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    [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

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    [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Mellorienna em Qua Jan 09, 2019 7:45 pm





    Hospital Geral de Bela Vista


    22h
    - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


    Enquanto isso, no lustre do Castelo...:
    Seus passos ecoavam pelo chão de mármore frio, em um clac-clac rítmico que era quase alegre. Ele estava de costas, analisando a própria figura com esmero no grande espelho do salão. Um espelho todo quebrado.

    - A menina está segura, meu Príncipe. Acomodada conforme suas ordens. - a mesura elegante era típica de tempos menos bárbaros, mas velhos hábitos eram difíceis de abandonar. Como a insistência boba em fitar o enorme espelho, mesmo sabendo que não veria sua imagem refletida.

    - E Bjelac?

    Ele ainda olhava o espelho, mas a voz era suficiente para causar arrepios. Um veludo sutil e afiado como navalha.

    - Morto, meu Senhor. Pela Lâmina de Shai'tan. - percebeu o leve estremecimento que aquelas palavras causaram e se deleitou em silêncio, passando a língua áspera pelos lábios pálidos e finos - Entretanto, o veículo do ritual de Bjelac estava danificado. Eu espiei das Sombras. A Bruxa deixou o museu sem a bússola para a Última Filha de Eva.

    O sorriso serrilhado e predatório que Ele exibiu fez com que oscilasse levemente, perdendo a força nos joelhos por um instante.

    - Ótimo. Eu verei nossa convidada. Agora.

    Maria Ivri era uma espécie de celebridade menor no Hospital Geral de Bela Vista, isso era um fato. O atendimento a Antônio desrespeitou qualquer fila e moveu-se céus e terras para que fosse operado pela melhor equipe de cirurgiões. E em tempo recorde. Em menos de três horas de cirurgia o Caçador estava de volta ao quarto, acordado e todo remendado. Como uma múmia engessada.

    Durante todo aquele tempo, Mel se manteve ao lado de Doc. Em total e completo silêncio. Havia feito apenas um gesto: apagar a lua na testa da moça. Sem palavras, sem sorrisos. Só um polegar vigorosamente friccionado sobre a tinta da caneta. No quarto, a Caçadora se manteve de pé, próxima à janela, dando a Doc o espaço devido para cuidar de Antônio e monitorar seus aparelhos, caso necessário.

    Ouviram juntos quando os médicos anunciaram que seriam necessários meses de recuperação, fisioterapia e hidroterapia para que o homem voltasse à vida normal. O pulmão perfurado por uma das costelas quebradas era a maior preocupação. Havia risco de enfisema, mesmo naquele momento. Antônio ficaria pelo menos mais quatro dias em observação, apesar de todos os esforços da equipe médica para agradar Maria Ivri e aquele que julgavam ser contatinho especial de emergência.

    Apenas quando o cirurgião deixou o quarto foi que, finalmente, a Caçadora quebrou o silêncio de horas seguidas:

    - Não temos quatro dias. Nem quatro horas. Cada minuto que passamos aqui é menos um minuto nas chances da civil que vocês arrastaram para o campo de batalh--- Isso não importa. Aquela era a legista, certo? Eu imaginei... - a morena ainda tinha aquela aparência fantástica, com os cabelos que se moviam pelo ar e os olhos inteiramente escuros - Doc, você precisa curar o Antônio. Não, não como os médicos fizeram. Isso vai ajudar no processo. Mas o que você precisa fazer é curar. Como em um milagre.

    Atenta ao fato de que aquilo pareceria certamente impossível para os dois Caçadores novatos, Mel continuou:

    - É bastante difícil. Mas é tão impossível quanto a existência de vampiros, então estamos bem, certo? - um meio-sorriso se insinuou na expressão da morena - Porém, vocês dois não podem ter dúvidas. Nada pode desviar seu pensamento para o Abismo durante o milagre, ou - é claro - o efeito não vai acontecer. Uma cura é como uma oração, um mantra, uma meditação, entendem? A mente precisa estar em estado de hiperconcentração. Por isso, qualquer dúvida, sobre qualquer coisa, pode impedir a manifestação. Até um "será que deixei a janela da sala aberta?" pode ser fatal.

    Recostando-se contra a janela e cruzando os braços sob os seios, a Caçadora encarou a dupla com seus olhos que eram orbes de escuridão:

    - Então, perguntem. Toda e qualquer coisa. E depois vamos invocar a cura e sair daqui.




    OFF: Postagem liberada! Depois eu vou editar o post para incluir imagens bonitas xD~



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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Padre em Sex Jan 11, 2019 12:55 am

    A TIME TO HEAL



    Entre agradecimentos e palavras de encorajamento por parte de seus companheiros, ainda parecia que nenhum deles entendia com clareza as dimensões dos sentimentos de Maria naquele momento, talvez essa fosse uma das consequências de seu pecado.

    Mesmo com a atenção voltava pra rua, Doc ainda percebia o que acontecia ao seu redor e não deixava de notar que após dar uma papeada Mel conseguia se livrar da polícia de vez e então voltava a sua atenção pra rua. O sentimento naquele momento era o de falha, a mulher estava pensativa e tentando entender o que havia feito de errado, só não começou a questionar culpados disso e daquilo porque a ambulância finalmente chegava tirando Maria de seu transe alto punitivo.

    O procedimento pra pegar Antônio era o padrão e a jovem Dra. assistia de longe tentando disfarçar o que sentia para os colegas de trabalho. Antes de subir na ambulância, preparava-se pra desperdir-se, mas foi pega de surpresa ao notar que Mel tinha a intenção de ir junto.

    Primeiro os policiais e agora isso. E estão todos ignorando, é como se ela estivesse... Invisível.

    Entretanto, mesmo com tantas coisas inusitadas acontecendo, aquilo não era algo que Maria deixava tira-la se sua espiral de maus pensamentos e culpa, seus olhos se focavam em Antônio como um refúgio de ter que encarar qualquer outra pessoa de verdade.  Continuava pensativa.

    [...]

    Ser conhecida no Hospital Geral de Bela vista tinha lá as suas vantagens, sentiria-se honrada por ter ganhado a preferência em um caso tão pesado como aquele, isso se não estivesse no mais completo vazio existêncial. Enquanto acontecia a cirurgia de Antônio (optou por ficar de fora, confiava nas mãos dos cirurgiões daquele lugar e não estava apta pra realizar o tratamento por conta própria) engolia a seco a presença de Mel, que naquela hora parecia mais uma espécie de segurança do que de ombro amigo. Metade do tempo passou refletindo, dessa vez em um ambiente que se sentia mais confortável e calma e no outro, resolveu fazer uma ligação pro seu amigo, chefe e agora de certa forma um mestre quando o assunto eram os noturnos. Tentava ligar pra ele, mas caía na caixa de voz, ia então para um canto isolado para mandar a sua mensagem se afastando de Mel por um tempo.

