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    O som do silêncio

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    Mensagem por Tellurian em Sex Ago 30, 2019 3:21 pm

    O som da água corrente era reconfortante. A pequena nascente minava da rocha coberta de musgo da montanha, caindo como um véu transparente até alcançar o shishi-odoshi¹ abaixo. O som oco e repetitivo do dispositivo mantinha longe os javalis da montanha e, somado ao som tranquilo da água, também ajudava Suzuka a compassar a sua respiração e acalmar a sua mente.

    A jovem maiko andava com cuidado pelas pedras arredondadas do riacho. Havia descalçado suas sandálias para que tivesse mais firmeza, mas as pedras estavam geladas. Ela deu pulinhos pra tirar rapidamente os pés da água gelada e riu de si mesma, brincando no córrego como uma criança.

    Ajoelhou-se ao lado de um fino amontoado de pedras que delimitavam a sua pequena horta de ervas. Tivera sorte em encontrá-las quando chegara na montanha, e agora as cultivava com carinho. Elas eram importantes para os emplastros que a velha senhora havia lhe ensinado a fazer. Havia algumas ervas daninhas brotando entre as folhas verdes das ervas curativas, e Suzuka as removeu com vigor. Uma erva daninha em especial tinha uma bela flor roxa de aspecto aveludado, que fez a jovem moça sentir pena de arrancá-la. A pobre flor tentava apenas sobreviver em meio a natureza difícil, e talvez a sua beleza lhe servisse como ferramenta de sobrevivência. Comovendo jardineiras de coração mole para que não as arrancasse, por exemplo. Suzu riu um pouco mais de si mesma antes de puxar para fora da terra as raízes da bela erva daninha. Limpou-a, e decidiu honrar seu sacrifício usando-a em um ikebana² para enfeitar sua cabana. Tinha anos desde a ultima vez que praticara, mas talvez o espírito da planta ficasse feliz.

    Lembrou-se de quando chegaram até a cabana. Ela e Gensai haviam deixado pra trás o caos do incêndio, misturando-se à multidão que se aglomerava para deter o incêndio e aproveitando o anonimato garantido pela aglomeração de pessoas para desaparecer sem serem notados.

    Gensai tinha um cavalo a postos, próximo. Ajudou Suzuka a subir e montar o animal de forma confortável, sentando-se lateralmente sobre a sela. A Geisha corou quando Gensai montou o cavalo logo atrás dela, e sentiu o corpo do samurai próximo ao seu, e os braços fortes com os quais fantasiara ao seu redor, segurando as rédeas. O coração da moça estava acelerado, mas ela percebeu que Gensai estava ofegante. O suor dele estava gelado. A geisha interpelou o samurai, perguntando-se se tudo estava bem, e ele apenas sorriu e disse que tudo ficaria bem assim que saíssem da cidade.

    Suzuka perdeu as contas de quantas horas cavalgaram. Saíram da cidade pela Nakasendo³, mas após pouco tempo saíram da estrada principal e cavalgaram por pequenas vias não pavimentadas, rumo as montanhas. As costas da moça estavam duras e suas pernas doíam, mas Gensai não permitiu que parassem até alcançarem um local seguro.

    O céu já perdia sua matiz negra e se confundia com o azul escuro da aurora que viria em breve quando alcançaram a cabana na montanha. Era um local bastante bonito, embora simples e rústico. Ficava às margens de um córrego, cuja nascente ficava na parede rochosa da montanha à poucos metros da casa. Tinha o telhado espesso de palha de arroz, e as paredes e piso pareciam bastante sólidas. A cabana tinha formato retangular e possuía apenas um cômodo, que usavam pra tudo. Dormir, cozinhar e tomar banho. De certa forma, era até espaçoso, mesmo que fosse um cômodo único.

    Quando alcançaram o lugar. O corpo de Gensai pesou sobre Suzuka. A moça sentiu o coração acelerar, acreditando que o samurai a havia abraçado, mas logo notou que o rapaz ardia em febre. Ele havia perdido a consciência assim que chegaram a um lugar seguro.

