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    Noite Carmim

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    Mensagem por Tellurian em Ter Abr 16, 2019 9:17 am

    A chuva caía pesada, anunciando que o Outono já avançava. O céu escuro da noite, em virtude da hora já avançada, fazia a paisagem da janela parecer um quadro cuja tela era preenchida por nada além do mais puro negrume. O som das pesadas gotas de chuva gelada atingindo o telhado de madeira da hospedaria era alto, e ocultava o som do metal sendo afiado na pedra.

    Toshiro sentava-se em seiza¹, e olhava fixamente para a lâmina a sua frente, a qual ele deslizava contra a pedra de amolar umedecida. A luz tênue da vela usada para iluminar parcamente o quarto simples refletia no metal da lâmina. Sentia os dedos sensíveis pelo esfregar continuo da pele na navalha e na aspereza da pedra, mas não se importava. A pele secaria, e então viria a bolha. A bolha estouraria, e a pele antes fina se tornaria couro. E seria apenas mais um calo na mão endurecida pela prática constante da espada.

    Ergueu a lâmina, e a observou à luz da vela por um instante. A beleza da espada japonesa fascinou o homem por um tempo. A lâmina, mesmo no ambiente de penumbra do quarto, emanava um brilho azulado de metal polido que contrastava com o amarelo cálido da vela que já esmorecia e em breve se apagaria.

    Um relâmpago cruzou o negrume da janela, iluminando o quarto e atraindo os olhos vazios de Toshiro por um milissegundo, antes que ele repetisse a brincadeira por instinto.

    ”Ichi... Ni... San...”²

    Murmurou, sem tirar os olhos da espada, até que o som do trovão preencheu a noite escura. E foi precedido pelo som da espada deslizando vagarosamente para dentro da bainha.

    Toshiro olhou a escrivaninha do seu pequeno quarto, e viu a mensagem em cima dela. Seus superiores entendiam a solenidade de seu trabalho, e o seu respeito pela vida que acabaria ali era traduzido na caligrafia elaborada que trazia o nome de seu alvo: Shigekure Kouji.

    De acordo com a informação, Shigekure era um mercador. Possuía contato com os ocidentais da ilha Dejima. Estava em vias de fechar um contrato de intermédio da venda de armas de fogo para tropas xogunais. Paranóico e meticuloso, tinha medo que outro mercador atravessasse a sua venda, e então mantinha o nome de seus contatos em segredo. Se fosse removido, a negociação das armas se tornaria inviável.

    Toshiro passou duas semanas peregrinando pelas ruas de Kyoto e observando o dia a dia de Shigekure. Hoje, ele combinou com amigos de ir à zona de baixo meretrício. Provavelmente, voltaria bêbado e sozinho para casa.

    Notas:

    ¹- De joelhos. Posição tradicional japonesa pra ocasiões formais.

    ²- "um... dois... três....". Takeda está fazendo uma brincadeira onde, após um relâmpago, inicia-se uma contagem pra ver quanto tempo depois do clarão que o trovão chega.
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    Mensagem por Christiano Keller em Ter Maio 21, 2019 10:43 pm

    Toshiro Yamamoto,

           Era hora de fazer o que o Daimyo solicitou. Shikegure deveria ser removido de sua função como negociador de armas para facilitar um futuro em que o Imperador reinaria. Um futuro melhor que funcionaria em prol dos interesses da maioria do povo japonês e não às necessidades de apenas um homem. Isso não era uma tarefa fácil, tirar uma vida era como remover uma parte da harmonia de uma música, no entanto se há um instrumento tocando uma melodia diferente sua remoção apenas reforçará a melodia correta trazendo harmonia para o som, para a música esperada.
           A chuva ocultaria a maior parte do barulho e dificultaria seguir as pegadas tanto de Shikegure como as minhas. Porém havia a possibilidade de que ele esperasse a chuva passar para sair pelas ruas da cidade. Precisava ir até a zona de baixo meretrício, não que a região não fosse conhecida, mas procurar alguém era diferente de ir se divertir, havia uma obrigação com a justiça e com o Daimyo que era mais importante.
           Me preparo para sair com um pouco de dinheiro, usando roupas que poderiam ser descartadas se houvesse sujeira de sangue, um chapéu de bambu para combater o frio e as espadas simbolo de um samurai.

