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Caminho Para Estígia

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Mensagem por GM Ter Abr 25, 2023 9:19 am

@Alexyus @Mandhros  


O que vais fazer?




Caminho Para Estígia Gm_mak32
Quarto 1

Caminho Para Estígia Gm_mak33
Quarto 2

Caminho Para Estígia Gm_mak34
Quarto 3

Caminho Para Estígia Gm_mak35
Quarto 4

(Obs.: Escolha um quarto em que acordas. Eu não achei imagens em que as cortinas estivessem fechadas, mas usem a imaginação e as fechem mentalmente. É lógico que nada vos impede de abri-las.)




>>> Já podes postar... <<<



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Mensagem por Mandhros Ter Abr 25, 2023 11:32 am

Off: Acordando no quarto 1.

On:

Submergir em um lago nunca havia sido um problema, na verdade. Durante o treinamento militar a que fui submetido, todo tipo de tortura era comum - inclusive afogamento em águas bem geladas. Quando a mente aprende a suportar condições extremas, o corpo segue o mesmo caminho.

Mas aqui...

As águas do lago do jardim zen não eram águas, de verdade. Por um momento, imagino que a sensação que melhor descreveria aquela experiência era estar no ventre da mãe. O lugar era quente, acolhedor, seguro... Mesmo o líquido enchendo os pulmões e garganta não trazia qualquer tipo de incômodo - pelo contrário, era uma sensação de preenchimento, de completude, indescritível.

E então, vem o clímax.

O universo se revela fora do tempo e do espaço, e expande minha consciência para um nível além. Tudo o que foi e tudo o que será passa diante dos olhos como um filme antigo. Todas as melodias, todas as dores e prazeres do mundo compilados ao meu redor. Havia tudo e nada havia naquele lugar, naquele momento... Naquilo.

Por um instante, é como seu eu fosse uno com o todo, um com toda a criação. E destruição. E recriação.

Então, a voz de Virgílio soa na minha mente. Não era algo audível, mas sensível. Ele pede perdão, e informa que aquele útero universal nos destruiria se permanecêssemos nele. E me arranca de lá, e joga em outro lugar, como se fosse um brinquedo.

E então, entre tosses e engasgos, todo o conhecimento universal, toda a maravilha daquele lugar, desaparece. Era apenas um condenado, outra vez. Uma alma perdida e confusa. E com sono.

E assim, adormeço.

********************

Quando meus olhos reabrem, estou em um luxuoso vagão de trem. O som da rodas sobre os trilhos e o balanço da viagem seriam os comuns a qualquer viagem daquele tipo, mas o lugar era diferente, de alguma forma. As cortinas, cerradas, escondiam o que quer que houvesse lá fora.

Havia outros passageiros, como eu, todos em sono profundo. Por um momento olho ao redor, instintivamente procurando por Aramis, Miranda e David, mas em princípio, sem sucesso.

Levanto, sorrateiro, do leito no qual estava, e cedo à curiosidade - mais do que ao bom senso - me dirigindo até uma das janelas com cortinas cerradas. Aproximo o rosto dela, e suavemente, em silêncio, abro a cortina, apenas o suficiente para ver o que havia além, tentando, ao máximo, não perturbar o sono dos outros passageiros.
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Mensagem por Alexyus Qua Abr 26, 2023 12:39 pm



♫♫♫

Aramis não compreendera o que ocorrera com Miranda e Davi, e apenas intuía que o barqueiro Virgílio fôra obrigado a reconvocá-los de onde estavam.

Ao ver-se numa cabine do trem, D'Anjou creu que finalmente estavam no trem que os levaria para Estígia.

O quarto 3 era mais uma sala de estar que um dormitório, e Aramis estava sentado numa poltrona de frente para um sofá, onde Samuel e Alice o acompanhavam. Isso o alegrava, pois  permitia que ele mantivesse sua palavra, mesmo enfrentando coisas e poderes dos quais pouco compreendia. A morte lhe parecia menos solitária desse modo, e mesmo que fosse um pobre consolo, ainda assim era um consolo.

Ele também trazia o magnífico violino que lhe fôra dado por Virgílio, e pegou-o para admirá-lo.

Erguendo os olhos para a face do casal há muito falecido, ele disse:

- Seja essa viagem longa ou curta, a música poderá nos entreter em nossa jornada.

Aramis empunhou o instrumento e começou a tocá-lo, combinando acordes conforme lhe eram trazidos por sua emoções, expressando o lamento pelo fim da vida pregressa, a ansiedade para compreender o que a vida após a morte lhe traria e a satisfação em enfrentar isso acompanhado de novos e improváveis amigos.    
 
Aramis D'Anjou











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Mensagem por GM Qui Abr 27, 2023 9:11 am

@Alexyus




Miranda Summer, uma dama de semblante pálido e olhar penetrante, viu-se mergulhada em um abismo de contemplações obscuras desde o inesperado mergulho no lago do refúgio do barqueiro. Enredada nas teias do oculto, sua mente outrora lógica e metódica agora se debatia em angústias indizíveis e mistérios arcanos. A cada instante, a escuridão do desconhecido ameaçava envolvê-la, fazendo-a duvidar de sua própria sanidade e resistência.

Samuel, camponês pobre oriundo das terras bucólicas de Provença, homem de expressão austera e porte altivo, encontrava-se aprisionado em um labirinto de emoções tumultuadas e conflitantes. A descida vertiginosa às profundezas abissais do lago havia abalado os alicerces de sua fé inabalável em Deus e Jesus, fazendo-o questionar a solidez das verdades que até então haviam norteado sua existência. Em meio à sua provação, a paixão que nutria por Alice, a jovem enigmática que o acompanhava, servia-lhe de âncora e luz no turbilhão de incertezas.

