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    Uma Antessala Vermelha - Letícia

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    Uma Antessala Vermelha - Letícia - Página 5 Empty Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por Lnrd em Qua Jul 10, 2019 10:08 am

    Elijah-Iisa concordou com o convite, inicialmente falando pouco. Letícia já passara, inadvertidamente, pela primeira iniciação como vampira e não seria difícil ligar os pontos.

    O complicado era aceitar os fatos.

    Deixou-se permanecer naquele silêncio ao saírem do apartamento, ao descerem o elevador e até finalmente atingirem a rua, o domínio final da noite.

    - Gosto de sentir o vento do mar, mas não lembro mais como é o frio.

    Teria a “amiga” reparado na mesma estranha sensação?
    - Somos Bestas lutando bravamente para permanecer humanas. O que não nos mata, nos deixa piores.

    Ainda havia gente andando nas ruas, mas nenhuma delas parecia reparar nalguma diferença naquelas duas.

    Não precisavam se esconder, mas não eram, definitivamente, iguais.

    Pessoas, ao menos não normalmente, mordiam o namorado e bebiam o sangue dele.

    De todos os dramas que cortavam à navalha quem habitava Santa Dômina – fome, violência, medo, drogas etc. –, aquele devia ser o mais inusitado, porém estranhamente comum – também ansiavam por alimento, também lidavam com a brutalidade de si e dos outros, também temiam, mesmo que sendo em si criaturas de horror, também lutavam contra o grande vício.
    - Você está bem? – perguntou, sabendo que a resposta seria negativa.
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    Uma Antessala Vermelha - Letícia - Página 5 Empty Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por nahna em Qui Jul 11, 2019 12:43 am




    Leticia desceu com Iisa em silêncio...
    Era uma situação impensável... e desconfortante.
    Ter alguma companhia, que ao menos parecia entender o que ela estava sentindo, era um alívio.
    Sairam da casa e caminharam em direção à praia.

    Pouco depois de chegarem na rua, foi Iisa quem quebrou o silêncio.
    "- Eu senti essa ausência quando saí daquela casa maldita..."
    "- Não me dei muita conta que era eu que não podia mais sentir..."


    Virou-se para Iisa, analisando o que ela parecia sentir sobre isso.
    "- Agora é assim? Coisas que não podem ser sentidas... e outras..."
    "- Eu estava mordendo... bebendo sangue..."
    - Respondeu quando Iisa perguntou como ela estava.

    "- E eu nem consigo me lembrar como as coisas aconteceram lá naquela festa..." - Lamentou-se.







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    Mensagem por Lnrd em Ter Jul 16, 2019 11:51 am

    Aquela mulher – se é que a palavra cabia a qualquer uma das duas, ambas “bestas” – escutava Letícia como alguém que, melancolicamente, reconhece noutra pessoa o próprio sofrimento. Nesse ponto, tinha mais em comum com Radiance que com Jezabel.

    Mas aquela era a semelhança mais irrelevante ao momento.

    Eram, no fim, quatro sanguessugas desmortas.

    - Olha – retomou a conversa com uma expressão mais vaga, como se algo tivesse tirado a cabeça daquele problema –, nós somos reais. As lendas nem tanto, mas nós somos. Tem muita coisa que você precisa saber, mas... – havia claramente uma distração roubando o foco da atenção daquela confidente, um incômodo com o que a garota relatava – ... há algo errado.

    Era óbvio que a normalidade fora rompida naquela noite, mas não era a isso que se referia. Decidira tocar num específico que considerara mais “urgente”. As palavras que se seguiram poderiam soar deslocadas, quando o importante era explicar o funcionamento daquele novo universo.

    Se era certo que aquela “amiga” tentara alertar Letícia do perigo que corria ao pisar naquela mansão, isso daria crédito a qualquer coisa que dissesse? Ou era necessário desconfiar de enviesamentos no discurso dela, coisas sem sentido motivadas por teorias conspiratórias? Como no mundo humano, não havia ninguém “neutro”. Apenas pessoas mais ou menos atentas ao fato de sempre defenderem um mundo particular. Só o tempo poderia dar àquela jovem vampira a capacidade de discernir em que lado confiar – se é que deveria acreditar em alguém.
    - Radiance é uma das coisas mais monstruosas que já vi... digo, verdadeiramente amoral, apesar de enganar com aquela carinha boazinha... .

