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    Connor Mcleary

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    Mensagem por Wordspinner em Ter Maio 12, 2020 9:07 am

    Um barulho alto te joga para fora de uma confortável piscina de escuridão. O pulmão se enche de ar frio e o coração bate mais rápido. Não é sempre assim ao acordar? Dessa vez é como a primeira. É como se sempre tivesse respirado fumaça e finalmente provasse o ar de verdade. Os olhos ainda pesados focam lentamente na piscina. O música da festa, alta demais, morre de uma vez só. Como se nunca tivesse existido.
    As luzes da casa também se apagaram por um longo instante preenchido de luz mesmo assim. A noite nunca foi tão clara. Tão brilhante. Do outro lado da piscina T.B., o quarterback, rasteja tentando chegar a mesa virada. O primeiro instinto é uma risada. Os dentes aparecem e um som raspa para fora garganta. O quarterback se vira e se desespera. Por um segundo ele parece absolutamente ridículo se debatendo feito um peixe. É impossível não rir ainda mais. Pelo menos até o sangue aparecer.

    É como um pedaço estivesse faltando no mundo. Não mais. Todos os detalhes começam a saltar. T.B. estava rastejando em cima de uma poça do próprio sangue. A bóia colorida na piscina era é um dos zagueiros novos. Qual o nome dele mesmo? O gosto de sangue na boca, o cheiro de sangue no nariz. O toque do sangue seco no rosto. Sangue gelado nas roupas. Nas suas roupas. Sangue pingando da janela do segundo andar. Metade do Matt no parapeito, a outra metade perdida.

    Vidro no chão. A música retorna com a luz puxando seus olhos para dentro da casa. Móveis revirados. Chão de madeira arranhado. Paredes manchadas de sangue. A cabeça de alguém casualmente boiando na bacia do ponche. Aos seus pés o corpo estraçalhado de Carol, ou talvez Mary, impossível saber. A tv esmagada na parede prendendo um corpo. Um corpo não. Ele está se mechendo. O impulso de ajudar vem misturado com uma forte sensação de falha.

    Os cacos de vidro entram nos pés como surpresa muito desagradável. Dor inesperada se somando ao montante da confusão. Harry. Harry está preso na tv. Deu pra reconhecer o horror no seu rosto quando ele te percebeu puxando o sofá para alcançá-lo. As farpas na mão são ignoradas. Você tem uma missão. Salvar Harry desse noite que não faz sentido. Os dedos do pé esmagam algo mole e molhado. O cheiro de merda é forte o bastante para lhe dar pausa. Jogando o sofá para o lado seu pé está afundado na barriga aberta de alguém sem rosto. Harry tenta gritar, mas é inútil. Ele não consegue.
    A tv está presa na parede com força. Talvez tenha tentado acalmar ele antes de puxar. Talvez não. Mas assim que consegue arrancar seu amigo da parede, mesmo com o desgraçado idiota lutando o tempo todo com um braço só, ele desmaia. Provavelmente dor. Não é? Não pode ter matado Harry, pode?

    Lá fora alguma coisa cai na piscina. T.B.! Correndo para fora dá para ver ele boiando de cara para baixo na piscina. Do outro lado, com um rosto calmo e sério, Daniel Mcleary.

    “Calma garoto.” Ele olha para cima encarando a lua por um momento. “Vem aqui, tá na hora da gente conversar um pouco” Ele lentamente começa a andar na direção do chuveiro da piscina, tomando muito cuidado para pisar somente no chão. O tempo todo te vigiando com o canto do olho.
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    Mensagem por Ankou em Ter Maio 12, 2020 3:12 pm

    Aquela noite sua mãe havia lhe avisado pra que não deixasse as dependências da casa, não do sítio, era sequer da casa.
    - “Eu sou muito velho pra obedecer ordem de mamãe, além disso a mina tá me esperando.” – era o que pensava, era o que qualquer jovem iria pensar, mas aquela noite seria diferente de todas as outras.

    Poderia por a culpa na mãe por ela sempre ser muito críptica, mas a verdade era que não era, nunca seria. O fato dela ser Uratha não era segredo nenhum, nunca foi, ainda que ele nunca tivesse observado suas formas não humanas, ele escutava histórias, na verdade tinha medo, achava que era quase uma maldição. Foram incontáveis noites do lado de fora em volta de uma fogueira onde tio George contava histórias das mais cabeludas, provavelmente metade delas apenas histórias de terror não muito diferentes da loira do banheiro, mas lá no fundo tudo aquilo sempre teve um fundo de verdade, mesmo que fosse só uma impressão...

    Suas primeiras “palavras” eram um misto de rosnado com a tentativa fútil de se comunicar um rosnado que nenhuma garganta humana por mais habilidosa que fosse seria capaz de emitir, suas juntas se estalavam e pareciam voltar ao lugar aos pouco enquanto encarava o “Vôin” com costumava chamar.

    Devia ser estranho observar um sujeito tão grande tremer como vara verde, Connor ainda não havia se dado conta do que estava acontecendo direito, ele andava quase que por instinto em direção ao chuveirão, passava perto da piscina olhando em direção a água plácida a essa hora levemente avermelhada pelo sangue de T.B., ou pelo menos o que havia sobrado dele, mas era incapaz de assimilar aquilo. Olhava seu reflexo em direção a água seu corpo estava banhado em sangue, e inacreditavelmente suas proporções corporais ainda maiores do que costumavam ser, não que fosse um cara pequeno, mas havia algo de estranho em sua própria estrutura como um todo, os músculos pareciam nitidamente maiores, as veias mais saltadas, até mesmo a pressão sanguínea e a vasodilatação pareciam maiores, mais rápidas como se estivessem no ápice de sua forma física, ainda assim, tremia feito vara verde.

    Continuou sua caminhada em direção ao chuveirão ainda se movendo como se por instinto, em seu último passo em direção ao chuveiro se deu conta que estava nu, não sabia se suas roupas estavam com ele antes de tudo acontecer ou se não era nada daquilo. Girou a torneira e deixou a água bater em seu corpo como um choque de realidade, a espiral de fúria insana agora se transformava em uma crescente de desespero e arrependimento.

    - Fui eu não foi? – perguntava com a voz trêmula parecendo sem força, deixando seus olhos a fixarem observando T.B. boiando na piscina – Vôin eu herdei a maldição da família não foi? – Havia menos coragem ainda em sua voz dessa vez, como se quisesse acordar daquele pesadelo ao mesmo tempo como se implorasse pra que Daniel respondesse que não.
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    Mensagem por Wordspinner em Ter Maio 12, 2020 9:42 pm

    Daniel pousa a mão no seu ombro e como isso fosse resposta o bastante, enfia sua cabeça na água. O velho passa as mãos no seu cabelo e barba mais de uma vez catando pedaços. Pedaços de carne. As mãos firmes não demonstram nenhum hesitação. Os olhos são sérios e calmos. Sem medo. Sem julgamentos. Nenhuma palavra sobre transgressão alguma. Se você não soubesse exatamente o que fez, poderia dizer ele estava limpando o neto bêbado. Você não se sentia bêbado, sentia clareza. Cada sentimento puro e quase palpável. O desespero era uma força esmagadora, nunca tinha sentido dessa forma. Um peso quase real apertando o pescoço. Dava para sentir o coração no pescoço só de pensar na sua mãe. O que ela ia dizer? O que ela ia sentir?

        "Limpo garoto." A voz dele é estável como se estivesse te entregando uma laranja descascada no sitio. "Eu bem sei o que você tá passando." Ele começa a andar para os fundos da casa com segurança. sem pressa. "Mas já faz... tempo. Perdi as palavras, garoto." Mais um cadáver no caminho e ele desvia como fosse um anão de jardim.

        "Seu primo táli fora. Ele te explica." O velho olha para a rua por cima da cerca branca e alta cheia de flores coloridas. "Ultima vez que diz maldição de família, garoto. É uma lua pesada, eu sei." Ele aperta os olhos como se precisasse, segura seu pescoço firmeza e sem hostilidade. "Nenhum Mcleary é amaldiçoado. Isso é conversa de quem não tem olho pra ver." O carro do seu primo está do outro lado da rua e pisca os faróis. Mas parece que o velho nem percebeu de tão focado em você.
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    Mensagem por Ankou em Ter Maio 12, 2020 10:20 pm

    Quando a mão do velho pousou sobre seu ombro ele não precisava de uma afirmação maior que essa, sentia uma vontade de chorar mas ao invés disso preferiu morder a parte interna da boca chegando a sentir o gosto do próprio sangue, preferia a dor do que chorar na frente do velho, ele sabia o quanto ele era duro, e não queria parecer fraco na frente dele, preferiu o próprio sangue um suspiro como resposta.

