso. Pela janela, mencionada pelo anão pai, Raven avistava campos cobertos por uma vegetação alta e algumas fazendas ao horizonte.

 

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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Seg Nov 06, 2017 10:55 pm

Seus olhos voltaram para as janelas, para a paisagem que passava correndo por ali. Ela não sabia exatamente o que buscava olhar - a verdade é que não buscava por coisa alguma -, mas seu olhar era constantemente atraído de volta para lá. Era difícil afirmar que Raven estava ouvindo alguma coisa do que aquelas pessoas falavam. Ela mordeu os lábios, tão forte que quase os rasgou, mas cessou a pressão antes que isso acontecesse, seu olhar negro e vazio retornou ao trio inusitado à sua frente e ela respirou fundo.

Tempo.

Raven ergueu a mão, fechando os dedos, deixando apenas o indicador levantado e os levou aos lábios, fazendo um sinal de quem pede silêncio, houve um instante, um breve e intocado instante em que ela quase sorriu. "Vai ser nosso segredinho", ela sussurrou, antes de voltar-se para a janela, apoiando uma das mãos no banco em que sentava, girou no seu próprio eixo, os pés unidos.

Uma.

Duas.

Três vezes, ela chutou, até achar que a janela tinha cedido espaço suficiente para que ela pudesse passar. Ela baixou os pés e não deu atenção a sua plateia inicialmente, moveu o corpo na direção da janela, e estava prestes a tentar começar a passar por ela, mas então olhou os anões.

- É uma coisa assustadora, não é?" - Raven falou. - Amar algo que a morte pode tocar.

Ela não tinha tanta certeza de onde vinha aquele pensamento, mas ele chegou, como muitos e muitos outros chegavam num infinito fluxo incontrolável. Enfiou o torso para fora da janela buscando onde segurar e puxar o resto do corpo para fora. E havia aquela sensação inicial, aquela... Premeditação, um quase êxtase. Não conseguia definir bem, mas agora empurrava tudo para longe, agora ela precisava se focar ali, no que fazia. No Tempo que corria. E o Tempo não era seu aliado naquele momento.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Qui Nov 09, 2017 10:42 pm


Os olhares dos três anões acompanharam a trajetória do dedo indicador de Raven em direção aos seus lábios, como quem pedisse silêncio. E os anões atenderam o seu pedido. Eles pareciam hipnotizados de temor. Quando ela falou, o anão pai, que antes tentou passar uma impressão de quem estava no controle da situação, agora engoliu em seco sem acreditar no que estava acontecendo. A assassina lhes deu às costas, e com os pés, chutou a janela até que ela se abrisse o suficiente.

Virando-se uma última vez em direção aos anões, Raven disse uma última frase enigmática antes de pular para o lado de fora da janela. O mais jovem dos anões chegou a soltar um grito de espanto, mas o seu grito foi logo sufocado pelo barulho do vento que agora atingia o rosto da assassina. O trem estava em alta velocidade e Raven precisava fazer força para se segurar onde podia. Um vacilo e ela seria arremessada no chão a uma velocidade e força assombrosas. Mas ela era perita no que fazia, afinal ninguém conquista a fama que tem sem algum mérito. Apoiando suas mãos no teto do vagão, ela impulsionou seu corpo com toda a força que tinha e se ergueu de pé sobre o trem, gastando algum tempo para conseguir se equilibrar com as fortes rajadas de vento que a golpeavam.

A vista dali de cima, ao menos, era bonita.

Raven avançou com cautela, mas foi ganhando confiança a medida que conseguia se manter de pé, e quando já se aproximava da beirada do vagão, ela correu os últimos passos e saltou para o próximo vagão. Sem perder as contas de quantos vagões ela teria que pular, Raven foi saltando de um para o outro, até chegar ao vagão que transportava o conde. A assassina conseguia ouvir a voz do Sr. Belgarten, o que possivelmente indicava que ele estava próximo de alguma das janelas abertas.

- [...] não vejo a hora de me encontrar com a minha filha - dizia o conde a quem quer que fossem os seus ouvintes. - Eu sei o quanto ela ficará feliz com a minha nomeação. Além do mais, ela tem muito a me contar também sobre a sua estadia em Vicari. Espero que o guarda-costas tenha feito bem o seu papel.

O Tempo que Raven tanto perseguia chegou. Era hora de agir.