    Hey, Albert, é a Mari, como vai? ― Era engraçado, pois ele era o único que ela permitia-se que lhe chamasse assim. ― Hoje eu fiz a minha primeira caçada e ela foi... Diferente. ― Tomava um tempo pra dar uma respirada pesada e então continuava. ― Hoje eu vi um daqueles noturnos morrer, era ele ou o meu grupo, que por sinal estava tão despreparado quanto eu e foi um alívio. Por outro lado, minha trajetória nessa noite começou no necrotério onde eu encontrei uma mulher que era um alvo, uma emergência sumiu e eu optei por não deixa-la sozinha, EU tomei essa decisão, você entende Albert? Ela veio com a gente e no fim da noite algo a pegou... Eu não sei o que era aquilo, talvez algo que aconteça com alguém que viu o véu cair e cedeu a loucura? Talvez um sequestro? O próprio inferno vindo busca-la? Eu realmente não entendo, a única certeza nessa história é que aquilo foi minha culpa. Isso não era justo com ela, era?

    O som de tempo limite chegava, Doc se viu obrigada a terminar o seu desabafo na metade, se perguntava se o amigo a entenderia. Seus olhos estavam um pouco vermelhos, as lágrimas ameaçavam sair, mas ela era boa em segurar. Mel apagava a marca da caneta na sua testa e por um segundo isso lembrava-lhe de sua própria mãe.

    Por que isso tem que ser tão difícil?

    Antônio finalmente voltava para o quarto, Doc fazia os últimos preparativos pra que ele ficasse em paz e tranquilo, usava então aquilo pra distrair a mente, de fato, estava orgulhosa de seu time e aliviada pelo caçador imprudente. Como o silêncio tomava conta do local, não deixaram de ouvir o que tinham a dizer sobre o tempo de recuperação de Antônio, aquilo não era exatamente um choque para ela, mas talvez para os outros era.

    Eles não mentiram, mas isso na verdade é uma resposta positiva, você deu sorte e poderia estar bem pior por agora. ― Sorria para Antônio, um sorriso que era acostumada a dar sempre que precisava acalmar algum paciente, entretanto, naquele dia o sorriso se pareceria mais com uma expressão vazia do que como geralmente era. ― Obrigada por tudo. ― Sorria novamente, dessa vez para o cirurgião que já estava de saída. Sabia que era um trabalho árduo, era o mínimo que poderia fazer.

    Mel finalmente falava e Maria cruzava os braços no canto do hospital ouvindo tudo atenta. Quando Mel falava sobre “a civil que arrastam pro campo de batalha”, Doc fazia um “tsc” com a boca e olhava pra outro canto. Esboçou certa surpresa ao ouvir sobre a oração, já teria a capacidade pra fazer algo do gênero? Conforme Mel explicava e fazia a analogia do milagre com a existência dos vampiros dando um meio-sorriso, Mel olhava incrédula para a caçadora.

    Sério?

    Doc tinha noção da seriedade da situação e de como precisavam de Antônio pra seguir em frente e por isso, apenas por isso não deixava Mel falando sozinha. Dando vazão pra que tirassem suas dúvidas, Maria segurava com força seus punhos, apesar da vontade de desabafar e jogar os rios em cima de sua mentora, não poderia se deixar levar pela situação, não ali e não agora.

    Ok, por onde eu começo? ― Seus pés batiam com rapidez no chão e seus braços se mantinham cruzados enquanto continuava encostada na parede. Seus olhos encaravam os de Mel sem pudor. ― O que caralhos aconteceu com ela? E ela não é apenas uma civil que a gente arrastou aleatoriamente pro campo de batalha e o nome dela era Rita. Eu preciso saber o que aconteceu por que eu estava num círculo sem fim me culpando e tentando entender o que aconteceu. Eu não sinto mais essa culpa agora, porque eu sei que ela não é minha e muitos sua, afinal eu sei que se ela ficasse pra trás, dependendo do que foi que a “pegou”, poderia acontecer o mesmo no necrotério ou até pior, eu não me esqueci dos problemas que Mayane estava tendo em se comunicar com os espíritos dela e eu também não sou burra pra não entender que aquilo representava um mau sinal. Eu só quero ter certeza, porque Mel, tá difícil segurar as pontas. ― Sua feição continuava a mesma, segurava os sentimentos com o máximo de força que conseguia encontrar, seu tom era seco e sua voz ficava levemente emotiva, seus olhos se fechavam e sua cabeça abaixava. ― E se é pra tirar TODAS as dúvidas, então aqui vai: Aquilo no museu era mesmo um vampiro? Por que as balas não funcionavam contra ele? O que eram aquelas orações e marcar e por quê não pareciam ter nenhum efeito nele? O que você disse para os policias que fez eles virarem as costas e por que as pessoas na ambulância pareciam ignora-la mesmo quando você está... Assim? E por que você a Ace enviariam a gente pra enfrentar aquilo sem ter chances palpáveis?


    Doc tomava um ar, era difícil não se empolgar e levantar o tom de voz.


    Vocês vieram com toda essa imponência, seriedade e uma história cativante e talvez realmente a melhor forma pra caçadores aprenderem seja  no campo de batalha, mas as coisas poderiam ter sido feitas de um jeito melhor, não poderiam? ― Doc olhava nos olhos de Mel se esforçando pra não quebrar, aquilo soava como uma súplica. ― Nós viemos preparados pra morrer, porque sabemos que é um caminho sem volta, mas isso não abrange só nós, abrange?  Eu quero proteger os outros pra que ele não precisem passar pelo que nós passamos, mas o que aconteceu hoje foi ridículo, me diz que você também não acha isso. Eu sou uma médica, eu sou acostumada com o bizarro e OLHA PRA MIM.


    Doc não se lembrava de mais nenhuma dúvida naquele momento, mas também estava de cabeça quente e emocionada, não era pra menos. Uma lágrima finalmente escorria do seu rosto, que tentava agora esconder olhando pra baixo, deixando o cabelo cobrir o seu rosto pálido e triste.


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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Mellorienna em Sab Jan 12, 2019 3:32 pm





    Hospital Geral de Bela Vista


    22h05min
    - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


    - A sua exasperação é justificável, Doc. Mas, sendo sincera, eu não sou muito boa com as palavras. - Mel tinha aqueles olhos que eram dois orbes negros, e o contorno de olheiras de cansaço começava a se fundar sob eles - Não há como instruir civis em uma noite, não há como aparelhar alguém para lutar em um dia. E eu simplesmente nem saberia por onde começar. Fui contra tomar aprendizes desde o princípio... Mas, fazemos o que é preciso.

    A morena se afastou da janela, os cabelos ondulando como tentáculos macios e bem lentos ao redor de sua figura curvilínea.

    - Isso talvez cause um certo... desconforto. Porém, é isso ou a escuridão das dúvidas, então... me desculpem.

    Com cuidado, a Caçadora tomou a mão de Antônio, posicionando-a sobre uma marca em formato de "onda do mar" que havia entre suas muitas tatuagens no antebraço.

    - Segure firme. - ela instruiu, fitando-o deitado no leito do hospital. Então, alcançando a mão de Doc, puxou gentilmente a mulher para perto. E desenhou com a ponta dos dedos um triângulo na testa de Maria Ivri - Não é nada pessoal, moça. - e a puxou pela nuca, colando os lábios aos lábios de Doc.

    Além da Imaginação...:

    Maria Ivri e Antônio Del Vecchio estavam lado a lado, no quarto de uma criança. O ambiente parecia desbotado, como a cor de um jeans muito lavado, e saía de foco toda vez que tentavam ver detalhes, embaçando-se na visão periférica. Como um jogo de videogame noir com problemas de renderização.