    Enquanto tinha pedaços de carne sendo retirado de seus cabelos de barba Connor permanecia parado, mas não mais em choque, ou pelo menos não em choque por ter dois dos seus melhores amigos estraçalhados a poucos metros dele, dessa vez ele se deparava com o fato do sangramento da boca feito pelos seus próprios dentes estancar-se em segundos, e os cortes superficiais simplesmente se fecharem logo depois, sua sensação de medo, inquietude e agoniua permanecia, mas o fato de sua boca se recuperar daquela maneira lhe dava uma sensação de poder, apenas uma ponta da sensação de poder que sentia enquanto ele picava em pedaços as pessoas que o rodeavam naquilo que era uma festinha de início de noite onde apenas não pais eram permitidos.

    Ele saiu daquele transe quando a voz do velho soou pela primeira vez, Connor preferiu não falar nada e seguir os passo do avô, era a melhor coisa que fazia naquele instante, enquanto sua cabeça começava a entrar em parafusos, a música era alta, mas alta o bastante pra abafar uma besta assassina? E a polícia? Alguma filmagem de celular? Não sabia, haviam mil e uma possibilidades de saberem que agora ele era um monstro.

    No meio do caminho pegava no varal lateral a casa um robe de seda rosa com flores estampadas, provavelmente aquilo pertencia a Melanie ou Jessica, mas foi o bastante pra lhe fazer um “saiote” improvisado e tapar suas partes íntimas.

    Quando o velho lhe falou sobre que ele também havia passado por aquilo era de certa maneira um paliativo pro que sentia, mas estranhamente se sentiu menos mal quando viu o pedaço de corpo sendo desviado no caminho como se fosse algo comum, ele sabia da gravidade do que havia feito, mas sentia menos remorso do que achava que deveria.

    Quando o assunto surgia na família fosse meio tabu ou não, cada um julgava aquilo como lhe cabia, quem era próximo como Connor, alguns de seus irmãos e primos sabiam da verdade, aqueles que moravam mais distante nem tanto, muitos julgavam histórias da carochinha como “Olha sabia que seu avô se transformava em lobisomem em noite de lua cheia?” era uma piadinha recorrente nas reuniões de família, geralmente seguidas de uma gargalhada, mas o fato era que nem todo mundo ria, uns achavam definitivamente que aquela fúria aquela besta personificada era uma maldição, no entanto as palavras de Daniel faziam Connor engolir seco, não importava o que ele pensasse, ele sabia muito pouco e sua família eram os únicos que podiam ajudar naquele momento.

    Connor apenas meneou positivamente com a cabeça concordando com o que Daniel lhe falava fosse verdade ou não ele concordaria.

    Ele olhou pra todos os lados como se quisesse observar quem passava na rua e vendo uma brecha pra não ser visto por algum transeunte pulava a cerca branca e saia em disparada em direção ao carro de Brendan, ainda que tivesse que segurar uma ou duas vezes o “saiote” pra literalmente não ficar pelado em público novamente, sua intenção era bem clara, entrar no carro o mais rápido possível de preferência na parte de trás onde ficaria menos visível, portanto menos exposto.
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    Mensagem por Wordspinner em Qua Maio 13, 2020 8:14 am

    Cruzar a rua até o carro foi mais intenso do que tinha direito de ser. A sensação do asfalto nos pés descalços. O toque do tecido fino em volta da cintura. Os sons vindos das outras casas mais perto do que poderia. O primeiro passo foi como passar por uma barreia de som, sair da água e poder ouvir novamente. O segundo veio a percepção de que as cores da noite eram outras agora, a lua cheia bania a escuridão como o sol. Mais um passo, bem no meio da rua dá para ver tão longe. Um outro carro vindo de faróis baixos. Longe demais. Mesmo assim você acelera, seu corpo responde, mas seu coração não faz nenhum esforço e quando entra no carro se jogando no banco de trás, sua respiração nem um pouco alterada. Pior, seu corpo quer correr. Suas pernas queimam por mais.

    Seu primo está no banco da frente, no telefone. "...to vendo daqui...Eu tenho que desligar." Ele guarda o celular no bolso e fecha as janelas que estavam abertas. O banco do carro é tão bom quanto ele dizia ser. O carro todo é. Ele passou anos juntando a grana e dá pra ver na cara dele que sua bunda molhada é uma ofensa difícil de perdoar. "Inteiro primo? Alguém te sacaneou? Viu algum troço estranho saindo da parede ou algo assim?" Estranho como ele soa como uma versão miniatura e bem educada do avô. Nenhum julgamento escapa pela voz, talvez ele nem ligue de você molhar o banco. Que tipo de pessoa ligaria?

    Ele olha para estrada esperando você. O carro começa a se mover com suavidade e ele ainda espera. Toda paciência do mundo para te ouvir. O carro que viu na rua finalmente cruza com vocês e seus olhos se grudam nele até ter certeza que não parou na casa. "Ninguém percebeu ainda." É fácil saber que ele está falando da casa e com a música e as festas e a distancia entre as casas ele pode estar certo. Mas o reflexo da casa no vidro é algo monstruoso, provavelmente só sua cabeça cheia de culpa pregando uma peça. As paredes vermelhas pingando sangue para cima, as janelas sorrindo de volta, formas mais escuras que a noite correndo em volta dela despedaçando umas as outras, o brilho forte da lua como um farol pintando tudo, uma forma rastejando pelo ar longa e oleosa entrando por uma janela e esticando seu rosto sem olhos e cheio de bocas do outro. As escamas que cobrem a pele estão levantadas e mãos pequenas como as de um bebe saem de cada uma delas tateando o ar. Um uivo longo corta a noite como um lamento e sua garganta coça para ecoa-lo.

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    Mensagem por Ankou em Qua Maio 13, 2020 11:56 am

    Toda aquela situação lhe era muito desconexa, a cabeça estava a mil, mas o corpo parecia responder de forma muito diferente, como se nada fosse além de uma caminhada no parque.
    Tinha mil perguntas, provavelmente menos do que a maioria das pessoas que pudesse estar em sua situação, mas ainda tinha mil perguntas.
    Entrar no carro era como se fosse um alívio, pela primeira vez desde que aquela bagunça havia começado ele se sentia seguro, mesmo que fosse uma sensação falsa de segurança.
    Connor respirava profundamente notoriamente aliviado, mas não por muito tempo, após ouvir as palavras do primo ele revivia a cena detalhe por detalhe, com agora a adrenalina baixa ele tinha melhor oportunidade de raciocinar o que havia acontecido, as memórias antes embaralhadas pelo misto de pânico e euforia.

    - Eu comi a buceta da Susy, e eu não to falando de uma maneira boa... – falava aquilo de maneira espontânea, sentindo a sensação de náusea e nojo se construir rapidamente enquanto parecia ter uma bola no estômago, chegou a abrir a porta do carro e colocar a cabeça pra fora já que o primo havia fechado as janelas, sentia como se sua boca fosse virar um vulcão em erupção, mas não acontecia nada apesar dos sintomas nenhum pingo de vômito saia de seu corpo, era como se naquele momento a cabeça e o corpo ainda funcionassem de forma desconexa.

    Fechou a porta, respirando de maneira mais rápida retomando o fôlego rapidamente quando percebeu que seu corpo se recusava a ceder qualquer coisa.

    - Que porra tá acontecendo? Eu comi carne de gente... De monte! – ainda que não fosse tão frio quanto o avô ou primo, Connor estava longe de dar um ataque de pelanca, mas a expressão de nojo, talvez nojo dele mesmo era clara em sua expressão.