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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Sex Nov 17, 2017 12:14 am

Raven esperava que os anões não fossem fazer alarde, não tinha tantas certezas se sua leve ameaça seria suficiente para mantê-los na dele, mas esperava que sim. O vento ali incomodava e a impedia de pensar com clareza, já que o próprio barulho lhe era incomodo, mas tinha aquela coisa: aquela força interior que forçava sua cabeça a voltar quantas vezes fosse necessário. A fome não era grande e o Tempo não era seu amigo.

Ela parou, por um micro segundo para observar a vista, havia algo naquilo que lhe trazia algum conforto: se morresse ao menos não seria em um beco escuro e sujo. Mas morrer para ela não era uma opção, ao menos não enquanto pudesse evitar. Raven ficou um momento ali, após os saltos, após todo o trajeto até o vagão em que o sujeito estava, não para escutar a conversa dele ou para qualquer outra coisa nesse sentido, ela ficou ali porque era um momento dela.

Então O Corvo se moveu, como uma dança, a coisa toda parecia acontecer em câmera lenta. Como uma dança, ela seguiu. Raven se posicionou da melhor maneira possível: era como se visualizasse o que pretendia muito antes de fazê-lo. Ela se apoiou com as duas mãos e usou as pernas como o maior impulso para romper a força da janela e abri-la de uma vez e foi assim que fez.

Raven sentiu o corpo cortar o vento, sentiu o impacto dos pés na janela e logo depois no chão, ela se levantou num segundo, após saltar e 'cair' de pé como um felino, se levantou erguendo as mãos como quem se entrega por um crime que sequer cometeu - ainda - seu capuz estava abaixado e o cabelo negro trançado jogado no ombro esquerdo: seu sobretudo estava fechando, ela correu o olhar muito rápido pelo ambiente antes de focar-se em quem realmente interessava.

Sorriu, de canto, um sorriso curto e cheio de intenções - não as quais imaginaria o homem, achava. - Difícil de alcançar, você. - Raven falou, lambeu os lábios. - Vai me revistar? - Completou, ainda sorrindo.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Sex Nov 24, 2017 12:10 am



Alguns pensamentos passaram pela mente de Raven enquanto ela estava de pé sobre o trem sentindo a força do vento contra si. Apesar de seus instintos serem fortes, a assassina sabia calcular qual a melhor saída para resolver sua missão. E a saída que ela encontrou foi se apoiando nas mãos e jogando as pernas contra a janela do vagão. A janela já estava aberta, fato que facilitou a sua entrada triunfal. Com enorme agilidade, Raven pousou no vagão em pé e já aproveitou para observar como estava a situação lá dentro.

A começar, o vagão ali era de classe nobre, bem diferente do vagão em que ela estava com os anões. Não havia divisórias ou câmaras; o lugar todo parecia uma enorme sala, com sofás, mesas, tapetes e até quadros. Ela de imediato reparou no conde Belgarten, sentado numa poltrona bem perto. Ao seu lado constava o gigante-de-aço que ela vira na estação; um construto de metal de mais de dois metros de altura e com feições perturbadoramente humanas. E por todo o resto do vagão estavam os guarda-costas do conde. A expressão de todos era de descontração, isso antes de verem Raven invadir o lugar de um modo bastante inusitado.

Os guarda-costas imediatamente tomaram outras posturas e sacaram suas armas, mas o conde parecia confiante. Belgarten sorriu para ela quando a reconheceu.

- Ora, você por aqui? Por onde anda a senhora... como era mesmo o nome da sua protegida? - Raven notou que o conde trazia um copo de vinho numa das mãos. - Bem, não que importe muito no momento, pois você nos pegou a todos de surpresa. Por que você não se aproxima mais para que eu possa revistá-la, se esse é o seu desejo?

Belgarten continuava sentado em sua poltrona. O fato dele não ter visto Raven portar nenhum arma lhe dava confiança. Os seus guarda-costas, por outro lado, continuavam tensos com a situação e com a mira das armas apontada para a misteriosa mulher. Tirando o próprio conde, quem estava mais próximo de Raven era o gigante de aço, que observava tudo com um olhar inabalável.



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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Seg Nov 27, 2017 12:07 am

Raven passou os olhos pelos presentes, aquela sim era uma grande, grande ratoeira e sinceramente via poucas possibilidades de escapar dali inteira. Mas o que mais lhe interessava era que não se preocupava tanto com isso, ao menos não tanto quanto achou que se importaria. Suspirou, seu olhar voltando para o gordo.

- Armas são como um pau, rapazes. Se não vão usar isso, não tem motivos para ficar exibindo.