    Uma oração estava sendo ensinada à criança pela mãe, enquanto o pai trancava todas as janelas e verificava cada espaço.

    - Arcanjos do Pacto; Miguel, General do Céu, o que empunha a Chama sagrada... - Doc conhecia aquela oração. E talvez Antônio também se lembrasse dela. A criança, uma menininha morena de grandes olhos esverdeados, repetia aos tropeços às palavras recitadas pela mãe. O pai, atento, corrigia a ambas de tempos em tempos. A oração tinha que estar perfeita.

    A imagem se desfez quando os adultos beijaram a criança e saíram, mudando vertiginosamente para um amplo campo aberto.

    O mesmo ar desbotado, agora diante de uma lápide. Gravada com um coração barroco português e honrada com muitos lírios casablanca. "Da Paixão". A menina chorava. Doc e Antônio viram quando ela secou o rosto, com um brilho furioso nos olhos de gatinha, uma chama indômita de determinação implacável.

    A imagem se desfez e a menina agora cuspia sangue, de quatro no chão. E sorria.

    - Melzinha, você está b...

    - Roooooooaaaaaar! - ela rugiu em desafio ao ficar de pé e partir para cima do garoto, cerca de um palmo mais alto que ela, que a recebeu aos risos e socos. Lutavam, com rasteiras e punhos, puxões de cabelo e joelhadas. E riam, como se aquela fosse a brincadeira favorita no mundo.

    Quando a imagem se desfez novamente, uma vertigem sacudiu Doc e Antônio. Mas, estabilizando rapidamente, se deparavam com a mocinha que indubitavelmente era a criança que acompanharam desde o início. E que sem dúvidas era Mel da Paixão.

    Ela estudava enquanto girava uma faca na mão esquerda, habilidosamente. Um livro de páginas amareladas e encadernação em couro. Antigo. E repleto de anotações nas margens e entrelinhas. Doc e Antônio puderam ver que aquelas páginas tratavam sobre a Consagração. "A marca de Deus protegia Caim, o primeiro assassino. Ele, do Sangue de Caim, a marcou com os Sinais." - essa era uma nota escrita à mão ao lado de uma anotação maior, onde se lia o que parecia ser um trecho da Bíblia:

    "E estas palavras que hoje te ordeno têm de estar sobre o teu coração;
    e tens de atá-las como sinal na tua mão,
    e elas têm de servir de frontal entre os teus olhos;
    e tens de escrevê-las sobre as ombreiras da tua casa e nos teus portões."

    Havia desenhos de símbolos místicos pelas páginas, mas - antes que pudessem se aproximar, a imagem se desfez. Dando lugar a uma cena em cores muito mais vívidas, ainda que não chegassem realmente ao tom do Mundo Real.

    Nas memórias de Mel da Paixão...:
    O primo ria, acelerando o passo na direção da varanda da casa. Mas não estava sozinho.  O cara mais perfeito do mundo sorria logo atrás, andando devagar com as mãos nos bolsos. Ela sentiu as bochechas arderem, mas não conseguiu desviar os olhos do estranho até que o primo a tomou nos braços e rodopiou com ela como quando eram crianças.

    Ele a chamava de Melzinha. Não se viam há quase um ano, mas eram como irmãos. Apresentou o amigo, novo discípulo da Família, fruto de uma daquelas tragédias corriqueiras das férias. Era perfeito e ainda tinha sotaque gaúcho. Diego, dono de um sorriso de partir galáxias. Sua tia passou os próximos três anos ensinando o ofício ao afilhado. Os três se tornaram inseparáveis. Insuperáveis. Os dois se tornaram amantes e ela ignorou o perigo que ele corria.

    Agora lutava contra o relógio, num suntuoso vestido branco. O primo ao seu lado. Eles haviam levado Diego, ela soube no instante em que aconteceu. O Sinal sobre o peito latejava, os pulmões ardiam. Ela rezou por mais tempo. Invadiram sem medir conseqüências. Ela gritou o nome dele e o viu olhar pra ela antes de desmaiar. Ele tinha feito a Prece. O grito dela congelou o espaço-tempo em agonia imensa. O primo atirou para protegê-la, expondo as costas à garra imunda que quebrou suas costelas, perfurando o pulmão. O sangue Consagrado fez a criatura se retorcer de dor, com o membro calcificado. Mas Felipe da Paixão caiu. Para nunca mais se levantar.

    Foi nesse instante que o Sol raiou na noite negra. Quando ela tomou a Espada na mão, os cravos do punho derramando seu sangue de glórias sobre a lâmina. Quando ela invocou o Nome da Espada e a arma se revelou, carregando a Ira de Deus. A espada da Estrela, a espada que guardou o Jardim, que aqueceu a Mãe Sombria na juventude do mundo. A espada de seus ancestrais, de Alana Rafaela da Paixão, Sollaris, a poderosa Lâmina de Shai’tan.

    Queimou seu caminho até o noivo. Sentiu nos lábios dele o fel do veneno. Consumida pela Sollaris, se deixou cair no colo dele. Estavam mortos, todos mortos. Joker, Ace of Spades e Queen of Hearts. Eram focos engraçados pra canalizar a responsabilidade de cumprir promessas, ela pensou pouco antes do fim. Cartas de baralho, vícios frágeis.

    - Eu vou ter um filho seu.

    E morreu.

    A turbulência da cena fez com que Doc e Antônio tivessem que segurar os próprios joelhos para não caírem. Mas não tiveram tempo de se recuperar. Havia lutas. Mais rápido! Vampiros com presas do tamanho de facas, metamorfos uivando e babando, tiros - muito tiros - e tudo acelerava num caleidoscópio intenso de dor e violência. Carnificina. Velas negras queimando em altares nas entranhas do mundo. Mais rápido! Criaturas que devoravam os corpos dos mortos. Tiros, gritos, risadas macabras sob estrelas frias. Mel da Paixão coberta em sangue. Crianças mutiladas. Mais rápido!

    Até que parou.

    Tão de repente, que foi preciso respirar fundo para não vomitar. Mel estava no chão, recostada contra um homem ruivo de olhos dourados. E Ace estava ajoelhado diante dela.

    - Eu guardo o segredo sagrado das sete estrelas. Pelos Sete das Sete Congregações. Pelos Cinco do Pacto. Pelos Três Acima. És meu Um e levas minha Promessa. Irás como um fogo consumidor e os aniquilarás, e os subjugarás diante de ti. Pois é minha Promessa que é o Senhor, vosso Deus, quem luta por vós. - ao ouvir aquelas palavras, Ace tomou a Caçadora dos braços do ruivo e a beijou.

    E quando seus lábios se separaram, os olhos do loiro chamejavam como fogo vivo, a marca da cruz inchando em sangue sob a pele da testa. E Mel tinha os olhos de escuridão. Como Doc e Antônio se lembravam.

    Tiros. Uma criança repetia a Oração aos Arcanjos do Pacto no escuridão de um galpão. Mais rápido! Mel recitava junto, com a Espada nas mãos. Fogo azul a cada bala que Ace acertava. Os projéteis trespassavam os aliados sem feri-los, atingindo as Criaturas da Noite em ângulos impossíveis. Mais rápido, mais rápido, mais rápido!

    Mel da Paixão afastou-se de Doc e puxou o braço que Antônio segurava. O enjoo os atingiu em cheio, obrigando-os a respirar na cadência estranha de quem tenta evitar o inevitável.

