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    Mensagem por Pallando Sáb Mar 02, 2024 3:34 pm

    INTRODUÇÃO:
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    22 de Fevereiro de 2107
    Värmland, Suécia. Fronteira Noruega–Suécia

    O barulho do primeiro disparo rasgou os sutis sons da vida animal e das folhagens como um estrondoso trovão surgindo de surpresa em um céu limpo. Depois houve um curtíssimo instante de silêncio, tempo que poderia ser usado para que todos assimilassem minimamente o perigo, e terminou interrompido por um segundo disparo, um terceiro e um quarto. Em poucos segundos parecia haver uma guerra acontecendo poucos quilômetros abaixo na direção da represa hidrelétrica, e logo ouvia-se com mais clareza os sons dos animais correndo na direção oposta a dos tiros e os pássaros levantando voo das árvores rumo aos céus, mesmo que não fossem os alvos dos tiros.

    No topo da colina floresta adentro, consideravelmente distante do conflito que se desenrolava na represa, Flora testemunhava o inicio de um acontecimento que poderia ter diversas consequências preocupantes para um número massivo de pessoas.


    A represa hidrelétrica em questão era a fronteiriça Grand Källa, ponto central daquela que atualmente era a condição de maior tensão no país e região, envolvendo também cidadãos de outras nacionalidades. Com inicio há apenas algumas semanas atrás, toda a situação foi desencadeada pela ocupação da represa por forças terroristas/rebeldes e a tomada de sessenta e oito reféns em um primeiro momento. A ação interrompeu a geração de energia para cidades e vilarejos da área em forma de protesto contra a presença da Kroton Group em alguns locais da região. A exigência era uma ação por parte do governo Sueco para cessar as atividades da organização estrangeira por ali, alegando abusos por partes destes. A situação logo se tornou um pesadelo politico para o governo que sofria com pressão da Kroton Group e associados para que a situação fosse resolvida rapidamente, e do outro lado havia a pressão da população que certamente reagiria caso as vidas dos reféns não fossem priorizadas.

    Alguns dias atrás, a primeira escalada dessa tensão ocorreu por conta de uma tentativa fracassada de retomar a represa realizada por forças mercenárias da Kroton Group, que agiram militarmente e sem autorização naquele ponto que era fronteira entre Suécia e Noruega. A ação, principalmente por ter fracassado, piorou em muito a situação e dividiu fortemente a opinião popular. Em resposta a isso, apenas três dias atrás o grupo terrorista agiu tomando mais reféns nas proximidades da floresta do lado Sueco da fronteira. O problema é que entre esses novos reféns, muitos eram jornalistas cidadãos de outros países do mundo, o que deu ao conflito contornos internacionais.


    Agora, na manhã daquele dia frio e com ventos fortes, o conflito parecia finalmente ter estourado e sido levado ao seu ápice. Os detalhes sobre o que havia causado isso ainda eram incertos uma vez que as narrativas só seriam divulgadas após o fim de tudo, mas era sabido que, de acordo com notificações oficiais do governo na última noite, os terroristas planejavam começar a execução de reféns. E essa era a justificativa mais plausível para a ação militar que estava acontecendo naquele momento por parte das forças suecas em conjunto com a Kroton Group, contra os terroristas que tinham reféns na represa.

    Em jogo estavam várias vidas humanas, a geração de energia para milhares de pessoas, a opinião pública e internacional, mas também a própria existência da represa, que caso fosse comprometida poderia causar um desastre ambiental sem precedentes.


    ______________
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    Mensagem por ayana Seg Mar 04, 2024 11:35 am

    Flora
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    Acordei melancólica, pensando em comida. Mais um dia se inicia e novamente estou sozinha na floresta. Sozinha quer dizer sem a companhia de alguém da minha espécie… se bem que, tecnicamente, não me restando nem sequer os ossos, não deveria mais me considerar humana. Se fosse, estaria agora sentada à longa mesa do refeitório da Eternal Spring, compartilhando o café da manhã com meus irmãos e irmãs. Lembro-me do aroma do café e das rosquinhas de canela e, estranhamente, começo a salivar. Sem perceber, estou absorvendo água que se acumula em minha boca. Em meus pensamentos, ouço a oração que antecede cada refeição. O ritual sagrado de partilhar os alimentos na seita agora me parece bem estranho, pois minha subsistência vem da terra, da água, do ar, da luz do sol e dos deuses da natureza.

