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    Lembranças de outros dias

    antonio xavier
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    Mensagem por antonio xavier em 14.09.18 6:50

    Antonio e Ana

    What can I do to make you mine?
    Falling so hard, so fast, this time
    What did I say?
    What did you do?
    How did I fall in love with you?


           
    [justify]Os raios de sol transpassavam as muitas árvores que envolviam  uma pequena vila de casas, era possível observar alguns rastros de luz que tocavam o gramado, as borboletas coloridas voando entre as flores e alguns girassóis indecisos entre a sombra de luz que vencia as folhas e a jovem mulher que caminhava com os pés descalços se dirigindo a uma pequena mesa ao centro da vila.
           
            Ana usava um vestido azul claro com um fino tecido combinando com o céu naquele momento, ao se aproximar da mesa, a menina ergueu as mãos para o pescoço passando delicadamente os dedos nevados pelos cabelos castanhos. O movimento tornou possível ver o delinear do corpo de Ana com nitidez e a brisa fresca, que corria pelo campo, não resistiu àquele quadro e acariciou a menina carinhosamente.
           
            Antonio notou pela primeira vez como o vestido de Ana mal parecia tocar em sua pele, dando a impressão de estar sobre uma almofada de ar quando ela se movimentava, como o tecido flutuava em torno do corpo, roçando na pele como as asas de um anjo: ele compreendeu naquele instante como uma mulher deveria ser tocada.

             Isabel observava o olhar do filho da janela de sua casa. Não havia percebido que ele não era mais apenas o menino ávido pelo estudo e pelo crescimento espiritual de outrora. Mas, agora, o rapaz havia se denunciado sem nem ao menos se dar conta disso. Era perceptível que Antonio ficava em muitos momentos centrado em um mundo interior inalcansável pela mãe e por seu mestre, entretanto pensavam que eram apenas reflexões sobre algum Koan ensinado: a resposta chegava como um verdadeiro despertador acre, como o sol sobre o olho. Um sol estridente, a contrapelo, imperioso, que bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos.

             Antonio caminhou lentamente até Ana. Eles haviam crescido juntos, tinham corrido e brincado por entre as casas e as árvores. Ela sempre o tratara com carinho e amizade mesmo ele tendo sido fruto de um rasgo da litania: Antonio compreendia desde a tenra infância  que eles eram parte um do outro e que nunca estariam sozinhos. O que havia mudado? Uma voz em sua mente dizia suavemente:

    - Oi.

             Ana virou-se ao chamado daquela voz tão doce que falava ternamente ao seu coração, um sorriso luminoso abriu-se em seu rosto e se espalhou por seu olhar. Antonio entendia agora os versos de Dirceu para Marília: "Seus olhos são uns sóis. Aqui vence Amor ao Céu: que no dia luminoso, o Céu tem um sol formoso, e o travesso Amor tem dois."

    - Oi, Antonio.

             As mãos se resvalaram levemente e Ana fingiu que não entendeu, corou e levou a vista ao chão. A menina não precisava de palavras para compreender a energia que caminhava e se expandia de um para o outro. Ambos, haviam estudado muito sobre a espiritualidade, sobre a formação do ser humano, sobre uma força física, um elemento único, que unia todos os seres vivos. Ana e Antonio conheciam inteletualmente cada tópico, mas agora sentiam. E os sentidos e as emoções eram maiores que a razão.

    - Você está muito bonita, Ana. Mais bela que esta natureza esplêndida nos cerca.

             Antonio tocou no rosto de Ana carinhosamente e afastou os cabelos ondulados do rosto da menina. Os dois se aproximaram com um sorriso pueril, Ana inclinou levemente a cabeça e permitiu que Antonio a beijasse. Eles se perderam nos segundos que estavam unidos, parecia eterno cada momento em que aquele beijo durasse.

    - Antonio!

