Um fórum de RPG online no formato de PBF (Play by Forum).


    [Narração] Ranz (Fenrir)

    Compartilhe
    Bastet
    Cavaleiro Jedi
    avatar
    Cavaleiro Jedi

    Mensagens : 290
    Reputação : 17
    Conquistas :
    • https://i11.servimg.com/u/f11/17/02/65/26/2211.png

    [Narração] Ranz (Fenrir)

    Mensagem por Bastet em Qui Maio 11, 2017 7:20 am



    C h r y s a l i s
    Narração - Ranz (Fenrir)

       

    Era fim de ano e a rotina, sempre rigorosa, de Ranz estava se tornando cada dia pior. O menino se sentia terrível, não conseguindo se concentrar em nenhuma atividade e dispendendo um tempo desnecessário ao realizar atividades que ele considerava simples, como resolver os problemas de matemática avançada I (disciplina do Ensino Médio sugerida pelo professor, ao invés de matemática IV, após perceber as habilidades avançadas do garoto na área), sentado nos fundos da biblioteca, durante o intervalo. As coisas que um dia pareceram banais, estavam cada vez mais interessantes. Os brinquedos, que podia ver pela janela transparente, num relance, pareciam ser feitos do mais puro ouro reluzente; os livros da biblioteca pareciam sussurrar, com vozes infantes, histórias mirabolantes; a lapiseira parecia inspirada por Da Vinci, escrevendo cálculos de máquinas que ele nem conhecia; e o bibliotecário, um senhor de 60 anos com cara de bonzinho, tinha longas orelhas de coelho, além de uma penugem acinzentada por cima da pele.

    Todas essas coisas duraram apenas alguns segundos... Quando o menino piscou, tudo voltara ao normal. Os brinquedos eram apenas de ferro, enferrujados; os livros estavam tão calados quanto sempre; e o bibliotecário tinha a carinha boazinha, mas não orelhas de coelho, como o esperado.

    Essa rotina esquisita durou o dia todo, assim como a inquietação em seu âmago. Primeiro, estava acontecendo de hora em hora: pessoas azuis e gigantes passavam correndo pelos corredores do colégio, causando tremores no chão; depois, de meia em meia hora: as coisas ganhavam cores diferentes e as crianças do jardim de infância brincavam com a personificação dos seus desenhos. Certo momento, essas visões começaram a acontecer de 15 em 15 minutos: o professor tinha pernas de bode e uma aranha gigante  de doze olhos os vigiava, enquanto ele mexia no celular, dizendo quando algum engraçadinho tentava colar na prova. No fim do dia, as alterações entre uma “realidade” e outra estava tão frequente e aleatória que o menino não sabia mais se estava são.

    Foi pra casa antes do fim das aulas da tarde, exaurido, olhando apenas para o chão para evitar aquelas maluquices em sua cabeça. Nem mesmo a garrafa de café, que tomara ao chegar em casa, ajudou o menino a despertar. Como a mãe não estava em casa, não se preocupou em tomar banho, subindo as escadas, quase se arrastando pelo caminho, e ouvindo um ranger chato no sétimo degrau. Parou, com a respiração pesada, lembrando que havia consertado aquilo na semana anterior e, como sempre, havia ficado uma merda. “Uma merda” o degrau debochou, quando ele pisou sobre ele novamente... e depois se calou, fazendo o menino se desequilibrar e quase cair, com o susto.

    [...]

    No quarto, nada de estranho aconteceu. Tudo parecia muito normal.  As cortinas estavam fechadas, como sempre, a cama estava feita com perfeição e a mesa cheia de esculturas de madeira.  No computador, uma notificação piscava, do site de ficção Balefire. Alguém havia comentado em um conto dele... Embora fizesse muito tempo que ele não postava nada lá.



    __________________________________

    @Daemon
    Daemon
    Samurai Urbano
    avatar
    Samurai Urbano

    Mensagens : 118
    Reputação : 0

    Re: [Narração] Ranz (Fenrir)

    Mensagem por Daemon em Qui Maio 11, 2017 8:04 pm


    C h r y s a l i s
    O início da loucura - Ranz (Fenrir)




    Há quase uma semana eu já não conseguia dormir direito. Flashes estranhos passavam pela minha cabeça, de um mundo onde criaturas mágicas existiam, o povo vestia roupas fora de moda, e alguns "seres humanos" se é que podiam ser chamados assim, tinham chifres.
    Eram apenas flashes... enquanto piscava os olhos. Ao dormir, sempre sonhava, sonhos conturbados e desordenados, com a mesma temática… sempre terminava com um dragão que me dilacerava. Eu acordava num pulo, suando frio.
    Assim, preferia ficar acordado pensando nas aulas. Coisas que eu podia resolver com estudo e esforço árduo eram mais reconfortantes.