          A caminhada a noite com chuva era tranquila, poucas pessoas estavam nas ruas e quem saiu tinha um objetivo em mente. Era possível sentir o cheiro de lenha queimando para aquecer e secar as casas. Não haviam muitas árvores no Japão e a madeira era muito bem aproveitada. Por que Shikegure não importou madeira? Talvez pudesse importar ferramentas? Se não outra coisa para o bem-estar do nosso povo? Por que tinha que ser armas e ainda mais para os inimigos do povo? O pensamento nas ações do alvo era importante para compreender se apenas a sua remoção realmente resolveria o problema. Não era uma forma de trabalhar a culpa, mas sim de trabalhar a justiça, para que fosse feita da forma adequada, sem pontas soltas. Eventualmente poderia direcionar meus inimigos para que perseguissem outros inimigos do império eliminando 2 problemas com 1 só golpe, sempre melhorando, sempre fazendo as coisas de uma maneira mais eficiente.

           Ainda chove na zona e algumas pessoas que estaria nas ruas estão escondidas em seus respectivos estabelecimentos. Shikegure estava em algum deles e precisava descobrir qual. A ideia era perguntar por meu amigo que havia se separado de "nós", estava meio bêbado e então descreveria Shikegure. Sempre podemos confiar na bondade das pessoas, ninguém quer ter que recolher um bêbado e estariam dispostos a passar a tarefa a qualquer um que procurasse por ela. Certamente alguns dos presentes precisariam de uma recompensa, como uma moeda ou duas. Ainda de forma a aproveitar o momento e como parte do disfarce poderia conversar com as moças para trocar alguma caricia sem perder o olho do prêmio, a cabeça de Shikeure. Depois bastava seguir o alvo e no momento adequado, acabar com ele pela frente com honra.
           O plano estava formado, agora a execução precisava acontecer. Essa era a parte mais difícil pois haviam vários fatores fora do controle, devia confiar na intuição.
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    Mensagem por Tellurian em Qua Maio 29, 2019 5:02 pm

    A chuva caía em gotas pesadas, que encontravam o pequeno wagasa¹ e formavam um som ritmado, que até poderia fazer parte de uma melodia animada. Porém, a noite lúgubre não permitia distrações felizes. Toshiro caminhou pelas ruas e vielas de Kyoto até alcançar a zona do baixo meretrício. O envelope preto que continha o nome do alvo e as instruções pesava no compartimento interno do gi do samurai, mas ele sabia que as informações seriam precisas e valiosas. Não tardou a encontrar o alvo.

    Avistou-o dentro de uma casa de chá, em companhia de pelo menos duas belas moças, e dois homens. Toshiro não saberia dizer se eram guarda-costas ou amigos aproveitando uma noitada juntos. Guarda costas complicariam as coisas. Mas, estavam animados. Shigekure trocava olhares e dizia obscenidades aos ouvidos de uma jovem geisha que o acompanhava. A moça lhe oferecia sorrisos. Talvez, as coisas não fossem demorar tanto. Pelo jeito, logo sairiam. Mas Toshiro não quis correr riscos, e julgou que uma garrafa de saquê por cortesia da casa iria acelerar os ânimos. A urgência em saciar o desejo retiraria o alvo da vista de todos logo. Então, pagou uma garrafa de um bom sake para a mesa de Shigekure, e subornou o atendente para que ele dissesse que era uma cortesia da casa. O truque deu certo. Em questão de algumas doses, a própria geisha parecia embriagada e mais entregue às carícias e obscenidades do alvo.

    O fim da chuva trouxe o golpe de misericórdia na paciência do casal, que sentiam a urgência em consumar o que o álcool havia incitado. Assim que as últimas gotas cessaram, ambos se levantaram, deixaram algumas moedas sobre a mesa, mesmo sob protestos dos outros dois homens, e então se despediram e saíram, com Toshiro silenciosamente em seu encalço.