    - Já vai passar. Vai passar. - a voz da Caçadora parecia vir de muito longe e o quarto do hospital girava.




    OFF: Postagem liberada! A sensação de ânsia é intensa, mas vomitar ou não é uma opção interpretativa. Entendam que quando eu escrevi "carnificina" era isso mesmo. A violência das imagens era bem real.



    Ryan Schatner
    Cavaleiro Jedi
    Ryan Schatner
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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Ryan Schatner em Dom Jan 13, 2019 4:43 am



    Antônio semicerrou os olhos tentando evitar a forte iluminação branca do local onde estava. Tentou abrandar a visão com a mão, mas seu braço não respondia. Percebeu-se deitado, porém em movimento por um longo e ruidoso corredor. Ao girar a cabeça para o lado, observou com que “em câmera lenta” o que agora percebera se tratar de um hospital. Um funcionário trajando um uniforme azul claro o conduzia na maca pelo local. Tudo era confuso, as vozes eram distantes e ele não sentia nenhuma parte de seu corpo. Queria sentar-se, dar uma olhada nas condições em que se encontrava, porém, faltava-lhe forças para isso; ou estava dopado por demais para tal.

    Finalmente, chegara ao quarto onde pode notar a figura de Doc e Mel, e a presença das companheiras lhe foi intimamente reconfortante. Embora não conseguisse mensurar exatamente o que havia ocorrido desde que apagara na sarjeta do Museu, era tranquilizador saber que estava entre amigos. Era também uma sensação no mínimo curiosa: conhecia aquelas pessoas fazia apenas algumas horas e já sentia uma confiança danada nelas, especialmente em Maria, que se colocara entre ele e o perigo para salvar a sua vida, e por isto, lhe seria eternamente grato.

    Acompanhava com dificuldade a conversa que se desenrolava no quarto do hospital e arrependeu-se amargamente da atitude irresponsável que tomara no desespero de ajudar os colegas no Museu quando ouviu o tempo que levaria para se recuperar. Mal começara a caçada e já ficaria de fora dela. Ao mesmo tempo que se sentia estupido por tal ato, sentia-se também frustrado. Já havia atuado em inúmeras situações de risco, em guerra e operações clandestinas de inteligência e era afiado como navalha. O ocorrido no Museu foi atípico, um ponto muuuuito fora da curva pelo qual não sabia se deveria se culpar ou culpar a ignorância sobre o inimigo, e nisso, certamente Ace tinha sua parcela. Que tipo de mentor não lhe informa sobre o que vai encontrar pela frente? E ainda lhe passara um pito, no final. “Babaca! Em qualquer outra situação, o resultado teria sido bem diferente”.

    Sorriu de volta para Doc, depois que ela falara que ele poderia estar bem pior e emendou uma brincadeira:

    — Você tinha que ver o outro cara! – disse, tossindo um pouco ao final.

    Visando poupar suas forças, Tony mais ouvia que falava. Com a anestesia ainda correndo por suas veias, era difícil acompanhar o ritmo do diálogo entre as mulheres e ele lutava para não adormecer naquela maca que lhe parecia tão confortável. E uma das coisas que impediu sua mente de se afastar dali foi ouvir Mel falar sobre a legista. Quantos dias teria ficado desacordado? Algo acontecera à Dra Ana Rita nesse entremeio? Ele bem que a avisara para tomar cuidado. Queria poder fazer algo a respeito, mas a impotência de sua condição só reforçava seu sentimento de frustração. No entanto, a caçadora continuou e falou algo que lhe botou um brilho de esperança nos olhos. Parecia que era possível que Doc executasse algum tipo de “cura milagrosa” que o colocaria de volta ao páreo. Àquela altura, não duvidava de mais nada, e se isso fosse realmente possível, parece que passaria a dever ainda mais à sua companheira.

    Doc então desabafou. Apesar do conteúdo da conversa não fazer muito sentido para Antônio, ele sentiu por ela. Não sabia ao certo o que havia acontecido após seu embate com o noturno, mas certamente afetara sua parceira. Mas duas coisas lhe chamaram a atenção, a primeira era que de fato, Ana Rita tinha sido capturada, e o segundo era como Mel se apresentava naquele momento; com aqueles olhos e aquele cabelo... Antônio passou os próximos instantes fitando a imagem surreal que a caçadora passava, sem entender o que aquilo significava.

    Assim como Doc, ele também tinha dúvidas. Queria saber mais sobre a cura e também sobre como era possível enfrentar aqueles seres que pareciam imunes aos mais letais métodos que ele conhecia. Mas estava fraco demais, sonolento demais e preferiu guardar suas perguntas para um tempo mais adequado. Por enquanto, sua mente entorpecida se mantinha a simpatizar com as palavras de Doc.

    Mel da Paixão não respondera nenhuma pergunta da médica, muito pelo contrário, veio toda evasiva com aquele papo de aranha de que não dá pra fazer isso, não dá pra fazer aquilo, até que se aproximou e encenou mais uma daquelas situações misteriosas de que tanto pareciam gostar. Quando menos podia esperar, testemunhou a caçadora lascar um beijo na médica que lhe pegou de surpresa, e quando deu-se por si, não estavam mais ali!

    O que se seguiu foi uma série de visões que possivelmente daria inveja aos mais abusados frequentadores de Woodstock! Ao que parecia, acompanhavam cena e cena os mais significantes fatos da vida de Mel em sua vida e na trilha de violentas caçadas. Algumas, tão grotescas que Antônio podia jurar que sentia até o cheiro de sangue e morte, capaz de enojar mesmo os mais habituados com a tragédia! Sentia o coração como se fosse um tumulto na garganta e todos aqueles terríveis flashes de selvageria e mistério eram atordoantes.

    Acordou de súbito, apertando o braço de Mel com toda sua força. Puxou o ar o máximo que pôde e gemeu de dor ao sentir o pulmão lacerado pela batalha. O impacto da viagem tinha anulado qualquer efeito da anestesia em seu corpo e o inundado com adrenalina. Seu coração parecia que ia explodir e seu estômago, mesmo que vazia, parece que lhe saltaria pela boca a fora, tamanha era a ânsia de vômito que sentia. Com os olhos arregalados encarando a caçadora, indagou logo que pôde:

    — QUE DIABOS FOI ISSO?!

    Padre
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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Padre em Ter Jan 15, 2019 10:04 am

    A TIME TO HEAL

    ANTES - ANTÔNIO

    Doc ouvia a brincadeira de Antônio e ria num tom baixinho. Estando numa maré de má sorte era legal conseguir rir uma vez ou outra, mas não se esquecia do principal.

    Segura as piadas que você ainda tá bem mal e eu não quero te transformar um espantalho remendado. ― Apesar da "bronca" seu tom era bem tranquilo, o estresse pelas ações inconsequentes do colega já haviam passado.

    AGORA - TODOS

    Doc ouvia o que Mel tinha pra dizer, aquela altura descobrir que a mulher não sabia o que dizer não lhe surpreendia, já era esperado, se não estivesse tão emocionalmente desgastada, com certeza, entretanto mesmo naquele estado sabia que a mulher e Ace tinham os seus motivos para fazer o que fizeram, sendo ela alguém que já foi forçada a tomar decisões nada populares, sabia que por mais que seus instintos dissessem que era o que deveria fazer, Doc sabia que não era o que deveria fazer.