    Sendo eu mesma uma deusa, pelo que dizem, não deveria me sentir assim. Essa tristeza me abater só porque nunca mais vou comer um kanelbulle com café? Que grande bobagem! Já deveria estar habituada à perda de tantos prazeres desde que perdi meu corpo. A todo o momento, sinto ao meu redor o que deveria me abater de verdade: a miséria de todos os seres vivos da Terra, principalmente das crianças que não tem o que comer.

    Nesse mundo, eu tenho lutado tanto… e perdido tanto… é por isso que deveria me lamentar. E não por muito tempo, porque há muito trabalho a fazer.

    Eu me sento no chão, com as pernas contraídas, os joelhos na altura do peito e as palmas das mãos em contato com o solo. De olhos fechados, quando não consigo mais determinar os limites do meu corpo, abaixo a cabeça e começo a rezar.

    “Ó minha grande Mãe, de quem todas as vidas emanam,
    Conceda-me a força das montanhas inabaláveis,
    A resiliência das correntes que esculpem a terra,
    E a ternura da brisa que acaricia a folhagem.
    Que eu seja o escudo dos fracos, a voz dos mudos,
    E a protetora de todos os seres sob o vasto céu.
    Em cada passo, que eu semeie esperança,
    E que meu coração seja o solo fértil para a compaixão renascer.”


    A natureza me fornece mais energia, mas ainda assim, continuo me sentindo meio desolada. Talvez fosse um presságio do conflito no qual eu me envolveria. Bastou o primeiro disparo de uma arma de fogo para todos os meus elementos sensoriais se deslocarem até a região onde homens optavam por se aniquilar. De novo e de novo. Isso nunca terá fim, enquanto estiverem aqui. Sim, mas algo me perturba. Minhas raízes se contraem, a seiva fluindo mais devagar como se ficasse mais espessa. Quando me dou conta…

    “Minha Mãe, não me deixe desamparada”, penso com o olhar fixo no sol que se levanta.

    Eles estão na região de uma enorme hidrelétrica e os desfechos mais devastadores possíveis se manifestam em cenas curtas em meus pensamentos. Eu me concentro no mapeamento geográfico e uso meus poderes telepáticos para orientar os animais a buscarem refúgio do lado superior da barragem, ao redor do reservatório. Para aqueles que se encontram mais afastados, tento direcioná-los para regiões suficientemente altas que não seriam atingidas pela água caso a barragem se rompesse.

    Em seguida, preciso lidar com os seres humanos.

    “Realmente, não quero ser como eles”, penso, enquanto meus olhos passeiam das minhas mãos para o céu gélido, para as copas das árvores e encontram-se com uma aranha me encarando com seus quatro olhos azuis.

    Não sei o que fazer.

    Nunca consegui entendê-los direito. Enquanto minha vontade era me conectar com plantas e animais, eles me enchiam de trabalho. Eu precisava “apenas” recuperar tudo que eles destruíam, em geral, orientados por decisões políticas e econômicas. Eu realmente não consigo entender por que sempre escolhem o caminho da própria extinção. Por isso, deixo essas questões relacionadas ao poder para os líderes da seita. Estou sim disposta a ajudar a humanidade, apenas me diga o que fazer.

    Ok, só que agora estou aqui sozinha e preciso tomar uma decisão.

    Se eu não estiver muito desatualizada, um grupo rebelde ocupou a hidrelétrica Grand Källa, interrompeu o fornecimento de energia e mantém dezenas de pessoas como reféns. Eles exigem que um grupo privado apoiado pelo governo deixe de atuar na região. Tenho bons motivos para não confiar em nenhum lado e, sabendo tão pouco, prefiro me manter neutra. É a minha primeira decisão. A segunda eu sempre soube, mas acabei me distraindo: preciso preservar a vida em todas as suas formas.

