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    Uma Antessala Vermelha - Letícia

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    Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por Lnrd em Dom Mar 17, 2019 10:35 am

    Baía de Santa Adelina: a pequena pílula âmbar foi empurrada, ajudada pelo gole duma vodka várias vezes mais cara que um coração na deep web, da ponta da língua ao fundo da garganta. O mundo pulsou num formigamento colorido, colocando um sorriso no rosto do garoto, menor de idade. Não que aquilo fosse problema. Não com os pais que tinha. A única preocupação dele era acertar o caminho da Vox, a melhor boate das 2h30 às 3h30.
    Não que existisse algum demérito noutro horário, mas gente como ele não passava a noite inteira no mesmo lugar e aquela boate – que vinha flutuando até a baía – era o destino de quem importava.
    Mais cedo, coagira o piloto do helicóptero a deixa-lo no comando por alguns minutos, o que não afetara o leve voo entre a casa da ilha Elizabeta e o continente.  

    A irmã, no banco de carona, exibia às amigas a arma que ganhara, apesar de não lembrar a ocasião. Pedido de desculpas, lembrança de viagem ou mimo da avó? Fosse o que fosse, era uma arma pesada, o que estranhara as outras. “Prefiro assim. Se fosse pra matar, mandava o guarda-costas fazer”.
    Não que alguém ali soubesse o real peso de tirar uma vida.


    Linha Azul do Metrô: era o mais longo dos trajetos, atravessando não só a zona Leste, mas também a Norte da cidade. Não era comum aquela quantidade de gente tão tarde, mas tal era justamente a proposta da “Incomum”, festa que, depois de ocupar túneis, galpões abandonados, praças e outros sítios “alternativos”, experimentava uma edição nos vagões finais do transporte subterrâneo.
    Uma ou outra pessoa tentando voltar para casa parecia incomodada com a invasão. Uma ou outra pessoa em situação de rua, usando o veículo como local de descanso, parecia perturbada pela intromissão.

    A falta de autorização de qualquer órgão responsável – ou mesmo da polícia – não parecia ser incômodo, uma vez que pretendiam simplesmente curtir até quando fosse possível, indo e voltando entre as pontas do túnel. “Cara, vai devagar que só tenho essa!”, disse um rapaz de skate a tiracolo, lidando com uma preocupação bastante prática, dada a falta de um “bar” disponível.
    Após um “desculpem qualquer coisa”, a pequena banda convidada começava a improvisar uma apresentação naquelas condições precárias, animando uma das seções que sacudiam no balanço suave do trajeto; noutra, um grande som portátil, montado na garupa duma bicicleta customizada, era a voz à setlist de um DJ estiloso; havia ainda quem, de maneira mais espalhada, tocasse um ou outro instrumento, cantando qualquer canção famosa noutra parte do corpo da grande serpente.
    A diversão juvenil era acompanhada uma drag queen em negro, maquiagem e barba escuras, bebendo e beijando do que lhe fosse oferecido. A postura dela encarnava o clima descompromissado do momento. Havia algo de profundamente hipnótico naquela criatura enigmática, algo punk, algo gótica.


    Cidade Baixa: o GastrôBoteco era um ambiente cuidadosamente calculado para parecer uma espelunca de beira de esquina – tirando a parte do ar-condicionado e do sistema de som de alta qualidade.
    No balcão, dois rapazes de barbas escovadas e blusas quadriculadas discutiam o aroma da straight lambic artesanal que tomavam. Havia dúvida se ela era a melhor harmonização com a linguiça especial apimentada, com recheio de queijo, que comiam num pratinho de papel reciclado.
    Era a “RetroNight” e o primeiro cover dos anos 1980 tirava os equipamentos do palco para cedê-lo à próxima atração.
    Após a liberação do uso recreativo de drogas, a procura por blends especiais pela classe média aumentara enormemente, de forma que provavelmente havia algum dinheiro que valesse a pena em caixa.
    Ou assim pensavam os três assaltantes que aguardavam para iniciar uma ação lá.