    O som do shishi-odoshi chamou Suzuka de volta à realidade. Já haviam passado quatro dias desde que chegaram, e Gensai ainda não havia acordado. Estava deitado em seu futon, num canto da cabana. A febre estava sob controle, mas o Samurai parecia ter perdido sangue demais. Por sorte, não estavam distante de uma vila nas montanhas, onde a jovem maiko conseguiu ajuda dos aldeões. Tivera o cuidado de ocultar as armas de Gensai antes da velha curandeira o visitar. A velha senhora também ensinou Suzuka como limpar as feridas, trocar as bandagens e fazer os emplastros necessários para a recuperação do homem. Com o dinheiro que havia encontrado com Gensai, Suzula comprou mantimentos dos aldeões, que usou para manter os dois nos ultimos dias. Suzuka se preocupou com o que faria caso o dinheiro acabasse e Gensai ainda não tivesse despertado.

    Notas:


    ¹- Um mecanismo usado em jardins japoneses para afastar pássaros, javalis, cervos ou outros herbívoros que possam atacar a plantação. Consiste em um eixo de bambu colocado sob uma fonte de água. Com uma ponta cortada, de modo que a água possa entrar na câmara do bambu. Quando a água enche a câmara, a ponta fica pesada e desce, suspendendo a outra ponta do eixo de bambu. Quando ela desce, a água escorre pra fora da câmara por gravidade e a outra ponta cai, geralmente sobre pedra, produzindo um som oco que serve pra afastar animais. Mesmo mecanismo do Monjolo brasileiro, com a diferença que aqui era usado pra moer grãos.

    ²- Técnica de arranjo de flores

    ³- Uma das principais estradas de Kyoto, que ligava a capital imperial até a cidade de Edo, sede do Xogunato.

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    Mensagem por Jolie_Scarlatt em Sex Set 06, 2019 11:35 pm

    Ja havia passado dias apos aquela noite de luta, sangue e fogo. E Suzu estava incerta do seu futuro, mas
    uma coisa ela sabia gostava de estar ali cuidandk do seu Gensai, ja tinha se tornado uma rotina, mesmo por pouco tempo, levantava cedo, fazia seus exercícios matinais, tomava seu chá,  preparava uma chaleira de agua quente com algumas ervas medicinais que havia comprado na cidade, e limpava de forma gentil e delicado cada ferida daquele homem que a uns dias atrás era um guerreiro temido, e ali deitado ferido parecia apenas um simples homem e frágil. Suzu nunca tinha visto um homem nu antes e em poucos dias conhecia cada pedacinho  daquele homem, e seu corpo ardia a cada toque que dava nele e desconhecia esse sentimento que nascia dentro de si. Depois que limpava as feridas de Gensai, enrolava-o com os tecidos, cobria xom o manto, penteava o seu cabelo, cantava músicas para alegrar o ambiente, dava lhe um beijo suavemente na sua testa e sussurava "fique bem logo meu guerreiro".


    Depois que cuidava do Gensai, arrumava a cabana, ela era pequena, mas tinha um jeito acolhedor, Suzu desejava ficar ali para sempre, mas sabia que era impossível, que a qualquer hora o peso daquela noite irá vim cobrar a vingança  e eles precisariam estar preparados, Gensai precisava estar recuperado. Sabia também  que o dinheiro estava acabando e ela não sabera o que fazer, ao fugir aquela noite Suzu não conseguiu trazer nada consigo. Por mais que Suzuka gostava de manter as coisas no controle, gostava de namorar Gensai ali, frágil e nu, ela precisava dar um jeito de despertar o guerreiro, mas como? E olhando pela janela, para o horizonte Suzu  teve uma ideia, quando mais nova ela ouvira falar de uma erva que levantava os guerreiros após as batalhas. Qual era o nome mesmo? Calendula... isso mesmo - lembrou Suzu. Então ela vestiu um manto e foi para a cidade atrás da erva e dessa forma curar de vez o seu Gensai.
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    Mensagem por Tellurian em Ter Set 10, 2019 10:58 am

    Deixar Gensai sozinho era sempre difícil. No fim das contas, eram fugitivos e Suzuka sabia que ele era um retalhador procurado. Porém, acreditava na palavra dele quando lhe disse que ali era um local seguro. A vila era um local pacato, com poucos moradores, isolado do centro urbano de Kyoto e longe do fervor político que devora a cidade. Ali, naquele lugarejo isolado à sombra das montanhas, ainda havia a paz típica do interior, onde as maiores preocupações são a falta de chuva e a proximidade do inverno. Os moradores são sempre cordiais, e ajudam muito uns aos outros. Suzuka precisou contar com essa solidariedade interiorana desde seu primeiro dia no local, e era muito grata a todos que a ajudaram tão prontamente e a receberam tão carinhosamente.

