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    [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

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    [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Seg Dez 03, 2018 6:07 am




    New Hamspire  



    Outubro, 1890
    @Rosenrot



    ϟ

    ∆ MONA - FG
    Bastet
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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Seg Dez 03, 2018 6:08 am

    New Hampshire
    Outubro de 1890

    Dorothia não  se lembrava da vida no Canadá. Desde que tinha memórias, a sua família estava viajando, procurando um lugar para se estabelecer. Não tinham muito dinheiro, nem pertenciam a uma família de renome entre os da sua espécie, por isso, acabavam viajando para onde tivessem oportunidades.

    Quando a jovem tinha por volta de 13 anos, firmaram morada em Quebec, cidade na qual um Coven aceitou a família. A bruxa começou a ser tutorada pelo Alto-Sacerdote, que tinha um interesse peculiar em todas as jovens bruxas que estavam em idade próxima ao batismo. Com o passar dos anos, esse interesse dele fora ficando mais e mais perigoso, até que, um dia antes do seu aniversário de 16 anos, teve consequências terríveis. “A nova geração é a nossa força”, ele vivia dizendo, mas ninguém sabia (ou fingia não ver) que o homem queria criar uma geração “ainda mais poderosa” no ventre das jovens do seu Coven. Dorothia não teve forças para se defender... Mas fugiu, no momento que teve oportunidade. Atrás de si, tudo o que ouvia era a risada do seu violador, dizendo que, na noite seguinte, ela seria “dele” e da igreja dele.

    Em casa, após contar para a mãe, as duas descobririam que o pai havia permitido... Ele não parecia se importar com a integridade de qualquer pessoa, se isso elevasse o nome da família. Sabendo disso, tomada por raiva e pelo instinto de proteger as irmãs, Dorothia usou uma magia proibida, dando ao pai uma dor semelhante à dor de suas ancestrais, que queimaram na fogueira de Salém, pelas mãos de homens que achavam que poderiam mandar nelas.  – Ele permitiu isso pois era fraco pra nos enfrentar. Não levaremos seu nome e nem enterraremos seu corpo. Que esse Coven veja o que as O’Harahan pode fazer – foi tudo o que ela disse, quando a mãe entrou em desespero com aquilo.  Talvez a mais velha nem se lembrasse do próprio sobrenome, devido aos anos sob a sombra do marido.

    Naquela noite, ela, a mãe, as duas irmãs mais novas e mais duas amigas, Bea e Antonieta, fugiram. Havia algo ali que fazia cada uma delas vibrar, como uma promessa não dita. Não faziam mais parte daquele Coven, mas não estavam sozinhas. As três bruxas que haviam sido violadas naquele ano sentiam ainda mais: não tinham todo o poder necessário no momento, mas conseguiriam e voltariam para se vingar. Antonieta, que já tinha a barriga levemente proeminente sob o vestido, suspirou – Thia e se ele vier atrás da gente? – Bea ecoou a pergunta, também preocupada - Nós já assinamos o livro...

    A bruxa olhou para as amigas, enquanto jogava o último baú na charretinha e ajudava Antonieta a subir  – Eu vou achar um lugar seguro para a gente. Vocês se filiarão a um Coven menos poderoso e poderão cultuar a religião de vocês... As minhas irmãs também, se assim desejarem... Mas nunca mais nos sujeitaremos a um homem como aquele ou como os que fundaram as nossas famílias – sem perceber, não se incluiu na parte de entrar para um Coven. Talvez a raiva e o trauma ainda estivessem muito recentes.


    [...]




    Viajaram, então, em busca de um lugar para ficar. Por dias, nem pararam, chegando a perder um cavalo por cansaço. Com a charrete sendo puxada por apenas um animal,  começaram a revezar a pé, parando nas pequenas cidades e conseguindo alimento e estadia em troca de serviços. Dorothia, por vezes, seguia na frente, montada em Freya, sua familiar: uma égua completamente negra, alta e arredia, com as crinas tão negras quanto o céu noturno. Como o animal não se deixava selar ou que outras pessoas montassem nele, ela usava isso como podia. Além de ganhar vantagem, conseguia algum dinheiro exibindo o animal e pastoreando em pequenas fazendas.




    Durante o caminho, descobriram uma pequena cidade que, apesar da tradição cristã, possuía seres sobrenaturais e na qual o Coven não tinha tanto poder. Decidiram ir para lá, achando que, talvez, fosse um lugar para se firmar e para levar uma vida tranquila e discreta, enquanto se fortaleciam. Como o sobrenome que estavam usando, agora, era de uma linhagem de bruxas antiga, talvez não tivessem problemas... Embora, Dorothia, no fundo, torcesse para o Coven de lá ser mais liberal, sem toda aquela formalidade da Igreja das Sombras.


    [...]


    Não sabiam como se estabeleceriam ali, mas de certo teria algum trabalho. Não era comum tantas mulheres comandando uma família, mas esperava que a cidade não fosse tradicionalista a ponto de aquilo ser um impeditivo.

    No caminho, uma chuva torrencial começou a cair. A charrete, que tinha apenas uma cobertura de pano cru e as madeiras velhas, começara a balançar, enquanto o cavalo que a puxava ficava desnorteado. Para piorar, em dado momento, uma roda passou por uma pedra, rachando a madeira e logo quebrando.  Dorothia ouviu os gritos das outras e o barulho da madeira quebrando, voltando com Freya para ver o que havia acontecido.

     - Nós não vamos conseguir arrumar isso nessa chuva e no escuro – ela disse, somente uma lamparina iluminando o local, que não apagava por ser fogo vindo da magia de uma delas   – Entrem na charrete. Eu vi uma fazenda mais ali na frente. Vou ver se podemos pernoitar lá – disse,  descendo da familiar e ajudando as outras a entrarem, fechando da melhor maneira possível. Soltou o cavalo da charrete, prendendo ele em uma árvore próxima, para evitar que ele se assustasse e puxasse o veículo, estragando ainda mais.

     -  Não usem seus poderes a menos que necessário... Não sabemos a postura da cidade quanto a nós... – evitou lembrar a elas que também fazia um tempinho que não tinham uma boa refeição.   – Eu volto logo – suspirou, vendo que o tecido já começava a respingar e molhar as mulheres que estavam dentro.

    Dorothia montou na égua, seguindo numa velocidade não muito comum para um animal normal. Ao se aproximar da fazenda, não quis perder tempo procurando a entrada... Tomou velocidade e logo Freya pularia a cerca, indo na direção da casa.

    De dentro da casa principal, ouviriam um barulho muito alto de alguém cavalgando, em meio a chuva. O que poderia alarmar mais era que o barulho dos cascos ecoava dentro da casa, como os trovões costumavam fazer. Não estavam esperando alguém no meio daquele temporal, estavam?

    Ao chegar perto da entrada, a bruxa desceu do animal, deixando que ele procurasse um local para se abrigar enquanto ia falar com os donos da fazenda. Logo correu para a varanda,  com a roupa e o cabelo pingando, os lábios até um pouco arroxeados. Bateu na porta de forma firme e se afastou, para quem tivesse dentro pudesse ver que estava sozinha, com as mãos pro alto...  O que menos precisava, naquele momento, era levar um tiro por invadir a propriedade.

     - Olá? – falou, ao ver um vulto atrás da porta  – Minha charrete quebrou, no caminho pra cidade... Temos crianças e mais mulheres nela. Gostaria apenas de permissão pra passar a noite no estábulo de vocês... Amanhã saímos cedo, nem vão perceber... – tentava encurtar o papo, falando alto para que pudessem ouvir. Estava preocupada com as outras... E congelando, ali. Se alguém observasse, antes de abrir a porta, veria uma menina de altura mediana, pele clara e cabelos escuros, presos em uma trança já bastante desfeita pela chuva. Ela vestia a parte de cima do que fora um vestido, calças e botas masculinas. Será que era um dos ciganos da floresta? Não fava pra saber... Mas não se vestia como uma dama de respeito.

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Seg Dez 03, 2018 11:55 am

    New Hampshire
    Outubro de 1890

    Quando Dorothia saltou sobre a cerca houveram dois acontecimentos: o primeiro foi a enxurrada de latidos que caíram sobre ela assim como a noção de coisas rápidas se movendo pelo escuro e pela chuva em sua direção, eram tantos latidos que a jovem sequer podia mensurar a quantidade de cães que provavelmente estariam por ali. Não tinha pensado a respeito disso ao saltar pela cerca: uma fazenda deveria ser protegida de um jeito ou de outro. Os cães correram em direção a invasora e uma pequena matilha formou-se aos pés do familiar, buscando morder as patas do cavalo.

