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    O Emissário da Morte - Capítulo I

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    Mensagem por JTaguchi em Sex Jun 19, 2020 12:52 pm




    O Emissário da Morte - Capítulo I Obra1f



    Mais um dia de plantão naquele lugar maldito. Hugo poderia reclamar de tédio, mas seria um grande mentiroso: o IML do Rio de Janeiro recebia vários corpos por dia, por um motivo ou outro. Os piores eram as crianças e os inocentes, que nunca faltavam. Os bandidos, por outro lado, eram só mais uma estatística no relatório.

    Ele estava fazendo uma pausa nos fundos, num canto precário onde a construção não tinha sido finalizada e as paredes e o chão ainda estavam no concreto bruto. Era por ali que os caixões saíam em direção aos funerais. Dali, Hugo já tinha visto muita merda, mas era o único lugar onde não ficava exposto ao frio desgraçado do necrotério nem ao fedor de morte que impregnava todos os cantos daquele lugar.

    Respirou fundo, então sentiu o celular vibrar. Era Celso, seu colega de plantão.

    Chega aí, cara. Chegou uma carga nova.

    Por carga nova, entendia-se novos cadáveres. Nas primeiras semanas do estágio, Hugo pensara que dirigir-se desta forma aos mortos era algo desrespeitoso. Três semanas depois, ele já tinha aprendido todo o jargão do lugar.

    Os policiais entraram, carregando alguns corpos em macas. Três, no total. Outro dois desceram, mas vieram de outra forma: carregados de forma desengonçada, como um monte de estrume. Aqueles eram os bandidos, como ele bem aprendera desde que começara a trabalhar. As pessoas que vinham nas macas eram suas vítimas: um último respeito que os carregadores podiam dar a eles.

    Celso já estava ajeitando suas luvas enquanto olhava o policial depositar no chão o último corpo.

    - De onde vieram dessa vez, sargento? - indagou.  - Rocinha? Maré? Alemão?

    O sargento barrigudo largou o saco no chão e limpou o suor da testa.

    - Nenhum dos três. - respondeu. - Veio da PUC. Esses dois malditos entraram no campus e saíram atirando em todo mundo. Tem pelo menos uns sete no hospital. Felizmente, tinha um caveira de folga por lá que empacotou esses putos.

    História interessante. Pena que significava mais trabalho pela frente.
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    Mensagem por Freak(out) em Sex Jun 19, 2020 2:55 pm


    O canto era escuro, desprovido de qualquer beleza arquitetônica. Na verdade, parecia uma gruta, onde do lado podia se ver alguns bancos de madeira, tão crus e toscos quanto as paredes ao redor. Em um desses bancos encontrava-se Hugo, o legista novato. Ele já tinha almoçado e agora aproveitava o resto de sua pausa, com um olhar cabisbaixo e fixo em uma pecinha de metal que girava entre os dedos sem qualquer ânimo. Era parte de um esguichador que ele fez para matar o tédio, mas para esguichar o que ele não sabia; afinal já não era mais criança para sair brincando de esguichar água nos outros.

    Ele permaneceu assim, recluso, calado e estático até que o celular vibrou. Mensagem de Celso, colega de profissão.

    “Chega aí, cara. Chegou uma carga nova.”

    Se referir aos mortos como carga incomodava Hugo. Três semanas depois naquele lugar, ele já fazia a mesma coisa.

    “Carga nova…É. O trabalho de fato nunca termina aqui.”

    Quando Hugo chegou ao necrotério, Celso já ajeitava suas luvas. Os policiais carregavam alguns corpos em macas, e outros corpos eles carregavam de qualquer jeito, como se fossem algo menos digno do que merda ou lixo. Não era difícil adivinhar quem eram as vítimas e quem eram os bandidos. Três vítimas e dois bandidos. Cinco corpos no total.

    –De onde vieram dessa vez, sargento? – indagou Celso. – Rocinha? Maré? Alemão?

    “E isso importa?”

    – Nenhum dos três – respondeu o sargento de barriga tão protuberante quanto uma grávida. –Veio da PUC. Esses dois malditos entraram no campus e saíram atirando em todo mundo. Tem pelo menos uns sete no hospital. Felizmente, tinha um caveira de folga por lá que empacotou esses putos.

    – Menos mal – disse Hugo, em um tom tão calmo e neutro que foi difícil perceber que ele começou a falar. – Dê os parabéns ao policial por mim, sargento. Vou ter um carinho especial com as vítimas. Eu prometo.

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    Mensagem por JTaguchi em Sex Jun 19, 2020 4:05 pm

    Hugo escreveu:– Menos mal – disse Hugo, em um tom tão calmo e neutro que foi difícil perceber que ele começou a falar. – Dê os parabéns ao policial por mim, sargento. Vou ter um carinho especial com as vítimas. Eu prometo.

    Celso franziu a testa ao ouvir o comentário. Era certo que o trabalho de legista era cansativo, desgastante e psicologicamente complicado. O de policial, mais ainda. No entanto, aquela calmaria não costumava ser vista em legistas novatos.

    O sargento olhou para o jovem e assentiu.

    - Bom trabalho, doutor. - falou. - Foda, viu. Os três eram funcionários da escola. Um segurança, um funcionário da cantina e um professor. Nenhum aluno, pelo menos não ainda. Os dois meliantes vão ter enterro com caixão lacrado, certeza. O caveira estava com a mira em dia.

    Celso decidiu pôr um fim na conversa com um gesto.

    - Tudo bem, sargento. - interrompeu. - Agora nos deixe trabalhar. Nossa sorte é que a Letícia não está por aqui.

    Letícia era a chefe do necrotério e a criatura mais irritante que Hugo conhecia. Se estivesse ali, com certeza estaria se acabando de chorar pela morte de dois bandidos. A filha da puta era uma ativista convicta, e o novato agradecia todos os dias por quase nunca ter plantões com ela.

    Abriram os sacos. Hugo, por ser o novato, já tinha entendido que o pior trabalho ficava com ele. Por isso, tirou os dois atiradores do saco e os colocou na gaveta, com a ajuda do colega. Analisando os corpos, era fácil saber que o sargento não tinha exagerado na história.