             Uma voz forte soou como um chicote no silêncio cúmplice que envolvia os jovens namorados. Uma energia como um verdadeiro choque elétrico percorreu cada poro de Ana e Antonio, que se afastaram rapidamente. A menina correu para longe e o rapaz apenas volveu seus olhos para a origem daquele som pertubador.

    Lembranças de outros dias Ana10
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    Mensagem por antonio xavier em 19.09.18 15:40

    Antonio e Ana - Parte II
    "Não me maldigas... Num amor sem termo
    Bebi a força de matar-te a mim
    Viva eu cativa a soluçar num ermo
    Filho, sê livre... Sou feliz assim...

    - Ave - te espera da lufada o açoite,
    - Estrela - guia-te uma luz falaz.
    - Aurora minha - só te aguarda a noite,
    - Pobre inocente - já maldito estás.
    Perdão, meu filho... se matar-te é crime
    Deus me perdoa... me perdoa já."
                   (Castro Alves - Mater Dolorosa)

    Antonio viu sua mãe na janela com tons rosados visíveis na face e um olhar que misturava rubro e prata: a cor cristalina revelava as lágrimas presentes nos olhos marejados e o tom rubi desnudava que a corrente havia sido pelo peito destilada.

    Não compreendia com exatidão  o martírio pelo o qual Isabel passava. O quadro composto por Ana e Antonio trazia à tona sentimentos há muito tempo lacrados no fundo do baú de sua alma. A caixa deixada bem no canto escuro e miserável das lembranças encontrava a chave que a tiraria daquela prisão. Aberta, o martírio silencioso se apossou pouco a pouco até explodir em um violento grito.

    O rapaz não compreendia de onde vinha aquela dor, de onde vinha o seu nome chamado com tanta violência. No mesmo instante em que viu a mãe e absorveu superficialmente o que acontecia, Antonio perdeu Isabel de vista. Após o grito, a mulher correu para os fundos da casa onde havia um quarto destinado a pequenas plantações de flores e outros vegetais.

    As orquídeas brancas tocaram levemente em seu braço e deslizaram até suas mãos.

    Uma menina corria com os pés descalços por entre as árvores e um rapaz a seguia com um rosto repleto e pleno em sorrisos. O sol brilhava, a natureza cantava. Não havia cenário mais perfeito para o Amor vir com sua aljava e ferir corações. Não se sabia se o quadro era realmente paradisíaco, outros poderiam não enxergar, mas ele refletia o espírito cúmplice do casal.

    Isabel segura em suas mãos as orquídeas lilás e as lágrimas que escorriam antes pelas pétalas brancas secam. Um ligeiro ar de altivez reverbera pelos olhos escuros. A mulher pega as chaves caídas no chão impuro de sua consciência, mira a caixa aberta aos seus pés e uma forte energia percorre sua face, a enrijece. É possível ouvir o estrépito do fechar-se e a caixa retorna para o seu devido lugar.

    A porta se abre.

    - O que houve , mãe?

    Lembranças de outros dias Isabel10
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    Lembranças de outros dias Empty Re: Lembranças de outros dias

    Mensagem por antonio xavier em 24.09.18 22:07

    Antonio e Ana - Parte 3

    "I believe the children are our future
    Teach them and let them lead the way
    Show them all the beauty they posses inside
    Give them a sense of pride to make it easier
    Let the children's laugher remind us how used to be"
    Greatest love of all - Whitney Houston


    Isabel olha para o filho, seus olhos parecem perdidos naquele momento e ela se vê em um outro tempo, lembranças de um passado esquecido, adormecido:

    Uma bela mulher chamada Isabel caminha pela casa, arruma alguns objetos na sala, observa o arroz cozinhar, a máquina de lavar apita o término do ciclo. Ela se olha rapidamente no espelho, quantas rugas e olheiras.

    - O jantar está pronto?