    Aquilo podia soar como “fofoca” desnecessária, ainda mais depois de Elijah-Iisa admitir ser ela própria um “monstro”. Isso sem mencionar que, se fosse para acusar alguém de ser terrível, provavelmente deveria estar falando sobre Jezabel. Talvez houvesse uma rixa em jogo. Ou não?

    Fosse como fosse, aquilo era só um preambulo. O ponto central logo chegaria.
    - ... mas você não lembrar de nada é muito estranho. Não é assim que aquela gente faz. É arriscado pra todo mundo. E se você tivesse matado o seu namorado? E se ele tentasse te acordar e visse que, bem, você está “clinicamente morta”?

    Não conseguia entender que tipo de trama estava em jogo. Nada fazia sentido.
    - O que você lembra de fato?
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    Mensagem por nahna em Sex Jul 19, 2019 8:39 pm




    Letícia nunca foi uma pessoa supersticiosa... e custava a crer em coisas que não podia compreender.
    Ouvia com atenção o que Iisa falava, mas tinha dificuldades em aceitar.

    "- Eu não consigo me lembrar de nada com clareza... digo..."
    "- Consigo lembrar de me vestir, me maquear... de trocar mensagens com Marcela e ler suas mensagens... Mas depois disso, tudo fica nublado..."
    "- Na maior parte, tenho mais sensações... Me lembro de me sentir assustada... e ainda me sinto quanto tempo refazer minha noite...."


    Virou-se apreensiva para Iisa, tirando o cabelo do rosto.

    "- E-eu poderia mesmo ter matado Ricardo..." - Abaixa a cabeça com a constatação.

    Tinha suas dúvidas sobre sua situação, e Iisa tinha tentando alertá-la... se tivesse levado a serio...
    Olha para o mar pensativa por algum tempo, em silêncio e continua.

    "- Porque fariam isso? Porque comigo? Nunca a tinha visto antes... nenhuma delas..."
    "- Como vou seguir minha vida? Como vou continuar casada...?"
    - Diz apontando em direção à sua casa, perdida.






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    Mensagem por Lnrd em Ter Jul 30, 2019 11:17 am

    Elijah-Iisa alcançara o braço morto de Letícia, segurando-o num toque sem muita força, mas suficiente para prender o que importava ali: a atenção dela.

    Como parte do mesmo instante, atravessara a conversa desviando ligeiramente o foco do assunto, finalmente conseguindo organizar o pensamento que a estava incomodando desde o início daquele diálogo.
    - Eu sei que é coisa demais, que você quer e que precisa saber de muita coisa, mas tenho que falar... – O tom dela era sério, de alerta, preocupação. Talvez o mesmo com o qual tentara “berrar” por mensagens, mas que não fora claro o suficiente para evitar o estrago que encaravam agora.
    - Nossa... “raça”... “tipo”... seres como nós existem desde os tempos de lendas, mas há um meio milênio surgiu uma sociedade cujo poder foi construído sobre a ocultação da espécie. E Radiance faz parte dela.

    Ela era experiente e sabia que urgiam outros assuntos, todos necessários de se mencionar para uma novata – a o desejo por sangue, o temor às chamas, a besta interior... –, mas aquela questão que surgira tinha força demais para ser contido.
    - Alguém como você, transformada e sem orientação, é um risco não só pra você e pro seu namorado, mas pra essa organização em si e basicamente para todo mundo com sangue de vampiro – finalmente e pela primeira vez naquela conversa ela mencionara tal palavra agourenta abertamente.

    Parecia não se importar se algum passante ouvisse as duas. Quem levaria a sério, afinal, alguém conversando sobre isso? Monstros eram para crianças... e gente louca.
    - Radiance dificilmente faria isso... – dissera para, imediatamente, complementar e corrigir-se – Aliás, não é assim que aquela coisa... caça – relutara com aquela última palavra, colocando-a com mais cuidado, como se evitando ofender. O papel de presa, lanche, refeição era pouco agradável.