    Ameaçando pegar no sono, o despertador tocou.
    "It's a new day, it's new life for meee... And I'm feeling good."
    Adorava Nina Simone, e essa música trazia um significado especial pra minha miserável e solitária existência.

    Levantei da cama e escovei os dentes. Pus o uniforme e nem prestei atenção no cabelo bagunçado com alguns galhos. - Era bem normal, na verdade.
    Fui para a escola com Jasmine - minha fiel bicicleta - esquecendo de tomar café. Aquilo só piorou meu humor, fora as ocasionais alucinações...
    Ouvi dizer que privação de sono tem efeitos terríveis sobre o humor e o psicológico. Li num blog de medicina que poderia levar a óbito.

    "Pelos céus! Eu sou muito jovem para morrer?! E todos os meus planos de ser um grande inventor e dar uma entrevista xingando meus graciosos colegas do fundamental por terem me excluído dos seus círculos e agradecendo-os pelo tempo que me permitiram dedicar a mim mesmo!"

    Duas garotas me olhavam pasmas. Eu retribuía o olhar com uma sobrancelha levantada. - nota mental: não seria um problema pensar isso ou simplesmente cochichar isso pra mim mesmo. Mas a expressão dramática em voz alta com as mãos agarrando os cabelos é um tanto... excêntrica. - Fiquei completamente constrangido.

    "O que estão olhando? Querem tirar uma foto?"

    As garotas rapidamente viraram as costas e se afastaram intimidadas. Suspirei. Fiquei olhando-as enquanto se afastavam. A da direita era bem bonita... mas não era o que mais me chamava atenção... ela... ela tinha asas!
    Dei uns tapas na cabeça, fechando os olhos instintivamente. - funcione caixola, você é melhor que isso. - abri-os novamente para constatar que ainda estava são.

    -

    A manhã passou depressa. E minha atitude em sala estava tudo menos exemplar. Havia piscado os olhos e quando percebi tinha dois garotos rindo e apontando pra mim, e uma poça de baba em cima da mesa.
    O professor os cortou me defendendo:
    "Deixem ele, vocês não sabem o que pode estar se passando na vida dele."
    Foi uma piscada de olhos de meia hora... mas era bom ter reputação com os professores.
    Os adultos - exceto minha mãe - me achavam diligente, e minha moral se elevava, mantendo alguma fonte de estabilidade pra minha sanidade - ou pelo menos mantinha. Preferia os adultos a pessoas de minha idade... comicamente, eu conseguia me comunicar melhor com eles - quando conseguia.

    Riiiiiing. Todos se levantaram num pulo. Alguns saíram correndo da sala. Break time.

    "Primatas..."

    Levantei devagar e peguei algumas coisas para levar à biblioteca como de costume.
    Para minha surpresa eu estava conseguindo acompanhar matérias do ensino médio sob recomendação de um professor... eu me tornaria um adulto brilhante - se não morresse antes disso. - Talvez me tornasse um escritor recluso - não que eu já não fosse. Mas pelo menos recluso e famoso.

    Chegando lá... pelos carvalhos das meditações dos macacos monges budistas... nefas... nada... nenhuma clareza em minha humildemente brilhante mente, os números se resumiam a riscos e isso era tudo que meu cérebro conseguia processar. Não conseguia lidar com a frustração… me frustrar com os outros, ok… mas nada me aborrecia mais que me frustrar comigo mesmo - ocorre sempre que falho em algo que julgo ter capacidade de fazer.
    Até que o "pane" voltou, e voltou pesado. Tudo estava diferente. Minhas coisas brilhavam. Uma clareza momentânea veio a mente e minha mão começou a trabalhar mais rápido que ela, como nas epifanias que eu tinha quando escrevia sobre Alice. E logo estava pronto! Mas… eram instruções e operações para um autômato… fiquei encucado olhando para os escritos… eu certamente não acreditava em psicografia, mas fui realmente eu quem escreveu isso?
    Levantei os olhos e…
    [rosa]“Gasp… gs!!!”
    Me engasguei com a própria saliva.
    O… o velho Jorge era um coelho gigante! Os livros falavam, contavam-me suas próprias histórias e ideias.