    Baa-chan era como era conhecida a velha senhora que a havia recebido. Ela era, aparentemente, algum tipo de líder ou conselheira comunitária. Uma pessoa muito gentil e muito bem quista por todos. Se havia alguém que a poderia ajudá-la a encontrar calêndula naquelas paragens, seria Baa-chan. Se não, então ela provavelmente conheceria uma pessoa que poderia ajudar.

    A casa de Baa-chan era distante, mas a caminhada era revigorante. O ar fresco da montanha carregava o cheiro das folhas de bordô dos vales e de neve fresca vinda dos picos nevados pelo inverno precoce que já mordia o cume das montanhas. Na primavera, a brisa teria o cheiro de azaléas frescas, e todo o vale estaria coberto de flores de cerejeira. Seria uma visão de tirar o fôlego, se ainda pudessem estar lá quando o inverno findasse.

    A "moça nova" do povoado fora muito bem recebida por todos os moradores, e todos cumprimentavam a bela jovem conforme ela passava pelos campos de cultivo de arroz. Por mais que os aldeões estivessem apressados para ter uma última colheita antes do inverno, tiravam alguns momentos de descanso em seu trabalho árduo para cumprimentar e observar a beldade que passava e lhes oferecia sorrisos iluminados.

    Encontrou Nobu, filho de Baa-chan, trabalhando na plantação da família, a apenas alguns minutos de distância da casa da velha senhora. Nobu era um homem na casa de seus trinta e poucos anos, apesar de carregar os sinais de fome que eram típicos a todos os trabalhadores rurais japoneses, possuía a constituição sólida. Tinha a pele escurecida pelas horas ao sol trabalhando, em uma tonalidade que quase ocultava a barba por fazer e os cabelos curtos e negros, despenteados pelo vento. Empunhava de jeito firme a enxada com a qual arava o solo. O trabalho ja estava no fim, e em breve o rapaz iniciaria a ultima semeadura do ano.

    Ele ergue os olhos severos para a jovem moça que passava pelo seu campo, e ele repousa a enxada por alguns momentos. O homem limpa o suor da testa com uma toalha de algodão que trazia ao redor dos ombros e oferece um sorriso à moça.

    -"Ohgo-chan, que surpresa agradável. A sua presença é quase como se a primavera chegasse mais cedo. Procurando Baa-chan?"-
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    Mensagem por Jolie_Scarlatt em Qua Set 18, 2019 12:32 am

    [justify]Suzu caminhava por aquele  vilarejo tão  livremente,
    e em tão  pouco tempo ja conhecia as ruas e suas libações.  Suzu gostava de caminhar por la, mesmo aflita por deixar seu Gensai  desacordado na cabana, ela gostava da sensação de liberdade, do vento bater suavemente no seu rosto, gosta da cordialidade das pessoas dali, que mesmo com toda a dificuldade conseguiam acenar, sorrir e serem solidarios, pois eles ajudavam a geisha sem questionar ou bisbilhotar sua gida e qual foi a circunstância que trouxera um homem ferido e uma mulher para ali.

    Suzu estava distraindo com os seus pensamentos, perguntando para si se o capitão havia sobrevivido e como estaria as coisas na cidade depois daquela noite. Com certeza ela agora seria uma procurada e aliada ao inimigo do governo. Suzu precisava ser forte, pois sua vida mudara
    e ela terá que enfrentar batalhas, e tinha a convicção que nunca mais teria paz, talvez seja por isso que gostou de andar pelas.ruas daquele vilarejo.

    Seu silêncio interior foi quebrado com a voz do Nobu, filho de  Ohgo-chan, a senhora que Suzu procurava e que poderia lhe arrumar algumas calendulas.

    - Boa tarde senhor Nobu - A geisha faz um leve cumprimento - estou a procura de sua mãe, você  poderia chamar por ela por favor.