    “Minha Mãe, guie meus pensamentos para que eu aja com justiça e amor.”

    Meu corpo se desfaz, deixando no ar uma fina coluna de poeira. Uma vez engolida pela terra, eu mentalizo exatamente o local onde quero me reconstruir, neste caso perto o suficiente do conflito, mas sem correr o risco de ser vista pelos envolvidos, ou atingida por balas perdidas. Em seguida, estabeleço uma conexão mais profunda com o ambiente e vou me expandindo até identificar com precisão onde cada homem se encontra. Tento diferenciar combatentes e reféns, colocando no primeiro grupo aqueles que me deixam em dúvida.

    Para a próxima etapa, fico de joelhos e levo minhas duas mãos no peito, onde antes podia sentir meu coração.

    “Espíritos ancestrais, que regem os céus e a terra,
    Ouçam meu clamor por serenidade no coração dos homens.
    Que a compaixão triunfe sobre o ódio,
    Que o diálogo prevaleça sobre o disparo,
    Que o amor à vida guie nossos caminhos em união”


    Ao abrir os olhos, também abro um sorriso. Margaridas cresceram ao meu redor nos breves segundos de minha oração. Sinceramente, não sei o que significam, mas quero acreditar que sejam um sinal de aprovação dos deuses do céu e da terra. Quem sabe até o reconhecimento de minha mãe.

    Estou no caminho certo, sei que estou. Inclino meu corpo para frente, encosto minhas mãos no chão, puxo o ar ao meu redor com todo meu corpo. Dentro de mim, cultivo uma fome insaciável. Ao cravar os dedos na terra, ativo meu poder de absorção. Meu objetivo é drenar a energia vital dos combatentes que identifiquei, apenas o suficiente para incapacitá-los de portar uma arma.
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    Mensagem por Pallando Qua Mar 13, 2024 10:06 pm

    Flora ressurgiu por entre algumas árvores no começo de um declive na floresta, longe o suficiente do conflito que se desenrolava vários metros a frente para não ser percebida pelos combatentes, mas também perto o suficiente para que pudesse testemunhar com seus próprios olhos a violência descontrolada. Agora conseguia ouvir as vozes dos soldados que estavam tentando entrar na represa, escondidos atrás de carros militares e barricadas improvisadas enquanto trocavam tiros com os terroristas que se escondiam por trás paredes e maquinarias ao fundo na entrada. Eles ameaçavam, xingavam e resmungavam contra seus inimigos, com seus aliados e consigo mesmos. O conflito mal havia começado mas já haviam dois mortos no chão, e aquilo era apenas um dos confrontos acontecendo, visto que também havia outro grupo militar do outro lado da fronteira e algumas unidades que haviam conseguido pousar na parte de cima da represa.

    Ao se conectar diretamente com o ambiente que os cercava, a heroína foi capaz de sentir a presença de cada um dos envolvidos como se fosse o próprio solo embaixo deles. Eles eram muitos daquele lado da represa, sendo que provavelmente a grande maioria eram soldados da Kroton Group ou agentes de unidades especiais do próprio governo, enquanto as forças terroristas deviam estar em menor número e contavam com a vantagem de precisarem apenas defender sua posição.

    E então, ao se inclinar ao chão e levar suas mãos para a terra como se fosse enraizá-las, a filha de Gaia finalmente interveio no conflito com um de seus vários dons. A absorção alcançou cada um dos presentes naquela área — todos os que haviam sido sentidos anteriormente — e levou de seus corpos uma boa parte da própria energia vital que possuíam. De um momento para o outro, o barulho frenético dos tiros começou a parar quase como se os dois lados tivessem acordado um cessar fogo, e em alguns segundos os únicos sons de conflito ouvidos eram os que vinham de bem longe, do outro lado da fronteira. Os terroristas sumiram de vista caindo onde estavam e os soldados da Kroton fraquejaram e despencaram logo atrás de seus automóveis e barricadas.


    - O q-que.. diabos... o que diabos está acontecendo aqui?!! - Tentou berrar um dos soldados da Kroton Group. Era um homem grande de rosto barbado que parecia exercer uma função de liderança entre os seus, mas sua voz saiu fraca e sem fôlego, exatamente como sairia se tivesse acabado de correr uma longa maratona até o corpo falhar.