    Bati forte na cabeça, mais forte do que antes… tão forte que ficou doendo por um tempo. Se tinha o placebo de funcionar com computadores e videogames, devia funcionar com minha caixola também.
    “Você sempre foi comportada e metódica… eu não quero… não… fazer terapia…”
    Minha mãe às vezes dizia que ia me mandar para a psicóloga. A ideia era aterrorizante… um arrepio passava pela espinha dorsal só de pensar.
    Se eu acabasse na terapia e alguém descobrisse, teriam mais motivos para fazer troça de mim. Ser a aberração da turma além do CDF odiado… ótimo.
    Olhando para o caderno, o autômato não estava lá, mas eu havia resolvido parte dos cálculos.

    “Ueh?!”

    As panes voltaram a ocorrer com cada vez mais frequência. Tinha uma aranha gigante do lado do professor Etevaldo, e este tinha pernas de bode… cenas perturbadoras como essa se repetiram durante o resto do dia. Sequer consegui responder direito as provas.

    “Ótimo, minha primeira nota vermelha…”

    Bem, seria uma experiência nova. Se as notas azuis não rendiam reações de minha mãe… talvez uma fora do padrão abrisse seus olhos… só espero que não para me xingar.

    Indo até Jasmine - minha bicicleta - para retornar pra casa, fiquei pensando se deveria ou não contar pra minha mãe. De início estava inclinado a ficar quieto. Já me reprimi por tantas coisas e problemas, o que seria mais um?
    A grande questão é que quanto mais eu me convencia - se amanhã continuar eu falo com ela - mais grave ficava o quadro. O suficiente pra fazer minhas mãos tremerem com a ideia de insanidade… o suficiente pra eu chorar…
    A última vez que eu havia ficado assim… foi quando Julio me bateu pedindo meu lanche e quebrou meu pote por eu ter negado. Sem contar pra mãe o que tinha acontecido, ainda acabei recebendo um esporro dela…

    Depois disso comecei meus treinos… meu pai dizia para nunca levar desaforo para casa, e desde então eu dedico meia hora por dia assistindo vídeos de como usar uma espada e tentando imitar os movimentos. Desde então comecei a entalhar meus próprios equipamentos. Toda dificuldade que aparecia era uma deixa para eu melhorar em algo.
    Se eu falhei, foi por não ser bom o suficiente.

    -

    Em casa corri direto para a cafeteira elétrica. Fiquei olhando o café escorrendo maravilhado pela magia da tecnologia moderna. Olhei o celular… nenhuma notificação, como de costume para alguém sem amigos, mas adorava a interface gráfica do android e a fluidez com que meus comandos eram executados - maravilhado pela magia da tecnologia moderna.
    Virei canecos de café… tantos quanto podia para ver se a aflição diminuía. Além da terrível vontade de ir no banheiro, nada, ainda me sentia desanimado e exausto…

    Após aliviar, fui subindo os degraus cabisbaixo, percebendo que a madeira de um deles - aquele que sempre dava problema, o sétimo - estava saltada para fora de novo, rangendo ao pisar.
    “Por que tudo que eu faço sempre fica uma merda?”
    Comentei indignado. E o degrau repetiu num tom agudo meio robótico:
    “Uma mierda...”
    Pelos carvalhos das meditações dos macacos monges budistas! Quase saltei pra trás, perdi o equilíbrio me safando somente graças ao corrimão.
    “Esquizofrenia! Eu sou esquizofrênico… Hahaha.”
    Eu já estava passando do estado de negação…

    -

    Pelo menos em meu quarto a normalidade ainda reinava. Meu reino, minhas coisas, nos devidos lugares, devidamente inanimadas e quietas. Exceto o computador que ficava fazendo um zuuuum dos coolers - música para os meus ouvidos.
    “Oh, a tranquilidade...”
    Sentei no chão e comecei a meditar. Há muito eu já pesquisava sobre os benefícios da prática. Quase adormeci durante o processo devido ao cansaço...
    Levantei esfregando os olhos… havia uma notificação no computador…
    De um site de textos... ninguém nunca comentava em minhas postagens… e fazia tempo que eu não postava algo, aquilo era empolgante!

    O texto comentado era uma lenda fictícia de um homem chamado Vannhadi...