    Tentava se lembrar de algo esquisito, além dele próprio cortando pessoas ao meio com garras e presas maiores que a de um grande felino, não lembrava de nada estranho, mas não precisaria se lembrar não demorou muito pra perceber aquela gosma oleosa, em um primeiro instante achou que estivesse ficando louco, seu olho ia em direção a Brendan e voltava pra “coisa” uma, duas, talvez mais de dez vezes, até ter certeza de que ele também estava vendo aquilo, e não somente a gosma a casa toda parecia estranha. Sentia-se perdido, até escutar o uivo, era a única coisa que lá no fundo fazia algum sentido, não sabia se tinha sido o Vôin que havia feito aquilo, ou sera outra pessoa mais longe, ou mesmo um lobo na floresta ou um cachorro na esquina, mas era a única coisa que fazia sentido, era como se fosse um chamado a guerra.

    Connor saiu do carro, ainda parecia uma figura ridícula de se observar um cara que passava dos dois metros de altura com um saiote rosa enrolado na cintura, seu corpo tremia enquanto seus olhos não se desgrudavam daquela coisa – Cara não to me sentindo legal não... – aquelas palavras mais soavam como um aviso do que como as de alguém que parecia pedir ajuda.

    Connor se abaixou, deixando seus instintos tomarem conta, seus ossos estalavam-se de maneira alta e audível como se quebrassem e se remontassem como um grande quebra cabeças de dor, fúria e ódio, não sabia se tinha mais ódio de si mesmo ou daquela coisa mas tinha vontade de matar.

    Cedeu por fim ao instinto agora sua garganta era capaz de uivar propriamente, agora seu corpo não era mais humano mas de um lobo negro como a noite sem um fiapo de pêlo de outra cor, os olhos amarelados que aos serem contrastados com a luz pareciam dois faroletes, e seu corpo tinha quase o comprimento do carro de Brendan.

    Por um instante olhou pro céu vendo a lua cheia, sorriria se pudesse e novamente deixou o instinto tomar conta de si, agora ele uivava, era um uivo de dor, de amargura, de ódio e de fúria, de muitas coisas, mas definitivamente um Uivo Negro como a morte...
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    Mensagem por Wordspinner em Qua Maio 13, 2020 5:35 pm

    Ele ouve tudo com uma compaixão que você não merece. Aquelas pessoas morreram. aquelas pessoas morreram muito mal. Porra, eles eram seus amigos! Quando sai do carro ele se assusta, mas merece credito por não ter perdido o controle e nem enfiado o pé no freio. Você nem olha. Mesmo assim consegue acompanhar o carro com o ouvido. A curva suave e lenta. Ele está voltando. O outro carro, que passou antes, não deu nenhum sinal de te perceber.

    A dor no seu corpo é brutal como marretadas em hematomas. Mas some da mesma forma que veio se dissolvendo no seu corpo. A clareza, então, cobre tudo. Tão claro como o dia. Mais claro que qualquer dia. Dá para ouvir os pistões do motor do carro de Brendan. Dá para ouvir ele reclamando baixinho. Ouvir o coração no peito dele. Quando você avança para a casa consegue ouvir as pessoas em suas casas. Roncando, assistindo tv, dando descarga. Mas isso não é nada.

    A luz da lua preenche cada canto. O ponto de vista mais baixo é confuso, mas não tanto quanto o novo mundo que partiu as trevas. Os cheiros são uma dimensão de existência que não tinha tocado nunca. Cada sabor no ar é uma linha e uma história. O cachorro da casa de cerca rosa sabe muito bem quem você é e está se mijando todo. Na rua de trás um casal fuma maconha ruim. Sabe que são dois, sabe que é ruim. O cheiro de borracha no asfalto é forte, mas também há terra e grama e cal e sangue. Sangue no ar.

    Obviamente vindo da casa como uma nuvem. Dá para dizer todos os nomes das pessoas que estavam ali. Estavam? Não, morreram ali. Que você matou ali. Só quando esse pensamento ruim volta a superfície como refluxo acido que deslumbre com o novo mundo, com o novo corpo, dá espaço a realidade. A casa é normal novamente. Luzes piscantes na varanda e na sala. Musica alta como um soco no cérebro. Mas nenhuma gosma. Nenhuma sombra correndo. Nenhum uivo. Só o seu. Seu uivo e o cheiro forte de gás.

    O carro se aproxima devagar. Brendan atrás do volante não diz mais nada. Não buzina. Para a duas casas de distancia. Olhando de longe. Uma confusão pesada como um cobertor cai sobre a sua mente. Seus pensamentos correm de forma tão estranha nessa nova pele. Seu alvo sumiu. Uma angustia e irritação no fundo do peito exigem confronto. Exigem punição para a presa que escapou. Mas como? para onde? Mesmo sem saber porque continua se aproximando da casa, devagar. Ouve Brendan sair do carro sem precisar olhar. Ele diz alguma coisa, mas outra voz lhe alcança.

    Palavras de um idioma que você esqueceu. Quase o suficiente para lembrar. Um voz sem carne cheia de significado. Morte. Assassinato. A voz não quer a sua morte. O amor é palpável nela. Um amor infantil e sem malícia. Ela não quer nada além de sentir a sua presença. Seguir as suas pegadas. Está tentando se comunicar e faz cada vez mais sentido. As palavras cada vez mais urgentes. Como um monge faminto implorando ao criador que o salve. Cheia de dor a voz finalmente faz sentido: Porque?

    A explosão machuca sua cabeça por dentro. Enche seu nariz de um cheiro horrível. Uma parede de som e calor e um golpe firme. Esmagado por um murro de ar e lascas da casa. A dor nos ouvidos é insuportável. O cheiro acido queima o seu nariz por dentro com tentáculos ardentes até a sua alma. Para baixo e para cima nem existe mais. A luz cegante foi igual a enfiar a cara em um maçarico industrial. Um susto enorme que faz tremer cada músculo dolorido. A dor penetrante e ardente no ombro afunda no peito segurando a respiração, transformando cada segundo em agonia.

    Não dá para saber exatamente quanto tempo passou, mas não pode ter sido muito. Seu primo emoldurado em fogo está a um passo de distância. Seus olhos entendem a cena antes do que deveriam. Ele está mais perto quando você pisca. Ele está falando mas é impossível ouvir. Suas patas empurram seu corpo para cima e um pedaço de telha de alumínio sobe com você. presa no seu ombro. Fincada tão fundo que cada respiração rasga seu corpo por dentro. Ele fala mais alguma coisa impossível de ouvir no silencio absoluto da dor. Mesmo com a sua ameaça ele tenta pegar a peça de alumínio.

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    Mensagem por Ankou em Qua Maio 13, 2020 6:27 pm

    Tudo parece tão claro, mas tão confuso ao mesmo tempo, era como se Connor tivesse ciência de tudo ao seu redor, até como a brisa se movia parecia fazer sentido, mas todos os sentidos pareciam confusos ao mesmo tempo.

    Quem seria o lobo que havia uivado pra ele? Agora não sabia mais, nem mesmo sabia se aquilo era real ou não, nem a casa como havia observado era a mesma, parecia normal, ainda que tivesse maculada pelo sangue que havia derramado não tinha mais o aspecto que havia observado anteriormente, não sabia nem mais se a gosma era real, a única coisa que ainda tinha certeza era que ainda estava sobre quatro patas aquilo era estranho e magnífico ao mesmo tempo.

    Connor se mantinha concentrado nos cheiros, nos sons que ouvidos humanos jamais poderiam conceber a tais distâncias, ouvia palavras que havia esquecido e se perguntava o que era aquilo, ficava com a impressão típica de algo que estava na ponta da língua, mas era incapaz de dizer o nome, quando conseguiu entender uma única palavra daquilo se perguntava quem falava, era a gosma, os mortos ou Brendan?

    Não sabia, mas já era tarde demais pra buscar uma resposta quando sentia a dor lacinante e seus sentidos sendo todos embaralhados, gás e explosão. Vôinho estava na casa ou ao arredores dela, não sabia bem, mas foi o velho que veio a sua cabeça, como uma primeira lembrança, mas tinha certeza de que ele não era bobo pra se ferrar com aquilo, mais certo de ter causado a explosão. Agora as coisas fazia mais sentido, pelo menos em uma linha de raciocínio, haviam dezenas de outras sem resposta.