    - Hugo, meu horário de almoço começa agora. - avisou Celso. - A gente se vê daqui a pouco.

    Pelo menos era melhor assim, em silêncio. Celso era um irritante torcedor do Fluminense que não calava a boca quando o assunto era futebol.

    O primeiro meliante abriu os olhos assim que Hugo se viu sozinho. Era um rapaz negro de cerca de vinte anos. Usava roupas largas, típicas de um membro da tribo do rap. Várias tatuagens pelo corpo e uma em especial, no peito: uma estrela de cinco pontas. O estranho é que esta tatuagem não tinha sido feita com pigmentação - fora entalhada na pele de uma forma bem dolorosa.

    - E aí, moleque. - cumprimentou. - Curtiu meu novo visual?

    Ele sorriu. O tiro tinha varado seu olho direito, destruindo tudo que tinha em volta. Tiro de pistola, como Hugo bem sabia: balas de pistola não atravessavam a cabeça. O globo ocular simplesmente fora destruído. A cavidade afundara com a força do impacto, criando um rombo quase do tamanho de um limão. A bala entrara bem fundo no cérebro, rasgando e queimando toda a carne em volta até a região central. Era possível perceber que o disparo foi feito numa distância relativamente curta: a força do tiro foi tanta que quebrou o pescoço do rapaz ao fazê-lo ervergar para trás. Não era uma visão agradável, mas um agente funerário talentoso poderia tentar dar um jeito nisso.

    - Porra, cara, eu não esperava topar com um filho da puta daqueles. - disse o rapaz. - Minha mãe vai ficar fula da vida quando souber. Atirar é mais difícil do que parece, sabia? Os moleques de Columbine fizeram parecer fácil.

    Fechou a gaveta. Sem mais conversas com o caolho.

    O outro estava numa situação bem mais complicada.

    - Tu gosta de uma conversa, né doutor? - indagou o defunto. Não dava para saber sua expressão. - Eu sei que tu não tá vendo minha cara direito, mas eu estou sorrindo.

    Hugo fez uma careta.

    - Porra, doutor, o polícia acabou com a minha graça. - contou. - Três tiros, mano. Olha só como as balas ficaram agrupadas. O bicho tem a mão firme. Os tiros entraram com tudo aqui, pouco abaixo do meu olho esquerdo. Quebraram toda a metade esquerda do meu crânio. Uma delas destruiu meu nariz e o meu céu da boca. A outra varou minha bochecha, arrebentou minha língua e saiu do outro lado. A última pegou aqui no maxilar. Olha como a minha boca está pendendo. Não consigo ficar de boca fechada, caralho. Minha mandíbula está quase caindo, e isso não vai ser bonito de ver. Caveira filho da puta. Estragou meu funeral.

    Ele também tinha a mesma tatuagem, só que nas costas.

    Os outros cadáveres se viraram para Hugo. Os olhos sem vida o fitavam sem piscar.

    - Eles nos mataram, doutor. - disse um deles, uma senhora de uns quarenta anos. - Acabou pra nós. Pelo menos eles foram junto.

    É. Pelo menos.

    Rolagens:
    Hugo - Inteligência 3 + Medicina 3 + Equipamento 2: 8, 8, 6, 6, 4, 3, 2, 1: 2 Sucessos.

    Hugo - Inteligência 3 + Medicina 3 + Equipamento 2: 10, 8, 7, 6, 5, 5, 5, 4, 6: 2 Sucessos.
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    Mensagem por Freak(out) em Sex Jun 19, 2020 4:39 pm


    – Bom trabalho, doutor – falou o sargento. – Foda, viu. Os três eram funcionários da escola. Um segurança, um funcionário da cantina e um professor. Nenhum aluno, pelo menos não ainda. Os dois meliantes vão ter enterro com caixão lacrado, certeza. O caveira estava com a mira em dia.

    Hugo prestava atenção no policial enquanto analisava o corpo. Não se incomodava com o que ouvia. Na verdade, era muito melhor ouvir o sargento do que as futilidades do Celso sobre o time do coração dele. Aquilo era mais nauseante que defunto despedaçado.

    – Tudo bem, sargento – interrompeu Celso. – Agora nos deixe trabalhar. Nossa sorte é que a Letícia não está por aqui.

    – Até mais, sargento. A gente se vê – falou Hugo, com um aceno.

    Celso tinha sido um pouco rude, mas ele tinha certeza quanto a Letícia. Ninguém ia aguentar outro discursinho patético dela sobre sua causa. Tinha sido mesmo uma boa sorte ela não estar lá.

    – Hugo, meu horário de almoço começa agora – visou Celso. – A gente se vê daqui a pouco.

    – Beleza, cara. Vai lá. Eu cuido daqui.

    “Assim você fica com a porra da boca calada.”

    Hugo sabia que não ia conseguir apreciar o silêncio por muito tempo. Ele sabia o que acontecia quando ficava sozinho no necrotério com aqueles cadáveres.

    – E aí, moleque – cumprimentou. – Curtiu meu novo visual?

    “Exatamente isso.”

    Lá estava um dos atiradores, sentado na maca e sorrindo para Hugo, com o olho direito estourado pelo projétil. Era como um túnel. O disparo à curta distância havia causado um estrago e tanto, permitindo Hugo analisar cada detalhe daquela carniça ao redor do cérebro e do pescoço.

    – Ponta oca, hein? – falou Hugo calmamente, passando o dedo ao redor do rombo que o projétil havia deixado. – O que você quer que eu diga, cara? Você mereceu…

    O morto continuou, simplesmente ignorando o que Hugo havia dito.

    – Porra, cara, eu não esperava topar com um filho da puta daqueles – disse o rapaz. – Minha mãe vai ficar fula da vida quando souber. Atirar é mais difícil do que parece, sabia? Os moleques de Columbine fizeram parecer fácil.

    “É inútil falar com eles. Não sei por que eu ainda tento…”

    Hugo se impressionou como aquele pé rapado conseguiu pronunciar Columbine certo, e então fechou a gaveta, mas ele não se calou.