    No fim da ação de Flora, haviam poucos soldados que ainda tentavam se manter de pé e alguns que até tentavam manter-se apontando as armas na direção dos inimigos, mas sem sucesso nenhum. Todos aqueles que a heroína havia detectado naquela área estavam no chão, capazes apenas de falar. E mais uma vez, tirando apenas alguns resmungos confusos, o silêncio reinou por ali.


    FLORA JWjWTX9
    Grand Källa - Entrada Principal, lado Sueco da fronteira

    O caminho para dentro da represa se encontrava livre, mas pouco era possível saber sobre como era a situação do outro lado da represa ou no topo da estrutura. Muito menos sabia-se sobre o estado dos reféns. O que era possível saber devido ao pequeno número de vigias na entrada e o fato de a mesma não bloqueada, era que os terroristas pareciam não estar preparados contra a ação militar daquela manhã.
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    Mensagem por ayana Qua Mar 20, 2024 4:58 pm

    Flora
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    Sem qualquer dificuldade, absorvo a energia vital dos homens em guerra. Embora significativa, não é nada comparado à energia do sol dessa manhã de inverno, da água represada pela barragem fechada, dos milhares de pinheiros e abetos com trinta, quarenta metros de altura. Como as pequenas criaturas que são, sua energia não me deixa mais poderosa, mas ao fluir por todo meu corpo, me sinto envolvida por uma sensação quente e agradável como um abraço. A intensidade é bem maior, não apenas porque extraio de várias fontes, como também não dou nada em troca. A energia é toda minha. É o meu prazer. E por um instante, sinto um desejo enorme de absorver mais desse calor humano. Nunca quis me sentir como uma deusa e mais do que nunca quero me sentir humana mais uma vez.

    À beira do excesso, pela graça de minha Mãe, encontro forças para me conter.

    Existe uma linha tênue entre o necessário e o esgotamento, entre o golpe que os mantém no chão e o golpe que os deixaria enterrados. Se eu me excedesse, não haveria perdão pela segunda vez. Ainda assim, peço perdão. Peço perdão por meus anseios mais sombrios, por desejar mais do que deveria. E isso é tudo. Não me deixo levar por culpa ou arrependimentos porque preciso me concentrar no trabalho.

    Por um breve momento, contemplo o silêncio resultante da minha imposição por um cessar-fogo. Infelizmente, ainda muito precário e restrito, pois logo chegam até mim os sons de outro conflito se desenrolando do outro lado da fronteira. Eu respiro fundo para suportar mais responsabilidades nas minhas costas. Quer dizer que, dependendo da minha intervenção, eu também posso desencadear uma crise diplomática.

    “Talvez eu não seja a heroína que eles precisam, mas sou a que está disponível”, penso tentando me consolar com antecedência, ainda mais considerando que minha missão imediata - resgatar os reféns - não carrega todas as nuances éticas e morais de dois grupos armados disputando o poder.

    Como não consegui localizar os reféns por minhas ramificações com a natureza, só me resta procurá-los dentro da hidrelétrica. Se tenho de entrar lá, numa estrutura de metal e concreto, prefiro não ir sozinha. Inicio minha procura por companhia pelos ruídos espalhados pelo vento, silenciando em minha mente todos aqueles emitidos por humanos e seus equipamentos. Em questão de segundos, minha atenção é atraída para baixo, para algumas vespas coletando o néctar das margaridas cultivadas por minha oração. Uma aliança inesperada. Eu me aproximo ainda mais delas, encaixando meu corpo sentado no chão de pernas cruzadas sem dobrar o caule de nenhuma flor. Telepaticamente, eu as cumprimento:

    “Bom dia, minhas irmãzinhas de asas cintilantes! Hoje, mais do que nunca, vou precisar muito de sua ajuda”.

    Na verdade, preciso de muitas delas. Envio um chamado telepático que se propaga até os ninhos de vespas, encontrando algumas destinatárias pelo caminho. Eu as recebo de braços abertos enquanto faço crescer um jardim ao meu redor, com zínias, crisântemos, calêndulas e cosmos. Não é a primeira vez que faço toda uma cerimônia para colônias de insetos. Em pleno inverno, estou confiante de que essa atípica multiplicidade de cores causará uma ótima impressão.

