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    Livramento de Vicência (Gabriela)

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    Livramento de Vicência (Gabriela) Empty Livramento de Vicência (Gabriela)

    Mensagem por einherji em Seg Fev 11, 2019 4:13 pm

    Fazia já um tempo que a noite não era fria desse jeito em Vicência, não era um vento fresquinho que vinha com a temperatura baixa nas noites de verão - mas um que castigava a pele acostumada com o calor, de tremer mesmo e juntar todo o corpo pra não travar de frio. Acostumava com o tempo, aí vinha uma lufada e fazia qualquer um tremer mais, igual vara verde - era o que diziam ali, tremer igual vara verde, mas o que faltava era o verde. Tinha muito marrom e amarelo e uns amarelos mais safados do que os outros. A coisa era que, o frio não deixava Gabriela dormir muito bem e ia acordando de tempos em tempos, cada vez que acordava na noite ouvia um bode velho balir.

    Béééé.

    Béééé.


    Virava a cabeça, tentava dormir mais um pouco e um pouco mais, do jeito que dava ou do jeito que podia. Não tinha tempo para insônia - isso era coisa de gente abastada, que quando acordava o mundo já tinha acordado antes, as engrenagens do mundo já tavam girando há tempos na força do povo mais simples. Quem tem que acordar cedo, não tem luxo de não dormir, precisa fechar os olhos e descansar - o dia não espera e o trabalho não quer saber se o olho fechou. Acordar antes do sol exige energia, mas como ter? Logo lá vinha outra chicotada invisível do vento gelado e junto dele, vinham mais balidos da criatura caprina do lado de fora da cada.

    Béééé.

    Béééé.


    Só podia estar com frio também, era possível de se imaginar - bode friorento. Mas de todo modo, tinha o pequeno estábulo pra ficar junto com os outros bichos e se aquecer um pouco - o diabo do bode ficava ali, do lado da janela, balindo e insistindo naquela música desafinada, bé, bé, bé, sem parar. Não fosse o frio e só esse barulho, talvez pudesse tentar dormir um pouco melhor - afinal, com o barulho estava acostumada, mas o vento subindo nas pernas e nas costas, não. Era coisa rara de se ver no sertão.

    Béééé.

    Gabriééééla.

    Era possível ficar ainda mais frio? Não dá pra saber. Mas o que ouviu ali congelou seu coração. Ou estava finalmente tendo um problema do tempo sem dormir e cansaço acumulado do dia ou foi isso mesmo o que ouviu, o bode velho chamou seu nome numa voz grave e profunda que parecia chamador de circo em megafone.
    Saphira
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    Livramento de Vicência (Gabriela) Empty Re: Livramento de Vicência (Gabriela)

    Mensagem por Saphira em Ter Fev 12, 2019 11:04 am

    Livramento de Vicência (Gabriela) Mi_12380791173439281



    Livramento de Vicência

    Gabriela


    “Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe
    Eu acho que a culpa foi
    Desse pobre que nem sabe fazer oração

    Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
    E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
    Pro sol inclemente se arretirar...”


    (Súplica Cearense - Luiz Gonzaga)




    Aquela noite arretada de fria quebrava com a morbidez quente do sertão. Gabriela se revirava na cama improvisada de palha, esfregava a própria pele, tentando se aquecer, mas era em vão. Não tinha agasalho, nunca havia passado frio na vida, aquele clima era estranho por demais para aquela localidade, ninguém estava preparado para aquilo. A menina vestia apenas mais um de seus vestidos rotos, mas o tecido fino e desgastado não protegia nada do frio.

    Conseguiu alcançar um pedaço de couro que Januário costumava usar no lombo do jegue dele, mas não cobria todo o corpo da moça, só as pernas, deixando seu dorso ainda tremendo enquanto ela esfregava mais, sem conseguir adormecer. Gabriela tremia de um jeito que nunca antes. Nem mesmo a sonolência em que se encontrava era capaz de fazer parar.