    Sentia a dor lancinante não sabia se havia apagado por alguns segundos ou não, era mais provável que sim, mas não importava, sentia-se desesperado pra tirar aquele pedaço de alumínio de dentro de sí, via a figura de Brendan e usava seu último fôlego pra lhe dizer algo, mas dizer como se tudo que conseguia fazer era rosnar e uivar, ainda assim aquilo fazia algum sentido em sua cabeça – Que porra de pesadelo é esse, vamo embora dessa porra desse lugar!!! – qualquer ar que passasse por sua garganta era trêmulo, a respiração acelerada pela dor, e a dor acelerada pela respiração, era um ciclo maldito, enquanto tentava desesperadamente com as mandíbulas enormes alcançar qualquer pedaço daquilo que o machucava tentando jogar longe também com as patas, mas não se movia.
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    Mensagem por Wordspinner em Sex Maio 15, 2020 6:08 pm

    Seu desespero parece ganhar força. Ganhar massa, matéria. Quando seu corpo responde. A dor é ainda pior. Se sente dilacerar por dentro. Dor nunca pareceu tão real antes. "Olha pra cá. Cê tá comigo, tá ouvindo? Entendeu?" Não. Brendan tava fazendo sentido nenhum e quase não dava para ouvir. Ele tava é ficando menor. Não, você tava ficando maior. Era impossível. Mas era real. Maior. Brendan parecia uma criança. Parecida indefeso. Mas não te olhava assim. Com seu sangue esguichando para fora na roupa boa dele, ele te olhava sério. Como se fosse te dar um tapa.

        "Não vem com essa. Agindo feito criança só porque tá doendo?" dessa vez a voz dele era um dos seus pensamentos. Era aquela voz que se usa para pensar. Ele segura o seu pelo para alcançar a lasca de metal que suas presas não podiam pegar. "Não tem nenhuma tempestade aqui. O controle é todo seu. Todo seu, primo. Isso, me ajuda. Mais baixo. Eu sinto a sua dor e ela vai passar. Eu sinto a sua raiva e ela vai passar. Eu não posso ter um lobo agora. Tá doendo menos assim, eu sei." As palavras dele soavam verdeiras demais. Sérias demais. Honestas demais sem a menor dúvida. A dor era incrível, mas estava refletida nos olhos dele. Cada sensação enquanto ele puxava a folha de metal rasgada do tamanho de um braço de dentro de você. "O sofrimento é força, primo. As ondas estão quebrando, mas a dor vai ficar. É verdadeira. A dor é a montanha que vai te levar para cima, escala comigo. Falta pouco. Muito pouco."

        A calma não nada pacifica. Era uma luta intensa contra um monstro incontrolável querendo sair. Querendo correr. Querendo fazer pagar com sangue. Uma nuvem vermelha de ódio recheada de relâmpagos e dor. Sozinho ela teria te engolido e te levado. Teria te dado a força terrível que ela tem. A fome irresistível que ela é. Mas não se sentia sozinho. Não estava sozinho. Tinha ele ao seu lado e algo mais. Algo escuro e nevuoso. Algo curioso vinha junto a voz do primo, algo que sutilmente reforçava quem ele é. Agora, quem você é também. Juntos, são só o suficiente para resistir.

        O barulho do metal raspando chão. Vozes de pessoas a distância. Brendan guia sua transformação de volta aos pés e mãos que sempre teve. Ele puxa sua mão para o rasgo enorme. Seus dedos na ferida aberta sentindo a carne quente e o sangue escorregadio. Seu antigo saiote de alguma forma é empurrado para entre seus dedos. Seu corpo treme com o esforço de conter a raiva. Com o frio. Com o medo. Seu primo segura seu braço e puxa para o carro. "Segura isso, agora a gente tem que sumir e rápido. Não larga isso!" A voz dele não estava mais dentro da sua cabeça. Agora era só você e a dor. A dor e a coisa escura que veio com Brendan.
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    Mensagem por Ankou em Sab Maio 16, 2020 7:29 am








    Aquela situação não tinha como melhor ser descrita como uma bad trip que havia saido direto do inferno, não que Connor já tivesse tido alguma, mas se soubesse como era uma tinha certeza de que essa era uma das senão a pior de todas. A sensação era a mesma que anteriormente, mas agora era muito mais consciente, antes fora apenas um rompante agora era algo crescente com a dor que sentia. O que diabos Brendan estava pensando? Aquilo doía e doía pra caralho!


    O que viria a seguir, pareciam marretadas de sentimentalismo, se fosse capaz de responder Brendan naquele momento lhe mandaria tomar no cu e perguntaria desde quando e ele havia virado aquele viadinho, mas Brendan não falava, era como se um momento pudesse se esquecer da dor, o seu corpo que crescia tomando proporções descomunais que faziam Brendan parecer menor do que já era voltava ao normal, o primo tinha absoluta razão em uma coisa, ele tinha que controlar aquele troço, não importava o que acontecesse, deixar aquilo rolando seria mais gente morrendo, mais gente inocente morrendo, e certamente morreria se não fosse Brendan com seja lá que espécie de mambo jambo ele tinha feito.


    - QUE CARALHO TÁ ACONTECENDO!!!??? – foram as primeiras palavras de Connor quando ele conseguiu falar, ele pressionava aquela porcaria do roupão sobre a carne rasgada, desde que havia acordado daquele pesadelo de frente pra seu avô era o primeiro momento que totalmente lúcido que havia tido, e esse momento havia vindo com dor e ódio, um ódio descabido, contra quem? Melhor contra o que?


    Connor respirava profundamente como alguém que buscava o ar que não tinha sentia dor do rasgo na carne, o cheiro de sangue alastrava o carro, o estofado do carro que o primo tanto elogiava agora não estava molhado de água, não sabia se ele se importava com aquilo de verdade ou se era só uma aparência, aliás ele sabia que os membros da família com o sangue lobo mantinham mais aparência do que qualquer outra coisa, só não sabia que haviam outros além de sua mãe e avô. Connor tremia de dor, e frio, o corpo ainda estava molhado, ele nu e Dover não tinha exatamente o clima de Costa del Sol. As respirações de Connor tomavam um ritmo, acelerado de início e logo iam se acalmando, ainda que a dor não tivesse diminuido nem um pouco as palavras de Brendan ainda martelavam em sua cabeça, sobre manter o controle e essa merda toda.


    Connor começou a rir, rir daquela situação toda, o carro em velocidade de fuga, dele pelado, com o corpo todo fodido, com frio, era de longe a situação mais merda que já havia ficado na vida. – Puta merda! – engasgava na própria dor e saliva – Eu crente que eu ia me salvar dessa coisa toda de sangue do lobo, pelo visto você também se lascou né mauricinho? – Ria de nervoso, mas soava como alguém realmente beirando a insanidade. – Mas eu te devo essa cara e foi mal pelo estofado. – Dizia entre os gemidos de dor já acalmando mais a voz, ele não imaginava pelo que Brendan tinha passado, mas possivelmente algo parecido como ele estava agora, talvez pior ainda, não sabia, mas sentiu que havia aprendido a lição de parar de julgar o primo depois daquela...



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    Mensagem por Wordspinner em Seg Maio 18, 2020 2:17 pm

    Brendan acelera o quanto pode sem passar dos limites máximos de velocidade. Pelo menos é o que parece, já que está difícil demais focar em qualquer coisa. Ele parece mais tranquilo agora do que antes. Quase anestesiado. "O banco é couro italiano. Acho o que sangue não vai sair do teto também e nem do chão. Mas o couro vai limpar mais fácil que o resto." Ele olha no retrovisor e por um instante a coisa escura te olha de volta usando os olhos dele. "Não se liga nisso. Sua jogada é sobreviver e a tática é segurar esse troço aí até eu te levar pra tia Elise. Parece que tá morrendo e perdeu litros de sangue e os dois são verdade. Mas seu corpo se cura rápido, vai viver. Depois que a Tia costurar vai começar a curar rápido mesmo. Eu sei que tá pensando que sua carreira profissional acabou. Acabou mesmo. Mas não por esse buraco ai. Amanhã vai tá melhor que ontem."