    Um homem mais velho bate a porta. O som da voz e do bater da porta se misturam, um rastro de eletricidade percorre todo corpo, os pelos se arrepiam:

    - Ainda não.

    Ele sobe as escadas, entra no quarto, é possível ouvir o barulho do chuveiro. O que faz o tempo todo? Acordo cedo, trabalho o dia inteiro e quando chego, cansado, não há nem ao menos um jantar.

    - Antônio!

    Isabel chama o filho que estava no quarto escrevendo em um pequeno caderno. Ela liga o rádio e toca uma linda música. Tão bonita, os cabelos castanhos ondulados combinavam com os grande olhos marrons tão graciosos quanto pareciam tristes, melhor, cansados. A música forte que envolvia a sala parecia ressaltar ainda mais aquela batalha entre a beleza de Isabel e ela mesma.

    - Como está bonita hoje, mãe! Você é minha princesa!

    Isabel sorri levemente, o filho entrega um pedaço de papel para sua mãe, um pequeno presente que guarda a imensidão do amor de filho. Uma batida de porta pode ser ouvida no meio da música. Um rastro de eletricidade percorre todo o corpo, os pelos se arrepiam.

    - O jantar está pronto.

    Delicadamente, pratos e talheres se arranjam na mesa, as panelas exalam um aroma sedutor. Uma jarra de suco posta próxima a um copo vazio completa o quadro.

    - Essa comida de novo!

    Em um outro lugar, outro tempo, uma menina ainda criança tenta seus primeiros passos na cozinha, o cheiro é sedutor e uma voz feminina rebenta o silêncio, você não fez direito, não é assim! De repente, outro som despedaça a imagem e Isabel suspira.

    - Tá uma delícia, mãe.

    O homem apenas bufa profundamente, Isabel sobe até seu quarto e coloca sobre a mesa o pequeno pedaço de papel que Antonio havia dado a ela, não lê e retorna a cozinha, onde há algumas bananas para fritar.

    Ela retira os pratos e coloca as bananas sobre a mesa, o açúcar com canela inebria os sentidos, Antonio, ávido, se lança sobre o doce. Como consegue fazer tanto em tão pouco tempo, tudo está sempre em seu lugar, tudo está sempre maravilhoso.

    O homem olha com desgosto para as bananas, se levanta e sobe as escadas ruidosamente. Isabel vai para a cozinha e Antonio a segue, enquanto a mãe lava a louça, o filho seca e guarda os utensílios. Ambos conversam alegremente.

    A porta bate ruidosamente, um rastro de eletricidade percorre todo corpo, o homem rompe aos berros pela cozinha, um grito agudo de dor corta o ar. Tudo está confuso, o que está acontecendo? A cozinha está toda nublada, duas vozes se misturam. Vá pro seu quarto!

    Novamente, uma menina jovem aparece sozinha em um quarto, é possível ouvir uma voz feminina gritando: ninguém gosta de você! Você faz tudo errado!

    Lágrimas escorrem pelo rosto. O que fazer? O quarto parece tão minúsculo, apertado, a janela fechada sufoca o grito algemado nos pulmões. Em cima da cama, um pequeno pedaço de papel. Os berros se apagaram. O menino segura o papel nas mãos e desce as escadas. No andar de baixo, a porta bate ruidosamente: o homem se foi. Na cozinha, uma mulher com o rosto machucado chora e Antonio a abraça.

    - Não se preocupe, filho: seu pai já vai voltar. Foi só um pequeno mal entendido.

    O menino olha para suas mãos, o que foi que fiz? Ele beija a testa de sua mãe e uma lágrima escorre até o papel.
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    Mensagem por Tellurian em 29.09.18 9:31

    Eu.. não tenho palavras.

    Eu não costumo interromper o tópico dos outros pra fazer observações, mas... dessa vez não deu pra me conter. Tá muito, muito bom mesmo.

    Me emocionou. Parabéns, meu amigo.

    Por favor, continue.
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