    Uma ambulância passou correndo, jorrando um estranho mix de luzes e fazendo enorme barulho, lembrando que naquela cidade dramas ocorriam a todo momento.

    Dificilmente algum tão estranho quanto aquele.

    “Se nada totalmente fora da caixa tiver acontecido... só consigo imaginar que... bem... talvez não tenha sido alguém da festa”. No início, aquilo poderia parecer sem muita lógica. Tal evento era uma das únicas certezas daquela noite impossível. Como aquilo não teria acontecido lá?
    - É óbvio que você foi atacada e transformada. E parece que apagaram... ou alteraram sua memória – aquela opção... uma dúvida como aquela, uma vez plantada, perigava crescer como uma hera de loucura.

    Dois jovens bêbados cambaleavam pela rua, ainda distante das duas. Faziam algazarra e chamavam atenção, quase caindo. Uma senhora passeava, àquela hora, com um cachorrinho de sapatilhas. Uma moça passava apressada, agarrada à própria bolsa. Todos, de forma diferente, cheiravam estranhamente a comida - não temperos e coisas do tipo, mas algo ao mesmo tempo cru e delicado, bruto e divino. Carne a se cravar os dentes e suco a se sorver até o fim dos dias.
    - Um vampiro que abandona uma prole precisa se esconder pra não receber punição e... bem, geralmente crias sem autorização são exterminadas. Na maioria dos casos. Você ainda corre perigo.

    Ao mesmo tempo que aquela notícia era atirada, algo parecia sussurrar nos ouvidos de Letícia. “Coma. Mate. Beba”. Um desejo assassino e cheio de violência. Era como se um demônio a instigasse ao pior dela.
    - Se minha teoria estiver certa – e não estava, uma vez que vários detalhes lhe passavam batidos –, você ainda tem algum tempo até descobrirem que há uma vampira novata por aí. Por hoje você deve estar segura, mas... preciso ir consultar minhas parcerias sobre o que fazer com você - aquela era uma terrível hora para Elijah-Iisa sugerir que deveria partir. Não havia explicado muita coisa sobre o que seria de Letícia agora. Talvez achasse que não valeria a pena, já que ela poderia ser morta dentro em breve.

    "Mas antes... temos que decidir o que será de você... hoje".
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    Mensagem por nahna em Qua Jul 31, 2019 4:09 am




    Estava cobrando Iisa demais... Não era culpa dela o seu estado atual.
    Seu gesto de segurar o braço de Letícia tinha surtido o efeito desejado, e ao invés de continuar atirando questionamentos, apenas escutou o que ela tinha a falar.
    Deixou seu ceticismo de lado e procurou aceitar aquela explicação, que em qualquer outro dia lhe pareceria apenas devaneio.
    Sob aquela ótica, as coisas poderiam fazer sentido.

    Escutou a palavra “vampiro” com um significado novo, e um peso imenso. Então estava mesmo morta... Não respirava, seu coração não batia...
    Via a surpresa de Iisa sem entender como as coisas poderiam ter acontecido...
    Desviou sua atenção para observar as pessoas passando, sentindo quase um desespero em cravar os dentes neles... balançou a perna, nervosa, tentando se acalmar.

    A suposição de memória alterada ou apagada trouxe Letícia novamente para a conversa.
    “- Seria possível algo assim...?”
    “- Meu Deus... isso faz todo sentido... minhas memórias estão estranhas... nunca consigo trazer à mente esse período da apresentação... Apenas de Radiance e Jesabel tentando me convencer que desmaiei e que eu acordaria me sentindo melhor...”

    De algum modo ela parecia já saber do perigo, mas de que modo? Não conseguia ligar suas sensações, mas sabia que as duas eram as responsáveis pela sua morte.
    “- Tenho certeza que foi na festa... e que uma delas fez isso comigo.”

    Puxou um pouco os próprios cabelos com uma expressão de angústia.
    “- Por Deus! As pessoas passando... seus cheiros... seus...” - Apertou os lábios.
    “ - Não estou aguentando!” - Reclamou, inquieta.