    Centro de Artes Angelique Signourete: Radiance era uma figura bela e ímpar. Hipnótica. Rosto andrógino e curvas fartas, era difícil definir se aqueles seios eram frutos de estrogênio do próprio corpo ou apenas acúmulo gorduroso. Executava uma performance simples, mas tocantemente eficiente – alinhando, num abraço, a própria respiração à de pessoas pegas aleatoriamente, conduzia-as a uma profusão de lágrimas catárticas.
    Isto é, antes da vernissage.
    Curadores, artistas, marchands e personalidades, visões tão exóticas e diversificadas quanto a vida num colorido coral, bebiam champagne verdadeiro de taças de cristal quanto comentavam as obras expostas – soubessem ou não do que falavam.
    Num dos banheiros, um jovem garçom chorava compulsivamente após o tapa dum supervisor. Não que isso atrapalhasse a animada conversa entre dois distintos cavalheiros que usavam o mictório.


    Centro Antigo: o “F1” era literalmente uma borracharia durante o dia. Findo o expediente, era utilizado para uma festa bastante underground. O ambiente pouco propício – peças de carro nas paredes e chão bastante sujo de graça – convidava à ocupação não só o interior do estabelecimento, mas da rua que dava para a parte inferior um viaduto.
    No precário palco, alternava-se entre um sarau de poesias, música ao vivo e vídeo-projeções musicadas.

    Já cheio, pretendia mais animação caso a nômade “Incomum” não durasse tanto. A bem dizer, como um point conhecido, não era de se espantar se artistas mais in chegassem lá após qualquer coisa que estivesse acontecendo no “Angelique” ou mesmo se a Cidade Baixa não estivesse boa para o GastrôBoteco. “Des-selecionado” era um adjetivo comum ao F1, misturando gente muito, muito – a maioria ali vestia-se para afrontar, sendo fácil achar alguém de maquiagem e produção pesadíssima ao lado de alguém literalmente de pijamas. Ou alguém de gosto bastante despudorado ao lado de uma vitrine coberta dalguma imitação arrojada de alta costura – ou mesmo alguém da alta costura sob disfarce, tomando notas para copiar a “moda da rua”.
    Não era um lugar para pessoas fracas. Vizinhança perigosa, não era recomendado afastar-se da multidão. Ao menos se você não fosse “da área”.
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    Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por nahna em Ter Mar 19, 2019 9:13 am

    @Lnrd escreveu:Centro Antigo: o “F1” era literalmente uma borracharia durante o dia. Findo o expediente, era utilizado para uma festa bastante underground. O ambiente pouco propício – peças de carro nas paredes e chão bastante sujo de graça – convidava à ocupação não só o interior do estabelecimento, mas da rua que dava para a parte inferior um viaduto.
    No precário palco, alternava-se entre um sarau de poesias, música ao vivo e vídeo-projeções musicadas.

    Já cheio, pretendia mais animação caso a nômade “Incomum” não durasse tanto. A bem dizer, como um point conhecido, não era de se espantar se artistas mais in chegassem lá após qualquer coisa que estivesse acontecendo no “Angelique” ou mesmo se a Cidade Baixa não estivesse boa para o GastrôBoteco. “Des-selecionado” era um adjetivo comum ao F1, misturando gente muito, muito – a maioria ali vestia-se para afrontar, sendo fácil achar alguém de maquiagem e produção pesadíssima ao lado de alguém literalmente de pijamas. Ou alguém de gosto bastante despudorado ao lado de uma vitrine coberta dalguma imitação arrojada de alta costura – ou mesmo alguém da alta costura sob disfarce, tomando notas para copiar a “moda da rua”.
    Não era um lugar para pessoas fracas. Vizinhança perigosa, não era recomendado afastar-se da multidão. Ao menos se você não fosse “da área”.



    A banda tinha tocado em uma boate pequena não tão longe dalí, e ao término do show, Letícia e Marcela despediram-se dos demais.
    Marcela queria contar detalhes de sua vida e conversar outros assuntos mais, e propôs para Letícia irem para um lugar "top" que ela conhecia.
    Como havia sido noite de show, estavam mais produzidas que de costume... Letícia estava maquiada, e vestia-se com uma calça justa preta, top preto, e uma camisa semi-transparente branca, calçando uma sandália de salto médio, de tiras.

    Pegaram cervejas, e ficaram conversando na parte interna do lugar. Letícia interessou-se imediatamente pela variedade de estilos e pessoas presentes.