    Maria ouvia o que Mel tinha a dizer um pouco intrigada, sou mão repousava sobre a cômoda que estava ao lado cama, seu pé recuava com receio do que poderia vir a acontecer, afinal, o que era um desconforto pra alguém como Mel da Paixão? Sendo puxada, ficava mais em dúvida sobre como iria prosseguir, mas não reclamava, o beijo definitivamente pegava Doc de surpresa, tão de surpresa que não dava nem tempo de exibir alguma reação.

    Além da Imaginação:
    Doc não sabia onde estava, se havia perdido a consciência ou se estava numa espécie de plano astral, seus olhos percorriam todo o quarto buscando alguma pista sobre o que estava acontecendo, porém sem sucesso. Parecia um míope tentando ver com clareza sem estar usando os seus óculos.
    Doc ouvia a mãe ensinar a oração com certa curiosidade em sua face, aquilo era algo que ela se lembrava de ter ouvido, mas tentava entender sobre como aquilo se encaixaria naquela situação.

    Talvez a criança seja ela e eles sejam da tal geração dos caçadores.

    No próximo lugar, Doc lia com clareza o nome escrito na lápide, ali tinha certeza, aquela criança era Mel, não poderia ser outra pessoa, mas ainda assim não entendia com qual objetivo a mulher estava lhe mostrando aquilo.

    As coisas ainda vão piorar, dá pra prever.

    No próximo lugar Doc sentia-se desconfortável, como alguém deveria se sentir vendo aquilo? A situação era inusitada, desconfortável, mas no fim, acabou como devia, ou pelo menos era o que Maria achava.

    Que infância estranha, mas talvez se as meninas fossem criadas assim desde cedo, fossem mais fortes hoje pra lidar outras coisas...

    A memória novamente se desfazia e dessa vez sentia-se como se fosse perder o equilibrio, mas conseguia se "segurar". Novamente estavam com a pequena Mel e Doc já havia desistido de se surpreender.

    Isso não é uma vida normal, de jeito nenhum, desisto de tentar entender.

    Então percebendo o que a menina lia, entendia de onde vinha as instruções que recebeu naquela noite, só perdia a parte que dizia o que aquilo faria. Palavras bíblicas leu muitas no decorrer de sua vida, mas algo que fosse palpável ou causasse efeitos reais, isso não tinha ciência.

    Ia então para o próximo lugar, que por sinal era digno de um elogio, que Maria daria se não estivesse se localizando e um tanto chocada.


    Memórias de Mel da Paixão:

    Maria seguia junto de Antônio intrigada, dessa vez finalmente via como Ace e Mel se conheciam e presenciava a perda de um ente querido pra caçadora, sentia um aperto no peito por ela. Doc nunca conheceu os outros membros de sua família e por isso não tinha ideia do que era perder um primo próximo, mas se era qualquer coisa parecida com a perca de uma mãe, então sentia tão bem quanto a mulher. Lhe daria um abraço se fossem íntimas.

    A partir daí as coisas tomavam estranhas proporões e as coisas ficavam mais difíceis de entender, mas seja lá o que estava acontecendo, era ruim.
    A viagem se tornava mais difícil e manter o equilibrio estava mais difícil do que antes, as visões também se tornavam mais intensas fazendo com que Doc entrasse num pequeno curto-circuito mental, o medo era um sentimento latente, tudo até novamente pararem, segurar o vômito era difícil.

    Depois de uma sequência interminável e cansativa, a visão finalmente parava deixando pra trás uma Doc assustada e um tanto desesperada, seus lábios soltavam os de Mel da Paixão fazendo com que ela imediatamente voltasse a se segurar na cômoda ao lado da cama de Antônio. Olhava pra cima tentando impedir qualquer coisa que tentasse subir pela sua garganta.

    Eu não quero ser a pessoa que pergunta o que foi isso, mas... Uma explicação não seria ruim, sabe?
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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Mellorienna em Ter Jan 15, 2019 2:10 pm





    Hospital Geral de Bela Vista


    22h37min
    - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


    Com aqueles olhos negros de tubarão, seria difícil ter certeza de que Mel estava olhando para eles, não fosse pelo fato de que dava para sentir o peso daquele olhar sobre si.

    - Isso é uma forma de comunicação telepática. Uma forma de dividir memórias. Mais fácil de assimilar que o papo de que todos os Caçadores já estão mortos. Não entendam mal, eu falo essa frase em mil ocasiões. Mas vocês não iam realmente entender, até que vissem.

    A Caçadora parou por um momento, imóvel e silenciosa, com os cabelos muito longos agitando-se ainda mais lentamente ao seu redor. Então, repentinamente, voltou a focar nos dois:

    - Já estão todos reunidos. Precisamos nos apressar. Então, sim, a criatura que vocês enfrentaram hoje era um Noturno. Um vampiro. Armas comuns não surtem grandes efeitos contra essas criaturas. A menos que estejam nas mãos de um Exorcista. - olhando para o pulso de Antônio, onde a marca do Triângulo já estava quase apagada devido aos procedimentos médicos, Mel continuou - Você deve carregar a Cruz. E a Tríade é para você, Doc. Eu acredito que faça mais mal que bem uma instrução inacabada, mas teria instruído vocês sobre isso, se imaginasse que haveria um combate. Porém, falhei.

    Mel da Paixão caminhou até a janela novamente, contemplando a noite que se estendia sobre Bela Vista.

    - As marcas são os Sinais da Consagração. Uma forma de emular os Sinais, na verdade. Para que sejam efetivos de verdade, precisam ser gravados à pele de forma indelével por um Noturno. Como as tatuagens que eu e Ace temos. Mas, haverá tempo para saber mais quando sairmos daqui. Quanto à oração, ela é exatamente isso: uma forma de invocar a proteção dos Cinco Grandes Arcanjos. É também por causa dos Sinais da Consagração que os policiais foram embora do Museu e ninguém nesse hospital parece se importar com a minha presença. Porque Deus concedeu para muitos Profetas a dádiva de disfarçar sua presença. Mas não é algo que eu possa fazer para sempre. E já estou chegando ao lim---

    Antes que Mel pudesse terminar sua explicação, um tremor fez oscilar as bolsas de soro ligadas ao braço de Antônio, tilintando levemente os equipamentos. Por estar de pé contra a janela, com Doc escorada à cômoda e só então Antônio no leito, ao disparar em velocidade sobre-humana para os dois, a morena alcançou primeiro a médica, agarrando seu pulso no exato instante em que ambas caíram ao chão, de joelhos.

    - Doc! Doc! Pai santo, protege-os em Teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um. Doc, você pode me ouvir?

    Ao mesmo tempo, Antônio bateu deitado no leito, longe do alcance da Caçadora por poucos centímetros, que havia erguido os orbes negros dos olhos para ele, cujo olhar fitava o teto sem luz nem vida.

    Por trás dos olhos vidrados, Antônio via claramente: um campo coberto em trevas, por sobre o qual erguia-se uma assombrosa Estrela Rubra enquanto a Lua Cheia tingia-se em sangue. E havia dois adolescentes. E ao lado do rapaz - ou seria o próprio rapaz? - um enorme lobo castanho-queimado e branco, de olhos azuis que brilhavam na noite eterna. E sobre a moça erguia-se a Lua de Sangue.