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    Mensagem por Lnrd em Qua Jul 31, 2019 6:52 pm

    - Je... Jezabel estava lá também? Isso só podia dar em confusão... De quem mais você lembra? - Até o momento, não sabia exatamente quem poderia ter participado daquilo e aquele nome, apesar de não explicar as coisas, ajudava a entender que algo deu errado. Parecia então tentar calcular as possibilidades com a mente, tentando dar sentido àqueles acontecimentos. Porém teve que focar na urgência - Você deve estar com fome, precisa de sangue e... Droga.

    Levara a mão ao bolso, tirando um relógio de corrente que, curiosamente, exibia a hora em formato digital. Ele vibrava levemente. "A hora... tenho que partir".

    Aquela era uma péssima notícia.
    - Letícia, você precisa se controlar até amanhã. E precisa evitar o sol. E... seu namorado... . É arriscado dormir com ele. Você acha que pode... expulsá-lo? Ao menos por hoje?
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    Mensagem por nahna em Sex Ago 02, 2019 2:44 pm




    Observou curiosa o estranho relógio que Iisa tinha em seu bolso... nada prático, mas era bonito. Tentou ver que horas eram.

    "- Você... tem toque de recolher?" - Perguntou, estranhando e pensando se era alguma coisa dessa nova natureza.

    Ficou aflita em pensar em não ter companhia durante essa hora difícil... Teria mesmo que beber sangue? Se negava, mas sabia que sim... e que estava faminta.
    Não conseguiria ter tranquilidade até saciar essa vontade crescente... Ficar perto do Ricardo seria perigoso demais, como ela já tinha constatado... Mas tirá-lo de casa?
    Como poderia...? Era a casa dele... Mas achava que não era seguro para ele ficar lá, independentemente de sua presença.

    Olhou ao redor... tentou disfarçar, mas a verdade era que estava instintivamente caçando... observava presas em potencial e sua inquietação crescia.
    Balançava a perna, concordando com Iisa, mas sem saber o que fazer.

    "- Quando vou te ver de novo?"






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    Mensagem por Lnrd em Dom Ago 04, 2019 10:33 am

    “Somos uma sociedade bastante melindrosa, mas toque de recolher é exagero...”, conseguiu ela brincar num momento tenso daqueles. “O nascer do sol”, respondeu, apontando uma das maiores fraquezas daquela sobrevida. “Tenha sempre em mente reservar tempo suficiente pra voltar pra algum abrig...” então parou, como se um lampejo de ideia tivesse passado pela cabeça dela.
    - Acorde seu namorado. Diga que tem uma amiga com problemas e que ela vai dormir com você hoje. Mande-o para a sala” – Aquilo, concluíra ela, poderia ajudar Letícia a ganhar tempo até resolverem o que fazer.
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    Mensagem por nahna em Ter Ago 06, 2019 11:34 am




    Estava sem idéias, e a sugestão de Iisa pareceu suficientemente boa.
    Sentiu certo alívio, mas algo ainda a incomodava sobre sua casa.
    Olhou para trás, em direção a ela.

    "- É tão diferente o modo de sentir as coisas... Eu tenho um mau pressentimento... como se não devesse voltar para lá."
    "- É assim? Já sentiu isso?"
    "- Talvez seja melhor ir para um hotel."


    Virou-se para Iisa, de repente.

    "- Você tem alguma ideia do que houve com minhas memórias... Te como desfazer? Como me lembrar?"






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    Mensagem por Lnrd em Qui Ago 08, 2019 4:57 pm

    A vampira voltou a verificar o relógio, apreensiva, como se os números sorrissem maliciosamente para ela. Em silêncio, refletia, aparentemente calculando as opções.
    - Droga... . A eternidade pela frente, mas a porra da fada transforma você em torresmo se não voltar cedo... – não podiam ignorar o tempo correra bastante rápido entre o remoto momento em que Marcela e Letícia se preparavam esperançosas para a festa e o instante preciso daquela conversa entre duas desmortas.

    O ponto exato em que as duas moças toparam com Elijah-Iisa e Radiance parecia, ao mesmo tempo, há poucos minutos e noutra encarnação.