    O pasto estava escuro e a única fonte de luz vinha diretamente da casa maior ao longe, então ela ouviu um grande estrondo capaz até mesmo de assustar os cães, mas sabia muito bem o que era: um tiro. Ela não precisaria bater à porta da fazenda, ao chegar perto da casa, uma lampião iluminava parcamente a entrada e um homem estava parado à porta segurando uma arma, junto dele um rapaz fazia o mesmo e ambos apontavam para Dorothia. A segunda coisa que Dorothia sentiu foi uma ressonância, como se ela estivesse invadido do território de outra pessoa parecida com ela - e essa ciência lhe gelava o sangue - porque era como um aviso silencioso.






    A porta da casa estava aberta e por ela Dorothia viu três mulheres: uma mais velha, provavelmente a matriarca e duas jovens.

    Spoiler:

    Fiquei com preguiça de ajeitar o tamanho das imagens então coloquei no Spoiler na ordem: Jacob (Jake), Mary, Anelise e Jaqueline










    Houve silêncio após a fala de Dorithia, ambos encarando a moça com olhos de desconfiança, o homem mais velho olhou além dela como se esperasse que mais pessoas fossem surgir do escuro e depois algo curioso aconteceu: ele olhou para trás, para dentro da casa na direção da mulher mais velha e ela moveu a cabeça muito suavemente como se confirmasse qualquer coisa que ele não tinha dito, tinha sido algo discreto e quase imperceptível para qualquer outro, mas Dorothia notara.

    - Jacob, Jaqueline, selem os cavalos, Jake pegue a caixa de ferramentas também e traga os cães. - O garoto baixou a arma e afastou-se a menina mais velha fez o mesmo. A senhora e a mais nova voltaram para dentro da casa enquanto o homem mais velho ainda encarava Dorothia com ares de poucos amigos, mas em pouco tempo três cavalos estavam selados e eles partiram seguindo Dorothia - dessa vez usando o portão da fazenda para sair - o homem mais velho ia à frente próximo a Dorothia, Jaqueline no meio acompanhada pelos cães e Jacob logo atrás.

    Eles também não pareciam muito interessados em conversar, durante o trajeto houveram apenas perguntas diretas do homem mais velho, porém nenhum outro assunto foi puxado. Quando chegaram à carroça das moças, os homens foram os únicos que desceram dos cavalos, Jaqueline continuou montada e Dorothia notou que ela tinha um rifle na mão.

    Chegando lá a coisa se resolveu relativamente rápido: o homem mais velho retirou o cavalo delas da carroça e amarrou um dos seus: Jacob voltaria montado com a irmã e puxando o cavalo cansado, a roda foi arrumada pelos dois em questão de minutos, os cães ladravam e pareciam incomodados com os estranhos, mas mantinham-se perto de Jaqueline. Cerca de meia hora depois de ter levado a família até lá, o comboio estava em movimento de novo.


    [...]


    A volta tinha sido um tanto semelhante: não havia muita conversa, Jacob e Jaqueline falavam entre si baixinho e o homem mais velho simplesmente guiava o comboio de volta a fazenda.



    Quando as portas do celeiro se abriram elas encararam algumas vacas e cavalos em suas cochas, os animais voltaram os olhares para elas sem muito interesse e voltando a sua rotina de mastigar alguma coisa. O lugar fedia um pouco - é claro que fedia - e não parecia o mais confortável de todos, mas Kraine pai não estava disposto a por um bando de estranhas dentro da sua casa.

    As duas mulheres que Dorothia tinha visto dentro da casa retornaram: a mais velha trazia alguns cobertores velhos e a mais nova uma panela grande e alguns pratos. O cheiro do ensopado pareceu por um instante neutralizar o cheiro de cocô de vaca.

    - Não façam fogo aqui. Podem começar um incêndio e queimar toda a fazenda. - Falou o homem mais velho. Não fazer fogo seria um tanto ruim, pois teriam que se virar para se secarem e aquecerem. Aos poucos a família Kraine ia saindo, até restar apenas o patriarca, ele as encarou de novo, em duvida sobre o por que tantas mulheres viajarem sozinhas, mas resolveu não perguntar, por enquanto. Deixou um único lampião ali e então também saiu, fechando a porta do celeiro atrás de si.

    Elas seriam acordadas muito cedo no dia seguinte, quando as portas do celeiro se abriram e os raios tímidos de um sol frio entraram. Jaqueline entrou pela porta com alguns baldes, usava um vestido velho e sujo e começou a alimentar as vacas. - Mama vai servir o café em breve, disse para esperarem na varanda e então poderão partir.

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Seg Dez 03, 2018 5:11 pm

    New Hampshire
    Outubro de 1890

    Uma das coisas que Dorothia mais gostava era sentir a sensação de liberdade que cavalgar em Freya trazia.  A familiar não havia sido escolhida entre os animais treinados do Coven, a bruxa havia domado a égua selvagem em uma das viagens da família e, desde então, as duas haviam selado uma promessa silenciosa de proteção e lealdade.

    Assim que Freya saltou, Dorothia se segurou firme no pescoço do animal, visto estar no lombo da égua sem nenhuma sela. Deu uma risada gostosa, apesar da situação, sentindo a conexão com a sua familiar no momento do salto... Mas isso não durou muito, quando ouviram os cachorros.  Freya saiu em disparada, quase derrubando a bruxa. Não tinha dificuldade em manter os cachorros atrás de si, enquanto estavam em movimento, mas pareceu bem irritada quando Dorothia indicou para que parassem e os cachorros começaram a tentar morder suas patas. Deu um coice em um, que conseguiu meter os dentes em sua carne e estava prestes a se empinar, quando um tiro foi dado e os animais se afastaram. – Desculpa por isso – Dorothia murmurou, dando um beijo no pescoço da familiar antes de descer.

    Ao pisar no solo da fazenda, a bruxa soube, de imediato, que o território pertencia a algo que poderia ser perigoso. O arrepio na coluna fez a menina ser ainda mais cautelosa nos seus movimentos, dando alguns passos em direção à varanda, com as mãos levantadas, mas sem se aproximar demais, e disse em alto tom o motivo de estar ali.

    Enquanto a família se decidia entre acreditar ou não, Dorothia notou algo que a fez dar um pequeno sorriso.  Talvez estivesse ali a fonte do que a fizera se arrepiar. De alguma forma, era bom ver o respeito, mesmo que discretíssimo, dos homens da família por uma mulher.  Talvez aquela fosse mesmo a cidade certa para estar.

    A bruxa ficou surpresa quando a família se mobilizou a ajudar. Esperava apenas conseguir a permissão e teria de se virar pra levar as outras até ali...  – Obrigada – foi tudo o que ela disse, olhando para a matriarca que estava ao fundo, dentro de casa.

    Logo Dorothia montaria novamente em Freya, mostrando o caminho. Indicaria para as meninas mais velhas saírem da carroça, deixando lá somente as crianças e a mãe, e as três ajudariam os homens no que pudessem.  Mantinha as amigas sempre perto de si, de olho na jovem montada e armada. Quando acabaram,  as mulheres entraram novamente no veículo.

    - Você pode vir conosco, meu filho – a mais velha disse ao rapazinho que cedera o cavalo para puxar a carroça.  Ela tomou as rédeas, indicando que havia espaço para ele se sentar, caso quisesse.  Dorothia observou, montando novamente na familiar e logo todos partiram rumo à fazenda.

    A bruxa não tentaria puxar assunto, apesar de a mãe sim, principalmente se Jacob tivesse aceito a carona.  Ela era uma senhora simpática e, apesar de parecer pequena e frágil, comandava o cavalo desconhecido com perícia e mãos firmes.

    [...]

    As mulheres agradeceram o abrigo e a refeição oferecidas.  Não se importaram com o cheiro do local, já haviam estado em locais piores. O importante é que dormiriam seguras e relativamente secas.

    Sem o fogo, elas se despiram e dormiram sob os cobertores, todas juntas para se aquecer. Poderiam ter tirado a umidade da roupa, mas resolveram respeitar o território da outra bruxa, que havia permitido que elas passassem a noite ali.

    [...]

    Quando Jaqueline entrou no celeiro, somente as crianças ainda dormiam.  A mulher mais velha estava enrolada em um dos cobertores, para tentar afastar o frio das roupas ainda úmidas, e as mais novas estavam colocando feno para os animais. Dorothia indicou para que as amigas viessem para onde a menina pudesse ver e sorriu.  – Obrigada, tentamos ajudar de alguma forma. Eu dei um pouco de feno para os meus dois cavalos também, pois um se feriu ontem e o outro estava sem forças, mas ficarei feliz em ajudar para pagar pelo prejuízo. Posso? – indicou o balde que a outra seguravam, que parecia um tanto pesado. Realmente não se importava em ajudar  – Mãe, acorda as gêmeas.  Logo vamos partir.