    Gritos. Gritos na Escuridão.

    Dom Inácio, Gerson e Victor também estavam lá, mais a frente no campo, acompanhados de uma mulher ruiva que Antônio não conhecia. Os companheiros, fixos na cena a frente, não o haviam visto. E, então Antônio viu, claro como dia, as figuras em asas negras ao redor da jovem dupla. E mais além, claro como a vida, os Espíritos e Criaturas dos Pesadelos que corriam para o casal. A menina sorria, alheia ao destino terrível prometido por aquela horda execrável. E a luz rubra que vinha do céu cobria seus cabelos claros com matizes sanguíneas e fazia as feições do rapaz, belas e fortes, lembrarem as de um corpo ensanguentado.

    E, assim como veio, a visão se foi, brindando Antônio com o pé direito alto do Hospital Geral. Enquanto Doc e Mel, ajoelhadas no chão aos pés do seu leito, recuperavam-se do que parecia ter sido um golpe na nuca.



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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Padre em Qua Jan 16, 2019 2:22 pm

    A TIME TO HEAL

    Aos poucos as ideias se tornavam mais organizadas e Doc ia aprendendo cada vez mais sobre aquele universo que beirava entre o fascinante e o asqueroso. Doc apesar dos pesares, mantinha certa admiração por Mel da Paixão por diversos motivos, mas naquele momento, o fato da mulher ser forte e falar sobre aqueles acontecidos com tanta naturalidade (naturalidade essa que precisava, visto que estava lidando com novatos) fazia com Maria Ivri lutasse pra se tornar uma mulher tão forte como aquela.

    A médica ouvia com atenção o restante das explicações e agora sabendo o que sabia sobre Mel, não dava pra dizer que estava COMPLETAMENTE satisfeita, mas os cantos mais escuros de seu coração foram clareados naquele momento, em contra-partida, também perguntava-se o quão longe iam as habilidades dos caçadores experientes, visto que até comunicação telepática estava na mesa como opção.

    Quando Mel direcionava seus olhos para a marca de Antônio, Doc também encarava enquanto continuava a ouvir a explicação da mulher. Com certeza tinha muita coisa pra falar, coisas essas que ficavam entaladas no peito já que a mulher não perdia tempo em dar o resto das informações, se Doc soubesse como as coisas ocorreriam nos próximos minutos, é bem provável que tivesse interrompido.

    Pensamentos ficavam pra trás e agora novamente sentia-se mal, porém dessa vez o sentimento não era derivado de alguma crise interior e sim de algo muito pior...

    O chão começava a tremer  e por um segundo Doc pensava que aquilo se tratava do que Mel da Paixão havia feito alguns minutos atrás ou pelo menos era o que ela torcia que fosse, seus olhos se direcionavam para Antônio e então para Mel.

    Me diz que é você que está fazendo isso ou que é só uma consequência da telepatia...

    Tudo acontecia rápido demais, Doc caía no chão de joelhos, o impacto poderia causar alguma dor, mas estava tão distraída com... TUDO que se esquecia de  sentir dor naquele momento. Via então de relance quando  Mel da Paixão a alcançava e pegava seu pulso, era difícil não entrar em desespero, mas Doc aguentava e sabia que aguentaria o que viria pela frente da melhor maneira que podia.

    Toda aquela pressão que sentia sobre seus ombros era algo difícil de resistir, mas algo dizia pra Doc que ela só não cedia de vez pela presença de Mel, agradecia aos seus por estar ao seu alcance naquele momento.

    Seja lá o que havia acontecido, terminava depois do que parecia ter sido uma eternidade de tempo, Doc sentia-se cansada, será que aquele dia poderia piorar. Preparava-se pra levantar, com a fala um pouco cansada e arrastada, continuava.

    Mel o que foi isso agora? De qualquer jeito nós ainda temos que ajudar o Ant ― ―

    Sua vista então escurecia, perdia a consciência.

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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Mellorienna em Qua Jan 16, 2019 5:09 pm





    Hospital Geral de Bela Vista


    22h40min
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    - Ah mas não vai! Não vai mesmo! - Mel da Paixão apoiou a desfalecida Doc no chão do quarto do hospital e então, ainda que com dificuldade, se pôs de pé. Os olhos inteiramente negros da mulher buscaram primeiro verificar o estado de Antônio - fosse que diabos havia acontecido, o novato parecia tão remendado quanto antes e nem um pouco mais ferido - para depois desviarem-se pelo quarto.

    Localizando a prancheta com o prontuário médico, Mel foi até ela enquanto sirenes começavam a gritar na noite. O evento não parecia ter acontecido apenas ali, entre eles. Haveria acidentes pelas ruas, se pessoas houvessem desmaiado ao volante. E ainda havia o metrô... Era melhor não pensar naquelas coisas. Não ainda.

    Munida da caneta Bic azul padrão retirada da prancheta do hospital, a morena retornou até a médica caída.

    - Maldição... - destampando a caneta, traçou um triângulo na testa de Doc - Maldição, Maria! - os traços apressados agora eram gravados na parte interna do antebraço da médica. Símbolos em abjad. Palavras. Largando a caneta, a Caçadora uniu as mãos palma com palma - Maria Ivri. - a mulher colocou a mão esquerda no meio do peito da médica, entre os seios, e a mão direita em sua testa, mantendo os olhos inteiramente negros fixos à expressão de Doc - Maria Ivri. Esh Olam.

    Aquilo foi como um desfibrilador.

    O corpo esguio da médica pulou sob as mãos de Mel da Paixão, como se recebesse uma forte descarga elétrica. Mas os olhos de Doc permaneciam fechados.

    - Esh Olam. - mais uma vez, Maria Ivri sacudiu-se espasmodicamente. Mas, dessa vez, sentiu o desconforto de quem acorda de um pesadelo para descobrir que está em alto mar, num pequeno barco a deriva na tempestade.

    Os olhos da médica se abriram e a ânsia a dominou no mesmo instante, tornando impossível controlar o estômago. Mel da Paixão já estava de pé, ao lado do leito do hospital, enquanto Doc passava mal no chão.

    - De pé, Doc. Não há mais tempo para perguntas. De pé e vamos tirar Antônio dessa situação. - a morena caminhou até a porta do quarto enquanto a médica se recompunha, analisando o corredor antes de voltar a fecha-la - Temos que sair desse hospital. Mas minha tia trancou o Jardim. Teremos que enfrentar o trânsito para chegar até a Catedral e... - Mel se voltou para Doc - ... Aconteceu algo com Diego. Temos que ir.

    Dito isso, a morena encheu um copo com água e entregou à médica:

    - Lave a boca. O melhor que der. Não, não dá tempo de você se recuperar e escovar os dentes. Vai precisar beijar o Antônio. A troca de fluido vital estreita as conexões e ajuda no sucesso da cura. De língua, pois é. E os desenhos que fiz em você, sim fui eu, vão canalizar a energia necessária. Veja que foram poucos Sinais, só o suficiente para nos tirar daqui. Mais tarde, responderei ao que quiser, de vocês dois. Mas agora, cure o homem sem hesitar, Maria! Meu filho precisa de mim.