        Tia Elise fez faculdade, mestrado e doutorado e foi morar em Londres. Tia Elise bateu de carro em um caminhão e perdeu uma perna e parte do boa da sanidade. Ela mora em uma casa grande e cheia de gatos. Não é longe da sua casa, nenhum Mcleary em Dover mora longe um do outro. Claro que ela devia ser boa no trampo dela, mas o estrago que você tá precisa de uma mesa de cirurgia completa com equipe daqueles seriados medicos da tv. A tia doida nem trabalha mais. Quase nunca vai nos lugares. Quando vai, tá sempre olhando pra porra do nada com um olhar assustador pra cacete. Além de que a casa dela é cheia de coisa estranha e bizarra.

        "A mão dela treme pra caralho e não é tão forte quanto era antes. Mas ela sabe o que tá fazendo. Não conta nada pra ela. Ela vai perguntar e ela não quer saber a resposta. Ela inventou uma anestesia que quase funciona. Pega um tempo maneiro e nem tem efeitos colaterais graves demais." O carro para e já chegaram. Ele olha por cima do banco e é o Brendan de dez anos atrás com olhar travesso contando histórias de terror.  "Vôin sempre opera no seco. Não põe nem um scotchy na boca. Uma vez ele tava segurando as tripas de verdade. O cheiro era horrível, mas já senti coisa pior. Eu tive certeza que ele ia morrer. Certeza absoluta. Foi quando ele visitou um primo do continente gravemente ferido. Porra nenhuma! Ele ficou o tempo todo no porão da Tia Elise entre a vida e a morte. Mas se ela salvou ele, você tá suave." Um gato malhado em cima do portão olha para o carro enquanto lambe calmamente a pata. O único inconveniente é um bando de adolescentes sentados na calçada do outro lado da rua. Conversando debaixo do poste como se fosse um ótimo lugar.
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    Mensagem por Ankou em Ter Maio 19, 2020 3:30 am






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    Aquilo parecia a maior doideira da face da terra, Connor já não pensava mais direito, mas percebia que o frio era mais pela perda de sangue do que pelo banho frio, provavelmente nem tinha mais água sobre o corpo, era só suor frio e mais frio pela perda de sangue. Não sabia se a coisa escura que lhe olhava era o verdadeiro Brendan, o lobo dele ou seja lá que diabos era aquilo ou se ele já estava começando a alucinar, ou se nunca tinha acordado daquele pesadelo, e pelo visto o pesadelo tava longe de acabar.



    Como assim, você tá zoando cara? Tia Elise? Por quê não o hospital caralho?! – achou que tivesse falando aquilo, mas era só um pensamento tão alto como se ele gritasse, naquela altura duvidava que Tia Elise tinha sido vítima de um acidente de carro, ele viu a gosma preta naquela casa, ele via mais do que gostaria de ver agora, ele sentia que haviam coisas muito ruins do outro lado, seja lá onde fosse o outro lado, alguma coisa definitivamente tinha arrancado a perna dela, não um acidente, não sabia se aquilo era paranóia sua ou se era apenas certeza de que sua família era mais trevosa do que ele imaginava.



    - Eu lembro dessa porra, primo ferido, Vôin nunca sai da cidade, aliás ele nunca sai aqui da área, podia ter a mãe dele morrendo que ele não ia sair, ele não foi no enterro do próprio irmão caralho! E eu quando perguntei ele só disse que não se falaram por anos, como quem não se importasse muito. Como assim mano? Tia Elise tá enterrada até o pescoço com essa bosta também? Quem mais mano? Quem mais tá se fodendo por causa disso? Eles são o nosso sangue cara! – Se sentia nervoso de novo, sentiu o corpo esquentar, mas não era ódio daquela vez era só um clamor por justiça. Ódio lhe tirava do prumo, mas justiça era outra coisa, algo dentro dele estalava enquanto ele rangia os dentes, era parte da clavícula que voltava pro lugar, e o sangramento diminuía, apesar de não se estancar por completo. Seu corpo era uma máquina que mesmo depois de perder todo aquele sangue parecia se negar a rendição. – É você tinha razão. – Dizia a Brendan, mas sem se deixar cair no terror psicológico que ele gostava de pregar, ele sempre foi assim, o almofadinha bizarro da família.

    Saia do carro com a ajuda de Brendan e via os moleques conversando, usava o corpo do primo pra esconder a visão de si, não ajudava muito quando seu “escudo” tinha quase meio metro a menos. Mas foda-se, tava pouco se fodendo pros moleques, andava até a porta da Tia Elise, dava três murros na porta que pareciam que ia por aquela porcaria velha abaixo, mas não conversava com ela, deixava a parte de socialização com Brendan, ele mesmo a aquela altura não sabia muito bem o que dizer, a olhar pelo andar do ferimento que ainda precisaria com certeza de pontos e cuidados médicos ninguém nunca acreditaria que alguns instantes atrás havia um cano atravessado ali.



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    Mensagem por Wordspinner em Qua Maio 20, 2020 2:59 pm

    Durante todo o processo ela começa a se agitar e fazer perguntas estranhas. "O que fez isso? Foi um possuído?" logo Brendan a acalmava como se nem a tivesse ouvido falando sobre as novas cortinas ou o brownie que estava cheirando delicioso. "O garoto tá mudo? Roubaram a voz dele? Ele ficou que nem o Josh?" Novamente Brendan falava sobre coisas como os gnomos no jardim e o novo gato cinza. "O pulmão direito foi dilacerado. Muito rasgado por dentro. Foram Azlu? Uma amalgama do Hotel dos Ossos? Eu sabia que ai acontecer." Ele falou do jantar no final de semana. Ia ser bem gostoso já que Sofia ia fazer caçarola.
     
        A primeira agulhada mal deu para sentir. O resto todo são flashes estranhos e anestesiados. Ela enfiou a mão até o cotovelo dentro de você. Dava para sentir os puxões e as vezes pontadas estranhas. Seria melhor nem lembrar de parte alguma. O teto escuro com dentes te encarando lá de cima, por trás dos óculos grandes da Tia Elise. Brendan ao seu lado era a única coisa reconfortante. Além da falta da dor, claro.

    Uma xícara de chá na mão. Sentado na mesa do jantar. O chão todo coberto de sangue com gatinhos lambendo. Um pano limpando o ombro destruído. Ombro que estava perfeitamente intacto agora. Absolutamente novo. A cabeça não. Claro que não. A tia dá um beijo carinhoso na sua cabeça e sobe lentamente as escadas com a prótese fazendo um barulho alto. As palavras se formando devagar demais na sua cabeça. Brendan se senta do outro lado e espera usando o telefone. Ele deve estar esperando você voltar. A luz da lua atravessa a janela para brilhar no seu sangue esparramado no chão. O formato quer dizer alguma coisa. Alguma coisa importante. Instintivamente sua mão sobe para onde deveria ter um ferimento. Uma marca escura na pele lisa. Era mais fácil de ler com o brilho refletido da lua. Pureza.
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    Mensagem por Ankou em Qua Maio 20, 2020 6:24 pm






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    O cano de alumínio começava a não fazer sentido conforme as perguntas da tia Elise iam se formando, era estranho ele se forcar mais no que havia acontecido do que no que ela falava, de onde diabos havia saído um cano de alumínio pra acabar com ombro dele? Se o encanamento fosse antigo provavelmente seriam encanamentos de cobre, se fosse do sistema de aquecimentoseria de ferro, nada daquilo parecia fazer sentido.


    Não sabia se desde que havia levado aquela pancada realmente havia falado alguma coisa ou se era alguma coisa lhe pregando peças, ou o próprio ferimento que já era muito grave. Ele via Brendan e tia Elise tratar aquilo como se fosse uma quarta feira qualquer


    Era impressionante sentir tudo, menos a dor, a dor havia ido embora e os puxões nem incomodavam tanto assim perto do que sentia antes, percebia que a tia Elise tava longe de ser a surtada que ele imaginava que era, ou que ela deliberadamente se fingia ser, a tia dos gatos largada, apesar de que ela era literalmente a tia dos gatos.


    Havia sido o beijo na testa o carinho da tia que havia botado ele de volta a realidade, nãoa cordava de imediato a cabeça estava lenta, o som da prótese da tia era como um segundo chamado de volta a realidade, sua mão do braço que tava ferrado abria e fechava quase como se fosse uma fisioterapia.