    Disse e agradeceu pelo café que seria servido, indicando para as outras irem na frente. Caso a menina permitisse, seguiria ajudando ela a alimentar e limpar o local, sem puxar conversa, mas respondendo, caso ela perguntasse. Após terminarem, ela foi colocar o cavalo de carga na carroça e deixou Freya por perto. O ferimento da familiar não havia sido profundo, mas ela ainda parecia irritada.

    [...]

    A outras já estavam comendo quando Dorothia chegou, deu um sorriso ao ver que pareciam satisfeitas. Foi até a mulher que servira pra elas  – Obrigada – agradeceu pela refeição servida,  com a voz rouca pelo tanto de chuva que tomara.  – Não voltaremos a invadir sem permissão – disse, não falando exatamente dos limites da fazenda e a matriarca sabia disso.


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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Ter Dez 04, 2018 10:21 am

    New Hampshire
    Outubro de 1890

    Quando a mulher mais velha convidou Jacob para juntar-se a elas ele negou suavemente com um mover de cabeça. O pai tinha dado uma ordem e essa ordem seria seguida, as coisas funcionavam assim e sempre tinham sido assim.


    [...]


    A noite tinha sido tranquila, apesar dos barulhos comuns que fazendas tem à noite, o celeiro era quente até um pouco abafado em determinado momento. Não seria a experiencia mais confortável de todas, mas ao menos estavam longe da chuva e com comida.

    Jaqueline era uma garota relativamente pequena, deveria ter uns 10 ou 12 anos de idade. Tinha os cabelos bem penteados e presos num coque. Suas roupas pareciam "roupas de trabalho", pois era um vestido velho e sujo chegando a ser remendado em algumas partes. Ela depositou os baldes próximos as baias dos animais, depois se afastou buscando outras coisas e abriu a primeira baia onde começou a limpar. Jaqueline como os demais não parecia muito disposta a conversar, focada em sua tarefa diária. Quando Dorothia falou sobre o feno dado aos animais dela, a jovem apenas ergueu a cabeça e a observou por um momento sem tecer qualquer comentário a respeito disso.

    - É minha tarefa. - Ela falou finalmente. Numa voz baixinha, mas determinada e retornou ao trabalho de limpar e alimentar os animais. Mas isso não duraria muito tempo, quando as moças que Dorothia mandou sair começaram a se mover para a porta do celeiro ela se abriu. O jovem da noite anterior passou por ela, cumprimentando as moças que saiam. - A mãe pediu para você voltar pra casa e ajudar a servir o café. - Ele disse para a garotinha enquanto começava a colocar luvas.

    - E quem vai alimentar eles?

    - Eu. Parece que algumas cercas quebraram noite passada com a chuva, eu e o pai vamos arruma-las antes de soltar as ovelhas e um dos cachorros parece estar machucado. - Nessa hora ele levantou os olhos para Dorothia, sabia o que tinha acontecido ao cachorro na hora que o encontrou.

    - Você não vai tomar café com a gente?

    - Hoje não, Jaque. Agora vá ajudar a mamãe.

    Ele assumiu o lugar de Jaqueline - com muito mais velocidade e destreza enquanto a garota corria porta à fora do celeiro. - Seu cavalo matou um dos cachorros. - Decretou Jake, não parecendo muito satisfeito com aquilo. Certo, o cachorro não estava propriamente dito morto, mas um coice era um coice e eles não teriam dinheiro para um médico para o animal, o dinheiro já andava curto o suficiente para terem esse tipo de despesa. Sabia que o pai estaria extremamente mau humorado naquela manhã com a possibilidade de perder um dos cães pastores. Naquelas terras perder algo nunca era uma boa ideia. Jacob passou para a terceira baia e praticamente terminava de limpar tudo. - Melhor você ir, não gostam de atrasos.


    [...]


    A mesa tinha sido posta na varanda o que era bastante incomum para a família, mas o patriarca ainda não estava certo sobre ter aquelas pessoas dentro da sua casa, basicamente apenas as moças que vieram com Dorothia estavam à mesa. Não era uma mesa farta: havia café, leite, alguns ovos e pães e algumas frutas. Provavelmente tudo produto da própria fazenda. As meninas da fazenda não estava lá, mas quando Dorothia chegou ela pode descobrir o por que de não terem se "assustado" com o fato de ela usar calças na noite passada. Analise saia da casa usando uma calça e movendo-se com presa, Dorothia apenas ouviu o aviso da mãe para que ela não saísse da fazenda.

    Agora durante o dia Dorothia podia ver a imensidão das terras: o pasto terminava onde uma clareira começava e atrás da clareira uma floresta crescia livre e desimpedida. Havia uma ponte que separava a fazenda das outras poucas casas naquela região, mas aparentemente daquele lado da ponte tudo pertencia àquela família.

    Quando se aproximou e falou aquilo para a matriarca, a mulher a olhou por um instante, antes de responder. - É bom que não. Nem todos os fazendeiros tem a paciência que Anthony tem. Você poderia ter se ferido. - Ou ela não tinha entendido ou simplesmente não era quem Dorothia achava. - Onde estão os homens da sua caravana? - Quis saber a mulher.
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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Qua Dez 05, 2018 9:38 am

    New Hampshire
    Outubro de 1890

    A cultura daquela família parecia realmente fechada aos olhos da jovem bruxa, de um jeito um tanto estranho para alguém que passou boa parte da vida na estrada.  Ao contrário deles, a família dela estava acostumada a receber ajuda e oferecer ajuda em troca, sem algum tipo de orgulho ou senso de dever tão estrito. Dorothia suspirou, quando a jovenzinha negou a ajuda, dizendo que aquilo era “sua tarefa”, mas não discutiu, sabendo que já havia interferido demais na vida daquelas pessoas. Apenas começou a juntar as cobertas, dobrando elas para não deixar nada bagunçado ali.

    Antes que as mulheres pudessem sair, o rapaz que ajudara com a roda, na noite anterior, entrara.  Não gostava do tom dele com a irmã, mas todos os homens pareciam ter aquele tom... Ergueu o olhar para ele, quando Jacob dirigiu a palavra para si – Eu sinto muito... – disse, sinceramente. Não gostava de ferir seres inocentes, mas o que acontecera fora apenas a natureza agindo. Tudo bem que ela nem deveria ter invadido ali, mas não era possível mudar o passado. Dorothia pegou as cobertas, não oferecendo mais ajuda. Sabia que ele não aceitaria.  Logo saiu do celeiro e, após deixar tudo pronto para partir, foi até a varanda, entregando as cobertas para a matriarca e agradecendo a comida oferecida.

    - Eu poderia... Mas elas certamente estariam feridas se eu não tivesse vindo – era verdade, sem um meio de se locomover, na chuva, perto da floresta,  pegar um resfriado por ficar molhada era o menor dos problemas.  – De toda forma, agradeço o conselho – sorriu, curvando levemente a cabeça. Não sabia se a mulher era realmente a fonte do poder que havia naquelas terras, mas respeitava a posição que ela parecia ter ali. Após pegar uma das frutas oferecidas, ela deu uma mordida, se deixando aproveitar, por um instante, a doçura do alimento. Ia comentar qualquer coisa sobre isso quando a mulher voltou a falar.

    - Somos só nós – disse, simplesmente, olhando para o horizonte. Era uma fazenda enorme... E estavam sem um dos cachorros para pastoreio.  Dorothia se sentou, ainda observando o movimento das árvores sob o vendo fraco – É um lugar muito, muito bonito. Tem gente vivendo lá? – perguntou, vendo um pouco de fumaça sair das árvores, provavelmente de uma fogueira. Não era incomum pessoas sem casas, após a guerra, mas a floresta não parecia um local seguro para encontrar morada... Apesar de ser maravilhosa, durante a noite, animais nada amigáveis poderiam aparecer.

    A refeição seguiu, somente com algumas conversas rasas. Não haviam comido tudo, somente o necessário para partirem com o estômago em paz.  Quando as mulheres terminaram, se despediram e agradeceram pela refeição e o abrigo, seguindo para a carroça.

    - Obrigada, novamente, por tudo – Dorothia disse para a matriarca e a jovem que estava ajudando ela ali.  – Eu estou em dívida com vocês e, se precisarem de ajuda com os animais, após toda essa confusão que causamos, a Freya e eu já fizemos  trabalhos de pastoreio – escolheu bem as palavras, não querendo que eles vissem aquilo como uma simples “ajuda” e acabassem recusando prontamente. A jovem não gostava de ficar em dívida... E, bem,  não dava pra saber como seria o futuro ali naquela cidade, não era bom ter indisposições com a fazenda que poderia gerar algum tipo de trabalho.

    Aguardou a resposta, para saber se voltaria na fazenda e logo se curvou de leve, se despedindo e indo buscar Freya.