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    Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por Lnrd em Qua Mar 20, 2019 11:28 am



    “Eu corri da minha casa [...] Da minha mãe que me assombra, mesmo tendo ela já partido. Da minha filha que nunca dorme.
    Eu corri do barulho e do silêncio [...] para a chuva que emaranhou meus cabelos e encharcou meus sapatos e pele. Escondeu minhas lágrimas, escondeu meus medos
    Eu corri para a floresta, eu corri para as árvores. Eu corri e corri, eu estava procurando por mim.”


    No palco, uma jovem movia-se de maneira serpentina, recitando cadenciadamente uma poesia algo mórbida. Era difícil não prestar atenção nela.
    Tinha de fundo experimentações eletrônicas ao vivo e a projeção de um filme em P&B. Inesperadamente, a suave bruma da enorme variedade de cigarros na plateia ajudava o clima da apresentação.
    - Camomila, tabaco, cannabis, alecrim – anunciava uma senhora de uns 60 anos, carregando o suporte que servia de mostruário preso ao corpo.

    A festa já havia começado bem antes do show da banda de Letícia ter terminado e das duas amigas terem pisado no F1.

    Ao um lado delas, uma cestinha na qual lia-se “brownies mágicos = 10 dinheiros”. Do outro, um grupo algo deslocado, mas muito bêbado – pareciam saídos de um buffet de formatura – juntara os paletós numa cadeira e dançava bem próximo.


    “[...] Para o alto da colina, eu corri para o cemitério. E segurei minha respiração, e pensei sobre a minha morte.”


    “Eu acho muito ruim essa sugestão de você se inscrever em algum programas de talentos”, disse, entre um gole e outro, Marcela. Parecia estar remoendo algum assunto antigo.
    - Eu sei, TV pode parecer uma boa divulgação, mas você ficaria marcada para sempre como “a garota do concurso”. Não acho que você perderia, mas se perdesse, seria ainda pior. E eles tem um perfil muito pasteurizado. O negócio é investir em clipes mais intimistas, sem precisar de muita produção. Olha esse show aí” – Era um pouco difícil se escutarem, mas ela parecia não se importar tanto.


    “E eu vi as tumbas em ruínas. Todos os nomes esquecidos.
    Eu provei a chuva, eu provei minhas lágrimas.
    Eu amaldiçoei os anjos, eu provei meus medos.
    E o chão desapareceu debaixo dos meus pés. E a terra me tomou nos braços dela.
    Folhas cobriram minha face. Formigas marcharam pelas minhas costas.
    Céu negro abriu-se, cegando-me.”




    Dentro e fora, o fluxo de gente continuava aos poucos: fantasias de carnaval e roupas de brechó; couro e biquínis; “gangsta street-wear” norte-americana e lã crua com chapéus de palha. Era difícil entender a lógica interna daquela situação além de um “faz o que quer”.


    “E eu cheirei a carne queimada dela. Seus ossos apodrecendo. Sua deterioração.
    Eu corri e eu corri. Eu estou correndo ainda”


    O fim daquela etapa do sarau pós-moderno tinha chegado. Aplausos e depois alguns risos quando certa ironia fora revelada: aquele poema sinistro fora escrito por Madonna.
    Nada podia ser mais a cara aquele lugar que aquilo, colisões inesperadas.
    Do palco, os olhos da artista estavam cravados em Letícia, um ar analítico neles.


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    Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por nahna em Qua Mar 20, 2019 2:04 pm





    Letícia estava quase embriagada por aquele ambiente incomum. O lugar era fantástico, quase como se tivesse atravessado as brumas para Avalon, como nos livros que gostava de ler. Estava se esforçando para ouvir Marcela, mantendo-se próxima, mas o conjunto de barulhos dos diferentes ambientes do lugar atrapalhavam um pouco.

    "- Eu também acho que um concurso deixaria um estigma assim, mesmo que desse um pontapé inicial e uma quantia boa... Mas tem tantos meios hoje..." - Diz ela respondendo o pouco que ouviu.
    "- Até se não ganhar deve ficar a impressão também de que não era boa o bastante nem pro concurso!" - Faz cara de desgosto, bebendo sua cerveja do gargalo.