    Levou a mão por cima da nova marca que tinha, achou que iria sentir o corpo como quando saia dos jogos de rugby mais violentos, como se tivesse sido atropelado por um caminhão e sem sombra de ver a placa. Sua cabeça aionda estava rodando, estafva visivelmente consciente, mas preferiu se manter deitado pra organizar os pensamentos.


    - Urum da takus


    - Nu bath githul


    - Ni daha


    Palavras da primeira língua que nem sabia que sabia, era como se lembrasse finalmente aquilo que estava há muito esquecido, aquelas palavras eram partes desconexas do juramento que manteria pro resto dos seus dias, eram as partes que ele sabia que ele ouvia em inglês, mas só havia se dado conta que não falava inglês quando finalmente voltou a realidade por completo.


    Connor sentou-se na maca – Não teve cano de alumínio nenhum né? E eu nunca falei nada contigo durante a viagem... – perguntou sem olhar pra Brendan, não sabia o que receberia de resposta do primo, mas aquela altura tinha quase certeza de que era quase certo que todos aqueles dilemas aquela loucura tivesse se passado apenas em sua cabeça sobre influência do que quer que houvesse incorporado nele, levantou-se indo em direção a janela olhando a runa em seu ombro, era engraçado ela havia brotado exatamente por cima da tatuagem que agora parecia nunca ter existido naquele pedaço do ombro.


    Voltava-se para Brendan o olhando dessa vez firme, os olhos de Connor queimavam com determinação. – A perna da tia Elise foi um desses capirotos não foi? Tinha um treco dentro do meu pulmão, só que no caso da perna dela não regenera né? – Não havia mais desespero, mas o ódio sempre estava lá no fundinho, junto do lobo esperando  a presa pra dar o golpe de morte.



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    Mensagem por Wordspinner em Sex Maio 22, 2020 9:15 am

    "Bom te ter de volta primo. Acordado." Ele guarda o telefone no bolso devagar. Todos os movimentos deliberados. Se levanta pegando um pano na pia de alumínio ao seu lado. "A gente conversa limpando." Ele joga o pano para você e pega mais um. "Foi alguma coisa sim. A coisa matou o noivo dela e devorou o cara na frente dela. A Tia tem um dom, a Sombra vaza por ela como uma fonte. A Sombra é o segundo mundo, o outro lado. Hisil" Brendan começa a limpar o chão com protestos dos gatos. A ultima palavra faz sentido perfeito, a linha puxando tudo apertado. Metade do seu mundo, Hisil.

        "A coisa saiu de dentro dela. Por dentro dela para o outro lado. A gente não sabe exatamente o que eles estavam fazendo na hora, mas era uma amalgama. Uma abominação. Rastejou para o mundo dela por ela. Foi como se tivesse parido a morte do cara. Ela teve que assistir enquanto o cara era devorado. Como ela ia fechar os olhos? Ela até tentou lutar. Ela já tinha algumas dessas coisas que tem na casa. Não deu certo. As amalgamas não seguem as regras certas." Ele torce o pano na pia pingando vermelho. Seu sangue.

        "Eu não sei quem salvou ela. Mas não foi a gente. Saca? Ela deu sorte pra caralho. Ela não tinha esse dom quando saiu daqui. Se tivesse, Trovão não deixava ela ir. Vôin é o Trovão. Ele diz que o nome é bobo, coisa de adolescente. Mas é foda pensar que pode ter alguém nesse momento sentindo uma porra alienígena escorrer pra fora do próprio corpo pra foder com o que você ama e logo depois te devorar devagar. Saboreando a sua dor. Comendo só a sua dor." Ele torce novamente o pano e depois joga alvejante e água no chão. Ele faz com cuidado automático, mas não parece saber o que está fazendo.

        "Agora você também tá nessa missão. Se nosso trabalho tá feito direito essas porras não acontecem. Ou quando acontecem a vingança é rápida, ou alguma salvação acontece. Tia Elise tava perto de gente que foi rápida." Ele sorri olhando em volta orgulhoso. "Eu mudei faz dois anos. Igual a você mudou hoje, mas cheio de diferenças. Antes disso a gente negociava a segurança da Tia Elise com outra alcateia. Agora sou eu que faço." Ele olha para o chão e sabe que precisam limpar mais, mesmo assim pega uma garrafa sem rotulo com raízes em um liquido cor de âmbar escuro. Toma um longo gole e te oferece.

        "Sabe? Algumas coisas você falou mesmo. Outras eu entendi porque até o fim da noite nos somos a mesma alcateia. Eu estendi as asas do Corvo das Brumas para você e eu sei fazer as nossas mentes se colarem. Nesse momento não importa o que você faça. Nada pode me surpreender porque seus pensamentos e sensações vazam para mim. Se eu virar de costas e você tentar me dar um tapa eu vou saber. Foi assim que a gente conversou. E o cano? Era um pedaço de telha de alumínio e uma amalgama de medo, morte e sangue. Dá até pra dizer que era sua filha. Trazer você até aqui, até as mãos da Tia era para ela passar pro outro lado." Ele pensa um instante no que falou. "Não, eu não enganei ela. A Tia sabe. Por isso ela pergunta. Ela só não quer saber e nem deixar a gente na mão"

       "A perna dela é uma coisa que realmente não vai voltar. Sua mãe falou de tentar empurrar ela para mudança. Mas Trovão nem quis ouvir. Nem chegou a responder, deixou ela falando com a parede." Ele joga o pano chão irritado toma mais um gole e ri. Logo depois volta a limpar.
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    Mensagem por Ankou em Sex Maio 22, 2020 11:03 am






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    Connor pega o pano sem hesitar e começa a ajudar o primo a limpar aquela piscina de sangue que havia se formado, parava e pensava quantas vezes deveria ter morrido naquele meio tempo, o quanto de sangue havia perdido e ainda assim não havia nem sinal de hipotermia, seu corpo agora era definitivamente uma máquina brutal que não desistia de lutar nem sob as piores e mais absurdas ciscunstâncias.


    Torcia seu pano na pia, revezando enquanto ouvia Brendan com curiosidade sobre o que havia acontecido com a tia Elise. – Mano é bom saber do que rola por baixo dos panos. – dizia aquilo com algum ar de pertencimento. – Mas essa história da tia é braba, eu lembro de ter visto uma gosma preta que parecia ter um monte de mãozinhas, ou bocas eu não sei direito, mas Hisil... Eu olhei pro lado de lá, a casa tava toda zoada, e eu não to falando... – respirou profundamente, se lembrando do que havia acontecido novamente – Você sabe oque. – Preferia não mencionar aquilo, e pelo que seria informado pouco tempo depois não importava o que falasse ou deixasse de falar, Brendan parecia ler suas intenções, a comunicação toda parecia não ser feita por palavras, ele não sabia muito bem explicar, nem tinha muita noção de como aquilo acontecia.


    - Trabalho aceito cara, eu não posso deixar isso de lado sabendo que tem pessoas como a tia Elise lá fora sendo atacada por esses monstros, e eu tenho que compensar pelas merdas que eu fiz hoje. – Não havia nem um pingo de dúvida na voz de Connor, mesmo que ele não tivesse ideia do tamanho da missão pra o que estava se voluntariando, mesmo que lhe houvessem momentos de fraqueza e eles existiam aos montes ele sempre tentou fazer por onde, mesmo que não tivesse sucesso todas as vezes e querendo ou não o juramento já corria forte por suas veias mesmo que ele não estivesse muito ciente disso ainda.

    Terminou de limpar lavou o pano na pia, ficava remoendo algumas coisas daquela noite, aquilo tinha sido um pesadelo, coisa de maluco, não fosse sua nova natureza que lhe ajudava a colocar um pouco da cabeça no lugar e o primo que lhe dava algumas respostas tinha certeza que estaria sentado em algum lugar babando como um vegetal. – Merda mano, mãe falou pra eu não sair hoje, nem de casa, eu acho que ela já sabia dessa treta toda, é a única explicação, e eu sempre pensando com meu pinto... – suspirava, ao mesmo tempo que pensava que ela talvez pudesse ter explicado melhor a situação, se ela tivesse dito, olha você vai virar um de nós hoje, tudo talvez seria mais fácil, mas agora era tarde. – Então quer dizer que você pode tentar forçar alguém a se tornar Uratha? – A palavra vinha naturalmente como se já a soubesse a vida inteira, parou um instante pensativo, ele normalmente falaria “lobo” pra se referir a quem ele naturalmente imaginava que era amaldiçoado, e ele havia prometido não pensar mais assim do povo se lembrando do que havia falado com vôin, e realmente se as coisas funcionavam como Brendan dizia, eles eram a porra dos heróis, mesmo que fossem heróis cheios de falhas com uma besta titânica e maluca dentro deles, ainda eram o melhor com que as pessoas podiam contar


    Balançava a cabeça saindo de transe. – Mas por que não? – Falava sobre a tia – Quais são os riscos envolvidos? Tenho certeza de que isso tudo sendo feito em um espaço controlado, daria bem menos cagada do que aconteceu hoje comigo. E além do mais convenhamos cara, eu não sei o que ela fez hoje comigo porque eu tava mais pra lá do que pra cá, mas eu tenho certeza de que ela é bem boa no que faz!