    ***






    Enquanto Dorothia conversava com Mary, as mulheres seguiram para arrumar as suas coisas. As três mais velhas organizavam a carroça, tirando o pano molhado que a cobria e estendendo as coisas molhadas , e as gêmeas brincavam. Uma delas ficou curiosa ao ver Jacob, o menino que a salvara da chuva feiosa e que entrara cumprimentando de forma simpática pela manhã,  andando aqui e ali, fazendo o trabalho dele. Ela foi seguindo o homem, se escondendo caso ele percebesse que alguém o seguia, e só parou quando, em um dos cercados dos cachorros, viu um que estava tremendo, sem conseguir descansar.

    Jacob só perceberia a menina quando ela passou sob a cerca do canil do animal ferido. Dentre todos os animais, aquele era o mais valente e feroz da fazenda, tendo sido o primeiro a conseguir agarrar a pata do cavalo. Jacob ouviria o animal rosnar, sem forças para se levantar, mas a menina não parecia assustada, se aproximando cada vez mais dele. Logo ela se abaixaria, ficando escondida da visão do homem por alguns instantes.


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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Qua Dez 05, 2018 1:59 pm

    New Hampshire
    Outubro de 1890

    A mulher apenas moveu a cabeça muito sutilmente enquanto Dorothia falava, a mulher começou também a retirar a mesa conforme as moças foram terminando de comer, Jaqueline a ajudava na tarefa. A mais velha retirava as coisas e a mais nova as levava para dentro da casa e retornava para continuar o processo. Quando Dorothia perguntou sobre a floresta, Mary Anne - a mulher mais velha - parou o que fazia e olhou na direção das árvores muito além do pasto.

    - Muitos ursos. - Afirmou. Não acreditava que alguém pudesse sobreviver muito tempo por lá, havia uma infinidade de animais selvagens e pouca terra para realmente se cultivar algo. - Jake e Anthony às vezes caçam lá, principalmente quando o inverno está próximo e a comida será escassa. Mas não é um bom lugar para se viver. - Moveu os ombros levemente, voltando a sua tarefa. - Tem um pequeno punhado de terra do outro lado da ponte. Eliza, viuvá. Talvez ela precise de ajuda e possa acolher vocês. - Comentou ao acaso.

    Não falou nada sobre o trabalho na fazenda, isso não cabia a ela decidir.


    [...]


    Jacob tinha um dia corrido: limpar o celeiro foi apenas o inicio. Ele precisou cortar madeira e depois levá-las até onde o pai estava para reparar as cercas derrubadas, ia e vinha com frequência. Para eles naquele instante o cachorro ferido era a menor das preocupações, estava quase próxima da hora de soltar as ovelhas no pasto e as cercas ainda estavam derrubadas.

    Sua única pausa na tarefa tinha sido exatamente na hora de alimentar os cães no canil.

    O canil era uma construção de madeira parecida com o celeiro, porém mais aberto: havia uma grande cerca em volta de uma instrutura que servia de abrigo para os animais, um extenso recipiente para água e outro para comida. Ele trazia alguns baldes que depositou no chão ao notar a presença da menina, estava prestes a se mover na direção em que a garota seguiu quando sentiu uma mão em seu ombro.


    [...]


    O cão tinha uma ferida próximo à boca, provavelmente um bocado de ossos partidos graças ao coice recebido, um problema difícil de se tratar e aparentemente fatal. Os demais animais reagiram semelhante: rosnados e latidos, mas graças ao cheiro da comida que se aproximava, a maioria se afastou.

    A garota não teve problemas para se aproximar dele nem para começar o que pretendia...

    Mas então veio um estampido alto e a cabeça do cachorro estourou em pedaços de carne, ossos e sangue, sujando a criança e dando fim a vida do animal. - Vocês invadiram minhas terras. - Disse a voz atrás dela, baixando a espingarda, Anelise olhava o animal morto com certo pesar, mas seu olhar duro e repreensivo voltou-se a criança. - Assustando os meus com suas bruxarias, quebrando o ciclo correto das coisas e continuam tentando fazê-las dentro dos meus limites? - Ela lambeu os lábios muito suavemente. - Eu não sei de onde vocês vieram ou o que querem, mas aqui nós temos regras, vocês não são livres para fazer o que quiserem. - Ela então agarrou a menina pelo braço, levantando-a de forma brusca e começando a puxá-la para fora do canil, praticamente arrastaria a criança de volta a carroça onde estavam as outras, então a soltou. Andou na direção de Dorothia até parar frente a frente da jovem.

    - Mantenha suas bruxas longe da minha família. - Ela praticamente cuspiu as palavras, havia tanto ódio no olhar da jovem que Dorothia sentiu um cala frio percorrendo o corpo... Mas também havia poder, Dorothia estava diante de uma bruxa poderosa, um poder que nem ela mesmo conhecia direito. Anelise virou as costas e começou a andar para longe das mulheres.

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Qua Dez 05, 2018 2:48 pm

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    Outubro de 1890

    - Obrigada, iremos até lá – sorriu, não insistindo quando a mulher não falou nada sobre o trabalho... Ia se despedir de forma educada, quando ouviu o tiro. Olhou para a mulher e quando percebeu que a matriarca havia se espantado, teve certeza que não era algo comum na rotina deles. Saiu apressada, na direção do celeiro, para ver o que estava acontecendo.


    [...]


    A criança se aproximou do animal, ignorando os rosnados. De alguma forma, Tanya tinha um certo dom com os bichos: desde pequena os seus poderes foram se manifestando com eles, mais do que qualquer outro poder presente na natureza. Ela se ajoelhou, passando a mão no pelo bonito do animal. Os rosnados se tornaram apenas grunhidos. – Tá tudo bem, tá tudo bem – ela disse,  fazendo mais um pouco de carinho nele. Como ainda era muito jovem, a sua magia ainda não era guiada por feitiços, por isso, apenas iria orar pra ele e usar a própria energia pra tentar ajudar no processo de cura... Mas, quando colocou a mão sobre as costelas do cachorro, tão fraturadas que afundou de leve, ouviu o choro dele, em seguida um barulho muito alto e o seu próprio grito de espanto, quando sentiu sangue voando pra todo lado.

    A menina fechou os olhos, assustada, até ouvir a voz da mulher e sentir o corpo ser alavancado do chão, sem nenhuma dó. – Me solta, bobona! Me solta, você é má! Eu só queria aliviar a dor dele, saaaaaaaaaaaaaai ia sendo arrastada, gritando. Usou o peso do próprio corpo pra dificultar que a mulher a arrastasse, em algum momento cravando os dentes na pele da mão dela. Se tentasse puxar com a outra mão, ou qualquer coisa além de soltar ela, a menina cravaria os dentes até sangrar.

    Quando se viu livre, Tanya correu na direção de Dorothia, que estava no meio do caminho. A bruxa se abaixou, ouvindo a outra esbravejar, verificando se o sangue era da irmã. Logo indicaria para a menina correr para a carroça, entrando na frente da loira. Não havia ouvido todo o papo de Anelise no canil, mas deduziu que a irmã havia feito alguma mágica, mesmo tendo sido alertada para não fazer.

    -Nunca mais aponta essa arma pra qualquer pessoa da minha família. Não importa que merda você seja – disse, apesar de sentir que estava num terreno muito perigoso – Ela é uma criança, não sabe nem o que é ser isso ainda disse, firme, apesar do medo que lhe descia a espinha.  De alguma forma, a união das mulheres era algo que dava poder a elas, mesmo que não soubessem controlar aquilo tudo ainda... Ainda mais quando Dorothia ficava com raiva. Era uma cena curiosa, pois Dorothia era uma jovem relativamente pequena, magra, que no geral não demonstrava muito poder... E talvez fosse a primeira a enfrentar a loira em muito tempo. – Nós não viemos em busca de confusão,  mas não pense que não sabemos revidar – indicaria para as outras seguirem com a carroça, esperando elas começarem a andar para sair da frente da outra bruxa e assobiar para Freya, que não estava longe.

    - Aliás... Se você prefere rebater a magia pura de uma criança com isso –  indicou a arma na mão da mulher, após montar na familiar – A única que devia ser afastada de pessoas boas como a sua família é você.  – E seguiu, fazendo Freya trotar para alcançar as outras.



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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Qua Dez 05, 2018 5:07 pm

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    Outubro de 1890

    Anelise não se abalou. Ela sequer teve muitas dificuldades para arrastar a criança que se esforçava para tornar tudo mais difícil e também não pareceu ter problemas com a mordida: se sentia dor, não esboçou.

    Quando Dorothia falou, Anelise parou e o tempo pareceu parar com ela. O vento parou de ventar, os animais fizeram silêncio quase que instantaneamente.