    – Tu gosta de uma conversa, né doutor? – indagou o defunto. Não dava para saber sua expressão. – Eu sei que tu não tá vendo minha cara direito, mas eu estou sorrindo.

    Hugo tentou ignorar, mas ele não parava de falar. Era difícil não retrucar as babaquices de um bandido idiota que teve o que mereceu e ainda chora como se fosse a vítima.

    – Porra, doutor, o polícia acabou com a minha graça – contou. – Três tiros, mano. Olha só como as balas ficaram agrupadas. O bicho tem a mão firme. Os tiros entraram com tudo aqui, pouco abaixo do meu olho esquerdo. Quebraram toda a metade esquerda do meu crânio. Uma delas destruiu meu nariz e o meu céu da boca. A outra varou minha bochecha, arrebentou minha língua e saiu do outro lado. A última pegou aqui no maxilar. Olha como a minha boca está pendendo. Não consigo ficar de boca fechada, caralho. Minha mandíbula está quase caindo, e isso não vai ser bonito de ver. Caveira filho da puta. Estragou meu funeral.

    – Eu sei. Eu sou legista. Eu vi o que os tiros fizeram com você. E acho que você não vai ficar tão animado para conversar quando cruzar. Duvido muito que o diabo goste de rap, meu caro…

    A ameaça do inferno pareceu causar efeito naquele meliante, pois ele se calou, mas os outros não. Todos eles se levantaram, começaram a falar e a encarar Hugo – de novo, como sempre acontecia.

    – Eles nos mataram, doutor – disse um deles, uma senhora de uns quarenta anos. – Acabou pra nós. Pelo menos eles foram junto.

    – Eu sinto muito – disse Hugo, beijando a testa da senhora bem no buraco do tiro, sentindo gosto de sangue e pólvora. – Eu gostaria de poder fazer algo, mas nessas circunstâncias não há mais nada do que eu possa fazer – disse, enquanto limpava o sangue da boca. – Foi como você disse: pelo menos eles estão indo junto.

    “E isso é o bastante?”
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    Mensagem por JTaguchi em Sab Jun 20, 2020 9:52 am

    Uma semana depois, e o inferno tinha se instalado na terra.

    Não que o Rio de Janeiro não fosse naturalmente quente como o inferno - entre outras semelhanças dantescas -, mas o massacre da PUC estava alcançando proporções ridículas. Entre gente que esbravejava o famoso bandido bom é bandido morto e gente que queria a qualquer custo minimizar a culpa de dois assassinos, Hugo viu as opiniões mais idiotas e descabidas possíveis. Havia, lá no fundo, o desejo por ter feito alguma coisa por aqueles inocentes que estavam no lugar errado e na hora errada. Porém, ele não conseguia entender como um legista poderia fazer alguma diferença, já que seu trabalho se resumia a examinar os corpos depois que a desgraça já estava feita.

    Estava de folga. Dedicava-se aos seus pequenos hobbies, que ultimamente tinham sido deixados de lado por causa do trabalho. Ser o novato significava ficar com os piores trabalhos do lugar e quando deixava o IML em direção à sua casa, era bom saber que não precisaria se preocupar com isso durante as próximas quarenta e oito horas.

    O celular apitou, anunciando uma mensagem. Hugo franziu a testa: era Celso. Ele também estava de folga, o que tornava a situação ainda mais constrangedora. Celso era um típico carioca: gostava de pagode, futebol, praia e cerveja ruim. Uma mensagem dele no dia de folga o remetia a esta combinação horrenda e o fazia ter arrepios. Precisava de uma desculpa para não sair de casa - ou, pelo menos, não na companhia dele.

    Celso escreveu:Cara, desculpa mandar mensagem na folga. Acontece que eu preciso te mostrar uma parada muito esquisita que o Gil me mandou hoje. Coisa confidencial, viu. Não mostra pra ninguém.

    A próxima mensagem era a foto de um laudo emitido pelo IML, com o carimbo dele. Ao analisar a imagem, Hugo descobriu tratar-se do laudo de um dos autores do massacre. Ele se lembrava do que tinha escrito, já que o caso era bem conhecido. No entanto, havia alterações ali: da maneira como tinha sido registrado, o documento denunciava violência excessiva por parte do policial, como se ele tivesse imobilizado o rapaz e então atirado em sua cabeça três vezes, numa execução covarde que certamente poderia render uma expulsão.

    Mais uma mensagem de Celso.

    Celso escreveu:Eu sei que você não escreveu isso, mano. Eu vi seu relatório. Está sacando o que eu quero dizer?
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    Mensagem por Freak(out) em Sab Jun 20, 2020 10:20 am


    Hugo contemplava a tela do seu computador enquanto bebia um copo de café. Seus olhos procuravam algum tipo de erro de sintaxe ou semântica naquela tela preta. O editor vim, aberto em um emulador de terminal no seu gnu/linux, exibia um código-fonte em C com pitadas de Assembly para arquitetura intel x86_64. Ele estava fazendo alguns testes com syscalls para ver como o kernel reagia a determinadas situações – em outras palavras, estava buscando vulnerabilidades de segurança…

    O celular vibra indicando uma nova mensagem. Hugo decide ignorar por enquanto.

    Hugo sorriu quando percebeu que tudo estava impecável. Código bem comentado, bem indentado, com porções de lógica isoladas em vários headers. A implementação estava boa, otimizada e fácil de entender. Ele iria tentar refatorá-la mais um pouco depois, mas por agora estava bom.

    “Vamos lá… yasm, ld e gdb.”

    Ele se sentia bem. Analisar as entranhas de um software era muito mais prazeroso do que analisar as entranhas de um cadáver – principalmente porque, no caso do software, Hugo poderia arrumar o problema caso houvesse algum.

    Foi então que ele viu a mensagem. Era de Celso, que também estava de folga.

    – Ah, por favor… Não me faça inventar uma desculpa para te dispensar…

    Mas dessa vez não era nenhuma bobagem. A mensagem de Celso fez Hugo esquecer o seu “bebê em baixo nível”.