    Dizendo isso Suzu ficou ali esperando, mas um frio da espinha a alertou de que algo pessimo poderia acontecer, e comecou a temer pela vida do Gensai, ou de que foram descobertos .... e uma sensacao ruim tomou por inteiro Suzuka./justify]
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    Mensagem por Tellurian em Qui Set 19, 2019 11:39 am

    [continua no tópico Lobo em Pele de Cordeiro]

    ***

    [Retornando do tópico Lobo em Pele de Cordeiro]

    No caminho de volta à casa, Suzuka e Kaito foram mais à frente, e conversavam sobre ervas e métodos de curativos. Suzuka se impressionava com o conhecimento do rapaz a respeito de remédios e emplastros, e tomava nota mentalmente de todos os conselhos que ele lhe fornecia. Pelo que o jovem dizia, seria capaz de dar um tratamento adequado aos ferimentos de Gensai apenas com as ervas que já possuía em seu jardim. A sabedoria de Baa-chan lhe seria suficiente. Contudo, era necessário que Kaito observasse o ferimento para julgar o grau de infecção.

    Noobu atrasou um pouco o passo, e observava Suzuka com olhos preocupados. Akemi acompanhou o passo do rapaz, observando as reações dele. O homem parecia legitimamente consternado pelo problema de Suzuka, embora Akemi não soubesse exatamente dizer porque. Ao longo de todo o percurso, Noobu parecia lutar uma batalha interna, e chegou a tomar fôlego para falar algo a Akemi algumas vezes, apenas para lançar um olhar a Suzuka e desistir logo em seguida.

    "Não se precipite, Noobu"- Akemi foi capaz de ler os lábios de Noobu articularem em silêncio essa frase, e se perguntou o que poderia significar. Porém, antes que tivesse a chance de interpelá-lo a respeito, chegaram à casa.

    Gensai estava exatamente do jeito que Suzuka o deixara. Trajava um quimono branco leve, e estava deitado em um futon no canto do cômodo único da casa. A geisha logo percebeu que o homem estava empapado de suor, e tratou de pegar uma toalha para enxugá-lo. Kaito se ajoelhou ao lado de Gensai e tomou-lhe a temperatura, colocando a mão em seu rosto. Logo foi capaz de dizer que o homem estava com febre.

    Akemi fez as vezes de assistente de Kaito, trazendo-lhe panos limpos e água ao médico enquanto ele cuidadosamente removia os emplastros feitos por Suzuka.

    -"Você fez um ótimo trabalho, Ohgo-san. O curativo está limpo. Não deve haver infecção. A febre é, muito provavelmente, por conta da perda de sangue."- O médico então termina a remoção do curativo e analisa o ferimento no peito de Gensai. Ele imediatamente lança um olhar tenso à Akemi. -"Quem feriu o senhor Ohgo possuía grande habilidade. Dá pra dizer pela limpeza do corte. Usava uma katana."-

    Noobu estava escutando da soleira da porta. Ele franziu o cenho quando Kaito deu seu parecer, e então socou a parede. -"Malditos lobos!"- Akemi sobressaltou-se com a súbita explosão de fúria de Noobu, mas notou que ele respirou fundo e repetiu a frase Não se precipite, Noobu silenciosamente. -"Diga, Ohgo-san. Os bandidos que feriram seu marido usavam quimonos azul e branco?"- ele diz, com os olhos preocupados encarando Suzuka

    Akemi percebe que existe mais acontecendo ali do que um mero ataque de ladrões. Ela pede mais detalhes à Suzuka, que se sente intimidada pelos questionamentos súbitos e desvia os olhos, se aproximando mais de Gensai e evitando olhar para os homens em sua casa.

    Noobu cerra o punho. A sua expressão é de quem entendeu tudo, e nenhuma explicação mais é necessária. -"Não se preocupe, Ohgo-san. Todos nesta vila sofrem nas mãos desses cachorros malditos. Vocês não fizeram nada de errado, tenho certeza.- Ele claramente lamenta profundamente o que teria acontecido à Suzuka e ao marido, e expressa essa consternação com uma imensa fúria contida. Porém, quando ele fala, sua voz é embargada por pura tristeza.

    Akemi troca olhares com Kaito. Sentia a urgência de defender a honra de seu capitão e de sua tropa, mas precisava manter o disfarce. Kaito lhe ofereceu um olhar gentil, como se implorasse para que o amigo contivesse sua ira pelo bem da missão.