    O castigo dos deuses

    - Por Yrvin, que sete raios me atinjam se eu estiver mentindo. A história de Vannhadi é mais real que os próprios deuses!
    "Dizem que seu castigo foi cruel. Após torturarem-no amaldiçoando-o até a velhice com todos os ossos do corpo fragmentados, Vannhadi ainda lutava ferozmente e nunca perdia uma batalha. Nenhum exército que o tenha enfrentado, mesmo em vantagem numérica, saiu vitorioso.
    Após cada batalha, os companheiros de campanha ouviam-no gritando de dor das fraturas nos ossos, e isso perdurou até estar próximo do descanso eterno.
    Mas reza a lenda que no dia em que a morte veio ceifar-lhe a vida, o próprio Sigmund - o senhor das dimensões - aprisionou Vannhadi entre os três limbos, num local onde o tempo não passa, e nem os deuses dominam...
    O jogoram lá para que lá permanecesse até o ocaso do mundo, e mesmo após a morte dos próprios deuses, ainda amargasse em seu exílio.
    Dizem que nas noites em que os planos se alinham, nos eclipses de solstícios, é possível ouvir murmúrios e urros na noite, ecos dos lamentos eternos de Vannhadi."
    - Mas afinal Odar... qual foi o grande crime de Vannhadi contra o sacro Panteão?
    - Incitar a inveja dos deuses com o que nem eles em sua superioridade alcançaram, Dros-lin... amar verdadeiramente....”

    Curioso, pulei para o comentário.


    __________________________________

    We are dancing again in a dream, by the lake...
    Bastet
    Cavaleiro Jedi
    avatar
    Cavaleiro Jedi

    Mensagens : 290
    Reputação : 17
    Conquistas :
    • https://i11.servimg.com/u/f11/17/02/65/26/2211.png

    Re: [Narração] Ranz (Fenrir)

    Mensagem por Bastet em Ter Maio 16, 2017 12:12 pm



    C h r y s a l i s
    Narração - Ranz (Fenrir)

       

    Enquanto lia as palavras do antigo conto, Ranz sentia a visão embaçar. Era como se cada palavra estivesse dançando diante dos olhos do menino.  A cabeça dele começava a doer, fazendo olhar para o computador ser uma tarefa quase impossível, por alguns instantes. Apesar disso, a curiosidade do menino falou mais alto: após diminuir completamente o brilho da tela, ele focou sua atenção no comentário. A “estrutura” do site era bem esquisita, sendo cada comentário recebido “oculto” na página principal e aberto, com um clique, em uma janela pop-up separada.

    Ao clicar no comentário misterioso, o menino quase deu um pulo. Na janelinha aberta, uma foto de uma guria que era exatamente como ele imaginava Alice e as seguintes palavras “Quando você me prendeu aqui? Estou tão sozinha, é tão escuro... Venha me salvar...”. Por poucos segundos, ele jurou até mesmo ouvir a amiga imaginária falar aquilo em seu ouvido, mas, após piscar os olhos, tudo mudou. O comentário era apenas um convite do site para que ele voltasse a postar histórias com mais frequência, pois os autores melhores colocados ganhariam uma porcentagem de lucro com cada visualização.

    [...]

    Aquilo ficou na cabeça do menino o resto da noite. Nem mesmo quando foi deitar, conseguiu esquecer a voz de Alice, tão real, sussurrando em seu ouvido em um pedindo de ajuda. Há quanto tempo ele não falava com ela em seus sonhos?.. Fazia tanto tempo que ele não dormia, tentando fugir das “alucinações”, que não podia lembrar a última vez que sonhara de fato... Menos ainda a última vez que Alice estivera em seus sonhos. [...] Fechou os olhos, mesmo que temendo o que veria em sua mente, na esperança de encontrar a amiga... Mas tudo o que encontrou foi o vazio.

    [...]

    Sua mente nunca estivera tão vazia como estava naquele momento. Não conseguia imaginar os seus universos fantásticos, nem se lembrar da cara de Alice... Só a escuridão de uma mente monótona e as preocupações banais com a escola e com a mãe. Era como se  alguém tivesse arrancado a capacidade de imaginar do peito dele e guardado a sete chaves, em uma masmorra de algum castelo.

    [...]

    Ele abriu os olhos quando um vento gelado passou pelo seu corpo, levantando com ele o cheiro de terra molhada e de constante decomposição. Por ter acampado certa vez, ele sabia que aquele cheiro era de uma floresta, mas como poderia estar em uma? Se sentou, sentindo o solo úmido ceder um pouco, com o movimento, e encharcar sua calça. Estava muito escuro, somente a lua iluminava  parcamente por entre a folhagem espessa das árvores.

    Ele sentia que havia magia em volta dele. Sentia que aquela era a explicação para todas as dúvidas que tivera até aquele momento, mas não conseguia imaginar como aquilo era possível. Precisava reencontrar sua imaginação... e precisava fazer isso rápido, pois sentia que a vida de Alice dependia disso. Talvez a dele também...  



    Responder >AQUI<

    .::Tópico Pausado::.



    __________________________________

    @Daemon
    Conteúdo patrocinado


    Re: [Narração] Ranz (Fenrir)

    Mensagem por Conteúdo patrocinado


      Data/hora atual: Ter Nov 21, 2017 4:59 pm