    Cara, desculpa mandar mensagem na folga. Acontece que eu preciso te mostrar uma parada muito esquisita que o Gil me mandou hoje. Coisa confidencial, viu. Não mostra pra ninguém.

    Quando a imagem do laudo apareceu, Hugo perdeu completamente a cor da pele. De um rubro natural ficou branco, depois azul e então vermelho colérico.

    Eu sei que você não escreveu isso, mano. Eu vi seu relatório. Está sacando o que eu quero dizer?

    “Filhos da puta…”

    Hugo começou a digitar rapidamente – mais rápido do que já costumava.

    Mensagem escreveu:Alguém adulterou esse documento de forma descarada. Quem fez isso?! Foi a Letícia?! Isso é ilegal, como você bem sabe…

    Hugo tentava manter a calma, mas ele já sentia tanto ódio que sua respiração estava ofegante e suas mãos tremiam.

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    O Emissário da Morte - Capítulo I Empty Re: O Emissário da Morte - Capítulo I

    Mensagem por JTaguchi em Sab Jun 20, 2020 11:23 am

    Hugo estava perplexo. Primeiro, tinha tido seu momento de folga com o computador interrompido. Segundo, porque tinham adulterado descaradamente o laudo da morte do filho da puta. Celso enviou mais uma mensagem.

    Celso escreveu:O outro laudo também teve o mesmo destino. Os dois estão dizendo que os filhos da puta foram executados de forma covarde ao invés de mortos em ação. Sabe o que isso significa, né? O policial que fez isso pode ser expulso, e a culpa é de alguém daqui. Eu sei que não é sua, mas não temos como provar se a Letícia fez isso ou não.

    As coisas estavam bem complicadas. Hugo sabia o que estavam falando na mídia - o policial executara dois jovens rendidos sem dar voz de prisão a eles. O vereador Marcelo Fraga estava usando toda a sua influência e eleitorado para pressionar a polícia para expulsar o cara e havia a suspeita de que policiais corruptos ligados à milícia também estariam de acordo com aquela ação. A pior parte era pensar que aquilo poderia cair em suas costas.

    Ele digitou algumas coisas a esmo no computador, então se deparou com a chamada de uma matéria de jornal em caixa alta:

    EM LAUDO, POLÍCIA CONCLUI QUE OS JOVENS DO TIROTEIO DA PUC FORAM EXECUTADOS, POLICIAL DEVE SER EXPULSO.
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    Mensagem por Freak(out) em Sab Jun 20, 2020 11:42 am


    EM LAUDO, POLÍCIA CONCLUI QUE OS JOVENS DO TIROTEIO DA PUC FORAM EXECUTADOS, POLICIAL DEVE SER EXPULSO.


    Quando Hugo leu isso, ele começou a tirar printscreen de toda a conversa com Celso. As mensagens trocadas, a foto do laudo, tudo serviria como evidência. Ele não respondeu mais Celso, mas fez de tudo para conseguir o número do sargento e então enviou a seguinte mensagem:

    Mensagem escreveu:“Sargento, aqui é o Hugo do IML. Sargento, alguém adulterou o meu laudo, escreveu aquele monte de merda e desconfio que seja a Letícia, minha superior. Sargento, o senhor precisa acreditar em mim. Eu não escrevi aquelas baboseiras, e tenho provas ao meu favor. Veja o senhor mesmo.”

    Ele então enviou as imagens de printscreen da conversa entre Celso e ele, além das fotos que Celso mandou dos laudos adulterados. Quando terminou, ele sentou atônito na cama e, com o celular ainda em mãos, permaneceu estático.

    “E agora… Que porra eu vou fazer? Um bom sujeito vai perder o emprego por algo que eu nem mesmo fiz?!”

    Foi então que ele, tomado de raiva, não pensou duas vezes. Ele sabia o e-mail da Letícia, sabia o número dela e, sem pensar duas vezes, tomou todas as precauções para ficar anônimo. Ele iria hackeá-la e, se tivesse alguma evidência registrada de que ela adulterou o laudo, ele iria mandá-la direto para o sargento.

    – Se depender de mim… É você que vai para a cadeia, sua desprezível – disse, com um sorriso de sadismo brotando no rosto. Ele sabia que invasão de privacidade também era crime, mas se ele pudesse virar o joguinho de Letícia contra ela, ele correria o risco.
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    Mensagem por JTaguchi em Sab Jun 20, 2020 7:56 pm

    Hugo sentiu que a situação estava tomando uma nova proporção. De repente, seu laudo tinha sido adulterado, dois assassinos eram retratados como vítimas e um herói estava a ponto de ter sua carreira destruída por causa daquilo. Se não fizesse alguma coisa logo, tudo poderia ir pelos ares.

    Começou a digitar as primeiras teclas. Ia hackear Letícia, vasculhar seu computador até encontrar alguma coisa. Se conseguisse... ela estava fodida.

    Do nada, um pensamento macabro ocorreu em sua mente. Lá fora, o sol já começava a se pôr, anunciando a chegada da noite. Da sala, dava para ver a porta da sala, que dava para um corredor comprido e silencioso, geralmente o lugar onde ele mais encontrava seus vizinhos. Um barulho veio da varanda, chamando sua atenção. Hugo tirou os fones de ouvido e ficou olhando para os lados, sentindo os pêlos da nuca se eriçarem num prenúncio de tragédia. Não estava acostumado com aquilo, mas sabia que alguma merda estava prestes a acontecer.

    Um som vindo da cozinha chamou sua atenção. De trás da bancada que separava a sala da cozinha, ele viu alguma coisa se movimentando. Um vulto passou por sua visão periférica, mas ele não conseguiu reagir a tempo: uma mão tapava sua boca enquanto outra o mantinha imobilizado na cadeira.

    - Quietinho, doutor. - sussurrou uma voz feminina em seu ouvido, num tom debochado e bastante intimidador. - Mãozinhas pra cima, onde eu posso ver. Vou soltar se você prometer ser um bom menino.

    Era isso. Ele estava oficialmente fodido.