    Dorothia tinha sentado no cavalo, mas seu corpo foi violentamente "puxado" para o chão e arrastado por mãos invisíveis na direção de Anelise. Então ela sentiu a ponta da escopeta contra a própria testa, imóvel e incapaz de se mover como se mãos frias e gigantes lhe envolvessem o corpo e apertassem. - Eu não sei de qual buraco vocês saíram e o que ensinaram para vocês lá, mas eu vou repetir: há regras e não importa sua idade, elas vão ser respeitadas. Um dos principais e mais velhos: você não invade os domínios de outra, você não usa magias nos domínios de outra sem a permissão e a uma das mais primordiais de todas: você não interfere no ciclo da vida. - Dorothia pode ver quando alguma coisa na arma recuava, não era uma especialista em armas, mas sabia que se tratava de um inicio de processo para um disparo.

    O céu tinha ficado estranho, como se as nuvens parassem para observá-las e se curvassem a Anelise, Dorothia nunca tinha experimentado algo assim, nem mesmo com o Alto Sacerdote da Igreja da Noite. - Podem tentar revidar o quanto quiserem, os espíritos dessas terras respondem a mim, os elementos escutam apenas minha voz, nenhuma de vocês tem poder aqui.

    Dorothia sentia a morte tão perto, suas irmãs mal podiam se mexer, seu familiar tinha ficado congelado num único lugar e então...

    Então tudo aquilo passou rápido demais, o ar voltou aos seus pulmões de maneira violenta. Ela viu Jacob - o menino que achou rude - agarrar a arma de Anelise e levantá-la para cima, ouviu o estampido do tiro dado ao céu e então o mundo voltou a se mover.

    - Mas que merda é essa, An? - Ele gritou, puxando a arma para si. Os dois ficaram de frente um para o outro, Anelise o olhou com olhos diferentes: dúvida e zelo. Anelise deu uns passos para trás, apesar da quebra da concentração sua presença ainda era poderosa, ela olhou para Dorothia e moveu a cabeça como quem enxota algo incomodo. - Escolta elas até as porteiras e tenha certeza de que vão ir embora, eu vou enterrar o Duque. - Ela se afastou, deixando um Jacob esbaforido e assustado para trás, ele ainda segurava a arma e olhava na direção que a irmã tinha ido.

    Baixou o rifle e respirou fundo para só então olhar Dorothia com mais atenção. - Vocês estão bem? - O olhar acompanhou a pergunta, enquanto ele olhava Dorothia de cima a baixo. Parecia legitimamente preocupado.

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Qua Dez 05, 2018 5:58 pm

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    Outubro de 1890

    Não teve nem tempo de pensar no que estava acontecendo com o vento antes de ser puxada do cavalo e arrastada até Anelise.  Dorothia só conseguia ouvir o próprio coração batendo e a pressão nos ouvidos que isso causava: estava em pânico com aquilo. A presença da outra bruxa era sufocante... A bruxa mais jovem não estava com medo, era algo além disso.

    A menina ouvia o que a outra dizia, a encarando. Não era de dar o braço a torcer fácil, por isso tentava se manter firme, apesar de toda a situação. Isso não durou muito quando a arma foi apontada para a sua cabeça. A respiração da jovem ficou mais forte, tentava se mover sem sucesso. Tentou rebater sobre o que ela havia dito, concordava com tudo, mas não tinha poder de controlar cada passo das outras meninas... Apesar disso,  os lábios estavam tão imóveis quanto o corpo. O que estava acontecendo ali?

    Não podia nem mesmo fechar os olhos, antes de dar seu último suspiro de vida. Morreria olhando a sua algoz. Não estava ventando, mas sentia frio, não estava sol, mas sentia algumas gotas de suor dançarem em seu rosto.  E então ouviu a arma disparar.  Estar tão próxima da morte não lhe havia trago memórias boas, como dizem... Só conseguia pensar que não estava pronta pra morrer ainda.

    Deu o que pensara ser seu último suspiro... E tudo voltou a ser como devia. O tiro fora dado para o ar, com a intervenção de Jacob. O vento balançava as folhas das árvores, Freya relinchou, aproximando o corpo de Dorothia quando viu que ela ia cair. As pernas da jovem bruxa demoraram uns segundos a mais para “voltarem a vida”... Se apoiou no cavalo, que batia a pata no chão, em ameaça.

    - Está... Está tudo bem – disse, não soando muito convincente. O peito da jovem subia e descia de forma brusca, os olhos marejados. Precisou piscar algumas vezes para não chorar ali na frente de Jacob. Não entendia como ele havia “entrado” em cena, com o mundo todo parado.  Estava meio desnorteada. Tentou subir em Freya, mas as pernas ainda não obedeciam completamente. Parou, respirando – Obrigada...Eu te devo a minha vida – olhou finalmente para ele – Ela ia me matar... Obrigada... – murmurou, incrédula com aquilo. Quando viu que a mãe começara a fazer a volta com a carroça, negou com a cabeça. Não queria que elas entrassem novamente na fazenda.

    - Eu... Eu preciso ir –  disse, ainda se apoiando em Freya, andando pra onde o animal ia.

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Qua Dez 05, 2018 11:14 pm

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    Jacob precisou respirar fundo para tentar centrar suas ideias, a espingarda ele colocou no ombro, usando a alça dela como apoio, ainda olhava na direção que Anelise tinha ido mesmo que já não pudesse mais vê-la. Só quando Dorothia falou de novo que ele lembrou-se das demais, seu olhar preocupado vagou por ela enquanto se aproximava para ajudá-la a apoiar-se. Não tentou amenizar a situação: sabia que se não tivesse chegado Anelise de fato teria atirado nela e provavelmente nas outras.

    Suspirou.

    - Ela não gosta de "gente de fora." - Jake falou, tentando ajudar Dorothia a se aproximar da égua, aquela era uma verdade amarga sobre Anelise, mas ele preferia não entrar em tantos detalhes sobre a irmã, ao menos não com estranhas. - E os cachorros são responsabilidade dela. A gente não tem dinheiro pra tratar um cachorro, não agora pelo menos, mas mesmo assim perder um cachorro é ruim, vivemos das ovelhas e precisamos deles pra pastorear. - Não sabia por que estava falando aquelas coisas, sequer sabia porque diabos a garota se enfiou em um canil quando seu pai tinha cedido apenas o celeiro, algumas coisas simplesmente não faziam sentido para Jake.

    Ele as acompanhou até a porteira da fazenda, onde abriu para a carroça passar, esperou do lado de fora até Dorothia passar também. Moveu os ombros. - Eu tinha vindo porque a mãe pediu para avisar que talvez logo surja trabalho na região. Época de tosa e tratamento da lã. - Não achava que Dorothia estaria interessada em nada daquilo. Voltou a suspirar, passando a mão suja pelos cabelos, estava completamente sem jeito. - Se vocês seguirem à frente, depois da ponte vão achar Dona Elza, provavelmente conseguem trabalho por lá, desde que o marido morreu ela está sempre atrás de uma mão extra.

    A verdade era que gostaria de pedir desculpas, mas o que Anelise fizera não era algo que tinha um jeito de pedir desculpas.

    Mas havia outra questão, não havia?

    Como uma bruxa tão poderosa - e tão jovem - tinha parado naquele lugar?

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Qui Dez 06, 2018 1:31 am

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    Dorothia aceitou a ajuda para se mover até a familiar, se sentindo um pouco melhor ao se sentir perto de Freya. Foi caminhando com o menino, erguendo o olhar pra ele, quando começou a falar. – Nossa, nem tinha percebido isso – deu uma risada meio amarga, quanto a Anelise não gostar de gente de fora. Apenas assentiu quando ele falou sobre os cachorros e suspirou, quando ele comentou o que a matriarca da família dissera – Vocês são pessoas boas, em geral. Agradece a sua mãe por mim -   não conseguia pensar naquilo, no momento, mas certamente procuraria uma forma de trabalhar e aquela parecia uma boa oportunidade.

    - A propósito, me chamo Dorothia – disse, afinal não haviam sido formalmente apresentados. Tentou dar um pequeno sorriso, vendo a expressão de culpa que ele carregava – Está tudo bem, por sua intervenção está... – disse, desistindo de montar na égua, visto o caminho que ele indicara ser curto... E também não tinha certeza se ia conseguir se manter firme em Freya.

    - Obrigada novamente...  – suspirou, vendo o menino fechar a porteira. Ficou parada, observando ele, tentando entender o motivo de ele a ter salvo.  Quando Jacob percebeu o olhar sobre si, ela desviou, colocando a égua em movimento novamente e indo até a carroça, ver se estavam todos bem.

    - Hoje a noite precisamos decidir se vamos ficar ou não... Eu acho que devíamos part... – chegou falando, não querendo ficar ali. Antes de terminar a frase, viu uma mulher sentada ao lado da mãe na carroça.




    - Vocês deviam ficar.  Quantas mais nós formos, menos ela tem poder... – falou a mulher, pegando as rédeas das mãos da mãe de Dorothia. Era visível que já haviam conversado naqueles poucos minutos... E podia reconhecer aquele tipo de comportamento sedutor. – Vocês vão vir comigo...