    “Olhe”, continuou ela, também vacilante, indecisa, como se num precipício de várias possibilidades. Tinha, todavia, que ajudar a novata a atravessar aquele umbral. “Se eu ficar com você, posso dar algumas respostas... mas pras outras eu tenho que ver o resto do meu bando...”. Aquilo não respondia diretamente ao problema, mas deixava subentendido que ela não tinha como simplesmente recuperar a memória da cantora e remontar os passos que a levaram àquele estado.
    - Se você for ficar, eu posso ajudar a tape... – ela parou, como se aquela escolha de palavras fosse algo pobre –... a lidar com seu namorado. Mas se você for pra um hotel... é melhor eu aproveitar esse tempo pra descobrir como te ajudar – ela então voltara ao ponto, como se enfatizando-o – Seja como for, ninguém pode desconfiar de você. Se você fizer alguma besteira... ninguém vai poder te ajudar.

    Era como atirar uma raposa faminta num mar de galinhas e dizê-la para não se alimentar. Apenas ossos ruídos poderiam testemunhar aquela tragédia.
    - Não vou te acompanhar até o hotel, isso tomaria tempo e... Se é isso o que vai fazer, te encontro aqui, amanhã, às 21h. Acho que é tempo suficiente pra ter alguma resposta... .
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    Mensagem por nahna em Qui Ago 08, 2019 6:50 pm




    Letícia observou Iisa olhando para o relógio novamente, percebendo sua apreensão.
    Não conseguia associar completamente os acontecimentos daquela noite que a tinha deixado naquela situação...
    Estava com uma ânsia que não entendia... assustada com a própria ignorância, mas entendeu que estava pondo a amiga em risco.
    Era talvez a única pessoa que poderia ajudar naquele momento...
    Cogitou ligar novamente para Radiance, mas achou que seria imprudente, depois dessa conversa.

    "- Eu agradeço muito o que está fazendo por mim, e por estar aqui..." - Disse sorrindo, ainda que estivesse verdadeiramente animada.
    "- Você tem razão, pode me ajudar muito mais se eu me virar sozinha essa noite. Eu vou para um hotel." - Concordou com a segunda opção que discutiram.

    Abraçou a amiga, que era tão recente, mas que a estava ajudando a atravessar aquele momento tão difícil.

    "- Nos encontramos aqui então, amanhã." - Levantou-se, mas logo se recordou que estava sem seu celular.

    "- Abusando ainda mais... Pode me deixar em algum hotel ou pousada no seu caminho?"






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    Mensagem por Lnrd em Seg Ago 12, 2019 12:39 pm

    "Sem problema, mas sem carros roubados hoje", disse piscando um olho, apontando então numa direção e pondo-se a andar a passos decididos. A "carona" seria mais uma caminhada em dupla.

    Uma boa oportunidade para fechar algumas pontas soltas.

    "A Máscara", começou naquele tom que usaria em qualquer conversa corriqueira, "é nosso marco civilizatório. Significa nunca nos revelamos e fazermos de tudo pra desacreditar nossa existência. Livros, filmes... a maioria dessas porcarias têm dedo nosso. Outro dia tinha uns adolescentes num programa tosco dizendo que eram vampiros. É claro que foram ridicularizados e isso é bom pra gente. Ainda mais hoje em dia...".

    Muitas histórias mencionavam sociedades secretas de monstros controlando o destino da humanidade. Aparentemente, não eram tão tolas assim. Aquelas pessoas andando pelas ruas... seriam também vampiras? Seriam, ao contrário, peões no esquema daqueles "illuminati" sombrios? O quanto daquela cidade era uma fachada? Seria possível não desconfiar do que estivesse virando a esquina?

    Justo no próximo cruzamento, uma barraca vendia carnes em espeto, petiscos cujo cheiro espalhava-se ao vento junto à fumaça. O aroma, apesar de familiar, não era de todo apetitoso, como se cinzento. Não lembrava mais alimento.
    A carne crua, apesar de igualmente insossa, parecia mais tragável.

    Uma criança acompanhou a passagem das duas com olhos vidrados, sem deter-se no mastigar daquela borracha dura e queimada. O que estaria fazendo àquela hora na rua?