    Rolagens:
    Hugo - Raciocínio 3 + Autocontrole 2: 10, 9, 9, 6, 4, 4: 3 Sucessos.
    Intrusa - Força 3 + Briga 4: 9, 9, 8, 8, 7, 5, 3: 4 Sucessos.
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    O Emissário da Morte - Capítulo I Empty Re: O Emissário da Morte - Capítulo I

    Mensagem por Freak(out) em Sab Jun 20, 2020 8:49 pm


    A adrenalina começou a subir a cada tecla digitada. Letícia era estúpida o suficiente para usar alguma senha pateticamente óbvia, logo o ataque de força bruta não deveria demorar muito – na pior das hipóteses ele poderia tentar um phishing ou algo mais sofisticado.

    O programa começou a rodar. A noite começava a tomar o lugar do céu e, por alguma razão, algo começou a incomodá-lo. Sentiu a pele da nuca se arrepiar e sua visão se voltou para a porta do corredor. Ele tirou o fone, dividindo sua atenção entre a tela do monitor e a porta. Contudo um barulho vindo da varanda ganhou totalmente sua atenção, fazendo seu coração acelerar.

    “Que porra…”

    Ele chegou a ver o vulto investir contra ele, mas não conseguiu reagir ou gritar. Em um instante estava imobilizado e com a boca tampada.

    – Quietinho, doutor – sussurrou uma voz feminina em seu ouvido, num tom debochado e bastante intimidador. – Mãozinhas pra cima, onde eu posso ver. Vou soltar se você prometer ser um bom menino.

    Hugo nada podia fazer. Ele lentamente ergueu as mãos para cima, em sinal de rendição. Nessas horas a única coisa que ele podia fazer era manter a calma e tentar dialogar com a invasora. Não era uma ladra comum, tampouco uma assassina, senão ele já teria sido roubado e morto. Era algo mais… especial.
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    O Emissário da Morte - Capítulo I Empty Re: O Emissário da Morte - Capítulo I

    Mensagem por JTaguchi em Sab Jun 20, 2020 9:13 pm

    Hugo foi esperto e não reagiu. Com as mãos para cima em sinal de rendição, mostrou que estava desarmado e não pretendia ser nenhum presunto naquela noite.

    - Muito bem - ela elogiou e soltou-o do aperto. - Pode virar.

    Ele obedeceu. Diante dele, estava uma jovem morena. Ela usava um gorro preto que cobria seus cabelos, uma blusa branca surrada e calças largas. Tinha um aspecto desleixado e um ar levemente arrogante e hostil, mas não portava nenhuma arma. Em algum momento da vida, quando não estivesse invadindo sua casa, ele poderia pensar que era uma garota bonita.

    - Não vim aqui te machucar, nem te roubar. - disse. - Mas se quiser continuar vivo, me siga. Não tenho tempo pra explicar agora.

    Ela abriu a porta da sala, que dava para o corredor.

    - Vamos usar a saída de emergência.

    Os dois desceram as escadas em direção aos fundos do prédio. Na calçada, ela indicou um carro parado na rua e abriu a porta.

    - Entra, doutor. Rápido. - falou, num tom ríspido. - Não temos a noite toda.

    Uma vez do lado de dentro, a garota deu partida e virou na primeira esquina, dando uma volta no quarteirão. Apontou para dois carros que estavam parados na frente do prédio.

    - Estavam te esperando. - contou. - E tinha um cara no prédio pronto pra arrombar sua porta, te estrangular com um arame e armar uma cena de suicídio, como se você fosse um viciado. Acabei de impedir todas essas merdas, então acho que mereço um crédito e que você me obedeça sem fazer graça. Eu gosto de ficar por cima, doutor. Não se esqueça disso. Agora me conta o que está pegando.
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    O Emissário da Morte - Capítulo I Empty Re: O Emissário da Morte - Capítulo I

    Mensagem por Freak(out) em Sab Jun 20, 2020 9:35 pm


    – Muito bem – ela elogiou e soltou-o do aperto. – Pode virar.

    Hugo se surpreendeu com o que vira. Dava para notar que era jovem, apesar de estar com o rosto coberto por capuz. Era um pouco desleixada, um pouco rude e um pouco arrogante, mas, ainda assim, parecia ser uma garota bonita.

    – Não vim aqui te machucar, nem te roubar – disse. – Mas se quiser continuar vivo, me siga. Não tenho tempo pra explicar agora.

    Hugo não sabia se ela falava a verdade, mas não estava em posição de nada. Ele não tinha escolha a não ser obedecer aquela jovem. Ele a seguiu enquanto ela abria a porta para o corredor.

    – Vamos usar a saída de emergência.

    Hugo nada disse, apenas se manteve atrás dela, seguindo-a como se fosse sua sombra.

    Eles desceram pela escada de incêndio e, assim que colocaram os pés na calçada, ela indicou um carro que estava parado próximo deles.

    – Entra, doutor. Rápido – falou, num tom ríspido. – Não temos a noite toda.

    Hugo não se incomodava com o tom da garota. Ela certamente poderia tê-lo matado se quisesse e não parecia estar mentindo, afinal ela não precisaria fazer todo aquele teatro se quisesse prejudicá-lo de alguma forma.

    Ela deu a partida, deu uma volta completa no quarteirão e então apontou para dois carros parados.

    – Estavam te esperando – contou. – E tinha um cara no prédio pronto pra arrombar sua porta, te estrangular com um arame e armar uma cena de suicídio, como se você fosse um viciado. Acabei de impedir todas essas merdas, então acho que mereço um crédito e que você me obedeça sem fazer graça. Eu gosto de ficar por cima, doutor. Não se esqueça disso. Agora me conta o que está pegando.

    Hugo não sabia o que ou quanto poderia falar, não sabia quem era ela e tampouco sabia se ela era mesmo confiável, mas agora não tinha volta.

    – Bem, valeu por salvar minha vida em primeiro lugar – disse, mantendo o tom calmo. – Agora sobre o que tá pegando, é o seguinte: algum filho da puta de dentro do IML adulterou o meu laudo para condenar as ações do policial como se ele fosse o errado da coisa toda, mas não foi o que aconteceu. Eu liguei para o sargento, mandei provas do que tinha acontecido e estava prestes a procurar mais evidências quando você apareceu. Eu desconfio que a pessoa que adulterou o laudo se chama Letícia.