    - Eu concordo, filha. Estamos muito vulneráveis e suas irmãs estão há muito tempo sem estudar...

    - Solta, por favor – disse, ainda abalada e com o rosto pálido, mas falando com a mulher diretamente e indicando as rédeas – Quando quisermos, procuramos vocês.  No momento, vamos para onde eu decidi e não você. Desce – a última palavra foi quase em um grunhido – Pode deixar o seu endereço, mas nada além disso.

    A mulher não parecia feliz com aquela atitude, mas olhou para as outras, dando um sorriso – Vocês sabem onde me encontrar. Estarei esperando – e logo olhou para Dorothia, descendo do veículo – Você devia pensar com carinho para onde você vai decidir ir nos próximos dias... Pois elas vão me procurar –  disse, baixo, só para a garota ouvir. Dorothia pôde sentir o sorriso na voz da mulher.

    Enquanto a outra bruxa se afastava,  Dorothia olhou para a família e ficou levemente preocupada com o olhar que tinham. Pelo menos Bea e Antonieta estavam hesitantes... Apesar de segurarem firme a cruz invertida pendurada em seus cordões, observando a mulher partir.
    - Vamos... Acho que podemos conseguir um lugar para ficar e decidir o que fazer... – e voltou a guiar a família, indo para a casa da viúva do outro lado do rio.

    - Thia... Por que ela fez aquilo? A moça ali disse que não somos as primeiras bruxas que ela tenta... fazer coisas feias. –Tanya perguntou, ainda com o rosto sujo de sangue e o cabelo com alguns pedaços de miolos grudados.

    - ô, meu amor. Eu te disse para não usar magia ali, não disse? Nós perdemos a razão quando  você me desobedeceu. De toda forma, se formos ficar aqui, como vocês parecem querer, eu não ficaria contra aquela mulher da fazenda. Vamos pensar antes de tomar qualquer decisão.

    Uma pequena discussão se formou no caminho e ninguém entendia o porquê de Dorothia estar mais hesitante quanto ao Coven do que quanto à bruxa Kraine maluca. Na verdade, as coisas na cabeça da jovem eram simples: precisavam ficar seguras, isso o Coven poderia oferecer... Mas a que preço? Não deixaria que a família entrasse em conflito com Anelise, após sentir o que sentira.

    - Você diz isso de todos os Covens pelos quais passamos... Eu tô cansada, Thia. Você prometeu que a nossa vida ia ser melhor... E eu mal posso alimentar meu corpo que leva uma criança no ventre.  Eu não vou partir... – disse Antonieta, enquanto conversavam.

    - Eu também não quero ir... – Bea assentiu, falando após a outra amiga.

    - Eu não posso prender vocês, meninas... Mas...

    - Filha... Chega. Nós estamos te ouvindo desde que você destruiu a nossa família e tirou as suas amigas do seio da família delas.  Nós vamos ficar, a maioria já decidiu – as palavras da mãe fizeram Dorothia dar um passo para trás. Era como se ela fosse a culpada por toda a desgraça acontecida. – Aqui nós já conhecemos o perigo. E se na próxima cidade tiver um pior?

    - Tudo bem  - foi tudo o que disse. Parou na frente da casa da viúva, entrando lá para conversar com a mesma.  Não demorou muito, antes de sair – Nós poderemos ficar por uns dias, até vocês decidirem que merda vão fazer. Eu vou tentar conseguir alguma comida, pois ela deixou claro que não dividiria o alimento escasso, em uma época tão próxima ao inverno – E montou em Freya, deixando que a família fizesse o que bem entendesse.

    Dorothia colocou o animal para trotar, deixando que fosse pra onde quisesse. No momento, só queria se afastar um pouco. Nas últimas horas, coisas bem fortes haviam acontecido. Escondeu o rosto na crina cumprida de Freya, se permitindo chorar pela primeira vez no dia.


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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Sex Dez 07, 2018 10:22 am

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    Outubro de 1890

    Jacob tinha ficado um pouco no portão, observando-as partir. Viu a mulher que desceu da carroça, mas não a reconheceu e depois de um tempo ele se afastou, retornando para dentro das terras Kraine e para seus afazeres, o dia ia ser longo de qualquer forma.


    [...]


    Dorothia agora estava com a cabeça cheia, muita coisa para pensar e para tentar por em prática. Anelise era assustadora... Mas surpreendente de outras formas também, muitas questões giravam em torno da poderosa criatura que ela deparou-se além claro da recém surgida proposta da mulher misteriosa.

    A égua vagava aleatoriamente sem um rumo certo, sem que a jovem bruxa percebesse a égua deu a volta na fazenda Kraine e pegou uma trilha em direção a floresta.



    Ali o silencio não era constante, criaturas moviam-se pelas folhas, pássaros cantavam e voavam de um lado para o outro, as próprias árvores balançavam com o vento que batia nelas, os poucos e tímidos raios de sol mal chegavam ao chão, graças as copas das árvores, após algum tempo andando o cavalo finalmente parou e Dorothia se deu conta disso apenas naquele momento.






    A clareira em que se encontrava era sem sombras de duvidas um lugar estranho - sentia uma paz quente e repentina, mas um inquietamento constante e presente. O lugar era cercado por árvores, como se elas quisessem proteger aquele lugar dos olhares alheios, ao centro da clareira uma árvore gigantesca erguia-se majestosa, seus galhos espalhando-se como veias por todo o lugar, produzindo uma sombra fria, mas aconchegante.

    Havia magia ali, Dorothia sabia. Forte e presente... Mas... Estranha. Como se negasse a própria presença da bruxa. Mas não era apenas magia que existia ali, Dorothia pode notar ao se aproximar mais da árvore que Jacob também estava lá, deitado em uma das raízes, observando o céu, parecia não ter notado a chegada da jovem bruxa.



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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Sex Dez 07, 2018 12:19 pm

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    Outubro de 1890

    A jovem bruxa não conseguia entender como as coisas, nas últimas horas, haviam se desenrolado.  As outras tinham visto a jovem quase morrer e ainda sim decidiram ficar... E, no passado, sentido na pele aquele tipo de falácia da qual a bruxa do Coven se apropriara... Mas se deixaram seduzir. Era certo que Dorothia teria de aceitar, em algum momento, parar em algum lugar e recomeçar a vida, mas não sabia o motivo das outras terem se sentido tão especialmente atraídas por aquela cidade, depois da manhã agitada que tiveram.

    Apesar de tentar nunca demonstrar, ela estava com medo, e a única que parecia sentir e entender isso era Freya. O animal se afastou prontamente, quando a menina a colocara para andar, mantendo um ritmo contínuo, para que ela não caísse mesmo com o corpo todo torto em cima de seu dorso. Dorothia não percebeu para onde iam - na verdade, nem se preocupou com isso, pois confiava na familiar. Se deixou pensar e chorar na crina negra, sentindo que aquilo era o que mais precisava no momento.


    [...]


    Só cessou as próprias lamúrias quando uma sensação esquisita atravessou o seu corpo. Era como se uma ponta de esperança e de paz atravessasse o seu corpo, acolhendo a alma inquieta em sua magia ancestral... Mas, ao mesmo tempo, um embrulho no estômago surgia, como se não devesse estar ali. Como um lugar pode ser tão agradavelmente desconfortável? , ela pensou, erguendo o corpo e sentindo um galho passar na sua cara, arranhando de leve – Ai... Freya, que lugar é esse? – perguntou, a égua relinchou, se fazendo de desentendida. Quando olhou em volta, teve uma surpresa... Estavam em uma floresta, no meio de duas árvores que faziam parte da delimitação circular, perfeita, de uma clareira.

    - Wow... – exclamou, desmontando a água e limpando de qualquer jeito os olhos molhados. Fez um carinho na familiar, deixando que ela pastasse pela grama mais baixa da clareira e entrando nela, observando a árvore maravilhosa que estava bem no meio dela. Apesar da fascinação, uma sensação, bem no fundo, dizia que ela não devia entrar... Sensação prontamente ignorada pela bruxa.

    Enquanto dava a volta no tronco majestoso, desviando as raízes externas,  viu Jacob deitado ali. Pela primeira vez, desde a noite anterior, viu a expressão de paz no rosto dele, sem a rigidez devinda do seio familiar ou a culpa, pelo ocorrido.  Se deixou observá-lo por um momento,  se aproximando de forma silenciosa, sentando no chão, ao lado da raiz que ele estava deitado e olhando pro céu.

    - Eu não sabia que um homem tão atarefado gostava de tirar alguns minutos pra olhar o céu – disse baixo, sendo a sua voz, talvez, a primeira coisa a denunciar a presença dela ali.