    Apesar de continuar passeando os olhos pelo lugar, prestava maior atenção na poesia mórbida no palco, pela proximidade e pelo ritmo que recitava.

    "- E hoje em dia é tudo youtube... youtube... nem TV se assiste mais... Fica mais fácil fazer alguma produção e jogar na internet..." - Disse concluindo após o gole.
    "- Como eu ainda não conhecia esse lugar?" - Sorrí para Marcela.
    "- Faz tempo que você vem aqui?"

    Ao fim da poesia, Letícia aplaude junto com os demais, também surpresa com a revelação sobre a autora.
    Ao perceber os olhos da artista sobre ela, dá um sorriso simpático.






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    Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por Lnrd Hoje à(s) 12:19 pm

    Marcela depositou, algo teatralmente, a garrafa de bebida sobre o balcão (cuja estrutura de maneira e vidro deixava antever uma vasta gama de produtos à base de graxa). Adquirira um tom pateticamente solene, como se uma autoridade eclesiástica prestes a professar alguma verdade oculta sobre a humanidade.
    - Pois então... eu já te chamei pra cá, mas a senhora estava muito ocupada tendo uma visa amorosa melhor que a minha e... que foi?

    A jovem interrompeu a própria palhaçada e, sem a menor cerimônia – talvez por estar também um pouco alta –, virou-se para trás, guiada pelo sorriso de Letícia. Percebendo automaticamente a mancada, tentou disfarçar da melhor maneira que pode o estrago já feito.
    - Eu amo essa garota. Sério. Você acredita que ela, na vez passada, muito plenamente quebrou o braço de um idiota, pegou a cerveja dele e saiu como se nada tivesse acontecido? - Ela própria sorria agora, dando um gole em homenagem ao ocorrido.

    O relato dela quase ocultara o fato de que a poetisa, após alguns abraços de agradecimento à plateia, caminhava segura na direção das duas. Movia as mãos como se fossem pequenas asas brincando suavemente com uma brisa inexistente, círculos e espirais duma dança inusitada.

    Foi quando, de subido, deteve o movimento.

    Um burburinho pareceu correr a festa, como vento sobre o campo. Talvez fosse apenas o vácuo entre a troca de palco, mas o ambiente pareceu mais silencioso por alguns instantes, mudança na pressão entreatos.

    À degradada porta da borracharia, encontrava-se de pé Radiance Stella Sóllare, performer de renome na cena artística que, coincidentemente, acabara de se apresentar no conceituado Centro de Artes Angelique Signourete.
    Para quem fizesse ideia daquilo, significava um grande choque de realidades, apesar de não haver desconforto na figura na entrada.

    Obviamente, não se esperava que todo mundo ali soubesse de quem se tratava, mas – ainda mais que a mulher que acabara de se apresentar – algumas pessoas pareciam simplesmente solares, podendo causar aquela impressão de atrair para si todos os olhares.
    Mesmo que, no caso de Radiance, isso se traduzisse num certo tipo de doçura.

    Mas ímãs possuíam polaridades, isso era certo.
    A moça que acabara de se apresentar simplesmente desaparecera.

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    Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por nahna Hoje à(s) 2:28 pm





    Quando Marcela colocou a garrafa sobre o balcão, Letícia já riu... Sabia o que vinha à seguir... Mas acabou ela mesma se interrompendo para ver onde estava sua atenção.
    Ouviu o relato da amiga sobre a atitude da poetiza, e admirava mulheres fortes assim... Era uma forma como ela mesma queria ser vista em um momento futuro... e acompanhou com os olhos sua aproximação.

    Com a repentina vacilação e a comoção de pessoas na entrada, Letícia desviou sua atenção para ver do que se tratava... Quase não conseguiu identificar o foco, e surpreendeu-se com os frequentadores que esse espaço mal arrumado possuía...

    Retornou sua atenção para onde olhava antes, mas a artista já não estava mais lá. Tomou um gole um pouco mais longo, terminando sua cerveja, com um suspiro no fim.


    "- Mas você tem razão, senhora Marcela... tenho uma vida amorosa bem mais agitada..." - Rí.
    "- Outro dia eu trago Ricardo pra cá comigo."

    "- Me conte dos seus rolos, que eu não caio nessa de pobrezinha..." - Faz cara de coitada e depois sorrí.






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