    Hugo então fez uma pausa e encarou os carros que a garota apontou

    – Chegar ao extremo de me matar? Eu só mexo com gente morta no necrotério. Quem eu poderia ter irritado a esse ponto?
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    Mensagem por JTaguchi em Ter Jun 23, 2020 11:29 am

    A garota ficou quieta enquanto ele falava. Segurava no volante de forma tensa, olhando para os lados e sacudindo a perna de forma impaciente enquanto eles esperavam um sinal abrir num cruzamento.

    Hugo escreveu:– Bem, valeu por salvar minha vida em primeiro lugar – disse, mantendo o tom calmo. – Agora sobre o que tá pegando, é o seguinte: algum filho da puta de dentro do IML adulterou o meu laudo para condenar as ações do policial como se ele fosse o errado da coisa toda, mas não foi o que aconteceu. Eu liguei para o sargento, mandei provas do que tinha acontecido e estava prestes a procurar mais evidências quando você apareceu. Eu desconfio que a pessoa que adulterou o laudo se chama Letícia.

    Ela franziu a testa e manteve os olhos no trajeto, os dedos tamborilando no volante de forma compulsiva.

    - Até onde sei, o laudo já foi divulgado, não é? - perguntou. - Nesse caso, não adianta mais. O policial vai ser expulso, e se você quiser salvar sua vida, vai ter que ficar quieto sobre isso. Até porque, existem outras pessoas envolvidas e você vi precisar fingir que não sacou a brincadeira caso queira que eles continuem vivos.

    A garota estacionou o carro em frente a uma lanchonete. Fez sinal para que Hugo a acompanhasse e foi até o balcão pedir um salgado e uma garrafinha de coca. Enquanto sugava o refrigerante pelo canudo, respirou fundo. Deu uma mordida numa coxinha gordurosa.

    - Estou faminta, desculpa. - disse. - E além disso, acho que o perigo já passou. Mas você vai precisar seguir algumas instruções se quiser continuar vivo.

    Fez uma pausa, mordeu de novo.

    - Finge que você não entendeu porra nenhuma. - disse. - Não tente conduzir nenhuma investigação clandestina debaixo do nariz dos seus colegas. Se essa tal Letícia realmente adulterou o laudo, então eu tenho que te avisar que ela é muito mais perigosa do que parece. Vai por mim, cara: eles vão ficar te vigiando por umas semanas, garantindo que você está se comportando e não fazendo nada suspeito e só então vão sair da sua cola. Você contou isso pra alguém?

    Era estranho, mas até agora ela não tinha falado seu nome.
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    Mensagem por Freak(out) em Ter Jun 23, 2020 12:20 pm

    – Até onde sei, o laudo já foi divulgado, não é? – perguntou. – Nesse caso, não adianta mais. O policial vai ser expulso, e se você quiser salvar sua vida, vai ter que ficar quieto sobre isso. Até porque, existem outras pessoas envolvidas e você vi precisar fingir que não sacou a brincadeira caso queira que eles continuem vivos.

    Ela então estacionou o carro ao lado de uma lanchonete e fez sinal para que o médico fosse junto com ela.

    – Estou faminta, desculpa –  disse. – E além disso, acho que o perigo já passou. Mas você vai precisar seguir algumas instruções se quiser continuar vivo.

    Quando ela pediu um salgado e um refrigerante, Hugo fez a mesma coisa e disse:

    – Deixa que eu pago. É o mínimo que eu posso fazer por você ter me tirado daquela encrenca.

    Entre algumas pausas e mordidas, a conversa seguia.

    – Finge que você não entendeu porra nenhuma – disse. – Não tente conduzir nenhuma investigação clandestina debaixo do nariz dos seus colegas. Se essa tal Letícia realmente adulterou o laudo, então eu tenho que te avisar que ela é muito mais perigosa do que parece. Vai por mim, cara: eles vão ficar te vigiando por umas semanas, garantindo que você está se comportando e não fazendo nada suspeito e só então vão sair da sua cola. Você contou isso pra alguém?

    – Eu cheguei a avisar o sargento de que o laudo foi adulterado, inclusive mandei para ele registros de uma conversa que comprovava isso, mas tudo bem, se não há mais nada que eu possa fazer por agora sobre isso, vou entrar no jogo – disse, em um humor soturno e relutante.

    Hugo terminou rápido sua refeição, mas não por medo. Naquela cidade ele aprendeu a perder o medo da morte há muito tempo.

    – É bem provável que eu vou ter que mudar de apartamento. Sei que isso só vai me dar uma falsa sensação de segurança, mas é melhor do que nada. Quanto à investigação, não se preocupe. Vou me fazer de sonso e não tocar mais no assunto. Vou bancar o bom garoto que não sacou nada. Eu tenho outros interesses que posso usar para ocupar meu tempo... Acho que vou voltar... a criar alguns brinquedos.

    O tom na voz de Hugo era calmo e ambíguo demais para alguém que quase foi morto. Ou ele era muito sangue frio, ou era louco. Ele então olhou para a garota e deu o primeiro sorriso.

    – Não vou me envolver. Prometo. E tem mais uma coisa: se precisar de algo, pode me procurar. Vai ser um prazer retribuir o favor. Eu te daria meu número, mas você já mostrou que pode me achar sem nada disso.

    Ele deu um tapinha amigável no ombro na garota, girou nos calcanhares e disse quando já alcançava a porta:

    – Obrigado, moça! A gente se vê por aí!
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    Mensagem por JTaguchi em Qua Jun 24, 2020 11:31 am

    Hugo escreveu:– Eu cheguei a avisar o sargento de que o laudo foi adulterado, inclusive mandei para ele registros de uma conversa que comprovava isso, mas tudo bem, se não há mais nada que eu possa fazer por agora sobre isso, vou entrar no jogo – disse, em um humor soturno e relutante.

    A garota ouviu enquanto pingava pimenta na coxinha. Parecia preocupada.