    A rua seguia com seu calçamento de pedras arredondadas, escorregadias pela chuva, paralelamente ao rio que cortava o bairro da zona de baixo meretrício. Estava bastante escuro, porque a chuva apagara quase toda a iluminação das ruas. Mas a lua cheia que enfeitava o céu após a dissipação das nuvens escuras iluminava as ruas como um imenso farolete, dando um clima romântico ao cenário. Shigekure apalpava a jovem enquanto caminhava, e lhe dava beijos no pescoço e lhe sussurrava nos ouvidos. A moça respondia com risadas e timidez fingida. Ambos caminhavam em direção a uma grande ponte de madeira que cortava o rio. Subitamente, a moça se desvencilhou de Shigekure e correu em direção ao leito do rio, e depois para sob a ponte, rindo provocativamente e lançando olhares lascivos. Shigekure correu atrás da moça, cambaleante, mas feliz. Toshiro não se exaltou nem teve pressa. Sabia que o casal buscaria refúgio sob a ponte para consumar o desejo. Teria tempo de sobra para alcançá-los, e não precisaria atrair atenção indesejada correndo atrás deles. A rua estava deserta, mas a noite tem olhos. Caminhou tranquilamente para fora da rua pavimentada, chegando à margem do rio, e em pouco mais de um minuto já havia alcançado a ponte.

    Sussurros sensuais e gemidos femininos preenchiam a escuridão. Os olhos treinados de Toshiro acostumaram-se rapidamente à escuridão, e ele observou o casal recostado a um dos pilares de sustentação da ponte. Os belos seios da jovem geisha estavam expostos, e Shigekure os sugava com a ânsia que a virilidade exigia. A moça desamarrava-lhe os cordões da calça enquanto gemia, sussurrando o nome do alvo e exaltando suas qualidades. Mas a cena erótica teve pouco apelo ao Hitokiri, que se aproximou, fechando o Wagasa e se anunciou.

    -"Shigekure Kouji. Meu nome é Yamamoto Toshiro. Não nutro rancores pessoais contra o senhor, mas é imperativo que pereça em nome de uma nova era."

    A Geisha grita e se cobre às pressas. O jovem mercador parece ficar confuso e precisar de alguns segundos antes de entender finalmente o que estava acontecendo. E então, sacar uma Wakizashi². Shigekure sabe que agora os deuses estavam observando. Seu nome e o da sua vítima foram ditos em voz alta, e o alvo havia sacado a sua arma. A partir daquele momento, o destino do casal estava selado. Ele flexionou as pernas, assumindo a postura de iaijutsu³, que eram suas técnicas favoritas.

    Quando a jovem percebeu o que estava acontecendo, rasgou a lateral de seu Yukata e jogou fora os calçados, correndo desabaladamente enquanto gritava por ajuda, tentando fugir. Toshiro manteve a calma e decidiu cumprir sua missão primeiro, e lidar com as complicações depois.

    Ele finta, fingindo um ataque e atraindo o contragolpe de Shigekure. O mercador era destreinado e estava bêbado. Segurava a espada com uma mão apenas, enquanto com a outra lutava contra a calça que caía, tentando preservar a dignidade. Tentou um golpe muito amplo, muito desajeitado... que Toshiro aproveitou com precisão. Com a velocidade de um relâmpago, sacou a espada e golpeou o inimigo num único movimento, cortando-lhe o torso. O sangue voou e espirrou nas roupas escuras de Toshiro e em seu rosto, quando o corpo de seu alvo já havia caído sem vida.

    Em seguida, era hora de lidar com as complicações. Correu atrás da Geisha com tudo o que tinha. Ao sair da ponte, viu-a a pouco mais de cem metros de distância, adentrando as ruas de um bairro residencial. Tinha que silenciá-la logo, antes que seus gritos atraíssem os Lobos de Mibu.

    Quando alcançou-a, a viu esmurrando a porta de uma casa. Seu penteado desfeito e seus longos cabelos caindo como uma cascata de ébano sobre os ombros. A maquiagem borrada pelas lágrimas que escorriam-lhe pelo rosto desesperado. Ela gritava e implorava ajuda. E quando viu seu algoz se aproximar, caiu de joelhos.

    -"NÃO! n-não, pelo amor de deus, não! Eu não vou contar nada, eu juro! Eu não sei quem você é, eu não vi seu rosto! Por favor! Eu não quero morrer!"

    Porém, o samurai se aproximou de forma irrefreável. O destino impiedoso. A era cruel. A sentença inescapável. A moça implorou, chorou. Tentou recorrer aos seus dotes físicos para sobreviver, como havia feito a vida inteira. Abriu as pernas e exibiu seu sexo ao seu algoz, deslizando os dedos pela flor de forma lasciva enquanto convidava o homem ao desfrute. Uma última tentativa inútil e desesperada de evitar o inevitável.

    Os olhos dela se arregalaram em descrença quando a lâmina cortou a pele macia de seu peito. Ela tentou falar algo, mas apenas sangue veio aos seus lábios vermelhos. Toshiro viu a luz se apagar nos olhos da jovem, e sentiu a lâmina da justiça mais pesada do que nunca.