De novo, ela fechou os olhos muito lentamente. O ambiente era tão estranho, tão ausente das coisas das quais estava acostumada. Precisava se localizar, encontrar seu próprio eixo e desenvolver. Seus olhos se abriram, esperava sinceramente não se encontrar na mira das armas. Então se moveu, ela parou próxima a mesa em que o gordo estava sentado, observando-o. Inclinou-se, então, apoiando os cotovelos na mesa, os olhos negros fixos nele.

- Temos que conversar. - Ela disse, numa voz baixa. - Sozinhos.

Havia algo naquilo tudo que lhe desagradava. De maneira repentina lembrou-se do seu acesso com Meilanie, como pontadas de dor, recordou-se do beijo e do cheiro da mulher. Raven lambeu rapidamente os lábios, começava a cogitar a possibilidade da carnificina: mas qual eram os probabilidades? A mente trabalhava rápido, derrubaria o que? Dois, talvez três, o Tempo era seu inimigo, precisava ser mais inteligente que ele. O trabalho não valia sua vida.

Não aquele.

Ela se ergueu novamente, olhando em volta, havia em si um ar tão... Superior. De certo modo, agora sentia-se em seu território, ela tinha todas as atenções, senhoras e senhores, lá estava O Corvo, exibindo suas penas feitas do negrume.

Como era aquela música? Ah, claro.

Evil on your mind
Trouble at your feet
Living by the gun
The Devil's got you beat


O demônio, ah, o demônio sempre vencia.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Seg Dez 04, 2017 10:05 pm



A confiança de Raven era tão grande que deixava os homens do conde apreensivos, mesmo eles estando armados e em maior número. O conde Gregory, por sua vez, deleitava-se a cada frase proferida pela mulher.

- Você possui um senso de humor peculiar - apontou Gregory. A assassina, em seguida, se acotovelou sobre a sua mesa e disse que precisavam conversar a sós. Pode ter sido fruto da imaginação de Gregory, mas ele vislumbrou um pequeno volume na região do peito da assassina quando ela se encurvou a sua frente. O conde pareceu avaliá-la por algum tempo antes de responder: - Por que não? Uma mulher que entra do jeito que entrou aqui deve ter coisas interessante a falar... ou a mostrar.

Aquilo gerou uma onda de reclamações de seus seguranças, que tentaram fazê-lo recuar daquela ideia estúpida. Porém o conde continuava confiante em si próprio. Ele ergueu o braço afim de fazer os seus homens calarem a boca.

- Por favor, eu acho que consigo passar alguns minutos sem vocês por perto. Me aguardem do outro lado da porta.

Os homens não podiam negar uma ordem do conde, mas se dirigiram para fora do vagão bastante contrariados. Gregory esperou pelo último deles deixar o vagão para se virar novamente à Raven.

- Há algo em você que me fascina, mas eu não sei dizer o que exatamente - disse o conde, inclinando-se também um pouco a frente para ficar mais perto. - Você fala pouco, mostra pouco... e ainda assim é fascinante. Eu não possuo todo o tempo do mundo para você, mas o pouco tempo que tenho é o tempo que quero usar para conhecê-la melhor.

Gregory Belgarten podia ter sido imprudente em liberar os seus homens, mas ele não foi completamente burro. O seu gigante-de-aço havia permanecido ao seu lado, um construto de pura força. E ele sozinho provavelmente valia mais do que todos os seguranças humanos que haviam deixado o vagão.



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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Rosenrot em Qua Dez 06, 2017 5:14 pm




"Become the beast
We don’t have to hide
Do I terrify you
Or do you feel alive?
Become the Beast - Karliene


Raven esboçou um leve e curto sorriso, quando ergueu o corpo de novo, seu olhar escuro percorreu a sala de maneira aleatória não dando tanta atenção aos seguranças que reclamavam: compreendia suas frustrações, mas não podia concordar com elas. Ela aguardou, paciência era uma de suas grandes virtudes.

Quando finalmente o último dos cordeiros deixou o local, voltou-se ao homem, seu olhar vazio e inexpressivo o encarava, podia ouvir suas palavras, mas pretendia não compreendê-las. Ela e o demônio, andando lado a lado. A criatura de aço, por qualquer motivo que fosse, não lhe assustava.

- O desconhecido é sempre interessante. - Falou ela, abrindo o sobretudo, Raven pegou a pistola na cintura e olhou para o gigante de aço, antes de cuidadosamente colocá-la na mesa, frente ao Conde, seus olhos voltaram-se para ele, quando ela deixou a arma ali e deu alguns passos para trás. - Alguém quer você morto. - Relatou, não havia emoção nenhuma em sua voz ao dizer isso: o trabalho ainda não lhe agradava. - Você tem que tirar a própria vida, Conde Gregory, porque se esse trem chegar ao destino com você vivo dentro dele, vão eliminar sua filha.