    “Minhas queridas irmãs, obrigada por atender ao meu chamado. Com o coração cheio de esperança e humildade, estou aqui para lhes pedir um favor. Eu me vejo agora diante de um desafio que transcende os limites deste nosso jardim”.

    Levanto o dedo indicador e faço um movimento circular, acrescentando um anel de gailárdias vermelhas e amarelas ao redor das demais flores. Deixo os ombros caídos e suspiro.

    “É uma tarefa urgente: preciso resgatar dezenas de seres humanos mantidos presos dentro daquela enorme estrutura de concreto que barra o fluxo das águas. Não sei exatamente onde encontrá-los, por isso gostaria muito que fossem comigo. Através de sua dispersão e habilidade de se infiltrar nos espaços mais estreitos, em pouco tempo teríamos o interior da barragem todo mapeado. Tenho certeza que, com sua percepção aguçada, será muito fácil identificar as pessoas que necessitam de nossa ajuda e aquelas que representam algum perigo”

    Faço uma pausa, não tanto para ouvir o que elas têm a dizer, mas para apreciar a sinfonia de zumbidos ao meu redor. Consigo medir o estado de espírito geral apenas pelos tons, como se eu estivesse ouvindo música. Quero acompanhar as alterações depois de concluir minha proposta.

    “Ficarei muito agradecida por sua generosa ajuda e, em troca, prometo que não lhes faltará néctar, não importa quão frio sejam os próximos dias. Terminada nossa missão, quando voltarem para casa, lá encontrarão um jardim tão colorido e perfumado quanto este.”

    Chamo a vespa rainha com um gesto como se a convidasse para uma valsa, estendendo minha mão direita. Nela nasce uma flor da paixão, com pétalas em degradê branco e rosa suave e uma coroa côncava de filamentos roxos e azuis. É magnífica. Foi nela que meus irmãos se inspiraram para construir meu altar. Agora, ela está aqui para receber uma rainha. Um palco mais oportuno para formalizarmos uma aliança.

    “O que me diz, minha irmã? Vão me fazer companhia?”, perguntei assim que a vespa rainha pousou na flor.

    ***

    Eu me desloco pela terra e fico camuflada na floresta próxima à entrada da hidrelétrica. Se ninguém puder me identificar, tanto melhor. Certa de que não posso me omitir, então que minha intervenção seja divina - não em termos conceituais, somente no formato mesmo - de modo que ninguém consiga precisar a origem, o responsável, os meios e o significado. Depois a imaginação humana se encarrega de conectar o começo e o fim.  

    O caminho está mais acessível que o esperado, não fosse por alguns poucos vigias guardando a entrada aberta. Definitivamente, o alegado grupo terrorista não estava preparado para reagir a outra ação militar de maior magnitude. Penso em como são inconsequentes. A extensão da barragem a perder de vista. Inconsequentes demais. Volto a me preocupar com desfechos devastadores à espreita e acrescento aos meus objetivos a preservação da barragem. Sim, é meio óbvio e talvez eu mesma já tivesse essa consciência, mas vale a pena deixar registrado simplesmente por me auxiliar a organizar meus pensamentos.

    “Que a sutileza de minha influência seja como as raízes que fortalecem sem ser vistas, protegendo esta estrutura e todos que dela dependem.”

    Para passar pelos vigias, tentarei imobilizá-los. Existem várias formas de fazer isso, mas desta vez invocarei uma planta que eu mesma criei. Trata-se de uma trepadeira bem maleável com fibras de cânhamo, que historicamente são usadas para fazer cordas. Quanto mais a presa se debate, mais a planta cresce e se enrosca, intensificando a pressão, mas não a ponto de sufocá-la. Se ainda assim não conseguir deter por completo os movimentos, ela pode desenvolver pequenas estruturas de plantas parasitas conhecidas como haustórios, que são pequenas raízes capazes de penetrar o tecido do hospedeiro. Longe de mim querer lhes causar qualquer dano, mas fato é que a ciência não se sustenta sem experimentações.