    “Não somos ‘imortais’ de verdade. Seu corpo não vai mais envelhecer. É isso. Deve ter uma palavra melhor noutra língua”. Conforme explicara em seguida, Letícia deveria temer coisas como o Sol e o fogo, assim como as garras e presas de outras criaturas da noite. “Uma estaca no coração te coloca no máximo em coma. E eu poderia ter invadido sua casa sem convite, se é que isso passou na sua cabeça. Mas às vezes um vampiro acredita tanto nessas besteiras que elas acabam acontecendo, entende?”, pontuou ela antes de chegar numa parte que poderia parecer bastante inesperada. “Mas você tem que vigiar sua mente também. É como um tipo de loucura. Uma coisa dentro da nossa cabeça mandando matar desenfreadamente. ‘A Besta’, como dizem. Se você ceder a ela... bem, ‘você’ não morre, mas ‘você’ morre, entende? Seu corpo continua por aí matando, mas sua personalidade já se foi. Você vira um bicho e só isso. E não tem retorno”. As coisas não pareciam tão romantizadas quando se poderia esperar. A eternidade era andar sobre uma corda bamba.

    Sentado na rua, um homem de roupas bonitas, mas desalinhadas, assoviou para elas. Oferecera um gole da garrafa que trazia à mão. O odor de álcool era forte, mas havia uma nota ali que parecia mais interessante. O cheiro de vítima. Elijah-Iisa não pareceu dar bola.
    - Todo mundo acha que quando se passa o véu da realidade comum, você automaticamente sabe de tudo sobre a vida e a morte. Não é assim não. Não sabemos nem de onde viemos... – aquela confissão poderia parecer uma decepção, apenas uma a mais que as anteriores e uma a menos das seguintes – Nem livres somos. Às vezes eu só queria ser um demônio destruindo tudo por aí, mas as consequências... isso é bem sufocante.

    Já haviam ultrapassado alguns quarteirões, cruzando caminhos pelos quais provavelmente já tinhas pisado, mas que agora abriam-se de maneira estranha, como se parte de um mundo diferente. “Tô indo rápido demais?”, perguntara, mas não se referia ao ritmo da caminhada. “Se tiver me repetindo, é só falar...”.

    Era um turbilhão de informações e parecia estar longe de terminar. O passeio, entretanto, ameaçava chegar ao fim. “Estamos quase. De lá pego o primeiro transporte”. Muitas perguntas e respostas teriam de ficar de fora.

    O último assunto, talvez, ajudasse Letícia a entender melhor tudo aquilo.

    "Tudo começou com Lilith", prosseguiu ela, naquele resumo. "Mas os outros vampiros acham que dizer isso é sacrilégio e sinal de gente perigosa. Logo eu?” Uma risada cortou a noite, contrastando com a tensão das dúvidas da novata. “Não dou a mínima". Aquela atitude segura de si era algo a se esperar de Elijah-Iisa. Era quase "punk" na maneira de ser.
    - A primeira nômade encontrou o primeiro assassino, Cain. Ela ensinou os mistérios da noite. Mas ele também tinha os próprios segredos. Ele era amaldiçoado e transmitiu aquilo prum séquito. O vampiro original, agora com poderes... como os que usaram na sua cabeça.

    "Se os cálculos são verdadeiros", explicou ela, apesar de não parecer confiar muito naquilo, "criaturas como eu somos a 13ª geração depois dele. Parece pouco, mas é que a nossa reprodução é um tabu. O sangue da criança é mais fraco que o de quem a criou. E dizem que a 14ª é um sinal do apocalipse. Na verdade os velhos têm medo de que o número de jovens cresça muito e cabeças comecem a rolar..."

    Então, finalmente, ela se detivera. Era ali que se despediriam. Um céu ensolarado separaria elas do próximo encontro.
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    Uma Antessala Vermelha - Letícia - Página 5 Empty Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por nahna em Ter Ago 13, 2019 12:45 pm




    Aceitou o convite e caminhou com Iisa, procurando deixar de lado a fome que queria dominá-la... Sentia-se quase doente.
    As coisas que ela falava pareciam de fato saídas de um filme de conspiração com monstros noturnos... Se perguntaria se seria tudo verdade, mas seria estúpida se duvidasse.
    Ela própria era agora uma criatura da noite. Esse pensamento trazia uma imensa tristeza, indignação, mas curiosamente, também uma sensação de poder.
    Poderia realmente haver um poder e um novo sentido de liberdade que não conhecia antes? Mas o que seria de sua vida regressa?
    Observava Iisa enquanto ela explicava todas aquelas coisas novas, e ficou grata por tê-la conhecido.

