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    A Longa Noite do Fim do Mundo

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    A Longa Noite do Fim do Mundo Empty A Longa Noite do Fim do Mundo

    Mensagem por Lnrd em Sex Out 11, 2019 1:25 pm

    Há um livro antigo
    Escrito numa língua estranha

    Salvo erros e dificuldades de tradução
    Segue a história
    Conforme nele contada





    CRÔNICAS PERDIDAS
    DO FIM DAS ERAS
    Traduzidas do
    LIVRO AZUL DO MARCO DO VALE CENTRAL







    A Longa Noite do Fim do Mundo 63b7a910





    “Havia Eru, o único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou” (Tolkien, Ainulindalë)


    Pendurada ao escuro teto do céu, a Valacirca, gloriosa Foice dos Valar, mantinha-se como um distante, porém persistente, farol. Naquela situação, a constelação era uma das melhores formas de se deduzir onde estavam Norte e Sul, Leste e Oeste.

    Pois a noite era escura e não se via sinal de Tilion, servo de Oromë, e seu arco de prata. A Lua, como os mortais chamavam a nau na qual ia a luz da Flor de Prata, último resquício da primeira das grandes árvores de Valinor, Telperion, era conhecia por servir a vontade daquele capitão de estranhos humores e lógica própria. Costumava a, num complexo padrão, deixar o breu tomar de tudo conta ou mesmo a disputar espaço com o Sol. Mas era aquela uma hora estranha, diferente do que era o costume.

    Assustadoras nuvens encobriam o resto das estrelas de Varda, apagando, aqui e ali, a própria Foice. Eram formações pesadas, quase pegajosas, cujo interior queimava em vapores rubros, estalando em constantes raios, pequenos ramos brancos que mal produziam barulho para além de um persistente ruminar.

    Também em vermelho ardiam chamas nos topos das montanhas, dedos feridos tentando escapar para o alto, agarrando-se ao nada, mas só conseguindo nele arranhar, ensanguentados.

    Era assim às vistas de um jovem que despertara, confuso e nu, sobre um chão de terra escura, queimada. Tremulo, respirara, como há muito não fazia, o ar do descampado. Este parecera-lhe rançoso, apesar do espaço aberto, e em sua mente não demorara a pergunta: onde, pelos poderes do Oeste, me encontro?

    Fora então que lembranças começaram a penetrar-lhe a mente. Uma briga, uma faca, uma dor profunda no peito. Recordara-se de que não tivera muito tempo para se despedir enquanto o mundo dissolvia ao redor dele. Tombara, ou assim lhe parecera. Sobrevivera, então?

    Com certa dificuldade e músculos frios, levou a mão ao local da ferida. Não encontrou sinal nem de curativo, nem de perfuração ou cicatriz. Teria sido um sonho mau? De toda a forma, a dúvida persistia: onde, pelos poderes do Oeste, se encontrava?

    Ergueu-se, tentando cortar o negrume ao redor. Fosse lá onde estivesse, era uma devastação como nunca vira antes. Não que o rapaz conhecesse muito da Terra Média, mas não estava, definitivamente, em casa. Não naquele horror. Mordor?

    A Longa Noite do Fim do Mundo Capa12

    O chão era irregular, com pedras fendidas por todas as partes, como se roladas das montanhas e espatifadas, partindo-se em ângulos afiados. Arbustos ásperos pareciam mais interessados em atrapalhar o caminho do que em decorar a paisagem. Era o fundo de um vale largo, de modo que sair era uma caminhada algo ascendente, mesmo que não muito íngreme. A imensidão do cenário o fazia parecer pequeno e abandonado. Ele não tinha ideia de em qual direção seguir.

    Sonhar. Tinha a estranha impressão, no fundo da cabeça, de que estivera noutro lugar antes dali. Como numa fantasiosa viagem do sono, cujo despertar varre da mente. Incerto, ensaiou alguns passos e, como se a garganta estivesse desacostumada de usar a voz, tentou chamar alguém. O resultado fora um desarmônico “olá” que se perdera pouco depois de ser pronunciado.

    Infelizmente, aquilo fora o suficiente.