    Vários caules não muito grossos vão se projetar da terra com a ânsia de se agarrar às pessoas como se delas dependesse sua sobrevivência - e não da terra, da água, do ar, da luz do sol ou mesmo da minha vontade. Outros vão mirar as armas, porque quero puxá-las para três palmos abaixo da terra. Se necessário, cobrirei os olhos de meus alvos com folhas para que não me vejam invadir esta fortaleza tão mal guarnecida.
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    Mensagem por Pallando Sáb Mar 23, 2024 4:15 pm

    Ciente do quão problemática poderia ser a busca pelos reféns na represa (que pouco a pouco tornava-se um campo de batalha), Flora toma suas primeiras ações na busca por aliados que respondessem apenas ao seu chamado. Ela se senta ao chão com cuidado e contacta telepaticamente os pequenos seres, seus possíveis novos aliados, e em algum tempo estes começam a responder vindo até ela, quase como se aquele fosse um convite da própria natureza. As vespas a procuram, a encontram e rondam pelo harmonioso jardim que a heroína havia feito para recepciona-las.

    Durante um curto período de tempo o cenário caótico ao redor delas pareceu sumir, dando espaço apenas ao som das pequeninas voando em reconhecimento, bem receptivas para com a proposta que recebiam. Em um dado momento, surgiu entre estas a rainha atendendo ao novo convite de Flora, que estendia sua mão para ela com um belo presente, uma última oferenda para que selassem a união sugerida. E a resposta desta que falava por todas aquelas criaturinhas foi imediata, pousando na flor e respondendo não com palavras, mas com sua simples permanência. Naquele instante a heroína soube que não estaria sozinha a partir dali, mesmo que fosse para seguir em direção ao interior daquele enorme construção humana.


    Enquanto se debatiam alguns combatentes no chão pelas proximidades e os sons de combate do outro lado da fronteira se tornavam mais intensos, Flora desloca-se pela terra para mais perto da entrada da Grand Källa. Camuflada como estava, nenhum dos derrotados foi capaz de detecta-la e entre eles também não parecia haver alguém capaz disso no momento. E agora com uma visão mais clara do interior da represa pela entrada, via relances de rostos lá dentro aparecendo e sumindo rapidamente por atrás das paredes, visivelmente aterrorizados e confusos a respeito do que poderia ter derrubado todos aqueles soldados. Eram apenas três vigias ainda ativos por lá e como se isso não bastasse também parecia não lhes ter sobrado muita coragem.

    Diante daquele último obstáculo ao interior da hidrelétrica, a heroína invoca suas trepadeiras com fibras de cânhamo contra os poucos vigias restantes que são alcançados de imediato pelas plantas. De um segundo para o outro, os corpos dos três foram ao chão se debatendo contra a força da trepadeira e os berros assustados começaram. Eles rolaram durante algum tempo, tentaram empurrar, se desvencilhar das plantas o máximo que podiam, e um deles tentou corta-las com uma velha faca militar antes de ter seus braços imobilizados junto ao corpo. O mais rápido e esguio entre os vigias demorou um pouco mais para ser contido, pois parecia ter bons reflexos e movimento veloz, chegando até a conseguir fazer alguns disparos com a arma, antes de ela ser arrancada de suas mãos e enterrada de baixo da terra. No fim todos os três foram pegos e completamente contidos pelos poderes da heroína, com seus olhos cobertos por várias folhas que impediam a visão.

    Agora finalmente, o caminho estava livre.


    Deixando vários soldados/terroristas incapacitados para trás e acompanhada pelas vespas com quem havia firmado uma aliança, Flora poderia seguir para dentro da hidrelétrica em busca dos reféns. E foi então que a filha de Gaia recebeu a visita de um antigo amigo, que chegou sem se apresentar e aproximou-se planando até sobrevoa-la, mas não chegou a pousar em um primeiro momento. Ele passou por Flora e seguiu na direção da represa em um voo veloz, mas também não entrou nela. Evitou a entrada fazendo uma curva abrupta e voltou para onde estava Flora.