    Notas:


    ¹- Guarda-chuva japonês, feito de papel impermeabilizado com óleo e tinta

    ²- Espada curta

    ³- Técnicas de saque de espada

    [/i]
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    Mensagem por Christiano Keller em Qua Maio 29, 2019 8:33 pm

    A missão havia sido cumprida, as testemunhas eliminadas e os deuses ficariam satisfeitos. Satisfazer os Kamis era algo mais intrincado do que parecia, porém após dar a sentença o homem e a testemunha foram eliminados. A missão era muito importante pois era um passo a mais na direção certa, logo teríamos uma nova era sob comando do Imperador. No entanto a morte de uma inocente durante o processo de transformação não era prazerosa, era um efeito colateral desagradável porém aceitável. A dura e cruel realidade em que a necessidade de um não pode se sobressair à necessidade de muitos.

    Todavia cumprir a missão não resolve todos os problemas ou cria uma nova era. Muitos passos ainda precisavam ser dados, como corrigir a rota de um grande barco, você vira o leme, muda as velas e ele ainda segue na direção anterior por inércia. Mais ações e mais tempo são necessários para corrigir o rumo seriam necessários. No entanto algo mais simples e tangível precisava acontecer. Ainda preciso desaparecer na noite clara e iluminada da cidade.

    A lua brilha no céu, a chuva parou e as luminárias que haviam sido apagadas começam a ser acendidas novamente. Pessoas que estão dormindo podem continuar a dormir no bairro residencial, no entanto outras pessoas podem querer sair de suas casas ou retornar para elas. Logo os poucos transeuntes da noite deixariam os antros de prazer, seus locais de trabalho e suas casas para atender suas necessidades, seja de descanso como de trabalho. Em meio a tudo isso estava eu, sujo de sangue de um culpado e de um efeito colateral.

    Agora era hora de sair do local e retornar até a pousada. Pensava no caminho, usando algumas ruas laterais para desviar de postos de soldados porém com dois elementos importantes. Primeiro precisava tirar a roupa suja de sangue, limpar meu rosto e dar uma conferida se poderia caminhar naquelas condições sem chamar muita atenção. O gosto ferroso do sangue era marcante quando havia algum machucado ou durante o corte algum ponto esguichava um jato em nossa direção. Em ambas as situações a memória do sangue faria parte de nossa vida, um aprendizado que poderia custar uma vida, a nossa ou a do alvo. O segundo ponto era como passar sem chamar a atenção sem parte da roupa superior na cidade. Mesmo um homem honrado precisaria de uma desculpa ou uma forma de cobrir seu torso. Uma desculpa simples como coco de pássaro explicaria a falta da peça de roupa, mas não queria ter que passar por isso.

    Um passo veloz e firme pelas ruas laterais seria o suficiente para levar-me até a pousada. Já a roupa poderia ser descartada em algum local com lixo. No entanto o pensamento dos efeitos colaterais necessários para a construção de uma nova era não seriam abandonados. A gueixa lutou por sua vida da maneira que sabia fazer. Ela também foi honrada em não deixar se abater e lutar contra seu adversário com todas as suas armas. Agora o sacrifício de carregar este peso para realizar esta transformação seria meu, as memórias das vísceras expostas ao chão não deixariam minha mente. Porém havia felicidade em meu coração, pois estava salvando incontáveis vidas que poderiam perecer nas armas que seriam negociadas pelo traidor Shigekure. Ao me omitir e deixar o Xogunato vencer muitas vidas inocentes seriam ceifadas. Portanto para uma nova era acontecer derramar um pouco de sangue era melhor do que ver todo o sangue derramado pela corrupção dos homens do Xogunato enquanto viviam suas belas vidas às custas do povo do Japão.

    Como o raio que vi mais cedo, uma árvore seria queimada para que a terra recebesse seus nutrientes e uma nova mata se formasse. Um efeito colateral da natureza que florescerá com nova vida. Um sorriso no rosto e uma canção no coração me acompanham durante o caminho de volta.
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    Mensagem por Christiano Keller em Sab Jun 15, 2019 11:57 pm

    Enquanto caminhava em minha mente surgiu um nome, Naomi. Fazia um tempo que o nome dela não fazia parte de meu cotidiano, Naomi Satsume. O que havia feito que o nome dela surgisse em minha mente agora? Por um momento durante um passo e outro tento lembrar o que houve e apenas vejo a imagem dos seios da moça que tirei a vida a pouco. Esse tipo de coisa a gente não vê todo dia e deve ter sido isso que fez com que lembrasse de Naomi.