    Ela rezava todo dia pra Deus fazer o sol castigar menos e a chuva cair abençoando as terras secas do seu sertão, talvez ela não soubesse rezar direito e Deus estivesse castigando por causa disso. Era só o que conseguia pensar.

    Gabriela acordava todos os dias antes do sol nascer, não sabia como faria com o cansaço depois de uma madrugada em claro. O povo do sertão dorme cedo e acorda cedo com disposição, sem tempo para “frescuras”.

    Nesse rebuliço todo, a moça ouviu o balir de um bode. No mínimo era o animal de alguém das redondezas que deve ter escapado e também estava sofrendo com a noite gelada. Ela tentava ignorar aquele som, abafar os ouvidos com as próprias mãos, mas não conseguia. Ficava cada vez mais alto e parecia que o bode estava do seu lado, de tão alto que era. Como se não bastasse todo o incômodo que já sentia, ainda tinha aquele som torturante a lhe perturbar o sono.

    Ela se esforçou tanto, mas tanto, pra fazer sua mente ignorar o aperreio que já estava quase adormecendo. Mas de repente sentou-se na cama num sobressalto com o que acabara de ouvir. O BODE BERROU O NOME DELA! Como podia??? Sentiu um frio percorrer a espinha e seu coração. Ela só podia estar delirando, sem conseguir distinguir mais o que era delírio e o que era realidade.



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    Livramento de Vicência (Gabriela) Empty Re: Livramento de Vicência (Gabriela)

    Mensagem por einherji em Qua Fev 20, 2019 4:09 pm

    O balir foi interrompido, não foi mais som de bicho caprino ou som de bicho homem - acabou de repente antes mesmo que pudesse processar o que tinha ouvido, se é que ouviu mesmo - já que possível nem mesmo era, bode que falava nomes era novidade até nos sonhos, ficaria em sua cabeça o ocorrido e a dúvida dos balidos com vozes.

    E aos poucos, sentiu o frio se esvaindo do quarto, indo embora como se fumaça fosse e o calor habitual voltando. Era uma sensação gostosa e rara, já que o frio também era raro no sertão, o corpo gelado ir se aquecendo rapidamente e fazendo com que o sangue corresse mais rápido, dava até a moleza de um abraço, era um dos poucos momentos de carinho que a natureza oferecia e pela velocidade da variação de temperatura, não demorou muito para que tudo voltasse ao normal e o calor voltasse a incomodar, mas pelo menos agora era terreno habitual, sem novidades com relação a estar incomodada com o calor.

    O maior problema então era que muito tempo tinha se passado desde então e sem perceber, já dava pra ouvir os sons do começo da manhã, mesmo sem um pingo de claridade - já era hora de estar de pé e o sinal mais claro era o canto dos coleirinhos, que começavam antes mesmo do nascer do sol. Era nesses momentos de noites difíceis que o sono vinha com mais força, podia tentar mais alguns minutos, só para fechar os olhos e deixar o corpo descansar mais um pouquinho antes da lida do dia.

    - Gabriela! Tá de pé, menina?

    E com isso, qualquer tentativa de voltar a dormir, foi embora. A voz de Januário logo pela manhã costumava ser uma das primeiras coisas que ouvia e nem sempre uma das mais agradáveis. Geralmente vinha com alguma ordem. Fazer alguma coisa, buscar alguma coisa, levanta, anda até ali, volta pra cá, você está fazendo errado, você está fazendo devagar demais, não tem o dia todo.

    - Cabou toda água. Cê precisa ir no poço buscar mais.

    Não era longe. Não era uma dificuldade para o homem já um pouco mais velho. Mas mesmo assim, sobrava para Gabriela essa tarefa diária. Por vezes, simplesmente fazer qualquer coisa que lhe era pedida, era mais fácil do que ficar discutindo e tentando arrumar uma saída, quase sempre não tinha muita saída para qualquer que fosse o pedido.
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