    Só então, Verner gentilmente pousaria ao lado da heroína ou até em suas mãos, caso lhe fossem oferecidas. O pequeno anu-preto, agitado, com um comportamento que não lhe era comum, permaneceria a encara-la até que esta tomasse sua próxima ação. Ele estava determinado a acompanha-la, caso seguisse para a represa.

    Naquele mesmo instante, um novo barulho engoliu todos os demais sons e fez a terra sob os pés de Flora tremer, surgindo como um aviso de que o perigo naquela região continuava a crescer sem controle. Era o som inconfundível de uma explosão forte vindo do outro lado da fronteira.

    A represa continuava firme, mas o conflito seguia escalando.
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    Mensagem por ayana Ontem à(s) 4:44 pm

    Flora
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    Sinto o terror dos meus alvos antes e depois de invocar as trepadeiras. É melhor que desconheçam minha natureza misericordiosa. Eles têm sorte, porque a própria natureza não tem se mostrado tão condescendente com a espécie humana. Ela tem suas próprias armas de destruição em massa, e eu me recuso a ser uma delas, pois acredito na reabilitação da sociedade em se desenvolver em harmonia com o meio ambiente. Na Eternal Spring, provamos que isso é possível; agora o mundo precisa se dar conta de que isso é urgente e necessário.

    É a missão da minha vida e eu tinha plena convicção de que uma única vida não seria tempo o bastante para concluí-la. Se considerarmos que minha vida humana já se encerrou, de fato, eu estava correta. Contudo, com o início desta nova forma de existir, hoje eu nem tenho mais certeza sobre a morte. Se eu for tão resiliente quanto a natureza, que ainda tem bilhões de anos pela frente neste planeta, talvez eu testemunhe a humanidade se reerguer, quem sabe até graças ao meu trabalho incessante, mas invariavelmente, a humanidade terá seu fim.

    Que os deuses me livrem de ficar neste planeta sem gente.

    Ao deixar as árvores para trás, fico de frente para a entrada da hidrelétrica, uma cavidade sombria sobre uma imensa parede de concreto, marcada pelo tempo e pela reconquista da natureza na forma de musgos e trepadeiras se espalhando por sua superfície. Preciso ser estratégica. A partir da terra, consigo mapear o formato da barragem e estimar suas dimensões. Quero distribuir de maneira uniforme meu exército alado, na medida em que permite meus conhecimentos táticos superficiais. Sou uma novata tentando comandar um maremoto de zumbidos e voos erráticos, o que me provoca uma sensação de vertigem e desorientação.

    Mas eis que da terra surge um zumbido, remetendo a palavras de uma língua extinta. Nunca as ouvi antes, mas acho que entendo seu significado. Eu as transmito telepaticamente para as vespas. Coloco-me em posição de estátuas religiosas, com os braços estendidos e as palmas das mãos viradas para cima. Faço um chamado para que venham até mim como se pudessem me segurar, me fixar, me proteger.

    Tenho o hábito de cobrir partes do meu corpo com musgo, raízes e folhas secas, mas isso daqui eu nunca tinha feito. As vespas pousam em mim e é como se me enrolassem numa coberta nas noites frias iluminadas por auroras boreais. É quente, porque é cheia de vida, e parece até que devolve a vida para o meu corpo, agora com nervos hipersensíveis capazes de captar ao toque das patas a vibração do abdômen das vespas. O movimento se propaga do meu peito às extremidades, emulando os batimentos do coração. Não sou eu a conduzir tal perfeita harmonia.

    “Sou muito grata, minha Mãe, por despertar sensações um tanto esquecidas”, um sorriso terroso aparece no meu rosto coberto por insetos. “Sob o teu olhar, encontro alianças nos menores seres, cada um portando a grandeza do teu amor”

    Se dependesse tão somente da minha vontade, passaria a manhã toda nesse casulo, ainda que seja difícil relaxar ao som de tiros e explosões do outro lado da fronteira. Tudo bem, retornando sã e salva para casa, não faltará oportunidades para me cobrir de insetos. E agora que estão agarradas a mim, consigo ter ideia de quantas são e como distribuí-las. Quem está à minha direita, segue pela direita; quem está à esquerda, segue pela esquerda. Por precaução, também deixarei algumas aqui para vigiar a entrada. Repasso o objetivo da missão e algumas instruções: como elas devem se organizar para vasculhar as áreas onde os reféns possam estar e como me reportar sempre que encontrarem alguém.