Alice, jovem de feições delicadas e sorriso enigmático, experimentava um turbilhão de sensações e sentimentos desde que emergira das águas enigmáticas do lago. A revelação de um mundo oculto e insondável, que se ocultava além do véu da realidade conhecida, despertara em seu coração um misto de terror e fascínio. Dividida entre o medo do desconhecido e o amor crescente por Samuel, buscava desesperadamente compreender o propósito de sua presença naquele teatro de sombras, onde os limites entre o real e o imaginário se confundiam em um caos indescritível.

O senhor Andrada, homem idoso e de aparência frágil, carregava em seus olhos cansados a marca indelével das provações vivenciadas nas águas misteriosas do lago. O mergulho no desconhecido desvendara a ele segredos insondáveis e verdades inescrutáveis, deixando sua alma marcada pela chaga do conhecimento proibido. Buscava agora, com crescente desespero, redenção e paz em meio à tormenta de eventos e revelações que se sucediam sem tréguas.

Cada um dos personagens, imerso em seu drama íntimo e indizível, procurava, à sua maneira, lidar com as consequências dos acontecimentos que se desenrolavam desde o mergulho no lago do refúgio do barqueiro. Unidos pelo destino e pelo mistério, Samuel e Alice encontravam consolo e força um no outro, enquanto caminhavam juntos em direção a um futuro incerto, onde sombras e segredos os aguardavam, prontos para desafiar sua compreensão e testar sua coragem diante do desconhecido.

Samuel e Alice despertaram de seu torpor onírico, envoltos em um ambiente de penumbra e silêncio, no interior do vagão que os conduzia ao destino inelutável de Estígia, a cidade eterna. Enclausurados no quarto número 3, seus olhos ainda embaçados pela névoa do sono cruzaram-se em um momento de reconhecimento mútuo, em que as almas atormentadas encontravam consolo na presença um do outro.

Nesse instante, o ar denso e opressor do vagão foi suavemente trespassado pelo som hipnótico e transcendental de um violino, cujas notas delicadas e melancólicas ecoavam pelos corredores do compartimento como se originadas do próprio éter. A melodia, executada com maestria inigualável por Aramis, o virtuoso violinista, penetrava no âmago de seus seres, evocando em seus corações uma miríade de emoções e reminiscências há muito adormecidas.

Aramis, com dedos ágeis e precisos, entoava a envolvente e atemporal "Meditação" de Thaïs, de Jules Massenet, uma composição clássica que, em sua suavidade e intensidade, arrebatava os ouvintes em um turbilhão de êxtase e melancolia. As notas plangentes do violino, como gotas de orvalho sobre a teia de um aracnídeo imemorial, entrelaçavam-se em uma dança sinuosa e envolvente, desvendando aos ouvidos atentos de Samuel e Alice os segredos ocultos da existência e do amor, que desabrochava em seus corações como uma flor noturna em meio à escuridão do desconhecido.


Despertados pela inebriante melodia e impelidos pelo ardor de suas almas aflitas, Samuel e Alice ergueram-se, como se impulsionados por uma força invisível e inexorável, e caminharam a passos hesitantes pelos corredores do vagão, ao encontro de Aramis e das respostas que ansiavam desvendar. Unidos pelo laço indissolúvel de sua paixão e pelo mistério que os envolvia, adentraram o domínio do violinista, guiados pelas notas etéreas e inescrutáveis de uma música que parecia emanar das próprias profundezas do tempo e do espaço.



@Mandhros

Ao espreitar cautelosamente por entre as cortinas do vagão, Petrov vislumbrou uma visão de tal magnitude que desafiava a descrição por meio da linguagem mortal. Reminiscente da cidade das sombras em "O Grande Abismo" de C.S. Lewis, observou os trilhos do trem soltos no vácuo abissal, circundados pela escuridão profunda e impenetrável, descendo cada vez mais no desconhecido.

Ao longe, ele podia discernir o brilho tênue e opaco de Estígia e Carcosa, as duas cidades do mundo dos mortos. Intrigado, Petrov se questionava por que o barqueiro não havia mencionado Carcosa até então. Que arcanos e imperscrutáveis segredos poderia aquela cidade ocultar em suas entranhas? Ambas as metrópoles possuíam uma conformação esférica, repletas de edificações, ruas e becos que se estendiam em todos os eixos, desafiando as leis da geometria euclidiana.

Dimitri percebeu, atônito, que à medida que o trem se aproximava da cidade dos mortos, a parte dianteira do veículo se expandia em relação aos vagões mais traseiros. Igualmente, constatou que o mesmo fenômeno ocorria com as duas cidades. As construções e estruturas centrais destas metrópoles eram incomensuravelmente maiores do que as localizadas em suas periferias.

Com um misto de espanto e temor, Dimitri compreendeu que as cidades, embora aparentemente delimitadas, eram na verdade infinitas. Quanto mais próximas de seu perímetro exterior, menor se tornava tudo o que nelas habitava. Caso alguém tentasse alcançar o horizonte de eventos dessas cidades, jamais obteria êxito, pois à medida que se aproximasse de suas zonas marginais, tanto as construções quanto a distância percorrida encolheriam, como se o espaço se contraísse em relação ao núcleo central. Uma paradoxal e insondável manifestação que desafiava a lógica e a razão, perturbando a mente de quem ousasse confrontar tal enigma.


Caminho Para Estígia Gm_mak34

Sem barulho fazer, Virgílio aproxima-se e toca no ombro de Dimitri e diz:

Tu, então, discerniste uma terrível e inescapável verdade, compreendendo com crescente pavor que quem ousasse adentrar tal cidade por meios convencionais estaria condenado a um destino eterno de confinamento. Com palavras esotéricas e belas, tal constatação envolveu tua mente em um véu de trevas e desespero, revelando a insondável condição a que os desafortunados habitantes daquela metrópole estariam submetidos.

Uma vez que atravessassem o limiar daquelas esferas em constante expansão e contração, jamais encontrariam o caminho de retorno, perpetuamente presos nas garras de um labirinto cujas muralhas, em sua geometria não euclidiana, escondiam segredos imperscrutáveis e horrores indescritíveis.

A simples ideia de tal destino fez com que um calafrio percorresse tua espinha, enquanto o pânico se insinuava insidiosamente em teu coração, corroendo-o como o mais venenoso dos ácidos. O peso dessa revelação era sufocante, como se as sombras de um abismo infinito se abatessem sobre tua alma, ameaçando engolfá-la em um oceano de desesperança e desolação.

- O barqueiro completa. Não pense muito nisso... Venha, vamos despertar os outros, mas faça silêncio, não estamos sozinhos...

Caminho Para Estígia Gm_mak33

A simples ideia de tal destino fez com que um calafrio percorresse vossas espinhas, enquanto o pânico se insinuava insidiosamente em vossos corações, corroendo-os como o mais venenoso dos ácidos. O peso dessa revelação era sufocante, como se as sombras de um abismo infinito se abatessem sobre vossas almas, ameaçando engolfá-las em um oceano de desesperança e desolação.




(Vocês conseguiram entender por que as cidades eram infinitas, apenas de limitadas?)




Já podem fazer suas postagens.


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Mensagem por Mandhros Sex Abr 28, 2023 11:41 am

A sensação, ao olhar pela janela, era de que eu estava, em tudo, perdido.

As dimensões e formas das cidades, ao longe, desafiavam a lógica comum e os conceitos de física conhecidos. Aquilo parecia ser um pesadelo se desdobrando de si mesmo, sem começo e sem fim, em constante expansão e mudança.

Aquele era, de fato, o terceiro choque que minha mente sofria, em pouquíssimo tempo: acordar em meio ao icor, após um assassinato brutal; observar o universo feito e desfeito no interior do lago do santuário de Virgílio... E agora isso...

Em vida eu me considerava uma pessoa corajosa. Eu abdiquei da minha própria vida por um ato de coragem, na minha concepção... Mas aquilo... Aquilo era demais para a minha mente. Ao mesmo tempo em que a imagem que corria através da janela era encantadoramente bela, era incrivelmente amendrotadora. Poucas vezes, desde que me lembro de existir, me senti tão pequeno e insignificante quanto naquele instante.

E então Virgílio surge pelas minhas costas. Eu não o vi, nem o ouvi. Como poderia? Minha atenção estava toda voltada para o que havia além e para o nosso destino. Quando ele finalmente fala, uma agonia indescritível preenche meu ser, e pela primeira vez em muito tempo, tremo. Estígia era mais que uma cidade. Era uma prisão inescapável para todos aqueles que, como Virgílio, não soubessem transitar pelo além-túmulo.

Por fim, o barqueiro me convida a despertar os demais. Mas o choque pelo que eu via ainda não me permitia me mover adequadamente de onde eu estava...

Uma palavra ecoava na minha mente... Carcosa. De alguma forma, eu sabia que era a outra cidade, que não Estígia. E estava muito intrigado por este espaço não ter sido mencionado até então.

Antes de partir em busca dos demais, antes de mover um emulador espectral de qualquer músculo, e antes mesmo de tirar os olhos daquela janela, pergunto ao barqueiro:

Você falou sobre Estígia... Sobre a cidade ser o nosso destino e o alvo de nossas buscas.

Mas há também outra cidade. De alguma forma sei seu nome. Carcosa. O que ela é? Por que vamos a Estígia e não a Carcosa?

Ainda sem me mover, aguardo a resposta, algum esclarecimento que pudesse me tirar daquele transe.
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Mensagem por Alexyus Dom Abr 30, 2023 11:01 am



♫♫♫

Aramis já vira inúmeras vezes a magia da música tocando as almas dos que a escutavam, e agora percebia que esse poder estendia-se além da morte. Samuel, Alice e seus outros companheiros não estavam alheios da influência revigorante que a melodia do violino presentado a Aramis espalhava pelo recinto do trem fantasma.

Ele continuou a tocar, preferindo comunicar-se com eles com as notas musicais em lugar das palavras, com uma serenata substituindo as conversas de viagem, fossem superficiais ou profundas.

Quando chegaram ao destino, a visão etérea da cidade era impressionante, mas de algum modo Aramis já esperara por aquilo. Parecia uma representação física de um pensamento que jazia em seus subsconsciente por mais tempo do que ele seria capaz de lembrar.

Guardando seu violino cuidadosamente, Aramis preparou-se para deixar o trem, e disse aos seus companheiros:

- Parece que é hora de encarar nosso destino, meus amigos! Vamos ficar juntos até entendermos o que vamos encontrar, certo?    
 
Aramis D'Anjou











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Mensagem por GM Qui maio 11, 2023 8:46 am

@Alexyus e @Mandhros




"Veja bem, Dimitri," começou Virgílio, apontando para a escuridão além da janela do vagão, onde formas estranhas e terríveis se revelavam nas sombras. "Diante de nós jazem duas cidades imersas em sombras e mistérios, cujos nomes arrepiam a espinha dos mais bravos aventureiros: Estígia e Carcosa."

"Ali, além dos nevoeiros mórbidos," prosseguiu ele, seus dedos esquálidos delineando as silhuetas das construções à distância, "está Estígia. Uma metrópole fúnebre que surge das profundezas do pântano da Melancolia. Os monólitos cinzentos que compõem seus edifícios emergem como espectros de uma civilização há muito esquecida do solo saturado de água. O rio Estígia, cujo nome a cidade ostenta, serpenteia pelas suas ruas como veias sanguíneas, carregando segredos sepultados e o lamurio de almas perdidas."

A expressão de Virgílio se tornou mais sombria ainda quando seus olhos se voltaram para o horizonte oposto. "E lá, Dimitri, além das estrelas conhecidas, jaz Carcosa. Uma cidade de torres amareladas erguendo-se do limiar de um lago negro e insondável. As estrelas que a banham em luz são estrangeiras, suas constelações desconhecidas para nós, e a lua que a ilumina é uma gêmea distorcida da nossa. As almas que perambulam por suas ruas são espectralmente silenciosas, e o próprio ar parece vibrar com a insanidade que lhe é intrínseca."

Virgílio recuou, afastando-se da janela e de sua vista sombria. A menção a essas cidades trouxera à tona memórias que, mesmo para ele, eram melhor deixadas na escuridão. No entanto, era vital que Dimitri compreendesse os perigos e horrores que esses lugares representavam, para que, quando confrontado com eles, pudesse manter sua sanidade diante de tais abominações.

Virgílio, sua voz embargada pela profunda reflexão trazida à tona pela visão dessas duas cidades esquecidas, se volta para Dimitri. Seus olhos, que já testemunharam horrores inenarráveis, agora brilhavam com uma luz diferente, uma luz quase humana, que Dimitri raramente via.

"Dimitri Petrov," ele começou, sua voz baixa e sombria ressoando dentro do vagão, "Eu lhe pergunto agora, diante da visão dessas cidades eternas, você acredita na transcendência das almas? Você crê na existência de um lugar, talvez um reino ou uma esfera, além dessas terras desoladas que chamamos de Hades, onde as almas encontram repouso e, quem sabe, redenção?"

Era uma pergunta, quase retórica, carregada de esperança e de desespero, uma pergunta que, talvez, Virgílio fizesse a si mesmo todas as noites, quando a escuridão caía e as estrelas estranhas de Carcosa brilhavam nos céus. A resposta, ele sabia, não seria fácil, mas ele a aguardava com grande expectativa, como um homem perdido no deserto anseia por um gole de água.

Com uma expressão contemplativa, Virgílio voltou a olhar para o horizonte sombrio, onde as luzes de Carcosa piscavam como vaga-lumes em uma noite de verão. "Sabe, Dimitri, há um murmúrio que perambula pelo Hades, uma lenda que flutua sobre as águas turvas do Estige e ecoa nas ruas labirínticas de Carcosa. Fala de uma praia distante, um lugar que não é deste mundo, mas que pode ser alcançado a partir daqui."

Ele pausou por um momento, seus olhos fixos na distância, como se pudesse ver essa praia mítica através do véu da realidade. "Dizem que o acesso a este local é possível apenas através de um veículo singular, um ônibus que percorre as ruas mais sombrias e perigosas de Carcosa. Aqueles que têm coragem de embarcar nesta jornada, dizem que encontram não apenas a praia, mas a possibilidade de transcendência."

Virgílio se virou para Dimitri, seu olhar penetrante fixo no russo. "Lembra-me de uma história contada por um sábio chamado C. S. Lewis, em um livro que cruzou o abismo entre nosso mundo e este. Ele falava de espíritos aprisionados, habitantes de um inferno que poderiam encontrar a redenção se escolhessem habitar o país dos sólidos. Ele propôs que, mesmo no mais profundo desespero, ainda há esperança, se pudéssemos encarar com sinceridade nossas vergonhas, sombras e demônios internos."

Ele deixou que essas palavras pairassem no ar entre eles, um convite silencioso para a reflexão. "Não posso dizer se essas histórias são verdadeiras, Dimitri. Mas eu acredito que a esperança, mesmo nas profundezas do Hades, é algo pelo qual vale a pena lutar. Afinal, o que é a eternidade senão a busca incessante pela transcendência? Concordas comigo, ou achas que estamos realmente e eternamente perdidos? O que dizes de tudo isso?"


Ao fim da viagem Virgílio se reúne com todos, no vagão de desembarque.

"O fim de nossa viagem sinistra aproxima-se, Dimitri e Aramis", disse Virgílio, sua voz um murmúrio melódico contra o uivo constante do vento noturno que passava pelo trem. "É hora de nos juntarmos aos outros e prepararmo-nos para desembarcar neste mundo cinzento."

Seus olhos, brilhando com uma luz sobrenatural, fixaram-se no rosto do russo e do bardo. "Há uma decisão que precisamos tomar. A cidade de Estígia está próxima, com suas ruas escuras e soturnas, um refúgio para as almas que se perderam. Mas há também Carcosa, um lugar tão estranho e terrível quanto belo, onde as almas se perdem não na escuridão, mas na loucura em busca do transcender?"

Ele fez uma pausa, deixando que as palavras se assentassem. "Lembro-te do ônibus, Dimitri. Aquele que supostamente conduz à praia distante, uma chance de redenção. É isso que te puxa para Carcosa? A esperança de transcendência em meio ao perigo? Ou preferes a segurança, conhecida de Estígia?"

Eu não te falei sobre Carcosa Aramis, farei isso um pouco mais agora...

"Vou lhe contar um pouco mais sobre Carcosa, Aramis", começou Virgílio, o sussurro de sua voz se misturando aos sons estranhos e irreconhecíveis que emanavam da paisagem além da janela do trem. "É um lugar de mistério e loucura, onde a realidade se contorce e se molda de maneiras que desafiam a compreensão humana."

"Carcosa é uma cidade de torres estranhas e sinuosas, construídas em uma terra sob um céu negro pontilhado por estrelas não familiares", continuou ele, seus olhos fixos em algum ponto distante. "É uma cidade que habita as margens do lago de Hali, um espelho d'água tão vasto que se perde de vista, suas águas profundas e imóveis refletindo as torres bizarro-góticas da cidade e o céu espectral acima."

"Mas Carcosa não é apenas uma cidade, é um reino, e todo reino tem seu rei. Em Carcosa, esse rei é Hastur, o Rei de Amarelo", disse Virgílio, sua voz diminuindo até quase um sussurro. "Hastur é uma entidade de poder inimaginável, um ser cuja mera presença pode enlouquecer os mortais. Ele é uma criatura de contradições, ao mesmo tempo um deus e um demônio, um rei e um mendigo, um sábio e um tolo. Ele reina sobre Carcosa com uma mão de ferro, vestindo suas vestes amarelas que são tanto uma bênção quanto uma maldição para aqueles que as veem."

"Agora, Aramis", concluiu Virgílio, "você deve decidir se é para esse lugar de mistério e loucura que você deseja ir. Ou segues para a segura Estígia."


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Virgílio se levantou, a luz fantasmagórica do trem lançando sombras estranhas em seu rosto. "A decisão é vossa, Dimitri e Aramis. Uma vez feita, só poderás mudar de opção após um século em uma dessas cidades. Mas lembra-te, o tempo aqui é um rio estranho, fluindo de maneiras que não conseguimos compreender. Então, qual será tua escolha?"


Caminho Para Estígia Zdzisa10

Caminho Para Estígia Deskto10

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Mensagem por Mandhros Sex maio 12, 2023 10:00 am

"Veja bem, Dimitri," começou Virgílio, apontando para a escuridão além da janela do vagão, onde formas estranhas e terríveis se revelavam nas sombras. "Diante de nós jazem duas cidades imersas em sombras e mistérios, cujos nomes arrepiam a espinha dos mais bravos aventureiros: Estígia e Carcosa."

"Ali, além dos nevoeiros mórbidos," prosseguiu ele, seus dedos esquálidos delineando as silhuetas das construções à distância, "está Estígia. Uma metrópole fúnebre que surge das profundezas do pântano da Melancolia. Os monólitos cinzentos que compõem seus edifícios emergem como espectros de uma civilização há muito esquecida do solo saturado de água. O rio Estígia, cujo nome a cidade ostenta, serpenteia pelas suas ruas como veias sanguíneas, carregando segredos sepultados e o lamurio de almas perdidas."

A expressão de Virgílio se tornou mais sombria ainda quando seus olhos se voltaram para o horizonte oposto. "E lá, Dimitri, além das estrelas conhecidas, jaz Carcosa. Uma cidade de torres amareladas erguendo-se do limiar de um lago negro e insondável. As estrelas que a banham em luz são estrangeiras, suas constelações desconhecidas para nós, e a lua que a ilumina é uma gêmea distorcida da nossa. As almas que perambulam por suas ruas são espectralmente silenciosas, e o próprio ar parece vibrar com a insanidade que lhe é intrínseca."
Escutei, atentamente, as explicações do barqueiro. Durante nossa breve estadia na estação de trem, Virgílio mencionou, repetidamente, a cidade de Estígia, afirmando, entre outras coisas, que nosso destino estava lá. Quanto a mim, o impulso de ir à cidade decorreu das menções à biblioteca e a poder descobrir como estavam minha família... E o que aconteceu efetivamente com o meu algoz.

Não houve menção anterior a Carcosa.

De alguma forma, me sinto curioso com o novo possível destino... Eu me acostumei a estar em terras estrangeiras e lugares estranhos durante toda a minha vida mortal. Construí uma família em segredo, bem no coração do território inimigo... A menção a espectros silenciosos e insanidade não me assustavam.

No entanto, era em Estígia que meus objetivos residiam, e não em Carcosa.

"Dimitri Petrov," ele começou, sua voz baixa e sombria ressoando dentro do vagão, "Eu lhe pergunto agora, diante da visão dessas cidades eternas, você acredita na transcendência das almas? Você crê na existência de um lugar, talvez um reino ou uma esfera, além dessas terras desoladas que chamamos de Hades, onde as almas encontram repouso e, quem sabe, redenção?"

(...)

Com uma expressão contemplativa, Virgílio voltou a olhar para o horizonte sombrio, onde as luzes de Carcosa piscavam como vaga-lumes em uma noite de verão. "Sabe, Dimitri, há um murmúrio que perambula pelo Hades, uma lenda que flutua sobre as águas turvas do Estige e ecoa nas ruas labirínticas de Carcosa. Fala de uma praia distante, um lugar que não é deste mundo, mas que pode ser alcançado a partir daqui."

Ele pausou por um momento, seus olhos fixos na distância, como se pudesse ver essa praia mítica através do véu da realidade. "Dizem que o acesso a este local é possível apenas através de um veículo singular, um ônibus que percorre as ruas mais sombrias e perigosas de Carcosa. Aqueles que têm coragem de embarcar nesta jornada, dizem que encontram não apenas a praia, mas a possibilidade de transcendência."

Virgílio se virou para Dimitri, seu olhar penetrante fixo no russo. "Lembra-me de uma história contada por um sábio chamado C. S. Lewis, em um livro que cruzou o abismo entre nosso mundo e este. Ele falava de espíritos aprisionados, habitantes de um inferno que poderiam encontrar a redenção se escolhessem habitar o país dos sólidos. Ele propôs que, mesmo no mais profundo desespero, ainda há esperança, se pudéssemos encarar com sinceridade nossas vergonhas, sombras e demônios internos."
E, no meio de toda a explicação de Virgílio, o questionamento, talvez mais retórico do que qualquer outra coisa, tirou aquela entidade do seu manto de mistério e lhe concedeu um ar quase humano.

Não fujo da pergunta, contudo.

Se eu acredito na transcendência das almas?

A questão é que, até há bem pouco tempo atrás, eu sequer acreditava em almas. Minha vida foi dura, e a todo tempo eu era lembrado do quanto era mais valioso ser pragmático que contemplativo. Não havia muito espaço para filosofia ou religião no meu tempo entre os vivos.

Faço uma pausa dramática, e ainda com os olhos fixos na paisagem além da janela, prossigo.

Mas parece que o que me ensinaram estava errado, de alguma maneira. Se almas existem, é possível que exista algo além, também. A idéia de praias distantes e de uma experiência transcendental parecem menos estranhas, agora...

Suspiro e, por fim, coloco minhas próprias considerações à apreciação do barqueiro:

De alguma forma que não sei explica, Carcosa me atrai. Eu sempre vivi no estrangeiro, e entre estranhos, e aprendi a apreciar as novas paragens. Por mais que este lugar já pareça diferente de tudo o que vi, a simples menção a um lugar ainda mais diferente me deixa realmente tentado a conhecê-lo.

Contudo...

Contudo, você disse que as informações de que necessito, sobre como estão minha família e a pessoa que provocou a minha morte, estão em Estígia. Praias brancas, campos verdejantes e universos diferentes podem esperar. Aqueles que estão entre os vivos, não. Eu vou a Estígia primeiro.

Apenas então, finalmente, tiro os olhos de além da janela. Havia fogo neles, pura determinação. Eu sabia o que precisava fazer, embora ainda não soubesse como fazê-lo.

"Não posso dizer se essas histórias são verdadeiras, Dimitri. Mas eu acredito que a esperança, mesmo nas profundezas do Hades, é algo pelo qual vale a pena lutar. Afinal, o que é a eternidade senão a busca incessante pela transcendência? Concordas comigo, ou achas que estamos realmente e eternamente perdidos? O que dizes de tudo isso?"
Em mais um arroubo de humanidade, Virgílio se mostra extramemente surpreendente.

Neste momento, esperança é tudo o que temos.

Deixamos o vagão e vamos nos reunir aos demais. E ali, próximo ao fim da viagem, o barqueiro prossegue seu discurso:

"Há uma decisão que precisamos tomar. A cidade de Estígia está próxima, com suas ruas escuras e soturnas, um refúgio para as almas que se perderam. Mas há também Carcosa, um lugar tão estranho e terrível quanto belo, onde as almas se perdem não na escuridão, mas na loucura em busca do transcender?"

Ele fez uma pausa, deixando que as palavras se assentassem. "Lembro-te do ônibus, Dimitri. Aquele que supostamente conduz à praia distante, uma chance de redenção. É isso que te puxa para Carcosa? A esperança de transcendência em meio ao perigo? Ou preferes a segurança, conhecida de Estígia?"

Eu não te falei sobre Carcosa Aramis, farei isso um pouco mais agora...

"Vou lhe contar um pouco mais sobre Carcosa, Aramis", começou Virgílio, o sussurro de sua voz se misturando aos sons estranhos e irreconhecíveis que emanavam da paisagem além da janela do trem. "É um lugar de mistério e loucura, onde a realidade se contorce e se molda de maneiras que desafiam a compreensão humana."

"Carcosa é uma cidade de torres estranhas e sinuosas, construídas em uma terra sob um céu negro pontilhado por estrelas não familiares", continuou ele, seus olhos fixos em algum ponto distante. "É uma cidade que habita as margens do lago de Hali, um espelho d'água tão vasto que se perde de vista, suas águas profundas e imóveis refletindo as torres bizarro-góticas da cidade e o céu espectral acima."

"Mas Carcosa não é apenas uma cidade, é um reino, e todo reino tem seu rei. Em Carcosa, esse rei é Hastur, o Rei de Amarelo", disse Virgílio, sua voz diminuindo até quase um sussurro. "Hastur é uma entidade de poder inimaginável, um ser cuja mera presença pode enlouquecer os mortais. Ele é uma criatura de contradições, ao mesmo tempo um deus e um demônio, um rei e um mendigo, um sábio e um tolo. Ele reina sobre Carcosa com uma mão de ferro, vestindo suas vestes amarelas que são tanto uma bênção quanto uma maldição para aqueles que as veem."

"Agora, Aramis", concluiu Virgílio, "você deve decidir se é para esse lugar de mistério e loucura que você deseja ir. Ou segues para a segura Estígia."
O questionamento final era apenas um reforço da decisão que, antes e em particular, eu já tinha confidenciado a Virgílio. Contudo, não mostro dúvidas:

Eu não sei quanto a vocês, companheiros... Sinto-me tentado a ir a Carcosa, conhecer sua nova realidade... Mas meu destino reside em Estígia. As coisas que busco e das quais necessito estão lá, e não na outra cidade. Então, é para lá que eu vou primeiro.

Vocês me acompanham?

Assim, aguardo a reposta dos demais, antes de finalmente seguir meu caminho.
Alexyus
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Mensagem por Alexyus Sex maio 12, 2023 6:20 pm



♫♫♫

Aramis escutou tudo aquilo sobre Carcosa, e, a cada palavra, o lugar lhe parecia mais e mais desagradável.

Ele ponderou:

- A morte é um estado triste, mas a loucura é ainda mais lamentável! Não irei para Carcosa! Desde a estação, estamos ansiosos para chegar a Estígia, não apenas eu, mas também meus companheiros! Miranda e David e Samuel e Alice! Não falharei com eles neste momento! O que quer que nos espere em Estígia, nós encararemos esse destino, e não cederemos às garras da loucura!

Aramis não tinha pertences para levar, apenas o violino que lhe fora presenteado por Virgílio. Ele carregou o instumento cuidadosamente enquanto ia ao encontro dos outros viajantes além-túmulo.   
 
Aramis D'Anjou











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Mensagem por GM Dom maio 14, 2023 11:07 am

@Alexyus @Mandhros




A tensão entre David e Miranda havia se tornado evidente há algum tempo. A dupla sempre foi a mais silenciosa, observando a dinâmica do grupo com olhos penetrantes e pensamentos inescrutáveis. Através das janelas embaçadas do vagão, eles contemplavam a estranha paisagem que se desenrolava, uma tapeçaria tênue de sombras e mistérios, e pareciam encontrar algum tipo de apelo sedutor nela.

Havia um desejo mudo neles, um anseio que se refletia em seus olhos quando olhavam para o horizonte, como se estivessem sendo chamados para algo além do conhecido, além de Estígia. Ouviam-se sussurros de conversas privadas, palavras trocadas em tons baixos, olhares compartilhados que falavam mais do que qualquer diálogo poderia expressar.

Era evidente que David e Miranda estavam à beira de uma decisão, um ponto de ruptura que pendia como uma espada sobre a harmonia do grupo. Suas almas, parecia, estavam alinhadas com a estranha melodia de Carcosa, um chamado que não podiam ignorar, mesmo que quisessem.

As outras figuras do grupo, embora conscientes da crescente separação, permaneceram em silêncio, talvez por respeito, talvez por medo de quebrar a frágil teia de companheirismo que havia se formado entre eles. Eles continuaram seu caminho, cada um imerso em seus próprios pensamentos, enquanto o trem seguia rumo a Estígia, com a sombra de Carcosa espreitando ao longe, um destino inesperado para dois viajantes inquietos.

Com a iminência da separação do grupo, o vagão se encheu de uma melancolia pungente, enquanto as palavras de Miranda e David, ressoavam como um lamento final naquele espaço confinado. As luzes do vagão piscavam, como se ecoassem a sombria revelação que pairava no ar.

"Preferimos Carcosa", disse Miranda, a voz embargada pela emoção, mas firme na decisão que acabara de tomar. Seu olhar, marcado pelo farol de determinação, encontrou o de cada um dos presentes, buscando algum indício de compreensão. "Estígia pode ser a cidade eterna, mas a nós parece mais um purgatório. Carcosa, com suas sombras e enigmas, nos chama, nos oferece a promessa de mistérios ainda não desvelados."

David, seu companheiro, assentiu com um aceno de cabeça, ecoando as palavras de Miranda com uma convicção igualmente contundente. "Sim, talvez estejamos caminhando para o desconhecido, para os braços de um perigo incognoscível. Mas, para nós, é preferível enfrentar o incerto a conviver com a eternidade estática de Estígia."

As palavras de ambos pareceram reverberar no ar, criando um arco de despedida melancólica. Ninguém falou, mas todos sentiram a perda, como se um pedaço do grupo estivesse sendo arrancado deles.

Então, num gesto de profundo afeto e com um peso palpável de melancolia, o grupo se abraçou em silêncio. Palavras eram desnecessárias, inúteis até, pois nenhuma expressão verbal poderia captar a magnitude do momento. Eles se seguraram firmemente, absorvendo a presença uns dos outros, gravando na memória os contornos dos rostos, a essência de cada um, para que pudessem carregar essas lembranças consigo nos desafios que os esperavam.

Lágrimas foram derramadas, risos trêmulos ecoaram no vagão e então, com um último olhar, Miranda e David se afastaram, deixando para trás o grupo de companheiros que haviam compartilhado essa jornada tão extraordinária e perturbadora. A separação foi ao mesmo tempo tocante e emocionante, agridoce como o derradeiro adeus antes de se embarcar numa nova aventura, rumo ao desconhecido.




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Com um suspiro quase inaudível, o sol duplo de Carcosa desceu, tingindo o céu de um laranja opaco e desvanecido, semelhante a um pergaminho antigo. A cidade, uma entidade silenciosa e sombria, assistia impassível ao desvanecer da luz, enquanto David e Miranda, ambos com a expressão de quem enfrenta o desconhecido, deixava para trás o trem que outrora os levaria a Estígia. Do outro lado, Virgílio, o barqueiro, Aramis, o bardo, Dimitri, o russo e o casal Samuel e Alice, seguiam unidos, nessa jornada póstuma. O trem, uma relíquia de um tempo esquecido, parecia uma serpente metálica que rastejava através da planície desolada, rasgando a quietude com seu uivo melancólico. Em seu interior, os assentos de veludo desgastado e as janelas embaçadas testemunhavam o peso dos séculos e a transição incontável de almas. A chegada a Estígia foi anunciada pela vista de uma estação vazia, mas cheia de ecos. Ecos de risadas abafadas, sussurros perdidos e passos que já não tocavam o chão. Fantasmas vagavam, como sombras etéreas, seus contornos borrados e indefinidos, como se fossem apenas fragmentos de uma realidade desbotada. A cidade eterna dos mortos estendia-se diante deles, uma pintura em tons de cinza, como se tivesse sido arrancada de um dos desenhos de Gustave Doré. As edificações, outrora grandiosas, agora pareciam cansadas, suas fachadas descoloridas e estruturas erodidas pelo tempo. As ruas, longas e sinuosas, estavam vazias de vida, mas cheias de uma presença inquietante.





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O silêncio era quase palpável, interrompido apenas pelo farfalhar das folhas mortas que rodopiavam ao sabor do vento. Era uma cidade que não conhecia a alegria, onde o riso era uma lembrança distante. A monotonia do lugar era como um véu, uma névoa cinzenta que envolvia tudo e todos. As cores, onde ainda existiam, estavam desbotadas, como se tivessem sido lavadas por uma chuva interminável. Havia uma beleza trágica em Estígia. Uma beleza encontrada na quietude de suas ruas vazias, na melancolia de suas estruturas desmoronadas e na solenidade de seus habitantes fantasmagóricos. Era como se a cidade fosse uma melodia triste, tocada em um instrumento antigo e desafinado. Uma melodia que, apesar de seu tom lúgubre, continha uma profundidade de emoção que só poderia ser apreciada por aqueles dispostos a ouvir. Alice e Samuel, parados diante da visão da cidade eterna dos mortos, sentiram um arrepio percorrer suas espinhas. Estavam diante de um mundo que não conheciam, um mundo que parecia existir em um estado de eterno outono. Mas, mesmo assim, não havia medo em seus corações. Havia uma estranha calma, uma aceitação de que este era o seu destino. O ar, carregado com o perfume de madeira antiga e o cheiro pungente de folhas apodrecidas, envolveu-os como um manto. Dimitri, o russo, olhou para os novos chegados, seu rosto marcado por uma expressão de resignação. Aramis, o bardo, tocou uma melodia em seu violino, uma canção triste que parecia espelhar a atmosfera da cidade. Virgílio, o barqueiro, os guiou pelas ruas vazias, suas botas ecoando contra o chão de pedra. Os edifícios ao redor pareciam observá-los, suas janelas vazias como olhos sem vida. Em cada esquina, em cada beco, podia-se sentir a presença de almas perdidas, cada uma com sua própria história, cada uma presa neste limbo eterno. As sombras se alongavam e se contorciam ao redor deles, dançando ao sabor do vento frio que assobiava pelas ruelas estreitas. As luzes que vinham das lâmpadas de gás eram frágeis e trêmulas, projetando um brilho fantasmagórico que apenas realçava a desolação do lugar. Estígia, a cidade eterna dos mortos, era um lugar de silêncio e esquecimento, um lugar onde a vida e a morte se entrelaçavam em um abraço eterno. Era um lugar de tristeza, mas também de beleza. Uma beleza que, como um diamante, só pode ser apreciada sob a luz certa. David e Miranda, agora parte desse mundo descolorido e melancólico, olharam um para o outro. Eles haviam descido em Carcosa, testemunhado o pôr do sol sob os sois gêmeos e embarcado no trem para Estígia. Agora, eles eram apenas mais duas almas vagando pelas ruas cinzentas, duas almas unidas no limbo. E, no entanto, mesmo diante da melancolia e da monotonia, havia uma promessa. A promessa de que, mesmo em um lugar como Estígia, existia algo mais. Algo que valia a pena explorar. Algo que, apesar de todo o esquecimento e desolação, ainda brilhava com uma luz fraca, mas constante. Uma luz que, como a esperança, nunca se apaga completamente. Virgílio, o barqueiro, era mais do que um simples condutor de almas. Ele era o guia, o guardião, e para Dimitri e Aramis, ele era a única ligação com o mundo que deixaram para trás. Com um gesto amplo de seu braço ossudo, ele apontou para a cidade de Estígia, suas palavras se desenrolando como um mapa. "Podemos passar pela rua dos sonhos esquecidos," sugeriu Virgílio, seus olhos brilhando com uma luz sobrenatural. "É um lugar onde as almas revivem suas memórias mais queridas, em busca de algum consolo. Mas cuidado, é fácil se perder na nostalgia e esquecer o caminho de volta." Ou, talvez, visitar o mercado das lamentações. "Lá, os espectros trocam histórias e segredos, e vendem artefatos de suas vidas passadas. É um lugar de trocas e barganhas, onde você pode encontrar quase qualquer coisa, se estiver disposto a pagar o preço." "E há a biblioteca eterna," continuou Virgílio, seus olhos fixos em um prédio distante. "Ali, todas as histórias já contadas estão registradas. Cada vida, cada morte, cada riso, cada lágrima. Pode ser um bom lugar para entender mais sobre este reino e sobre alguém que você procura." Mas a missão principal, como Virgílio fez questão de lembrar, era o castelo dos arcontes. "Lá é onde devemos preencher a papelada e explicar a situação de Samuel e Alice. As autoridades precisam entender o que aconteceu para que possam determinar o destino deles. E é também lá que poderemos solicitar um refúgio para vocês."




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O castelo dos arcontes, uma imponente estrutura gótica que se erguia no coração de Estígia, era um local de burocracia e ordem, onde as almas recém-chegadas eram registradas e orientadas. Não era um lugar acolhedor, mas era necessário para entender e aceitar a nova realidade. "E então, o que preferem?" perguntou Virgílio, olhando para Dimitri e Aramis. "Podemos explorar a cidade e suas peculiaridades, ou podemos ir direto ao castelo. A escolha é de vocês."





Já podem fazer suas postagens...
(Eu cometi um engano, corrigi ele agora a pouco, por favor, se já fizeram a leitura, leiam novamente.)

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Mensagem por Alexyus Qua maio 24, 2023 3:42 pm



♫♫♫

Aramis ficou verdadeiramente chocado com a escolha de Miranda e David, mas não havia nada a fazer para mudar a escolha deles.

Ao chegar em Estígia, ele ouviu as explicações de Virgílio sobre alguns dos lugares úteis da cidade.

À última pergunta dele, Aramis respondeu prontamente:

- A biblioteca é o que mais me interessa. Além de descobrirmos o que mais queremos, também podemos encontrar alguma informação que seja valiosa na audiência com os arcontes na torre, para onde deveremos ir depois.  
 
Aramis D'Anjou











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Mensagem por Mandhros Qua maio 24, 2023 5:02 pm

Então David e Miranda preferiram Carcosa...

Eu não podia julgá-los. Eu tive o mesmo chamado, um que apenas não atendi por conta de algumas âncoras, grilhões que me guiam em outra direção, na tentativa de obter outras informações. A vida e a segurança dos meus entes queridos, no fim das contas, importava mais que a minha própria jornada por esse mundo novo, e eu não fazia questão nenhuma de me esquecer disso.

Ouço Virgílio a cada palavra - que era também um gesto e um pensamento, uma imagem e uma ação, como eu estava começando a me acostumar... - enquanto ele discorria sobre ruas e becos, mercados, bibliotecas e castelos.

Não foi com surpresa que ouvi Aramis dizer que pretendia ir, primeiro, à Biblioteca Eterna. Na verdade, era o mesmo destino que eu pretendia visitar, antes de qualquer outro. Mas eu tinha minhas próprias razões.

Anuindo com o bardo, disparo:

De fato, concordo com Aramis... Creio que a Biblioteca seria o melhor destino inicial... O melhor ponto de partida aqui em Estígia.

Virgílio, você disse que todo o conhecimento dos vivos e dos mortos está encerrado lá. Mesmo recém-chegados, como nós, poderíamos pesquisar livremente?

E, enquanto aguardo a resposta do barqueiro, olho casualmente ao redor, apreciando a paisagem de Estígia e cedendo ao hábito de tentar memorizar os lugares pelos quais passava - muito embora as leis da física não se aplicassem àquele lugar de sonhos e pesadelos.
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