    Olhou para a barraquinha de espetinhos de carne por onde passariam, e percebeu que o cheiro nada mais tinha de atrativo... mas a ideia da carne trouxe-lhe a lembrança do sangue na travessa, e escorrendo na superfície vermelha... Isso a teria feito salivar se ainda fosse humana, e a lembrou novamente da sua fome. Olhou para a criança e seus pensamentos foram mistos... Embora todos agora parecessem comida aos seus olhos, nutriu doçura e preocupação por ver aquele menino na rua tão tarde.

    Voltou sua atenção para Iisa.

    "- Quantos anos você tem?" - Perguntou curiosa, ao ter a informação que não envelheceria.
    "- Se não for falta de educação perguntar..." - Completou, sem saber se aquela pergunta poderia ser absurda.

    Ouvia sobre a Besta, e vinha-lhe à mente a fome que sentia... quase sabendo que aquele desejo era também um atalho para se perder, como dito. Deixar de ser e agir como uma pessoa, e se tornar realmente um monstro. Quantos teriam se esvaído desse jeito? Um assovio a desviou desses pensamentos.

    Olhou o homem... a presa... tão fácil... Era tão tentador, que quase não pôde se controlar! Olhou para Iisa, que não tomou conhecimento e se questionou como conseguia. Algo a incentivava a satisfazer sua vontade e arrancar a vida daquela presa. Apertou e cruzou os braços, andando mais próxima da amiga, com a cabeça baixa, se censurando e repetindo para si mesma que superaria essa situação, como um mantra em sua mente.

    "- Tá indo rápido sim... mas estou conseguindo acompanhar."
    "- Eu sou completamente ignorante, e você está tentando me explicar o que eu preciso saber."
    - Sorriu de forma simpática.

    "- Lilith? A primeira esposa de Adão? Então tudo aquilo de paraíso e tal... é verdade?" - Perguntou com supresa.
    "- Poderes que você diz, são feito magia?" - Continuava surpresa com a nova constatação de realidade.

    Percebeu que estavam próximas à uma pequena pousada e chegaram ao ponto de se separarem. Letícia parou a caminhada com desânimo.
    Temeu esse tempo que passaria sozinha, mas tentaria se manter forte. Ela era forte! Já tinha passado maus bocados na vida, e não se deteria por essa pós-vida.
    Abraçou Iisa agradecendo por toda a ajuda e esclarecimentos.

    "- Obrigada!" - Disse se despedindo.
    "- Nos vemos amanhã?" - Acenou para a amiga, caminhando em direção à pousada.






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    Uma Antessala Vermelha - Letícia - Página 5 Empty Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por Lnrd em Sab Ago 17, 2019 2:44 pm

    - "Eu vi coisas que vocês humanos não acreditariam. Naves de ataque em chamas sobre os ombros de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva" - respondeu ela, como se citando algum texto decorado. Então, ao final, numa expressão mais relaxada, como se falando por si, complementou-o. - Hora de viver.

    Havia algo de curioso em Elijah-Iisa, como se, independente da condição vampírica, ela tivesse nascido na noite. Era difícil imaginá-la levando uma vida "comum", com problemas "normais", tendo uma família "padrão".
    - Aquela que eu chamava de "senhora" à época me transformou em 1980. Isso dá... tô no mundo faz quase oitenta anos - disse, com uma piscadela de olhos.

    Não vira, porém, aquela pergunta como indiscreta ou curiosidade menor. Lembrara de algo importante sobre aquele assunto. Explicara que poder no mundo vampírico não era uma medida exata, que influência, dinheiro e status eram tão importantes quanto na sociedade humana. Mas duas grandezas disputavam espaço ali: geração e idade.
    - Se alguém de 10ª geração transformar uma cria, essa "criança" será de 11ª. Um sangue bem mais concentrado e forte que o nosso, mas sem o tempo necessário pra maturar as coisas. Alguém de 12ª por aí há muitos anos provavelmente vai ser mais forte, talentos mais aprimorados... – novamente analisou Letícia, tentando ler algo nela – Realmente não dá pra saber assim a sua situação, mas chutaria uma 13ª, como eu.