    Quando estou prestes a dar a ordem para iniciarmos as buscas, meu foco se desloca com precisão para um ponto preto em movimento no céu. Na verdade, nem preciso ver para reconhecê-lo e saber que está por perto. Não importa quantos pássaros estejam voando por aí, é muito fácil saber qual deles é Verner, meu amigo, meu irmão e meu guardião. Tudo nele é único: o canto, o bater das asas, o jeito de pousar, o olhar, a respiração. Parece que eu já o conhecia mesmo antes de fazer parte da minha vida. Sua origem ainda é um mistério, mas nada me tira da cabeça que seja um presente dos deuses para eu não me sentir tão sozinha.  

    Num primeiro momento, ele passa sobre mim, mas não pousa. Claro, há um véu de vespas me cobrindo por inteira. Deve ser aterrorizante para qualquer ser vivo. Quando eu era criança, uma dessas me picou no pescoço e eu entrei em pânico. Não tanto pela dor, mas por sentir falta de ar e, com efeito, medo de morrer. Não conheço o suficiente sobre esta espécie para saber se realmente seria capaz de matar um ser humano. Agora, um pássaro de cem gramas, é bem provável.

    As vespas se retiram em bando, um êxodo súbito como se uma parte do meu corpo explodisse em pequenos fragmentos. Ficam voando mais próximas da entrada, já bem instruídas, esperando meu comando. Vamos adiar um pouco devido à chegada de meu principal conselheiro. Ele pousa na minha mão levantada na altura do rosto e, de imediato, noto que ele está bem agitado. Somos dois, mas é possível que ele tenha uma percepção mais qualificada sobre este conflito do que eu.

    “Meu companheiro penoso, que bom que está aqui!”

    A fim de evitar interpretações equivocadas, vale esclarecer que “penoso” aqui não está no sentido de sofrido, doloroso, desagradável, trabalhoso, nada disso. Eu o chamo de “penoso” só porque ele tem penas.

    “Você parece inquieto. Há algo errado?”, soa uma pergunta muito estúpida em meio aos estrondos de armas de fogo. “Digo, alguma coisa que devemos temer além do óbvio?”

    Em seguida, apresento meu plano para encontrar os reféns e, mesmo usando poucas palavras, não consigo evitar de trazer luz a um turbilhão de receios e dúvidas sobre as verdadeiras intenções por trás deste conflito. Talvez ele consiga entender a carga que recai sobre os meus ombros. Sem que eu me desse conta, meus pensamentos se derramam em palavras:

    “Verner, a verdade é que não tenho ideia do que fazer. Eles chamam de terroristas este grupo que tomou a represa, mas nós também já fomos chamados de terroristas. E se fazem por um motivo justo? Não sei como me posicionar, não sei de nada, por que estão brigando, por que sempre estão brigando, e desta vez trouxeram essa briga estúpida pra bem perto de onde eu estava, pra uma barragem que pode ser explodida de uma hora para outra. Isso acontece, já aconteceu e vai acontecer outras vezes porque basta a decisão de uma criaturinha estúpida para desencadear uma tragédia!”

    Eu respiro fundo para não me jogar no abismo do desespero. Um surto bem agora seria uma falha incontestável. Cada segundo de hesitação pode custar a irreparável perda de vidas. Não tenho tempo, não agora. Resgato o foco em meus objetivos prioritários: salvar os reféns e proteger a barragem. Olho para a entrada e, com um aceno sutil com a cabeça, sinalizo para as vespas iniciarem as buscas pelos reféns.

    “Que meu propósito seja claro e minha missão seja justa. Mãe Terra, guia minhas mãos e meus passos para que minhas ações tragam esperança onde houver desespero”, penso antes de avançar para o interior da estrutura de concreto, com Verner vigilante em seu posto sobre meu ombro.
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