    Deu um sorriso, se recostando na árvore e também olhando para cima... Era como se o tronco fosse perfeitamente anatômico para deixar seu corpo recostado. Não desviou o olhar do céu, quando voltou a falar – Que lugar lindo é esse aqui... Onde nós estamos? – perguntou, sem fazer realmente ideia. Imaginava que era na floresta que vira da varanda dos Kraine, mas não tinha certeza.

    Dorothia tinha o rosto levemente inchado do choro e os olhos vermelhos, além do arranhão feito pelo galho... Assim como ela tivera a impressão de ver Jacob sem suas máscaras sociais, ele a veria ali, sem a postura protetora e dura de quando estava defendendo a família. Os olhos dela brilhavam, esverdeados quando  os parcos raios de sol encontravam as orbes, mas não era um brilho de alegria, no momento.

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Sex Dez 07, 2018 12:47 pm

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    Outubro de 1890

    Além da estranha sensação de paz, Dorothia também sentia um pouco daquilo que sentiu quando entrou na fazenda Kraine: parecia ter cruzado um espaço ao qual não tinha sido convidada a estar, mas onde sua presença era de alguma forma bem vinda.

    Jake ainda estava com aquele aspecto sujo de fazenda, as roupas velhas e encardidas e o rosto um tanto cansado, mas também parecia bastante sereno e a vontade naquele lugar. Não notou Dorothia até ouvi-la falar e quando a jovem o fez, ele ergueu-se sentando-se quase de imediato, tomado por um susto. Olhou para ela por um instante, antes de suspirar brevemente.

    - Todo homem precisa de uma pausa. - Comentou agora perdendo um pouco do tom relaxado que tinha antes, ele ajeitou o suspensório da calça, colocando-os nos ombros novamente, estava descalço também, mas logo puxou os sapatos para perto.- Antes de começar realmente a floresta tem um bosque que faz parte da fazenda. - Passou a mão nos cabelos um tanto molhados, bagunçando-os.

    - Inicialmente a ideia era transformar em pasto, mas é um bom lugar para conseguir cogumelos e frutas... Então acabou ficando. Ainda mais depois da Anelise...

    Ele voltou os olhos para cima, observando as copas das árvores com atenção. Existiam coisas sobre aquele lugar que Jake não sabia, que muita gente não sabia, mas com toda a certeza Anelise era a mais intrigante de todas. - Ann é adotada, sabe? - Não sabia por que estava contando aquilo para a mulher, talvez por uma leve parcela de culpa pelo ocorrido mais cedo. - Ela apareceu na nossa fazenda uma noite, devia ter sei lá, uns 4 anos. Estava com roupas esfarrapadas e sujas... Meus pais na época não sabiam se era uma criança da região que tinha se perdido e quando meu pai perguntou de onde ela tinha vindo, Anelise apontou para cá. Ele veio até aqui, mas tudo que encontrou foram restos de frutas e sementes e alguns brinquedos rústicos. Não dava muito para acreditar que uma criança teria sobrevivido tanto tempo na floresta ou aqui sozinha por todo esse tempo... Mas Anelise estava lá. Ela não era filha de ninguém da região e meus pais tinham acabado de perder o primeiro filho... Então ela ficou.

    Ele moveu os ombros de novo e agora olhou de novo para Dorothia. - Ela vem bastante aqui é bom você não ficar perambulando por aí... - Era bom avisar, não era. - Logo vai ser inverno, então aproveitei para vir buscar o restante dos cogumelos e dar uma pausa. Pensei que você fosse ir para a casa da Dona Elza.


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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Sex Dez 07, 2018 1:24 pm

    New Hampshire
    Outubro de 1890

    A menina não conseguiu conter uma risadinha quando viu o homem se assustar, mas se sentiu mal por atrapalhar o descanso dele. Fez um sinal com a mão, quando ele começou a se arrumar, para que ele parasse – Desculpa o susto – deu mais uma risadinha – Mas fica à vontade, não se incomoda comigo – disse, observando ele arrumar o suspensório, cabelo, sapatos. Ela voltou a se recostar, suspirando – Ahm, faz parte das suas terras, faz sentido – pensou, imaginando que era daí que vinha a sensação... E tendo a confirmação quando ele mencionou a irmã.

    - Seria uma pena transformar isso tudo em pasto...  A natureza fez um trabalho maravilhoso nesse lugar – e então desviou o olhar para ele, quando o menino começou a contar a história de Anelise. Ouviu com bastante atenção.  Franziu as sobrancelhas com o final. – Nossa, por isso ela é tão... hm, protetora com vocês – disse, pensando. O poder da outra bruxa poderia estar relacionado às suas origens... Não era possível saber se os pais tinham algo de incomum... Ou se foi somente a floresta que a acolhera... Mas era certo que tudo ali parecia ter a sua marca.

    A jovem tirou os sapatos surrados, esticando os dedinhos do pé quando entraram em contato com a grama. Fazer isso era sempre revigorante – Está tudo bem na sua casa? Desculpa se causamos algum tipo de... inconveniente. –  Provavelmente a família não sabia dos dons da bruxa, mas aquilo deixou Dorothia curiosa – Já aconteceram coisas parecidas, no passado? Sua irmã parecia mais chateada com a situação geral do que com o que a minha irmã fez...   – após a resposta, ouviu o conselho dele.

    - Eu não vou... Já andei invadindo demais as terras de vocês – deu de ombros,  afundando um pouco o corpo.   – Ahan... Eu fui. Negociei com ela para ficarmos lá um tempo... As outras ficaram lá, eu precisava ficar um tempo sozinha. Minha intenção era ir ao centro, comprar comida, mas Freya veio pra cá... Eu a encontrei em uma floresta assim, acho que ela sente falta – comentou, observando, mais ao fundo, a água comendo a grama verde.


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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Sab Dez 08, 2018 12:04 pm

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    Jake moveu os ombros de maneira desdenhosa, após calçar os sapatos, não se sentia a vontade em ficar daquele jeito perto de uma moça, não era direito. - A natureza não põe comida na mesa, moça. Nem ração pros bichos. - Comentou quando ela falou sobre o 'trabalho incrível' ali. Ele levantou os olhos observando o lugar por um instante apesar de achá-lo bonito, não tinha a mesma fascinação por ele que Anelise e agora essa jovem tinham.

    - Está tudo bem por lá. - Tirando era claro o fato de terem perdido um cachorro pastoreio e do inverno estar chegando. Quando ela fez aquela pergunta, Jake olhou para a moça com alguma ressalva... Mas bom, era uma história que toda a comunidade conhecia. - Uns anos atrás umas moças vieram aqui e queriam comprar a propriedade. Ofereceram até um bom dinheiro mais do que a terra valia, meu pai desconfiou é claro. Mas de qualquer forma ele não estava disposto a vender. - Jacob suspirou parecendo não gostar muito das coisas que se lembrava. - Elas falaram que ele ia mudar de ideia e todas essas coisas de comprador, um tempo depois as coisas começaram a piorar, animais morrendo, plantio estragando, chuva que não vinha ou chuva que vinha demais. A fazenda estava afundando em dividas, elas voltaram e perguntaram se ele queria vender e ele negou de novo, mas de qualquer forma íamos perder a terra. Então Anelise chegou e as coisas melhoraram de uma hora pra outra. As mulheres voltaram algumas vezes e então começaram as ameaças, dizendo que conheciam pessoas importantes e tudo mais... A última vez que elas tentaram, Anelise já devia ter uns 16 anos, eu acho e depois disso nunca mais voltaram. Desde então ela não gosta muito de gente de fora.

    Ele olhou para além deles, para o bosque e a trilha que dava para a fazenda e a outra que dava a floresta. - Essas terras estão na família a gerações. - Ele se levantou, batendo a terra e as folhas para longe de si. - Se você for até a cidade, recomendo trocar de roupa. Não vai conseguir se atendida vestida... Do jeito que está.


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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Sab Dez 08, 2018 4:12 pm

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    - Eu sei que não põe – disse, observando que ele parecia realmente desconfortável em relaxar perto dela. Não insistiu – Quando falo isso, não é por ignorar a necessidade de vocês, sei que cada um arruma a sua maneira de sobreviver. É só que poucas vezes podemos desfrutar da beleza da natureza assim, tão perto da cidade. Na última cidade que tivemos, a leste daqui, essa mesma floresta parecia se estender até lá... Mas era suja, usada para... hm, para moças sem rumo ganhar a vida – deu de ombros – Chegamos até a cogitar ficar por lá, mas temi que as minhas irmãs acabassem escolhendo esse caminho. Não acho errado, não acredito que essas moças façam isso por escolha, mas se eu puder dar às manas uma boa oportunidade de vida, eu vou dar – desviou o olhar, não sabendo se estava realmente ajudando depois do que ouvira há poucos instantes da família.