    Suzuka suava frio. Não queria entrar em detalhes, mas sabia que tinha de dizer algo. Sentia-se pressionada e não sabia o que dizer. Noobu colocou a mão no ombro de Suzuka.

    -"Não fale mais nada. Eu ja entendi o que aconteceu. Você é recém-casada, certo? Foi exatamente assim que todos começamos a sofrer nas mãos dos malditos samurais. Eu entendo a dor da sua família, Ohgo-san"
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    Mensagem por Larissa Aprill em Sab Out 19, 2019 10:47 am






    “As pessoas só irão entender umas às outras quando sentirem a mesma dor”



    Quando Akemi escutou Noobu confortando a jovem, ela não se aguentou e levantou. Queria saber porque aquele homem tinha tanto ódio dos samurais. A menina olhou para Kaito e fez um gesto de que tudo ficaria bem. E se aproximou dos dois que conversavam um pouco mais afastado do leito.

    - Senhor Noobu, você poderia me acompanhar até o jardim? Gostaria de pegar algumas ervas para meu irmão preparar a medicação para o marido da Ohgo-dono.

    O homem concordou e eles se dirigiram para o lado de fora. O céu estava tingido de tons laranjas por causa do por do sol. Akemi se lembrou dos ensinamentos do Kaito e
    conseguiu identificar as ervas que atuariam como cicatrizante. E aproveitou que estavam perto da horta e colheu algumas verduras com as folhagens verdes escuras, pois o cozinheiro do quartel preparou aquelas verduras depois de missões arriscadas, onde os homens ficaram gravemente feridos. Esse pensamento fez ela ter coragem para indagar o homem.


    - Senhor Noobu, me desculpe a intromissão. Mas percebi que o senhor nutre um sentimento ruim contra o Shinsengumi. Aconteceu algo com vocês?- Ela faz uma pausa e relembrou de algumas histórias do quartel que os mais antigos contavam - Eu sei que eles deveriam defender a população, mas nem todos agiam de acordo com essa ética. E acabavam agindo por seus próprios interesses invés de defender o povo.

    Akemi também soube naquela época, que desde que o Saito começou a comandar e supervisionar a disciplina do Shinsengumi casos assim eram raros e a punição dependendo do ato era a morte. Mas guardou essa informação para si.

    O homem cruzou os braços, fechou os olhos e ficou em silêncio por algum tempo. A menina chegou até pensar que tinha sido ignorada, mas por fim, ele decidiu falar.

    Noobu:"Isso me lembra que você e seu irmão são novos aqui"

    A menina prontamente respondeu, pois tinha receio de ficar um silêncio novamente.

    - Sim, chegamos a poucos meses.

    Ele solta uma respiração funda e descruza os braços. Noobu caminha para perto do jardim e meio desajeitado se ajoelha ao lado das ervas.

    Noobu: "Seu irmão é um excelente médico. Mas até ano passado, tínhamos uma excelente pessoa cuidando de nós também. Não era médica, porque não tinha estudo. Mas conhecia as ervas e a arte da cura como poucas pessoas que eu já conheci."  - Ele falava com ternura na voz, com carinho e um sentimento de saudades "Minha irmã, Noriko. Ela era uma pessoa excelente."

    Akemi estava agachada com as mãos cheia de terra e verdura, mas prestava atenção no que o homem dizia ao acenar concordando com a cabeça.

    Noobu:"Noriko era uma moça muito bonita na juventude. Kaoru parece muito com ela, a bem da verdade. Parece até demais pra sua segurança." - Ele tem um sorriso triste nos rosto. A voz dele começa a ficar embargada pela emoção, mas ele contém as lágrimas. "Quando Noriko fez dezesseis anos, ela se casou com meu melhor amigo, Hayate. Nunca houve casal mais bonito. Eu estava muito feliz. Todos estávamos. Um ano depois do casamento, Noriko deu a luz a Kaoru. Os deuses nos abençoaram."

    A jovem se ajeitou melhor e sentou no chão com as pernas cruzadas. A Baa-chan nunca tinha mencionado que tinha uma filha. E a menina tinha se simpatizado com Kaoru desde o início.