    Parou por um instante olhando pra si mesmo ainda tava envolto naquele roupão de seda rosa, todo encharcado de sangue, pensava que precisava de um banho, uma muda de roupas limpas e agradecer a tia pelo que ela tinha feito.



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    Mensagem por Wordspinner em Sab Maio 23, 2020 9:54 am

    Ele finalmente decide que já limparam o suficiente. Lava as mãos na mesma pia depois de pendurar os panos na janela do quarto ao lado. Dali ele leva garrafa para sala ruminando o que você falou. Ele enche duas xícaras de chá bem delicadas com flores pintadas a mão. "A Tia não tem copo normal." Ele empurra uma na sua direção e da um gole da garrafa antes de colocar no chão. "Não tem mais normal para ela. Normal de nada. Aqui eu consigo afastar os espíritos dela. Ninguém nem olha pra esse lado sem eu deixar. Trovão nunca explicou os motivos dele. Mas o silêncio deixou claro que a nossa alcateia não vai fazer nenhuma experiencia com ela." Ele bebe outro gole da xícara. Se senta no sofá escuro ao lado de um gato listrado que não faz mais que mexer as orelhas. "A, o nome desses capirotos é espírito e a maior parte deles merece uma dose de respeito. Cuidado no futuro, mas aqui eles não vão te ouvir. A mudança de que você passou foi bem ruim. Quase pior cenário. Tem vários fatores relacionados. A sensação de independência é um fator bem comum, mas pode ser só uma consequência da necessidade de ver a lua. Isso é outra coisa. Todo Nuzusul termina sob a luz da lua." Nuzusul, a palavra se encaixa perfeitamente no mês que levou até ali. Ela preenche todas as lacunas. Dos barulhos estranhos aos sonhos bizarros.

        "Sofrimento e estresse também entram na lista. Assim como choques com o sobrenatural. Claro uma criança feliz e mimada pode virar sem motivo algum, já aconteceu. Mas é minoria. As histórias sugerem outra coisa. Eventos capazes de formar o laço espiritual com a lua também podem ser um fator, talvez pelo toque distante da Lua Guardiã ou pelo puta trauma que sempre é. Presença de Urathas entra como uma especulação mal colocada, como dá para saber os números sem urathas por perto para notar? Mas dizem que quanto mais, mais." Ele gesticula bastante com as mãos enquanto enumera e gato começa a seguir os movimentos com os olhos. "Tem umas conversas sobre rituais também. Uma das alcateias daqui conhece um ritual de batismo que a Loba sem Sombra jura fazer alguma diferença, mas é tarde demais pra usar ele na Tia. Loba sem Sombra também acha podem existir outros rituais que eles não mostrem para gente, os Crestwood tem uma porcentagem de lobos na família escrota. Parentes também. Pelo menos a gente sabe que a caça em si pode influenciar. Tem um ritual que permite os parentes caçarem com a gente. Dizem que vôin sabe, mas eu nunca vi." O gato finalmente ataca a mão dele e ele se assusta, mas consegue não fazer barulho e ainda continua distraindo o felino. Com a outra mão ele pega a xícara para mais um gole. Dessa vez ele lambe o fundo.

        "É uma loteria, daquelas com bolinhas que ficam girando na gaiola. O que dá para fazer é botar mais vezes lá dentro o numero que você quer. Isso e rezar para Luna. Ou começar uma guerra. Durante a segunda guerra tinha Uratha pra caralho, Trovão que disse. Se Luna precisa de mais guerreiros ela escolhe até quem não devia. No fim, esquece isso da Tia. Eu não teria coragem de traumatizar ela mais ainda um monte de vezes só pra se tiver sorte quem sabe ela se tornar um de nos." Ele te olha com uma compaixão que não se encaixa no momento. "Espera chegar uma semana de merda sem dormir um dia, passando dor e mentindo pra gente que você se importa, correndo entre as coisas alienígenas do outro lado. Vendo gente morrer porque não deu tempo de salvar, torcendo para não matarem quem você gosta e sentindo aquela culpa gostosa de ver que o defunto não é ninguém para você. Sentindo a frustração dos seus irmãos subindo feito lava num vulcão, cada hora mais putos com a porcaria tá fazendo todo mundo de besta. Se pegar a presa no final tudo vale a pena. As vezes a vida quebra de formas que não dá para consertar mesmo assim. Aquela vaga de emprego? Já foi. O teste para o time da faculdade? Tarde demais. Aquele encontro com mulher que faz o coração pular feito palhaço de circo? Ela já tá com outro. Isso nem é o pior que pode rolar." A compaixão instantaneamente se torna fúria contida por uma fina camada de polidez. A xícara tremendo na mão. O gato completamente ignorado. "Um desgraçado com sangue de lobo apareceu aqui. O cara era perfeito. Sendo perseguido de verdade por puros. Ele conquistou a gente sem precisar mentir. Eu nem cheguei a desconfiar de verdade. Foi a gente que achou ele perdido e desesperado. É fácil a pessoa que você tá ajudando te enganar. Ele acabou botando a gente na maior furada ele sentia onde tinham os melhores locis de longe. De muito longe. O filho da puta não sabia quando, mas sabia que eventualmente ia rolar. Um desses locis tava com um espírito pronto pra matar a gente. Não foi problema nenhum pra gente que tava do outro lado. Mas Loba sem Sombra tinha ficado para trás com ele no carro."

        Ele tenta beber de novo da xícara vazia e quase joga ela longe, para depois pousa-la com suavidade na mesinha. Um gole longo da garrafa. "Quando a gente chegou ela tava chorando no meio de uns cinco mortos. Chorando feito uma louca descabelada batendo em um cadáver com um pedado de braço. Ela nem sabia mais o que tava fazendo. A gente tava orgulhoso porque nem tinha imaginado a armadilha. O cara meteu uma dose ridícula de tranquilizante nela, acho que tinha morfina junto. Não importa. Ele fez isso pros amigos deles se prepararem. Eles iam meter prata na gente com rifles de fora. Não entra nada muito pesado em Dover. Corrigindo, não dura muito. Eram quatro de uma porra de culto querendo vender ela e se desse a sua mãe também. Quase deu certo. Mas Loba sem Sombra tinha ficado pra trás porque não podia lutar. Ela tava gravida, cara. Tinha um bebe ali e por isso eu to vivo pra te contar isso. O bebe sacaneia o metabolismo dela e o tranquilizante funcionou errado. Ela teve que escolher. Deixar rolar ou mudar pra tentar salvar a gente. Grogue que nem ela tava só o Gauru tinha alguma chance contra prata." Ele para como se aquilo fosse o suficiente para você entender, ou talvez ele tenha parado para te dar tempo de digerir a palavra. Gauru a forma da guerra. A forma do Caçador. Um momento de revelação espiritual feito de fúria e objetivo implacável. "Gauru é uma maquina. Rápido feito uma bala. Forte demais. O tipo de coisa que sobrevive a um caminhão na fuça. Gauru é feito pra matar e caçar. Gauru não tem fraquezas nem sobras. Nem um grama de gordura e nem a porra de um útero." Ele levanta pegando a chave do carro no bolso. "Ela matou o próprio filho, primo." Ele começa a andar para porta da frente .
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    Mensagem por Ankou em Sab Maio 23, 2020 7:25 pm






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    Connor tinha muito pouca noção do mundo dos Uratha, havia muito o que ser conversado e muito o que ser entendido, e havia vontade da parte deele de entender, não tudo de uma vez não agora, a cabeça estava cheia, mas decidiu parar aquele instante e conversar um pouco com Brendan, depois de tudo que havia acontecido era o mínimo que lhe devia.