    Descortinando as sombras, uma besta saltara, cravando-lhe amarelados dentes à garganta. O cão-fera estava faminto e furioso, sacudindo e espirrando sangue para todos os lados. Os olhos sem vida do rapaz miravam sem ver o mundo ao redor conforme a cabeça pendia para um lado e outro como um brinquedo quebrado. Fosse a primeira ou a segunda vez, encontrara rapidamente o fim.

    Vísceras espalhavam-se quentes pelo solo enquanto a criatura lambia-se satisfeita com a refeição. Entretida, parou apenas para farejar algo no vento.

    Não fora rápida o bastante.

    Caindo sobre ela como um relâmpago, uma faixa prateada separou o corpo sarnento da assustadora cabeça. Aquele amontoado pelos e presas não tivera tempo nem de grunhir, tombando ao lado da própria vítima.
    - Cão pestilento... – cuspira a voz abafada que, surgindo da dura vegetação com uma fraca tocha à mão, eliminara o monstro.

    Examinara rapidamente o cadáver daquele moço, atentando ao fato de que não havia roupa alguma cobrindo-o. Sem ter mais o que fazer, lamentou não ter chegado mais cedo e limpou a arma no pelo do animal. Mas não a embainhara, seguindo a vigília até parar novamente.

    “Droga”, exclamara ao perceber que mais figuras jaziam espalhados pelo vale. Julgou-as de início mortas, outras vítimas do cenário hostil. Mas, talvez atraídas pelo brilho do fogo, começaram a piscar num lento, frio e desnorteado despertar... .

    A Longa Noite do Fim do Mundo 02_211
    Christiano Keller
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    A Longa Noite do Fim do Mundo Empty Re: A Longa Noite do Fim do Mundo

    Mensagem por Christiano Keller em Sab Out 12, 2019 4:47 pm

    Arthur Blackbeer,

           O despertar de um sonho estranho misturado à realidade deixa Arthur desnorteado ao piscar os olhos. Parecia que o chão era irregular, com pedras fendidas por todas as partes, como se roladas das montanhas e espatifadas, partindo-se em ângulos afiados. Aos pés de uma das rochas teve a impressão de escutar um desarmônico “olá” que se perdera pouco depois de ser pronunciado. Um tipo de besta saltou das sombras e atacou aquele que falou. Entre uma piscada e outra a cena terrível se desenrolou: o cão-fera estava faminto e furioso, sacudindo e espirrando sangue para todos os lados; momentos depois uma faixa prateada separou o corpo sarnento da assustadora cabeça da besta.

           Se aquilo fosse um sonho estranho, era muito real para Arthur. As dores no corpo, a escuridão, a nitidez dos eventos, o odor e a boca seca davam sinais para o corpo de que tudo aquilo era verdade. Arthur então começa a tentar mover seu próprio corpo, dedos dos pés e mãos estalam com a rigidez, os olhos buscam por mais bestas antes de se mover e também conferem se a criatura armada próxima está do seu lado ou não. As chances apontavam para o fato de que ele tentou salvar o rapaz, porém chegou para fazê-lo. Se estivesse do lado das bestas não faria sentido matar seus bichos.

           As memórias de Arthur estavam confusas. Onde estava seu carregamento e seu dinheiro? Quem o jogou no meio daquele vale? Por que não sentia nenhum ferimento?

           Com a boca seca Arthur move a língua até fazer saliva e engolir algumas vezes antes de usar sua voz. Enquanto espera seus olhos se movem em meio a escuridão à procura de ameaças. Arthur então move seu corpo devagar e de forma silenciosa ainda atento às ameaças. Os estalos das pernas e dos braços já fazem barulho o suficiente para alertar o criatura com armadura na proximidade.

    Com a mão esquerda erguida e o indicador na frente dos lábios em sinal de silêncio Arthur olha para a criatura e um leve som, quase inaudível sai de sua boca:
    - Sssss! Arthur não queria ter o mesmo destino do último cara que acordou.
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    A Longa Noite do Fim do Mundo Empty Re: A Longa Noite do Fim do Mundo

    Mensagem por Imshael em Sab Out 12, 2019 11:52 pm


    Saio do sono como
    de uma batalha
    travada em
    lugar algum

    (Ferreira Gullar)

    Sentia frio. Não um frio ordinário. Um frio profundo, cortante, que faz doer os ossos e queimar a pele. Que congela o corpo e congela a alma, interrompe as batidas do coração e adormece a esperança. Um frio tão temido e tão envolto em mistério, mas ao mesmo tempo tão onipresente e inevitável. O frio da morte.