    Noobu pega uma pequena pedra e a joga longe, como se tentasse alcançar o rio distante. Os olhos do homem de rosto duro estão marejados, e ele luta uma batalha dura contra as lágrimas.

    Noobu:"Nenhuma felicidade do homem simples fica sem punição, eu suponho" - Neste momento, Akemi nota que a voz do homem começa a tomar contornos de tristeza "Nossa terra sempre foi protegida pelo clã Kanakura. Nosso senhor era um velho samurai. Um homem bondoso e justo. Mas Kanakura-sama foi morto durante o levante de Chooushou nos portões imperiais"

    Ele fala com os olhos fixos em algum ponto do horizonte, imerso em memórias dolorosas. Akemi sorriu tristemente também, falar sobre clãs fazia ela pensar sobre sua casa. Seu pai sempre foi um samurai respeitado pelo povoado. As pessoas o julgavam como um bom líder e balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos.

    Noobu:"Seu filho, Midori Kanakura, herdou as terras" - Ele cospe no chão, como se ao pronunciar o nome dele tivesse deixado a boca suja, agora a voz estava carregada de fúria "Midori é um imbecil mimado. Desde pivete achava que era o dono do mundo por ser filho do senhor. Não sei o que o povo do vilarejo lamentou mais. A morte de Kanakura-sama ou ver Midori retornando da guerra coberto de louros como um herói, detentor do título de samurai e protetor das nossas terras"

    Akemi conseguia entender toda aquela situação. Quando era criança sempre temia que seu pai fosse enviado para a guerra. E aparentemente não é só a família que sofre com o perda e o luto..

    - E o que aconteceu depois da morte do senhor Kanakura?

    Noobu:"Midori sempre nutriu desejo por Noriko. E, quando se tornou samurai, achou por bem reivindicar 'direitos' sobre o corpo de minha irmã" - Noobu apertou tanto as mãos que a cor abandonou os seus dedos, que parecem a ponto de sangrar. Ele range os dentes, e tem a voz coberta de fúria, frustração e dor. "Nós resistimos, é claro. Midori só colocaria as mãos sobre a minha irmã se passasse pelo meu cadáver frio... Ou pelo menos isso é o que eu gostaria que tivesse acontecido"

    Akemi pondera sobre as palavras do homem. Como ela cresceu numa família rica não tinha noção de como era viver uma vida simples, só depois que entrou para o exército, conseguiu entender que o mundo não era cor de rosa como ela fantasiava.

    De acordo com Noobu, este homem chamado Midori, abusou do seu poder e influência para exigir que a mãe de Kaoru fosse dele.  Este homem, como protetor das terras, deveria estar zelando pelo bem estar dos aldeões, mas estava trazendo mais sofrimento a eles. E a garota ficou triste ao perceber que nem todos teriam a sorte de ser governados por homens justos e bons, como seu pai.

    Noobu: "Hayate era um homem forte. Espancou dois dos capachos que o covarde do Midori enviou aqui"- Mas a voz de Noobu foi diminuindo e ele deixou cair os braços, como se estivesse derrotado. "Mas eles voltaram. E dessa vez, trouxeram os lobos com eles….Eu estava fora, pescando com Kaoru. Hayate foi enforcado como um bandido vulgar na árvore que há no quintal de casa. Mas antes, foi obrigado a assistir Noriko ser estuprada por Midori."

    Ela arregalou os olhos surpresa e horrorizada pelo que fizeram a filha da Baa-chan. Ninguém deveria passar por uma humilhação e um crime desse tipo.

    Noobu:"Minha irmã não suportou a vergonha e a dor de perder o marido, e pôs fim à própria vida...e eu estava fora, pescando com Kaoru" - Ele diz as últimas palavras com vergonha. Akemi percebe que Noobu desejava ter morrido naquele dia. "Desde então, os lobos sempre patrulham o lugar. Toda moça que se casa recentemente, é levada pelos lobos ao castelo para que nosso senhorzinho de merda possa exigir seu 'direito a primeira noite', como se fosse um deus comandando insetos."

    Agora ela conseguia entender todo o ódio que Noobu sentia. Depois de todo o sofrimento que a família dele passou, outras jovens tinham que se sujeitar a isso também. Era algo horrível e desumano o que estava acontecendo naquele lugar.