    - Dê um jeito de apagar essas mensagens. - disse. - Caso contrário, a vida deles também corre perigo. Infelizmente, o policial está fora do meu alcance, mas se você conseguir manter pessoas inocentes fora disso, melhor. Os filhos da puta que estão do outro lado não têm tantos pudores assim.

    Hugo escreveu:– É bem provável que eu vou ter que mudar de apartamento. Sei que isso só vai me dar uma falsa sensação de segurança, mas é melhor do que nada. Quanto à investigação, não se preocupe. Vou me fazer de sonso e não tocar mais no assunto. Vou bancar o bom garoto que não sacou nada. Eu tenho outros interesses que posso usar para ocupar meu tempo... Acho que vou voltar... a criar alguns brinquedos.

    Ela sacudiu a cabeça, inclinando-se em sua direção. Na lanchonete, clientes e funcionários se ocupavam com seus afazeres sem ter ideia do tom daquela conversa.

    - Recomendo que faça isso mesmo. - ela concordou. - Mas espere algumas semanas para fazer isso. Se você se mudar agora, vai admitir que está fazendo alguma coisa e aí o cerco vai fechar em cima de você. Se quiser realmente manter seu disfarce, espere mais alguns meses e se mude depois, de forma mais despretensiosa.

    Ele citou alguns brinquedos. Em resposta, ela apenas franziu a testa e deu um sorriso debochado.

    - Que tipo de brinquedos você faz? Um negócio tipo 50 Tons de Cinza?

    Hugo sinalizou que estava indo embora. Levantou-se e pagou a conta. Ela continuou sentada, olhando para ele com certa suspeita. Acabou acompanhando-o até a saída.

    Hugo escreveu:– Não vou me envolver. Prometo. E tem mais uma coisa: se precisar de algo, pode me procurar. Vai ser um prazer retribuir o favor. Eu te daria meu número, mas você já mostrou que pode me achar sem nada disso.

    – Obrigado, moça! A gente se vê por aí!

    Pela primeira vez desde que se encontraram, ela deu um meio sorriso. Ainda parecia meio tensa, mas estava mais relaxada do que antes. Agora, depois daquela conversa, Hugo conseguia ver que a garota que invadira sua casa era mais parecida com uma dançarina de hip hop do que com uma assassina.

    - Pode deixar, doutor. - ela respondeu, dando um soco em seu ombro. - Se precisar de alguma coisa, vou invadir seu apê de novo. Não se preocupa. Eu te acho quando precisar.

    O encontro foi rápido e o deixou com a pulga atrás da orelha. Quem era aquela garota? Onde tinha aprendido tudo aquilo? O que ela fazia? Eram perguntas demais e respostas de menos.

    Chamou um uber para casa. No caminho, pensou em todas as merdas que tinham sido evitadas naquele dia. Sentiu-se estranhamente cansado. Quando estacionou, percebeu que nenhum dos carros que a garota tinha apontado estavam nas redondezas. Seu apartamento estava intacto, exatamente da forma como tinha deixado. Só então que percebeu que, sem que ele percebesse, ela tinha posto algo no bolso de sua calça.

    Uma rosa vermelha.
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    Mensagem por Freak(out) em Qua Jun 24, 2020 2:28 pm


    Ele foi tomando nota de tudo o que ela dizia. Tentando manter a coisa discreta, ele se limitava a falar “sim” ou “certo” de forma baixa, ou apenas balançar a cabeça afirmativamente. Quando ela falou em apagar as mensagens, o único jeito que ele imagina seria hackeando o smartphone do sargento – fosse remotamente ou fosse tentando algo mais ousado pessoalmente, com engenharia social e um malware adequado.

    – Que tipo de brinquedos você faz? Um negócio tipo 50 Tons de Cinza?

    Hugo segurou-se para não rir. Ele gostava de pessoas que conseguiam manter o clima descontraído, independente da merda que estava acontecendo.

    – Vou fazer suspense quanto ao tipo – disse, em tom de brincadeira. – Mas se me visitar de novo, acho que vai se surpreender. Podem ser mais úteis do que parece.

    – Pode deixar, doutor – ela respondeu, dando um soco em seu ombro. – Se precisar de alguma coisa, vou invadir seu apê de novo. Não se preocupa. Eu te acho quando precisar.

    Hugo deixou a lanchonete e seu tom soturno retornou. Agora ele não tinha tensão nos olhos, mas sim uma frieza mórbida.  Ele não sabia quem era aquela garota. Por algum motivo, ele sabia que, se perguntasse o nome, ela não falaria o verdadeiro. Ela entrou no apartamento dele e o salvou. Mas como ficou tão boa? Onde aprendeu tudo aquilo? Bem, não importa. O que importa agora é...

    “Você matá-los, seu filho da puta!”

    Ele parou e se assustou. Ainda estava na rua e aquela frase saiu da boca dele, com outra voz. Então ele escutou uma voz debochada dizendo para ele “Você não vai deixar isso barato, não é?”, e então outra respondeu “São essas pessoas que não te dão paz no trabalho. São elas que garantem seus papinhos com quem não deveria mais estar aqui”.

    Hugo respirou fundo, sacudiu a cabeça e e acalmou. As vozes pararam de falar. Ele tinha que se concentrar em fazer as próximas tarefas antes que a noite acabasse e o cansaço o forçasse a cair em uma cama. A primeira coisa que ele tinha que fazer era garantir que não havia ninguém no apartamento dele e barrar todas as entradas possíveis. A segunda era tentar hackear o celular do sargento e, caso ele não conseguisse remotamente, teria de fazer algo mais arriscado pessoalmente.

    Ele tomou um uber, voltou para casa e, assim que verificou que tudo estava como deveria ser – e que ele estava sozinho fisicamente –, ele barrou todas as portas e janelas – ele cuidaria de melhorar a estrutura depois – e começou o processo de buscar vulnerabilidades no dispositivo de smartphone do sargento.

    “Espera aí... O que é isso?”

    Quando sentiu algo no bolso, viu que era uma rosa vermelha. Hugo sorriu. Aquilo explicava muita coisa.