Raven se sentou calmamente: era como estava, completamente calma e fria. Ela mantinha os olhos nele. Poderia matá-lo, é claro. Poderia simplesmente atirar nele e se jogar do trem ou qualquer merda assim. Mas tinha sido vista, não ia parecer um acidente, ia?

Mas era assim que os homens eram... No final das contas, todos tinham seus laços, suas conexões. Coisas que podiam ser exploradas... Todo aquele sentimentalismo desnecessário. - Eu não quero atirar em você, porque não é o jeito que trabalho. Mas posso assegurar que mesmo que eu falhe aqui quem está atrás dela não falhará. Você deve morrer. É a sua escolha, meu senhor. Eu vou deixar esse vagão, retornar para o buraco de onde sai, seus homens vão entrar e então você vai atirar em você mesmo e sua filha ficará salva. - Ela fez uma pausa, parecia realmente infeliz com aquelas afirmações, lambeu os lábios.

- Você pode mandá-los entrar, mandar que me matem ou me cacem, mas no segundo que seus pés tocarem a estação, você terá assinado a sentença de morte da sua criança. Eu não tenho nada a perder, meu senhor. Não mais. - Respirou fundo, ficando de pé e se aproximando da janela. Então repetiu as palavras de antes. - É uma coisa assustadora, não é? Amar algo que a morte pode tocar. Eu posso prometer uma coisa, meu senhor. Eu vou caçar esse ratinho sujo por você. - Havia de fato sinceridade naquela afirmação, Raven não se alegrava ou satisfazia com os termos daquele 'contrato', e agora questionava-se se sua 'moral' - seu próprio conceito de moral no meio que vivia - valia aquele esforço, mas o que estava feito estava feito. Contava com a velha premissa de que um homem desesperado faz coisas desesperadas.
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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

Mensagem por Elminster Aumar em Dom Dez 10, 2017 1:21 am



A revelação que alguém o queria morto pegou o conde totalmente de surpresa.

- Quem me quer morto? - perguntou logo depois de ter cuspido o vinho que estava em sua boca. Raven prosseguiu falando, suas palavras eram cuidadosamente pensadas e sua expressão corporal reagia bem com a mentira que ela estava prestes a contar. A arma de Raven estava à frente do conde, mas o Sr. Belgarten só tinha a atenção em Raven. Então a assassina falou de sua filha, e ele imediatamente segurou o pulso de Raven com força. - Como você sabe da minha filha? Da minha querida Anna? Quem me quer morto? - repetiu a pergunta, mas novamente ficou sem resposta.

Raven calmamente se sentou na cadeira defronte ao conde. O aperto doí-lha o pulso, mas o Sr. Belgarten a soltou com o tempo. Há pessoas que sabem mentir e há pessoas que sabem mentir com convicção, e Raven se encaixava no segundo caso. O conde ouvia atentamente cada uma de suas frases proferidas. Até o gigante-de-aço parecia compenetrado nas artimanhas da assassina. Belgarten ainda nutria esperanças de ouvir o nome da pessoa que o queria morto, mas quando Raven se levantou abrutadamente da cadeira, toda a esperança pareceu esvair de si.

- Espere! Eu não a conheço, mas por algum motivo acredito em suas palavras. Você poderia ter me matado aqui e agora, se quisesse. E contudo veio me deixar a possibilidade de eu mesmo escolher o meu destino. - O conde então olhou de fato pela primeira vez para a arma que Raven depositou a sua frente. A assassina já estava próxima a janela do vagão, e trazia consigo a garrafa de vinho do conde. Belgarten nem havia reparado em tal furto. - Se tudo o que disse é verdade, por favor, proteja minha filha de todo o mal. Ela é uma garota doce e inocente, e não merece em hipótese alguma sofrer.

A assassina olhou uma última vez para o rosto do Sr. Belgarten, e então saltou para fora do vagão. Não houve nenhuma tentativa de impedi-la de ir. Enquanto ela saltava de um vagão para o outro foi quando ela ouviu o som de um disparo de pistola, cujo barulho ecoou em sua mente por mais tempo que ela gostaria. Raven retornou para a sua cabine, mas a família anã não estava mais lá. O trem começou a parar e as pessoas começaram a sair de suas cabines para tentar descobrir o que tinha acontecido. Houve gritaria e a confusão se instalou. Para Raven agora só restava se deliciar do vinho e aguardar o seu próximo destino.



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Re: Prólogo: Noite Sangrenta sobre os Trilhos

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