    E então percebeu o que estava por vir. A troca de olhares e de sorriso na casa da Baa-chan. Os planos que imaginou de Kaoru e Kaito se casando estavam em risco. Precisa avisar o amigo o quanto antes, já que ele nutria sentimentos pela jovem.

    - Isso não vai mais acontecer. - a menina disse com um tom de voz firme, pois precisava fazer algo para impedir novos abusos.

    Ela tinha que avisar o Capitão Saito e o Capitão Harada sobre isso, pois eles iriam tomar as devidas providências. A garota se levantou e limpou a terra da roupa e olhou profundamente nos olhos daquele homem sofrido.

    - O futuro da Kaoru está em risco e não posso permitir que ela se machuque.

    Noobu olha nos olhos de Akemi longamente. Ele tem os punhos cerrados, e o olhar embargado por fúria e tristeza.

    Noobu:"Não, não vai."

    Ele caminha até Akemi e coloca uma mão no ombro dela. E ela consegue sentir o peso daquelas mãos, não apenas o peso dos anos de trabalho duro no campo, mas o peso da determinação, da sede de justiça, do rancor e do ódio.

    Noobu:"Nós temos amigos. Amigos que vão nos ajudar a libertar nossa gente dessa escória. Você será bem vindo à luta, Ishida. Temos bom uso para braços fortes."

    Akemi percebeu no instante em que ele tocou seus ombros o motivo para terem sido enviados para aquele lugar. O povoado estava planejando uma revolta contra o senhoril e o Shinsengumi colocou ela e Kaito para se infiltrar. Mas ela sabia que um confronto traria dano para os dois lados.

    A menina só acenou a cabeça concordando. Mas o alarme de alerta dispara em sua cabeça. Ela precisava resolver essa questão o mais rápido possível.

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    Mensagem por Jolie_Scarlatt em Qua Out 23, 2019 10:47 pm

    Suzu sentia-se desconfortável com aquelas pessoas em sua casa, e principalmente quando começam a questionar sobre como foi "o assalto" que ferira Gensai, ela sabia que quanto mais falasse sobre, mais poderia se enrolar, então preferia apenas observar e responder o básico. Mas uma coisa ela tinha que concordar, fora uma boa ideia trazer aquele médico para olhar Gensai, pois percebia a agilidade com que se movimentava e cuidava do seu samurai. 
    Suzu sentia-se aliviada quando Noobu de alguma forma percebera sua aflição e tentou encerrar as perguntas, mas existia algo naquele homem que transmitia confiança, e Suzu poderia jurar que ele sabia quem era Gensai, ou pelo menos que havia o ferido. Enquanto Suzu ajudava o médico Noobu saíra e logo em seguida o amigo do médico também saíra, e Suzu pode acompanhar com os olhos, que os dois estavam conversando, e novamente o nervosismo tomara conta de si. O que será que estariam conversando? Será que descobriram quem eram eles? Ou quem era Gensai? Será que se enganara em relação ao Noobu? Ela queria ir até lá e participar da conversa, mesmo como apenas ouvinte, mas não podia, precisava estar ali vigiando aquele medico, e também precisava agir com naturalidade, como uma esposa preocupada com a saúde do seu marido, e percebia o olhar questionador do medico para si. Então com passos leves, caminhou para perto de Gensai e tentando falar sem falhar a voz dirigiu-se para o medico:
    - o senhor precisa de mais alguma coisa? o senhor acha que meu marido ficará bom logo, ou demorar mais tempo? - e ficou ali esperando as repostas daquele homem estranho.

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    O som do silêncio Empty Re: O som do silêncio

    Mensagem por Tellurian em Qua Nov 06, 2019 2:33 pm

    Kaito sorri gentilmente para Suzuka. Ele assente com a cabeça, dizendo à moça que tem tudo o que precisa à mãos. Ele diz que logo seu irmão retornaria com as ervas necessárias para fazer um emplastro.

    -"Eu acho que ele está em condições de acordar. Eu irei tentar acordá-lo agora, assim que meu irmão retornar. Vou finalizar o curativo, consertar alguns pontos que ficaram ruins e fazer o emplastro. Para acordá-lo eu preciso de um perfume bem forte, a senhora teria algo do tipo?"