    – Vigilantes, hein? Isso é muito interessante...
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    O Emissário da Morte - Capítulo I Empty Re: O Emissário da Morte - Capítulo I

    Mensagem por JTaguchi em Qua Jun 24, 2020 4:40 pm

    Apagar os registros de qualquer conversa não foi difícil. Tanto o sargento Valdir quanto Celso tinham celulares comuns que não eram difíceis de serem hackeados. No fim das contas, nada daquilo sobrou e Hugo poderia voltar ao seu disfarce de quem não tinha entendido nada. E assim, os dias passaram.

    Domingo chegou e, infelizmente, começou com um maldito plantão de 24 horas. Hugo se viu junto com Celso, desde as seis horas da tarde de sábado. Não houve muitos percalços, exceto um fim de semana tedioso com dois acidentes de carro e quatro brigas de baile funk. Os finais de semana eram sempre agitados. Letícia passou por ali rapidamente, mas não o suficiente para conversar - ela estava ocupada demais se programando para uma pequena viagem de folga com o namorado castrado que tinha: um publicitário de merda que parecia mais mulher que ela. Hugo tinha até vontade de vomitar quando o maldito aparecia por ali usando alguma camiseta de Star Wars.

    Quando o plantão terminou, Celso se despediu dele e foi para casa correndo participar do churrasco que estava rolando com sua família por causa do jogo do Fluminense. Enquanto se aprontava para partir, Hugo sentiu o celular vibrando. Era uma mensagem de Arthur, um antigo colega da faculdade que fazia sua especialização em cirurgia plástica.

    Arthur escreveu:E aí, mano. Blz?
    O que você acha de dar um tempo desses defuntos e colar num barzinho aqui pra gente tomar uma? Te passo a localização.

    Rolagens:
    Inteligência 3 + Informática 3 + Equipamento 2 + Especialização 1: 10, 9, 9, 8, 5, 4, 3, 3, 2, 2: 4 Sucessos.
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    Mensagem por Freak(out) em Qua Jun 24, 2020 5:03 pm


    Hugo passou um bom tempo trabalhando e olhand0 para a cara de Celso após um fim de semana sem graça e monótono. Celso, como sempre, não sabia fazer nada de boca fechada enquanto Hugo lidava com algumas vítimas de acidente e cadáveres de mortes fúteis envolvendo bailes funk. Como se isso não bastasse, Letícia apareceu lá, mas felizmente ela não ficou muito. Estava ocupada demais planejando uma viagem ou algo assim com o frouxo do namoradinho dela – um idiota bunda-mole que gosta de ser o típico moderninho modelo para agradar aquela vagabunda.

    “Provavelmente perdeu o bv com ela...”

    Com a rotina de sempre a patifaria do laudo que levou à “visita inesperada” da garota já parecia algo muito distante. A única recordação sólida da coisa toda era aquela rosa vermelha, que ainda se encontrava sobre a escrivaninha do seu quarto, agora murcha e sem beleza alguma.

    “Finalmente”, pensou ele, quando o plantão acabou e Celso saiu rápido como um raio para se empaturrar de carne de segunda em algum churrasco enquanto via mais um jogo do time dele. Hugo já estava sonhando com um pouco de paz e silêncio quando uma mensagem de Arthur, colega dos tempos da faculdade, chega com o vibrar do smartphone.

    Mensagem escreveu:]i]E aí, mano. Blz?
    O que você acha de dar um tempo desses defuntos e colar num barzinho aqui pra gente tomar uma? Te passo a localização.[/i]

    Hugo não se sentia à vontade para sair. A garota disse para ele ficar na moita durante um tempo antes de fazer qualquer coisa, afinal esse pessoal ainda está desconfiando dele.

    “Que saco... Gostaria de forjar minha morte para esses putos esquecerem de mim.”

    Ele pegou o celular e respondeu:

    Resposta escreveu:Desculpa, cara. Não vai dar. Eu adoraria, mas minha mãe se acidentou. Vou ter que passar na casa dela e ajudar no que eu puder. Fica para a próxima.

    Feito isso, ele se dirigiu para casa.

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    O Emissário da Morte - Capítulo I Empty Re: O Emissário da Morte - Capítulo I

    Mensagem por JTaguchi em Qua Jun 24, 2020 5:17 pm

    Logo depois, mais uma mensagem.

    Arthur escreveu:Qual é, cara? Hoje é domingo e pelo jeito você está de folga. Dá uma passadinha aqui, depois você vai ver sua mãe. Só uma ou duas cervejas, pra relembrar os velhos tempos e relaxar um pouco. Tá cheio de mulher aqui.

    Respirou fundo. Arthur era insistente e não era exatamente uma péssima companhia. Sinceramente, Hugo sabia que precisava relaxar um pouco. Os últimos dias tinham sido tensos, com a ideia de que talvez fosse vigiado e a perspectiva de ter sua casa invadida novamente. Não podia negar que, querendo ou não, o convite vinha numa boa hora.

    A ideia de um lugar cheio de mulher não era tão ruim assim, também. Será que valia a pena?
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    O Emissário da Morte - Capítulo I Empty Re: O Emissário da Morte - Capítulo I

    Mensagem por Freak(out) em Qua Jun 24, 2020 7:36 pm


    Hugo olhou a resposta de Arthur. Ele ficou puto. Aquilo o irritou de verdade. Ele não era de sentir raiva, ainda mais nessa intensidade.

    “Afinal de contas, por que caralhos eu me importo em dar desculpas? Por que eu ainda tento?”

    Ele se preparava para mandar um belo “Vai se foder” como resposta. Ele chegou a digitar mas, assim que aproximou o dedo do botão “Enviar”, fechou os olhos e respirou fundo.

    “Calma… Guarda essa cólera para eles…”

    – Vamos ver o quanto você é insistente, Arthurzinho…

    Ele bloqueou o contato do colega de faculdade, achando graça enquanto imaginava o idiota se dando o trabalho de entrar em contato com ele por outro número.

    “Atrair alguém como eu em um lugar tão cheio de… vida? Você não iria querer isso, colega.”

    Hugo sorriu ao pensar isso, dirigindo-se para casa.
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      Data/hora atual: Sex Jul 03, 2020 10:43 am