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    O crepúsculo de um mago

    Lucas Corey
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    Mensagem por Lucas Corey Qua Dez 20, 2023 7:11 pm

    Gnomos são uma raça muito, muito longeva. Podemos chegar a vários séculos de vida, e eu, Namfoodle "Aluado" Nackle, semanas atrás, completei 439 primaveras bem vividas. Meu cabelo e barba passaram de ruivos para brancos, perdi a agilidade dos gnomos, e hoje caminho e falo devagar. Mas nem posso reclamar. Tive uma infância feliz e realizei os sonhos de adulto. Ainda aos 40 anos, consegui provar a "Conjectura Harzelim sobre a Cor Inexistente", o que me garantiu a promoção de mago Iniciado para Mestre da Confraria Hermética Espiral Azuth. E, como o conhecimento é cumulativo, eu me encontro no auge: sou capaz de conjurações poderosíssimas, enxergo outras dimensões, viajo até lá, e tenho vasto entendimento do éter, tempo e espaço. Por isso, vivo trocando cartas com magos e aspirantes, de muitas partes do mundo, interessados em debater e aprender.

    O lado negativo é viver mais do que os amigos que não são gnomos. Todo ano, eu vou até a sede da Confraria para o tradicional almoço em homenagem aos Mestres aposentados, tais como eu. Mas, durante as homenagens, sinto falta daqueles confrades que me receberam, séculos atrás, alguns dos quais se tornaram meus grandes amigos, e que há muito se foram.

    Com esse pensamento nostálgico na cabeça, preparo um chá e vou até a varanda de casa, que fica na Floresta de Cormanthor. A noite está deliciosa, e eu fico ali bebendo e olhando as estrelas. Vejo a constelação que alguns povos chamam "O Espadachim". Como mago especializado na Escola da Adivinhação, sei todos os simbolismos astrológicos associados a ela, que remetem a valores como lealdade, proteção, heroísmo e liberdade. Mas, pessoalmente, essa constelação traz à lembrança Garona, Nadien e Nimb, o grupo que, junto comigo, arriscou tudo numa aventura louca de exploração da Cripta do Eterno Silêncio.

    Perdi o contato com o grupo já faz muito, muito tempo, e a vida é assim mesmo: os amigos, cedo ou tarde, se afastam, por mil motivos. E eu sei, é claro, que a maior parte do grupo não pode estar viva agora. Penso em Garona, a goliath. Torço para que aquela guerreira formidável, de ideias simples, coração bom e comportamento honrado, tenha se unido com sua amada elfa, que tenham sido aceitas pela tribo goliath, e usufruído de muito tempo juntas. E que, no desenlace, seus espíritos tenham se elevado até as nuvens douradas do poente, onde vivem felizes agora, sobretudo quando a Grande Águia, Kavaki, voa através delas.

    E Nadien, a meio-elfa paladina de Tyr? Sorrio ao lembrar de uma das últimas vezes em que viajei para a grande cidade de Águas Profundas. Eu estava numa taverna, e o bardo começou a cantar as façanhas de uma guerreira que andou pelo mundo punindo os injustos, libertando os subjugados e curando os feridos. A canção não declinava o nome da heroína, mas a chamava "paladina de armadura azul e olhos dourados"... Pedi ao bardo mais uma canção sobre ela, e a música narrou uma jornada que a "elfa azul" fez por terras longínquas e misteriosas para encontrar e destruir um artefato de grande poder, fonte da magia usada por uma maga das trevas. Lembrei-me então de que ela me convidou para embarcar nessa aventura, mas eu preferi ficar com meus livros, próximo da família, do meu clã, da Confraria.

    Não se pode ter tudo… Então, ouvir a história daquela viagem cantada em versos inspirados me fez chorar de alegria e saudade. Ainda me lembro da cara de contentamento que o bardo fez quando viu o valor da gorjeta que lhe dei, he he he. Hoje, estou convicto de que o espírito de Nadien se elevou até o reino de Tyr, pois ninguém poderia ser mais digno de tal galardão.

    No fim das contas, talvez sejamos afortunados, apesar de toda a dor, mentira e violência deste mundo. Porque meu falecido amigo, o bruxo Xaghul’ay, servo dos Grandes Antigos, dizia que há Planos de Existência muito além daqueles que nós conhecemos e veio com uma teoria doida sobre um universo que existe sem a ação de deus algum, e onde há um mundo no qual todos os seres pensantes são humanos desprovidos de alma. Lá, os humanos morrem e desaparecem, tornam-se nada, e gostam de se entreter imaginando que são seres mágicos como nós. Sinceramente, espero que ele tenha se enganado e que um mundo assim tão cinzento seja só uma dedução equivocada de bruxos que racionalizam tudo até demais.

    De qualquer forma, nós, que vivemos neste Plano de matéria e magia, sabemos que a vida continua, pois todos que já cruzaram o caminho de algum clérigo ou paladino puderam testemunhar os prodígios de Tyr, Azuth e de outros deuses mais obscuros e exteriores, como Ogirdor. Então, embora existam realidades de dor e sofrimento infinitos (como testemunhamos na expedição à Cripta, quando enfrentamos os cenobitas de Gash), sabemos que há também os reinos de eterna felicidade onde as almas boas podem ser felizes sob as bênçãos dos deuses bons.