    Quando Jacob disse que estava tudo bem em casa, ela ficou aliviada.  Logo prestou atenção na história, pensando no que a família havia passado. Não duvidava que fossem pessoas do Coven que tivessem tentado aquilo. Essa gente costumava ser bem sem escrúpulos quando queriam algo.  – Entendo. Deve ter sido uma época difícil para todos vocês... Mas há sempre prosperidade após a tormenta, confiem nisso – sorriu, pensando um pouco.  Aquela terra tinha magia, fazia sentido outras pessoas quererem, ainda mais algo que pertencia há gerações a uma família humana.

    Observou ele se levantar, fazendo uma careta com aquele comentário. Olhou para si mesma, entendendo o motivo. – Se vocês homens soubessem como é desconfortável montar de vestido longo, não ficariam com essas bobeiras – se levantou também, pegando as botas na mão, ainda aproveitando a energia da grama baixinha – Ainda mais na Freya. Capaz de ela empinar só pra me envergonhar com a barra da saia subindo – riu, já havia acontecido. Pensou um pouco.

    - Mas... Se um fazendeiro respeitado por acaso for comigo, acho que ganharei a confiança dos comerciantes mais rápido – ergueu o olhar para ele, mordendo o lábio, com cara de “por favorr”.  

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Rosenrot em Sab Dez 08, 2018 11:44 pm

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    Ele ficou em silêncio enquanto Dorothia falava, entendia as palavras da garota, mas achava que ela provavelmente tinha vindo de uma vida um tanto menos sofrida do que a de um fazendeiro, a jovem ainda possuía um certo grau de inocência de vivencia que ele achou bonito e que só conseguia ver atualmente em sua irmã mais nova, Jaqueline. Ficou um pouco sem entender o que ela queria dizer sobre as moças e a floresta, mas quando a compreensão veio, Jake pareceu surpreso: era algo que não tinha conhecimento de acontecer por ali, apenas na capital de New Hamspire - "a cidade grande" - suspirou mais uma vez sem tecer comentários.

    - Bobeiras? - Questionou ele, achando estranho o comentário dela. - Anelise gosta de montar, mas ela faz isso apenas dentro da fazenda, fora dela usa a carroça, como todas as moças costumam fazer. - Deu uma olhada leve em Dorothia, em sua mente regras precisavam ser seguidas - haviam regras para os homens e para as mulheres - e o mundo era regido a regras. - Você deveria tentar cavalgar usando uma sela é mais seguro para você e mais confortável para o animal.

    Quando terminou essa frase, ele já estava de pé e pegou um saco de pano que estava próximo a ele, então Dorothia falou aquilo e Jake ficou ali parado como se precisasse de um momento ou dois para entender o que tinha sido dito. Ele lambeu os lábios brevemente, pensando a respeito daquilo, pesando as consequências. - Acho que vou estar livre antes do almoço. Mas você precisa mesmo por um vestido. - Ele tentou sorrir de leve, mas estava falando sério, seria melhor para ela. - Eu passo para lhe pegar às dez? - Ficou aguardando a resposta e quando Dorothia confirmasse ou não, ele se despediria e voltaria para a fazenda.


    [...]


    Jake tinha um monte de duvidas a respeito daquela ideia, mas fizera uma promessa e pretendia cumprir. Às 10hs ele parou a carroça em frente a propriedade da vizinha, não era uma carroça elegante - e provavelmente nem tão confortável - mas era o que tinha para oferecer. O cavalo preso a ela também não era tão bonito ou vigoroso como a égua que Dorothia possuía, mas forte o bastante para fazer seu trabalho. Ele também estava um tanto mais arrumado. A blusa branca estava limpa, assim como a calça presa, apenas os sapatos e os suspensórios eram os mesmos. Também usava um colete sobre a blusa branca e tinha os cabelos penteados.




    Desceria da carroça para ajudar a jovem a subir e só então subiria de novo e começaria a por o cavalo em movimento. - Tem ideia do que vai procurar pela cidade? - Quis saber.


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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

    Mensagem por Bastet em Dom Dez 09, 2018 2:50 pm

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    - “Como todas as outras moças fazem”Dorothia ecoou as palavras do jovem a sua frente, não parecendo muito satisfeita com elas – Nós podemos fazer a maioria das coisas que vocês fazem, assim como vocês podem fazer a maioria que nós fazemos... Claro, cada um tem mais facilidade para fazer uma ou outra coisa... Mas não acho correto termos de nos limitar por que tem gente que quer que usemos saia – deu de ombros, era verdade que não era fácil sobreviver sendo mulher e sem um “provedor”, mas aquele grupo de mulheres estava provando que era possível o fazer e com muita dignidade.

    Olhou para a familiar quando ele disse aquilo e deu uma pequena risada – Se quiser tentar selar ela, boa sorte.  Acho que Freya é a mais teimosa de todas as mulheres que viajam comigo – logo começou a limpar a calça também, fazendo a proposta de ele ir na cidade com ela. Talvez estivesse abusando um pouquinho da culpa que ele estava sentindo, mas não era como se ele não pudesse negar... Então tudo bem, certo?

    Após ponderar, Jacob aceitou, com a condição de ela por um vestido. Ela olhou para ele com uma cara de “sério?”, mas acabou aceitando... Sabia que era preciso fazer alguns sacrifícios para conseguir certas coisas, e ter alguém conhecido indo com ela para a cidade era algo valioso: se ficassem ali, o quanto antes ela conseguisse causar uma boa impressão, mais rápido conseguiria trabalho e bom preço nas coisas. Se despediu dele e voltou para a residência da viúva,  pensando se ainda tinha algum vestido inteiro.


    [...]


    Chegando lá, evitou ao máximo a família. Foi direto para a carroça delas, que ainda não havia sido descarregada, começar a procurar nos baús. Os vestidos completos já haviam sido vendidos, pois valiam bastante... Agora tinha algumas saias longas e as blusas que costumava usar com a calça. "Isso deve servir" pensou, vendo algo que se ajustasse bem ao seu corpo  e tirando do baú. Quando desceu da carroça, viu as gêmeas brincando com os filhos de dona Elza e sorriu. Pareciam ter se enturmado bem ali. Não viu a mãe e as outras duas, provavelmente estavam ou andando pela vizinhança ou ajudando a viúva em algo, e foi até a casa de banho, limpar o rosto e o corpo, da melhor maneira que podia, e se vestir. A roupa não havia ficado tão ruim, a saia era de quando era um pouco mais jovem, por isso ficou com a cintura mais marcada do que devia, mas, no geral, estava bem decente. Limpou a bota também, pois estava suja de barro e grama, e ajeitou o cabelo em um tipo de coque, fazendo careta . “Devo estar igual uma velha” pensou, rindo.

    Foi até a viúva, enquanto esperava, e explicou que iria na cidade. A mulher pediu para ela levar algumas coisas, dando o dinheiro pra isso,  e fez Dorothia se sentar para ajeitar o cabelo dela melhor, deixando o coque com uma aparência menos desleixada – Não quero que pensem que abriguei arruaceiras na minha casa – ela repreendeu, lotando a cabeça da menina de grampos e essas coisas estranhas de cabelo. Logo tirou um potinho com um pouco de rouge do armário, batendo nas bochechas da bruxa, que tentava se afastar das mãos da velha, mas não tinha sucesso.  A mulher seguia contando que sempre quis uma filha mulher para essas coisas, mas o marido era “viril demais” em vida e só lhe deu herdeiros homens.

    Dorothia logo ouviria a carroça parar na frente da pequena propriedade. Agradeceu Elza pelo “dia de beleza”. Logo saiu, ajeitando a saia. Sorriu ao ver Jacob e já ia se empoleirando na carroça, quando ele desceu pra ajudar. – Oh, obrigada – era o rouge os as bochechas se enrubesceram? Havia se desacostumado com aquelas gentilezas, e visivelmente ficou sem graça, mas aceitou a ajuda. Ficou de pé, enquanto ele dava a volta pra subir novamente e deu uma voltinha – Que tal?  Tô parecendo mais uma menina? – perguntou, com alguma ironia na voz, mas não parecia mal humorada. De alguma forma, apesar de não achar as saias práticas, estava relembrando como faziam uma dama se sentir bonita.

    Logo ela se sentou, quando ele colocou a carroça em movimento, ouvindo a pergunta. – Quero comprar alguns grãos, para estocar... O inverno não parece que vai ser brando esse ano... E dona Elza já tem bocas pra alimentar além da gente. Algumas frutas também, se encontrar, as meninas gostam bastante... – comentou, mas achava difícil que ainda tivessem frutas frescas com um bom preço.  – Ah, dona Elza pediu para comprar um pouco de carne seca pra ela e pegar um vestido na costureira. Se você puder trazer os grãos pra mim, quando voltar, agradeço... Não quero tomar seu tempo com tudo isso...

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    Re: [Outubro, 1890] - Nova Inglaterra, New Hampshire

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