    Durante alguns anos após a morte de meus pais Naomi Satsume ajudou-me durante minha preparação para tornar-me samurai e executar meus serviços ao meu Daimyo. Eu era parte do treinamento dela também. Ela precisava aprender a executar as tarefas de uma esposa ou uma gueixa da corte e eu deveria tornar-me samurai. Ela arrumava as coisas em casa, lidava com serviçais e treinava diversas artes. Todo mês havia uma apresentação de dança e uma de música, no entanto ela também deveria pintar ou esculpir alguma coisa para marcar seu momento.

    Começamos a treinar juntos ainda jovens, ela com cerca de 13 e eu de 15 anos. Eu era novo demais pra ela, portanto era um desafio maior, um desafio que deixava algumas marcas em alguns momentos, pois eu não sabia o que fazer em alguns casos e ela não me instruiu "preventivamente". Pra mim uma punição era parte do processo de ser um soldado, mas pra ela era uma marca que teria que ser coberta pela maquiagem. Nós nos tornamos muito próximos com o passar dos anos, foi uma amizade que cresceu bastante. Eu observava suas tarefas e comentava sobre as apresentações ou ensaios, já ela comentava sobre minha postura e escolha de palavras nos jantares ou eventos. Esse tipo de conversa entre nós trouxe vantagens ao nosso treinamento já que tínhamos liberdade de fazer comentários um ao outro enquanto que os mestres eventualmente usariam varas de madeira que deixavam contusões por alguns dias.

    No entanto o nome de Naomi Satsume vem em minha mente com mais força, com mais detalhes, detalhes de um inverno rigoroso e um verão quente. Aquela visão, sim a moça com o kimono aberto, aquele inverno em que o fogo apagou. Fazia muito frio, havia fogo queimando e fui dormir normalmente. Ainda lembro que acordei no meio da noite com o barulho da tempestade de neve. O fogo havia se apagado e Naomi tentou acender, mas não conseguiu. Ela saiu no meio da tempestade para tentar pegar outra fonte de fogo, mas ao voltar ele havia se apagado no meio do caminho. Gelada e com pouca proteção do frio ela estava desmaiada perto do fogareiro. Acendi o fogo usando um rascunho de uma pintura que ela estava fazendo e a coloquei sentada abraçando meio peito de costas para o fogo. Eu a esfreguei pelo corpo, pelas pernas, braços e tórax para tentar acorda-la. Ela recuperou a consciência alguns minutos depois após eu achar que a tinha perdido. Foi um momento estranho, nós dois assim, abraçados com os kimonos entre abertos e nossa pele se tocando era mais quente que o frio da tempestade.

    Aquele momento íntimo com um abraço e um longo beijo mudou nossas vidas. Naquela noite da tempestade foi como a fagulha e que acende o fogo. Nas noites subsequentes passamos a dormir juntos por conta do frio, mas também para aproveitar o momento que tínhamos a sós. A descoberta da sexualidade foi rápida, no entanto o segredo era importante e excitante. Ela disse que deveria permanecer pura para preservar nosso segredo, porém sua mestra comentou que havia outras coisas que uma mulher poderia fazer. Nosso destino não seria para permanecermos juntos, porém ambos queríamos aproveitar aquele momento ao máximo juntos. Assim o fizemos, durante o inverno primavera e verão ficamos juntos sempre que podíamos. O segredo e a excitação era viciante.

    Até que um dia recebemos tarefas diferentes. Sem nos encontrarmos ela recolheu suas coisas e sumiu, enquanto eu recolhi meus pertences naquela casa vazia e parti para minha primeira missão como Hitokiri. Nós desaparecemos da vida um do outro assim como a vida saiu do corpo daquela linda mulher quando eu a acertei com a espada. Da mesma forma que a vida desaparece e não podemos falar com aqueles que nos deixaram, não posso fazer perguntas sobre Naomi pois poderia revelar nosso segredo.

    Anos se passaram, no entanto nenhuma mulher foi como Naomi Satsume. Até o momento todas são apenas meninas, ela era uma mulher de verdade.
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      Data/hora atual: Ter Jun 25, 2019 4:39 pm