    Sentia, também, seu corpo formigar. Como formiga a mão depois de ter restabelecido seu direito à circulação sanguínea após uma noite mal dormida, com a cabeça sobre o braço. Só que não era apenas a mão, mas cada centímetro de seu corpo; e não era apenas uma noite mal dormida, mas séculos de noites não vividas.

    Recobrava a consciência lentamente. Flashes ainda assombravam sua memória, veiculando cenas desconexas de momentos passados. Desde lembranças de sua infância, de seu primeiro amor, de suas primeiras patrulhas... Até cenas de Erynan, do fatídico dia, daquele grito perfurante... E cenas do último dia, da figura sombria de um Nazgûl, de uma lâmina gelada perfurando seu coração e causando sua...

    Morte? Estava morto? Foi esse pensamento que o fez despertar de supetão, como se tropeçasse em um sonho. As pontas dos dedos de suas mãos e pés ainda formigavam, e seu raciocínio ainda estava lento e confuso, mas Aegnor estava plenamente consciente. O coração batia acelerado. Levou as mãos ao peito, na busca de um ferimento ou, ao menos, de uma cicatriz - e nada encontrou. Apesar disso, a pele sobre o coração era gelada ao toque, sensivelmente mais fria que as outras partes de seu corpo. A memória permanente de uma lâmina amaldiçoada que atravessou, até mesmo, a morte.

    O elfo tentava buscar um sentido para o que experienciava. Estaria nos Salões de Mandos? Seu corpo parecia tão... Corpóreo. Não se sentia um mero espírito. Estaria vivo? Como seria possível? Dificilmente alguém sobreviveria a uma perfuração certeira no coração, e muito menos vindo da lâmina de um Nazgûl. Seu coração batia, é certo. Mas, então, onde estaria?

    Abriu os olhos lentamente, piscando-os enquanto suas pupilas ajustavam-se à escuridão. Mesmo sua aguçada visão élfica enxergava pouca coisa naquele breu. Enquanto as formas entravam em foco, reconheceu, no céu, a Foice dos Valar, embora parcialmente encoberta por sombrias e assustadoras nuvens. Nuvens rubras, pontilhadas por ocasionais raios, que pareciam ter saído diretamente da Montanha da Perdição.

    Pelo menos sei que ainda estou em Ennor. O pensamento não era reconfortante, e levantava mais dúvidas que respostas. Como fora parar ali? Onde era ali? O que acontecera depois daquele combate? Nunca morrera, ou morrera e voltara à vida?

    E, subitamente, um único pensamento ocupou sua mente, como uma singela faísca que encontra o piche e espalha um incêndio. Erynan. Se morrera e voltara à vida, ou se estava em algum lugar para onde iam os mortos, havia uma chance de reencontrar o companheiro caído. Uma chance remota, mas o único fio de esperança que tivera em um ano - ou seja lá quanto tempo tivesse passado desde o dia maldito. Foi agarrando-se a esse pensamento incendiário que Aegnor conseguiu forças para erguer seu corpo e colocar-se sentado.

    Só então reparou como era desconfortável o lugar em que estava. Pontas de rochedos irregulares cutucavam seu corpo nu, e o ar carregava um aroma desagradável, embora não pudesse determinar exatamente o quê. Olhando ao redor, viu-se em um vale desolado, um cenário inóspito e decadente que em nada lembrava sua terra natal. Um arrepio percorreu sua espinha e, pela primeira vez desde que acordara, percebeu que poderia estar em perigo; encolheu-se em posição fetal, amedrontado, sentindo-se extremamente vulnerável em sua nudez. Fechou os olhos com força, quase esperando ver-se de volta em Lothlórien ao reabri-los, e que tudo não teria passado de um terrível pesadelo.