    A morena então tomou a Espada (onde diabos estava essa espada até aquele momento?) que havia usado no Museu nas mãos. E seus cabelos, que já se moviam sozinhos, agitaram-se como se houvesse um vendaval no quarto.

    - Você vai localizar os ferimentos. Colocar a mão direita sobre eles. Jogar água com as pontas dos dedos da mão esquerda sobre eles. E dizer Mayim Hayim. Só isso. Mayim Hayim. Sem nenhuma dúvida em seu coração. Certa de que a cura virá. Agora, Maria!

    Então, segurando com a mão esquerda na lâmina da Espada, a Caçadora feriu-se o suficiente para que o sangue corresse pela lâmina em um estreito e curto filete. E aquele sangue, assim como os cabelos de Mel, correu de forma pouco usual pela Lâmina, dançando em formas e círculos antes de ser completamente absorvido pelo aço.

    - Mayim Hayim, Shai'tan. Mayim Hayim, Sabaoth Ha Malka. Mayim Hayim, Al-Ilah Rapha. - Mel da Paixão passou a recitar baixinho, fechando os olhos e segurando a espada acima de Antônio, projetando as sombras da Lâmina sobre o corpo do Caçador.



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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Padre em Qua Jan 16, 2019 10:26 pm

    A TIME TO HEAL

    Doc perdia a consciência e não entendia muito bem o por quê, para ela aquilo podia ser a consequência do procedimento realizado por Mel, talvez chegasse a outra conclusão, mas os acontecimentos não paravam, como parar organizar as ideias e assimilar tudo aquilo? O acontecido com a legista já parecia um acontecimento distante quando finalmente Maria sentia um desconforto e acordava de seu súbito sono.

    Sua cabeça rodava, apoiava uma das mãos sobre a testa e sentia a temperatura, estava normal. Tudo rodava e precisava de um segundo até perceber onde estava e o que estava acontecendo. Olhava nos olhos de Mel sem reconhece-la por um breve segundo, as sirenes e o alarme do hospital eram especial incômodos na hora de ajeitar, o vômito subia pela sua garganta e Doc não conseguia se segurar, sujava todo o chão ao seu redor e um pouco de seu jaleco, a vista não era bonita.

    Mel... ― Parava de falar de súbito, sentia algo mais ainda querendo sair, mas se controlava. É claro, a mulher tinha mais perguntas, mas não iria seguir por aquele caminho agora, pelo jeito as coisas haviam ficado feitas e precisava se recompor. Doc se levantava e se jeitava enquanto ouvia o que a outra caçadora tinha a dizer, ficava surpresa com a informação dada por ela. ― Como você s―. Quer dizer, nós vamos sair dessa, eu prometo.

    Pegando o copo da água na mão, só percebia o quão péssimo estava seu estado quando Mel citava sobre "lavar a boca". Também, beijar Antônio não parecia mais tão absurdo depois de tudo que havia acontecido, uma batalha acontecia em seu interior, parte dela, a parte racional, sabia que aquilo era errado, que estava suja, que ele era um paciente, já a outra parte, a parte representava pela Doc caçadora forçava seu lugar e calava todos os receios e medos que sentia naquele momento, estava decidida. Não havia dor de cabeça, vômito ou apocalipse que fosse impedi-la de salvar a cidade de seja lá o que fosse aquilo.

    Não tem problema. ― Quando Mel citava os desenhos, seus olhos passavam pelas partes visíveis de seu corpo, mas logo focava a sua atenção no jovem companheiro adoentado. O amor de Mel pelo filho era a cereja do bolo que faltava, estava decidida. ― Mel... Nós vamos salvar o seu filho, eu sei que vamos.

    Então, aproximava o rosto do de Antônio, olhava na direção de seus olhos e engolia seco.

    Me desculpa por isso, espero que seja ruim pra você, como também vai ser pra mim. ― Então, Doc beijava a boca mole e morta do companheiro, se forçando a colocar língua a dentro, sentia-se errada, talvez fosse pior, mas parte dela queria que o rapaz estivesse acordado, isso facilitaria em muito sua vida. Após finalmente se afastar, torcia pra não ter deixado nenhum rastro de comida ou gosto de azedo na boca do homem, virava-se então pra Mel da Paixão. ― Isso serve?

    Então, mesmo estranhando a espada que Mel manuseava, tinha outras prioridades no momento, fazendo exatamente do jeito que lhe fora ordenado, começava a passar a mão pelos ferimentos do rapaz. Primeiro apoiava a mão sobre o braço de Antônio, então jogava água usava as pontas dos dedos da mão esquerda e repetia com um tom de voz forte e decidido: ― Mayim Hayim!

    O procedimento era repetido então no pulmão, Maria apoiava a mão direita sobre o tórax de Antônio, jogava água com as pontas dos dedos da mão esquerda e repetia novamente: ― Mayim Hayim!

    Mais uma vez colocava a mão direita sobre a região onde ficava suas costelas e em seguida a perna, repetindo os mesmos procedimentos anteriores, naquele momento em seu íntimo, Doc não torcia pra funcionar, ela SABIA que iria funcionar, então, chegando ao último ferimento repetia mais uma vez com o tom mais forte do que os outros.

    MAYIM HAYIM!

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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Mellorienna em Qui Jan 17, 2019 8:38 pm





    Hospital Geral de Bela Vista


    22h50min
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    Aqueles encantamentos, ou o que quer que fossem, pareciam ter funcionado. Doc observou, com admiração maravilhada, que os ferimentos de Antônio, operados e suturados que estavam, cicatrizavam diante de seus olhos. Como se estivesse vendo um filme da recuperação do homem reproduzido em fast forward.

    Ao finalizar, naturalmente a médica conferiu o estado do paciente. E Antônio estava curado. No tempo que Maria Ivri levou para tirar os pontos (completamente cicatrizados), Mel foi até o corredor e conseguiu uma cadeira de rodas.

    - Meu carro ficou no Museu. Mas vamos para aquela região, de toda forma. Já chamei um motorista pelo aplicativo.

    Com dificuldade, as duas mulheres posicionaram o homem desacordado na cadeira - o peso de uma pessoa desmaiada ou adormecida parecia triplicar - e então ganharam os corredores caóticos do Hospital Geral. Pessoas corriam, enfermeiras e médicos tentavam reanimar pacientes e funcionários caídos, e sirenes disparavam por todos os lados. Em meio à balbúrdia, a notoriedade de Doc mais uma vez serviu ao seu propósito: ninguém questionou o que a Dra. Maria Ivri estava fazendo ao conduzir um paciente pelos corredores - ela sabia o que fazer e devia ter bons motivos.

    A situação nas ruas não era muito melhor. Algumas pessoas ainda permaneciam caídas, sendo ajudadas por estranhos que passavam, e outras iam se levantando aos poucos - algumas, aos gritos. A ala psiquiátrica do Hospital Geral, em um prédio separado no mesmo terreno do edifício principal, estava estranhamente silenciosa. Como uma ilha de calmaria em meio à tormenta.