    - To de boas mano, não to realmente na vibe. – dizia sobre a xícara com o que quer que ele houvesse enchido ela. Afastava os gatos de si, olhava pra eles até pensando se eles não eram mais do que gatos, se tudo que diziam sobre eles era verdade talvez eles afastassem maus espíritos. – Mano se eles atacam as pessoas eu ainda to sendo bonzinho de chamar eles disso, senão tá tudo certo. – falava em relação a Brendan se referir em como ele devia se portar ante a espíritos.


    Permanecia calado, mas escuatava as possibilidades de um do sangue se tornar um Uratha, definitivamente no caso dele havia sido sofrimento e dor, escutava o primo dizer sobre isso, que ele havia passado por uma das piores formas, verdade ou não pra ele definitivamente era a pior forma, só ele sabia o quão desagradável havia sido todo aquele evento. – Eu tenho certeza que não é um processo fácil, ou mesmo seguro, e nem mesmo parece que vai dar certo de alguma maneira, mas mano, alguém já fez o favor de perguntar , invés de ficar decidindo essas coisas por ela – baixava o tom da voz quase ao ponto de sussurro – Cara eu posso viver matando gosmas melequentas ou o diabo a quatro que for, se isso for manter a minha família e quem eu gosto a salvo, talvez tudo que ela precise seja o gatilho, a sensação de impotência é de fuder mano, eu tenho certeza que todos nós já sentamos no fundo desse poço escuro sem saber pra onde ir, mas cara a situação dela tá em outro nível. – A vontade de ajudar a tia era genuína, pelo menos sua palavra soavam assim, mesmo que não houvesse nenhuma experiência ou noção do que estava dizendo, pensava que havia de ter um modo. A verdade é que se sentia em dívida com ela, afinal ela sempre foi considerada a estranhona, não que sua família não tivesse mais de uma pessoa assim, mas a cosia mudava de figura quando se conhecia a verdade, queria achar um modo de diminuir esses traumas, como se fosse um mode de diminuir seus próprios traumas.


    Brendan então tocava no assunto do time de rugby, aquilo machucava de verdade, sabia que sempre teve a possibilidade de entrar pro profissional, tudo que bastava era um olheiro, passou a maior parte da vida se preparando pra isso, como explicar o treinador que ia jogar tudo isso ralo abaixo, ainda mais agora, sentia-se mais rápido, mais forte e praticamente incansável, mas a família vinha primeiro, a responsabilidade era muito maior agora, imaginava que o fardo do patriarcalismo da família cairia sobre a cabeça dele ou de Brendan eventualmente quando o vô se aposentasse ou coisa pior. – Nem me fala... – Não conseguiu falar mais sobre aquilo, mas a frustração era nítida em sua expressão.


    Escutava a histora da Loba Sem Sombra, não tinha um pentelho de ideia de quem ela era, pelo menos não com aquele nome, talvez ela fosse a tia Amelie há cinco casa dali e ele nunca tivesse ouvido falar dela assim, dava um suspiro pesado e acariciava a barba algumas vezes – Foda-se...- sussurrava, pegava xícara virando aquela porcaria de uma vez só, não sabia se era álcool ou se realmente era chá, duvidava que fosse a segunda opção. Aquela história era muito fodida, Connor tinha plena ciência do que era o gauru, ele não sabia o nome até agora, mas era a mesma coisa que era parte dele agora que havia feito aquele estrago todo, que havia matado e comido parte dos amigos no início da noite, mas mesmo com toda essa merda a Loba tinha como dar o troco, a tia Elise não, pelo menos era o que achava.


    Seguia o primo pra fora da casa, não que não quisesse fazer mais perguntas é que só queria um pouco de paz agora, ainda queria fazer algo pela tia Elise, só não sabia o que, mas naquele momento, só queria ir pra casa, talvez colocar a cabeça no travesseiro e tentar com sorte dormir, isso depois de um banho e roupas limpas. Se despediria do primo e rumaria em direção de casa por vielas obscuras e nas sombras, havia nascido e crescido naquele lugar e o conhecia como a palma de sua mão, isso não sria problema nenhum.



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    Mensagem por Wordspinner em Qua Jun 17, 2020 5:11 pm

    O carro para em frente a sua casa. Ou a casa que já foi sua. Discreta e espaçosa. As plantas na fachada. Você sabe o que tem atrás dos muros. James já parecia saber onde é, mesmo sem você nunca te-lo visto ali. Ele oferece uma bala gengibre e hortelã antes de sair do carro e pega uma para ele. "Diz que eu dei um jeito naquela manifestação. Ninguém vai queimar pneus. Mas vão ocupar a estrada principal, então vão ter que dar a volta para chegar. Os Lobos a Diesel já estão cientes, não precisa avisar. Qualquer coisa liga, cara." Do lado de fora a porta de madeira e ferro escuro te encara impassível.

    Ele espera você sair do carro e se despedir de Axel antes de voltar a acelerar. Ao chegar na porta tudo é familiar. Os cheiros. As cores. A sensação da sua calçada. Porra, ela é sua. Mas alguma coisa lá no fundo te diz que isso não é a sua terra.

    Quando a porta abre já consegue ouvir a voz da mãe. A voz mais baixa e grave do pai se misturando ao que ela fala deixa tudo difícil de entender. Mas ela não tá nada feliz. No quintal na frente da casa a churrasqueira de tijolos cercada de mesas e cadeiras de madeira. Parece que nada mudou. Até a grama perfeitamente aparada. O cheiro de fumaça deve indicar um churrasco recente. "Connor?" A voz do seu pai ecoa de dentro da casa. Em pouco tempo ele vai aparecer na entrada de um jeito ou de outro.
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    Mensagem por Ankou em Qua Jun 17, 2020 6:59 pm






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    Vindo de   High Cup Gill - Cumbria



    Ficou a olhar pra James sem entender muita coisa, como ele sabia onde era sua casa sem o próprio Connor nunca tê-lo visto ali não era segredo algum, não precisava ser um gênio pra descobrir isso, nem era segredo pra ninguém, era um lugar discreto, acima de suspeitas, mas apenas um lugar, o que não entendia era que tipo de recado era aquele que ele passava. – Ok...? – Disse sem entender muita coisa com uma clara dúvida na voz.


    -Fui! Valeu pela carona, e Axel, mais tarde tamo junto. – disse saltando do carro e parando em frente da casa que conhecia tão bem, sentia o cheiro de churrasco relativamente recente, um churrasco que ele não havia nem sido convidado, e nem nunca havia ouvido falar. Aquilo machucava, era como se fosse um estranho no próprio ninho, era como se tivesse duas naturezas dentro dele próprio, uma delas chegava a se sentir incomodada pelo fato de estar ali, um território que não era seu, podia apostar que tinha um monte de espíritos do outro lado olhando pra ele, pra qualquer movimento errado fizerem o possível pra acabar com a sua raça, mas não se atreveu a olhar pra eles, por outro lado seu lado humano se recusava em aceitar que aquilo não era sua casa mais, era como perder um pedaço de sí mesmo.


    A sensação era estranha incômoda em muitos níveis, era algo que nem ele mesmo sabia explicar, mas a tensão se quebra um pouco quando ele escuta a voz do pai chamar pelo seu nome, era como se aquilo lhe jogasse de volta num senso de normalidade, ele parou e passeou um pouco pela frente da casa, deixava sua mãe passear um pouco pela superfície das mesas, até seu pai aparecer na porta. Podia sentir o cheiro dele a metros, sempre o mesmo perfume amadeirado que ele usou durante pelo menos as ultimas duas décadas, ou melhor dizendo, desde que Connor se entendia por gente.


    Ele se aproximou do pai. – E aí meu velho tudo certo? – dizia lhe dando um abraço forte. Tão logo adentraria a sala, mas hesitou quase que de maneira instintiva, já não sabia mais o quão bem vindo era ali, e por mais que houvesse de ter sido convidado, olhou pro pai como se esperasse algum tipo de permissão ou algo assim ficando parado na soleira da porta.



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