    Um som ininteligível chamou sua atenção. Não estava sozinho. Outro vulto na escuridão mexia-se, e pareceu falar algo que Aegnor não foi capaz de compreender. Antes que pudesse esboçar qualquer reação, uma monstruosidade canina pareceu materializar-se no ar e avançou sobre o pescoço do pobre coitado, que logo não era mais que tripas e sangue voando pelo ar. O elfo assistiu a tudo imobilizado, de olhos arregalados, incapaz de mover um único dedo.

    Tão subitamente quanto surgira a criatura, surgiu uma figura humanoide, que com um golpe certeiro eliminou o algoz, murmurando algo que não alcançou os ouvidos de Aegnor. Este permanecia imobilizado, o coração acelerado, mas seu raciocínio começava a voltar a funcionar lentamente. Reparou que o guerreiro não guardara a espada, o que indicava que mais perigos espreitavam o local. Sem armas, sem armadura e até mesmo sem roupas, o elfo sabia que tinha chances negativas contra qualquer predador.

    Por isso, não hesitou em se erguer de um salto, com as mãos ao alto para indicar que não pretendia mal - embora isso deixasse sua nudez vergonhosamente exposta. Era uma atitude impensada - aquele sujeito estranho poderia muito bem matá-lo ou aprisioná-lo -, mas Aegnor nunca fora de pensar muito antes de agir. Em sua mente impulsiva, via no espadachim a única possibilidade de entender melhor o que estava acontecendo, de saber onde estava e de se proteger naquele ambiente hostil. Permaneceu imóvel, temeroso que seu caminhar pudesse atrair a atenção de novas criaturas, mas firmemente de pé, esperando sua presença ser notada pelo desconhecido.
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    A Longa Noite do Fim do Mundo Empty Re: A Longa Noite do Fim do Mundo

    Mensagem por Gelatto em Seg Out 14, 2019 6:44 pm

    BERGIL

    Bergil desperta de supetão como se estivesse acordado de um pesadelo! Sua respiração está ofegante, seu corpo suado e todo nu. Ele sente o chão quente, os pedregulhos afiados e e terra queimada. Leva sua mão pelo corpo e não encontra os ferimentos mortais que sofreu do ataque dos orcs. Imagina ter sido tudo um sonho, mas o odor carregado pela brisa e a sensação lúgubre que aflige o local dizem o contrário. Desorientado, procura em volta de si e vislumbra inúmeros corpos espalhados, e bem poucos se levantando. Todos nus. Ao longe vislumbra uma figura de armadura limpando sua espada na pele de algum cão ou lobo decapitado. Não vira o que aconteceu, mas imagina. A figura veste um elmo que impede que seu rosto seja visto. Quem seria, se pergunta Bergil.

    Então se lembra de Nimriel.

    Desesperado, começa a olhar em voltar, procurando pela sua razão de viver. Rasteja na terra queimada até os corpos próximos. -"Nimriel! Nimriel!", chamava, mas em vão. Não havia resposta além da brisa quente e de um homem livre nu fazendo sinal para permanecerem em silêncio. Bergil não era um tolo, sabia que aquilo poderia significar a diferença entre a vida e a morte, então, chama por Nimriel com uma voz muda, na sua mente, e continua sua vã busca.

    Também não encontra nenhum dos dunedáins que lutaram ao seu lado para defender o rei Arathórn II, nem nem os orcs que os atacaram.

    Após minutos que pareciam horas, Bergil finalmente cessa sua busca. Seu corpo estava sujo, sua determinação abalada. Então ele se senta na terra queimada, olha para os que se levantaram e novamente para a figura armadurada, e pergunta:

    -"Este é o pós vida?"
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    A Longa Noite do Fim do Mundo Empty Re: A Longa Noite do Fim do Mundo

    Mensagem por Lnrd Ontem à(s) 1:06 pm

    A Longa Noite do Fim do Mundo D977aa10


    “E, desses, Melkor era o chefe, exatamente como no início ele fora o mais poderoso dos Ainur que haviam participado da Música. E ele fingia, a princípio até para si, que desejava ir até lá e ordenar tudo pelo bem dos Filhos de Ilúvatar, controlando o turbilhão de calor e frio que o atravessava. No fundo, porém, desejava submeter à sua vontade tanto elfos quanto homens, por invejar-lhes os dons que Ilúvatar prometera conceder-lhes; e Melkor desejava ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor e ter comando sobre a vontade de outros”. (Tolkien, