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    Sobre encontrar o caminho

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    Mensagem por Wordspinner Qua maio 17, 2023 4:44 pm


    “Na terceira casa depois do carvalho quebrado” A velha lavadeira ficou feliz em dizer “Nada como ajudar os homens do rei”. Ninguém se pergunta porque um cobrador de impostos está procurando alguém, eles estão sempre muito ocupados escondendo seus valores e rezando para você não voltar.
    Não era um vilarejo enlameado no meio do nada entre vales verdes e florestas cor de esmeralda. Não. Era uma cidade, feita para a glória de algum narcisista estupidamente rico que já estava morto antes dos meus avós nascerem. Bonita, alta, vários níveis grudados no desfiladeiro. Áreas verdes e plantações. Uma coisa enorme. No alto uma torre cor de granito quase impossível de alcançar. Quem sabe alguém mora lá. Não fiz questão de saber. Se a cidade só tem três entradas e todas são trilhas você realmente não quer ficar lá mais que o necessário. Não se você ganha dinheiro como eu ganho.
    Eu assalto cadáveres, normalmente frescos, quase sempre por minha causa. Assaltava na verdade, ficou no passado toda essa coisa. Qualquer um pode ser um pouco nostálgico quando pensa nos anos mais divertidos da vida. Doces erros e enganos. Poucas vezes eu fui pago para assaltar os vivos. Trabalho ingrato. Coisa desagradável. Dá pra imaginar que eu odiava lugares difíceis de chegar e sair, né?
    O cheiro era bom, a rua inteira cheirava a flores e pães e madeira recém cortada. Eu quase esqueci o que estava indo fazer. Minto. Me perdoe. Achei que ia soar melhor, mas mentira alguma cabe aqui. Eu estava murmurando minha canção favorita. Uma canção que prenunciava a morte. Que me fazia pensar em dinheiro e emoção. Meu coração batia devagar com uma calma e confiança que eu não sinto mais. Com uma certeza e um propósito simples. Fácil. Que luta existia dentro de mim naquele dia?
    Eu era desejo e ação. Eu não parei na casa, era um profissional treinado e ninguém atende um cobrador de impostos solitário. Passei dias ali sob vários disfarces analisando e anotando e descobrindo tudo que eu precisaria saber sobre o amante secreto e sua rotina de encontros com meu alvo. Uma mulher de reputação ruim, mas cheia de dinheiro e com uma série de crimes pelos quais ela nunca respondeu.


    “Boa noite cavalheiro, acho que deixou cair” Mostrei ouro a ele. Poucas pessoas rejeitam ouro rápido o bastante. Eu não rejeitaria. Na verdade rejeitaria, ao menos corrigiria o engano de que eu o tinha derrubado. Espero não fraquejar quando o dia chegar. Mas ele fraquejou, olhou para as moedas por tempo demais e logo ele estava estirado no chão. Não, ele não estava só desmaiado. Mesmo assim trocamos de roupas. Ele estava dentro do meu colete azul e prata quando rolou penhasco a baixo. Minhas melhores botas foram com ele.
    Eu conhecia cada passo que ele daria. Cada segundo do percurso. Cada olhada assustada para as sombras procurando alguma coisa. Era culpa? Medo? Vergonha? Talvez todas essas coisas. Eu imitei gesto. Por menor que fosse. Eu adorava isso, a sensação de vestir a pele do outro, zombar do que ele era. Quando os guardas me levaram pelo vão escuro da ponte para a mansão da mulher eu tinha certeza que tinha dado certo. Como o mundo era simples. Como eles nem sequer levantaram meu capuz?
    Conto isso porque de alguma forma inexplicável esse foi o meu caminho para luz. Digo, essa noite me mostrou a direção. O custo foi terrível. Tudo que eu era. Toda a simplicidade da vida morreu naquela noite. Só me resta andar na direção da luz, o que mais um homem pode fazer se ele consegue ver o caminho? Que fodam-se as brasas que queimam meus pés e os espinhos que rasgam a pele. Eles são o caminho. Perdão pela linguagem.
    Eu fui roubar um item mágico. O coração da súcubo. Achei que era perfeito que uma devassa adultera o usasse pra cima e pra baixo. Mas a mulher nunca deixava a mansão, logo nunca tinha visto o tal item. Era para ser um ingrediente para o meu contratante. É claro que o meu contratante era uma silhueta escura em um beco, quem mais iria me pagar. “Vai ser impossível errar” ele disse triste. “O pagamento vai além dos seus mais desvairados sonhos” e a voz dele tinha uma loucura exultante. Uma coisa louca que quase me fez desistir do trabalho, mas os diamantes tinham que ser verdadeiros. Tinham que ser.
    Já no quarto mestre da casa eu vi um homem magro e doente na cama enorme de docel. Não fez sentido, mas assim que os guardas sairam eu comecei a vasculhar. Roupas enormes de largas em todos os móveis, uma olhada para a cama revelou a flacidez da pele que sobrava no acamado. Ele me olhava e nem tinha forças para abrir a boca, mesmo querendo falar. Não tive pena. Não foi isso, eu só pensei comigo “Será que isso pega?” e continuei revirando as coisas, procurando passagens secretas. Esconderijos ou cofres.
    Quando ela falou perto, com a voz acariciando a minha nuca. Eu era medo e prazer. “Roubando de novo?” a risada era cristalina e divertida, eu sorri sem controle. As mãos delas começaram pelos ombros. Rápidas e fluidas como fogo. O rosto dela tão perto que eu sentia o calor da pele. A mão desafivelou o cinto com a prática de uma profissional e a paixão de uma… “Tão pequeno hoje” Ela me virou e minhas costas bateram na parede com força sobre humana. Eu finalmente estava de olhos abertos. Ela me encarava e eu estava apaixonado. Nunca vi nada mais bonito. Nem as iris vermelhas nem as asas de couro. Nem os chifres ou as garras. Nada era feio, olhar para ela mudava todo conceito de beleza. Era como ter sido cego a vida inteira. Hoje eu sei que é tanto verdade quanto ilusão.
    Ela não usava joia alguma. Não usava nada na verdade. Era vestida em desejo. Nessa hora uma parte de mim entendeu. Antes de ela arrancar o meu coração ou beber a minha alma eu entendi. A faca parecia sem fio conta a pele dela, mas eu sabia que não era o caso. Eu a comprei por uma fortuna, era mágica. Tinha que ser, nunca perdia o fio. A luta foi algo brutal. Só me lembro de instantes. Como pinturas sem som. Ela me jogando no teto. Eu esmagando aquele rosto lindo em um espelho de prata. Minhas mãos sabiam matar. Ela mexia na minha mente o tempo todo. No fim eu estava na janela com uma das mãos dentro do peito dela. O coração era dela e eu sempre cumpri os contratos. O homem na cama ria, eu acho que ria. A risada saia da boca dele, isso é certo. Ela caiu antes de mim. O coração ainda pulsava nas minhas mãos e a cada batida ele parecia mais fraco e eu também. O mundo foi se fechando. Quando a porta quebrou e os guardas entraram eu cai. Me lembro das estrelas brilhando suavemente e da lua indiferente no céu.
    O sol me acordou. Energizado. Assustado. O som dos pássaros era algo inesperado. Eu não estava numa cela. O firmamento azul salpicado de nuvens brancas. Eu me levantei e terra e pedras caíram de cima de mim. Não era certo, era desajeitado. Fraco e mole. Lento e sem a atenção natural de um predador. Era o corpo errado, eu percebi isso quando olhei meus pés e lá estavam as minhas melhores botas. Não olhei para trás, a parte de mim que sabia o que fazer naquele quarto sabia o caminho e eu confio nela. Até hoje.



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