    Conforme continuavam, o assunto sobre o passado da espécie voltara a jogar nela certo “ar” de conspiração. Mas como distinguir delírio de verdade naquele absurdo que era a própria existência de tais criaturas?
    - Quem sabe? – Brincou, dando os ombros – É justamente sobre o que eu falava. Não é só porque morremos que sabemos de tudo. Mitos, profecias... Dizem que Cain foi o primeiro e a 13ª geração a última, e que o Apocalipse já começou... . Como saber?  Mesmo o que for verdade está sempre embaçado por mentiras que usam pra nos controlar... Eles. Os Anciões. Vampiros velhos e poderosos que usam de todos os recursos pra manter todos na linha. A Camarilla... . É contra isso que nos rebelamos. Não aguentamos mais as maquinações dessas múmias desgraçadas... .

    Aquela era apenas a ponta dum iceberg, a fresta da caixa de Pandora. Apenas o tempo – algo que não tinham mais ali – seria capaz de colocar Letícia em posição mais privilegiada de observação sobre aquilo. O mesmo se daria sobre a “magia” vampírica.
    - Bem, esse assunto pode esperar. Você aprenderá que você é capaz de bem mais que chupar sangue. Aliás, sobre isso... é melhor trancar a porta. Não queremos que ninguém da limpeza encontre um corpo no quarto e... bem, acabe se tornando um corpo.

    E com aquilo, despediu-se, deixando para trás a novata e as várias dúvidas que tinha.

    E assim as horas se passaram, com o Sol – algo que nenhuma delas voltaria a ver, a não ser em imagens ou no momento da morte delas – ardendo sobre a cidade, tentando expurga-la de algo além dos crimes e da corrupção. O mal secreto dormia.

    Talvez tivesse tentado, mas Letícia simplesmente não conseguiria acordar durante o dia. Era um sono estranho, mais pesado do que qualquer um que pudesse se lembrar. Um sono de morte.

    Na noite seguinte, “Iisa” não estava à porta do prédio esperando-a. Ao contrário, havia optado por uma abordagem bem mais direta.

    Estava sentada no sofá do apartamento, tendo à frente de si uma xícara de café preparada por Ricardo.
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    Uma Antessala Vermelha - Letícia - Página 5 Empty Re: Uma Antessala Vermelha - Letícia

    Mensagem por nahna em Seg Ago 19, 2019 6:40 pm




    Letícia ouvia a amiga atentamente... Parecia uma realidade alternativa, mas nada do que estava passando possuía um senso de verdade dentro do que foi ensinada a acreditar... E percebeu que era assim pela vontade de seres ainda mais poderosos. Talvez os mesmos que ordenariam a sua morte se fosse descoberta...

    "Deus!" - Pensou... Corria sério risco de morte definitiva, e agora se dava conta disso. O que poderia fazer? Odiava que fosse assim, mas dependia da vampira que tinha conhecido tão recentemente.

    Despediu-se dela com o peso das necessidades que seu corpo exigia... ou era ainda seu corpo se modificando... E entrou no hotel em frente.
    Observou as pessoas no lugar e faz o checkin o mais rápido que pode, se contendo. Nele chegando, trancou tudo e bloqueou qualquer fresta por onde pudesse escapar a luz do dia, sentindo-se já bastante sonolenta... era o dia que se aproximava.

    Se deitou relembrando tudo que Iisa tinha dito... sobre vampiros, sua sociedade... e voltou a pensar sobre Radiance e Jezabel.
    Radiance tinha atendido o telefone com doçura quando ligou... Será que deveria procurar por ela? Mas Iisa tinha dito que as circunstâncias em como tinha sido transformada em vampira não faziam sentido, além de ser um risco muito grande para ela...
    Qual teria sido sua intenção então?

    Mal pode sentir em que momento adormeceu, parecendo que tinha apenas apagado levemente.
    Levantou-se e não se sentia nada melhor da fome que a corroía. Saiu do hotel e sem encontrar Iisa, resolveu ir para casa, e para sua surpresa a encontrou lá.

    "- O-oi!" - Deu um sorriso, surpresa.






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