    Neste momento, Akemi retorna para o interior da casa, com Noobu logo atrás. A moça entrega para Kaito as ervas que tinha encontrado no jardim, lavadas e livres de terra e insetos, e o jovem médico imediatamente começa a macerar as folhas em equipamentos que Suzuka havia disponibilizado para seu uso.

    A jovem Geisha pode sentir o cheiro adocicado das plantas maceradas conforme Kaito as esmaga habilmente, manipulando o pilão com maestria. assim que acaba a infusão de ervas, o resultado é uma pasta de cor amarelada e um cheiro que desponta entre doce e floral.

    Quando o rapaz se debruça sobre Gensai, Suzuka prende o fôlego. O kit de sutura era por demasiado parecido com suas ferramentas de costura para que a moça tivesse estômago para assistir o que viria, mas quando a agulha de Kaito atravessou a pele do retalhador, e este quase não se moveu, Suzuka sentiu um frio na espinha. Talvez fosse apenas um homem acostumado com a dor, ou talvez seus ferimentos fossem mais sérios do que se imaginava. Teve medo do samurai não acordar mais.

    Felizmente, a Geisha era vaidosa, e tinha usado um pouco do dinheiro para comprar um pequeno frasco de perfume. Queria estar bonita para seu samurai quando ele acordasse. Felizmente, isso acabou se revelando uma boa escolha. Decidiu deixar Kaito costurando seu "marido" e foi buscar nas suas coisas o pequeno frasco de perfume. A fragrância doce de ameixas brancas estava na moda entre as moças, mas Suzuka nunca imaginou vê-lo usado para fins medicinais.

    Depois dos pontos feitos, Kaito embebeu alguns retalhos de tecido em sake. Espalhou o emplastro de ervas sobre os ferimentos suturados, e depois cobriu-os com os panos embebidos em sake. Suzuka retornou com o perfume, e o jovem médico destampou o frasco com um estalido surdo, e logo o aroma de ameixas brancas se espalhou pelo recinto.

    Quando colocou o frasco sob o nariz do samurai, o mesmo abriu os olhos lentamente, com um curto gemido de dor.
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    Mensagem por Larissa Aprill em Qui Nov 07, 2019 10:16 pm






    “As pessoas só irão entender umas às outras quando sentirem a mesma dor”



    Quando Noobu convida Akemi para revolução, a menina concorda com um aceno de cabeça. Mas sabia que sua colaboração não era exatamente o que o homem desejava.

    Em seguida eles entram novamente na casa. Akemi entrega a cesta de plantas medicinais para Kaito e mostra para a jovem as verduras que colheu no jardim.

    -Eu tomei a liberdade de colher essas verduras. Se você preparar um caldo com isso, logo seu marido irá se recuperar.- disse de maneira amigável.

    A menina ajudou Kaito entregando o material para sutura e preparava as faixas com gazes. O moreno deve ter notado que a jovem estava mais calada e tensa do que costume. Mas Akemi não demonstrou nada para o amigo, pois tinha receio que o filho da Baa-chan percebesse algo e o clima ficar tenso entre eles.

    Kaito finaliza seu atendimento com o perfume como estímulo e felizmente o homem começa a recobrar a consciência. Akemi suspira aliviada e lança um sorriso singelo para Suzuka e Noobu. E apoia a mão sobre o ombro esquerdo de Kaito, como um reconhecimento e incentivo pelo trabalho bem feito.


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    Mensagem por Jolie_Scarlatt em Sab Nov 16, 2019 10:42 am

    Suzuka observava o médico trabalhar, suas mãos eram firmes e seus movimentos de alguém que sabia exatamente o que fazia.
    Não era comum Suzu conversar as pessoas, sempre foi apenas ouvinte e observadora, e sentia se desconfortável ali no meio daqueles desconhecidos. E por ser observadora notou o atrito entre Nobu e o amigo do médico quando entraram na casa. E para o seu alívio trouxeram algumas verduras para que ela fizesse um caldo,entao Suzu pegou as verduras e levou para a cozinha, separou em porções para começar a fazer assim. Que aqueles homens saíssem de sua casa.
    Ao voltar para o cômodo onde estava Samurai, ficou de longe observando o médico trabalhar, e seu coração quase saiu pela boca quando o Samurai suspirou e finalmente abriu os olhos ....seu Samurai está de volta! Finalmente encontrou o caminho de volta!!!!!
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