    Todavia, para aqueles que vivem tanto quanto eu, a espera por essa vida melhor pode ser muito, muito arrastada… Durante séculos, eu não me senti dessa forma nem um dia sequer. Mas já faz 57 invernos que minha tão amada engenhoqueira, Jezziah "Tagarela" Nackle, partiu. Sua morte não foi sofrida, e eu tive 16 invernos para me acostumar com a ideia. Suas lembranças começaram a se apagar e continuaram se apagando, apagando. Nós residimos séculos na cidade, mas, quando suas habilidades mecânicas já tinham declinado muito, senti vontade de retornar às nossas raízes, à floresta. Nossos amados filhos me convenceram a continuar morando na cidade de Selgaunt ainda por um tempo e, com grande tristeza, concordaram que eu partisse quando ela já tinha esquecido os nomes deles. No final, ela só dormia, e assim faleceu, serenamente.

    Onde está minha Jezziah agora? Seus ossos jazem sob uma lápide que eu posso ver sem sair da varanda. E a alma…? Usando magias de ilusão, eu a revejo andando pela casa, consertando coisas, como também a ouço cantar, rir alto e falar pelos cotovelos. Mas as ilusões não são ela e só repetem o que já está na memória, de forma vivificada. É assim todos os dias…

    Essa rotina melancólica e arrastada tem me feito lembrar do Nimb, o companheiro de viagem mais imprevisível que poderia existir. Daqueles que exploraram comigo o labirinto insano da Cripta, só aquele gnomo pode ainda estar vivo. Mas já faz seguramente um século que não sei dele. Espero que continue lúcido, tal como ele ficou depois que saímos da Cripta e empreendemos uma jornada pela Umbreterna para descobrir as origens dele e curar os males de sua mente fragmentada. Aquela segunda aventura foi difícil, foi arriscada, e Scar, a personalidade assassina que vira e mexe o dominava, desejou várias vezes me matar das formas mais cruéis. E talvez tivesse conseguido, se não fosse a paixão dele por sua "princesa Garona", a qual, sempre atenta, o continha. Mas nossos esforços compensaram, pois sua mente foi curada, e ele voltou a ter uma só personalidade, a ser uno consigo mesmo. E assim conhecemos Nimb por inteiro, Nimb como sempre deveria ter sido. E que ser maravilhoso… Bom Nimb!

    Tempos atrás, tive o pressentimento de que era hora de revê-lo. Mas eu sei que nem um adivinho como eu consegue achar aquele patrulheiro, que mais parece o deus da furtividade, se ele não quiser ser achado, he he he… Então, escrevi muitas cópias da mesma carta e as distribuí entre taberneiros e estalajadeiros de toda a Cormanthor, com a instrução: "se aparecer aqui um gnomo das profundezas idoso e usando um chapéu enorme, entregue a ele, por favor".

    Eu já vinha achando que não tinha dado certo, mas, agora que terminei o chá e tirei os olhos das estrelas, vejo ele a uns 15 metros de distância, entre as árvores. Na carta, eu pedi que ele agisse sem eu perceber: por que se revelou, então? Mas entendo… Ele não conseguiu ignorar a esperança de que eu mude de ideia no último instante, se tiver oportunidade.

    Por vários minutos, ele me observa, e eu apenas devolvo o olhar sorrindo. Então, num movimento vagaroso, o patrulheiro tira uma flecha da aljava. E não é Scar quem agora prepara o arco, pois em seu rosto não existe ódio, nem loucura, mas apenas uma grande tristeza, um pesar sem tamanho, e eu acho que ele está chorando, embora não seja possível ver lágrimas desta distância. Ele é Nimb, apenas meu velho amigo Nimb, e não quer fazer isso de modo algum. Mas vai fazer sem hesitar e sem me julgar, só porque eu assim lhe pedi. Bom Nimb!
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    Mensagem por Mandhros Seg Jan 08, 2024 5:54 pm

    É um dos contos mais bonitos e bem escritos que tive o prazer de ler. Fico feliz, de coração, de ter inspirado uma pequena parte dele, @Lucas Corey. O "Sr. Nam" é uma das personagens mais cativantes que já vi, também. Certamente, ele estará gravado no coração e na memória!
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    Mensagem por GM Qui Fev 01, 2024 8:18 pm

    @Lucas Corey e @Mandhros Você sabia que eu tenho um Senhor Nam também? Ele tem um destaque especial no meu mostruário de miniaturas. Ao lado da Garona e da Nadien. Do Nimb eu fiz um quadro com impressão colorida, acho que chama canvas esse tipo de quadro. Vocês foram incríveis ... Saudades ...
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    Mensagem por Lucas Corey Sex Fev 02, 2024 9:43 am

    GM escreveu:
    @Lucas Corey e  @Mandhros Você sabia que eu tenho um Senhor Nam também? Ele tem um destaque especial no meu mostruário de miniaturas. Ao lado da Garona e da Nadien. Do Nimb eu fiz um quadro com impressão colorida, acho que chama canvas esse tipo de quadro. Vocês foram incríveis ... Saudades ...

    Fico feliz em saber, @GM! Os PJ dessa mesa foram muito inspiradores, inclusive por conta das ideias que vc deu (como o amor do Nimb pela Garona, que ajudou a explicar a união - ainda que instável - dentro do grupo). Mesa que deixou saudade.
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    Mensagem por Mandhros Seg Fev 05, 2024 3:04 pm

    @GM, depois deixe fotos aqui das miniaturas e do quadro! Fiquei curioso!

    Foi uma das mesas mais legais das quais participei! Vai deixar muitas saudades!
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