    Levou quase quinze minutos para que o Uber chegasse até ali, dada a confusão pelas ruas. Nesse tempo, Mel da Paixão pareceu distante diversas vezes, como se fosse míope e tentasse enxergar algo ao longe. Era nítido que a frustração crescia na Caçadora, mas ela não disse além de:

    - Aconteceu algo com o Diego. Ace. Meu filho está bem, Doc, mas ele só tem oito anos. Guilherme, o nome dele. Tenho medo de que ele não saiba o que fazer se o Di estiver ferido. Ou descontrolado. Por isso, preciso chegar até eles. Custe o que custar. - talvez Mel tivesse ficado preocupada com o mal entendido, por Doc ter mencionado que salvariam seu filho. Talvez ela estivesse torcendo para que, seja lá o que houve com Ace, não tivesse colocado Guilherme em perigo.

    Quando o carro finalmente chegou, após posicionarem Antônio no banco de trás, Mel foi na frente e deixou Doc assistindo o paciente. O motorista relatava a confusão pelas ruas, carros batidos por motoristas inconscientes, acidentes com andaimes, crianças chorando ao lado de pais e mãe caídos nas calçadas.

    - Até o rádio saiu do ar por um momento! E até agora não disseram o que foi isso. Para mim, tem cara de ataque terrorista. Uma bomba do sono! Eu sabia que não devíamos ter deixado aqueles sír---

    - O senhor me poupe, faça o favor. Mais direção e menos conversa fiada.

    O motorista não gostou, mas o corte de Mel da Paixão resultou em uma direção mais rápida e agressiva que favoreciam ao intento de chegar logo ao destino.

    Na Catedral, empurrando Antônio na cadeira de rodas, Mel atravessou a grande nave principal sem dar à Maria tempo de observar em detalhes o esplendor que viam. Havia afrescos, douraduras, esculturas e vitrais, mas Doc mal conseguia acompanhar o passo da morena, que rumou para um pátio interno, onde havia um chafariz em que estavam representados uma ninfa, um pastor e diversos cordeirinhos.

    - Estamos quase lá.

    Executando manobras estranhas nas estátuas enquanto Doc verificava o estado de Antônio mais uma vez, Mel descortinou uma passagem em espiral, que mergulhava na escuridão após alguns degraus.

    - Não vou conseguir carregar Antônio pelo caminho. Você pode vir comigo, Doc, e deixá-lo aqui enquanto atravessamos para o Jardim. Buscaremos ajuda para que levem Antônio para dentro. Ou você pode permanecer ao lado dele, enquanto eu vou. Buscarei vocês. O que você prefere?

    Mel da Paixão colocou o pé no primeiro degrau da escada em espiral, fitando Doc com aqueles olhos inteiramente negros.



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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Padre em Dom Jan 20, 2019 8:05 pm

    A TIME TO HEAL

    Doc presenciava um milagre diante dos seus olhos e é claro, a condição para que aquilo funcionasse era a de que ela acreditasse, mas ainda assim saber o que aconteceria, não deixava menos chocante. O choque em sua face era natural e perceptível, mas ao mesmo tempo sentia-se um tanto feliz, o parceiro estava bem e pra ela era isso que importava.

    No fim do processo Doc verificava o estado de Antônio e do jeito que imaginava, estava tudo bem. Precisava aprender a fazer aquilo por conta própria, pensava consigo mesma. Enquanto retirava os pontos de Antônio, voltava a ficar pensativa, agora que tinha mais um tempo pra respirar, era inevitável não se lembrar da legista e ainda tentar não associar o sumiço dela a todo aquele caos que estavam vivenciando, mas, por que aquilo estava acontecendo? Maria não sabia, ao tentar se lembrar se algo assim já havia acontecido em sua vida, não se lembrava de nada. Literalmente, estava sem memórias e das que tinha, pareciam todas bagunçadas e confusas.

    O que está acontecendo comigo?

    Colocavam então Antônio na cadeira de rodas, a ação demandava certo esforço, mas aquilo era o menor dos problemas.

    Pra onde estamos indo? ― O caos havia se instaurado no hospital e pela primeira vez a médica tinha uma dimensão maior do que estava acontecendo. ― Isso aconteceu em toda Bela Vista?

    Enquanto passava com o corpo desacordado de Antônio, fazia o melhor pra mostrar-se confiante e certa do que estava fazendo, por sorte a reputação que havia construído não havia sido em vão. Ao finalmente conseguir sair, seus olhos passavam rapidamente pela ala psiquiátrica, era intrigante o silêncio daquele lugar, de fato. Maria não conseguia se lembrar se já havia pisado naquela ala, mas pela noção que tinha sabia que era um completo caos. Se perguntou se o fato das pessoas dali terem uma deficiência mental amenizava ou apenas agravava o efeito de seja lá o que estava acontecendo. Seja lá o motivo do silêncio, era o suficiente pra fazer um frio na barriga da médica que sabia que aquela estava longe de acabar e ainda podia piorar.

    A demora do Uber era um tanto agonizante já que era perceptível para Maria o desconforto de Mel, quando a mulher cortou o silêncio percebeu o erro que havia cometido mais cedo, por mais que não fosse grave e nem conseguisse imaginar como Mel se sentia, ainda assim tinha uma ideia.

    Eu não tenho filho e muito menos esposa ou marido, eu também não consigo imaginar o que se passa exatamente na sua cabeça por agora, mas nós vamos passar por isso, ok?

    A viagem era tranquila, Doc olhava pela janela mas continuava calada, estava pensativa e um pouco agoniada, precisava voltar pro grupo logo, aquele clima era um tanto sufocante. Na catedral, a médica seguia Mel de perto enquanto passava seus olhos tímidos rapidamente pela estrutura, quase ficava pra trás já que era difícil acompanhar os passos da caçadora. Enquanto checava Antônio mais uma vez, notava que estava tudo bem, mas seria capaz de seguir e deixa-lo pra trás do mesmo jeito que havia feito com Rita horas atrás? Com um rosto tímido e sem graça, despedia-se e sentava-se no chão ao lado do corpo adormecido do rapaz.


    Pode ir, vamos esperar aqui.

    Mellorienna
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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

    Mensagem por Mellorienna em Seg Jan 21, 2019 3:34 pm





    Hospital Geral de Bela Vista


    23h
    - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


    Não muito tempo depois de Mel ter sumido na escuridão da passagem abaixo, Ace apareceu por ela, ainda portando a cruz em sangue sob a pele e os olhos flamejantes que Doc viu no Museu.

    Antônio era um homem forte, e até mesmo o Caçador tinha certa dificuldade em descer com ele pela escada em espiral, mas logo os três chegaram ao túnel, onde Ace deu a mão para Doc enquanto carrega Antônio no ombro. A escuridão era completa e a sensação de caminhar sem divisar sequer vultos a frente era bastante inquietante. Mas a presença de Ace era um alento na escuridão vazia.

    Ao chegarem ao fim do túnel, um jardim ao luar com uma casa de pedra e madeira, de onde vinham luzes e vozes. Havia um cheiro residual de carne assada no ar, fazendo com que Doc se lembrasse que não havia comido nas últimas horas.

    Lá dentro, Ana, Mayane, Mel da Paixão e um menino com cerca de 8 a 10 anos - que Maria Ivri instantaneamente reconheceria como filho de Ace, mas com os olhos de Mel.

    O Caçador posicionou Antônio no sofá, ao lado dos outros companheiros, todos desacordados ainda.




    OFF: Continua no tópico do Jardim.


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    Re: [!ON!] 1ª Noite: Hospital Geral de Bela Vista

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      Data/hora atual: Qua Mar 20, 2019 2:22 am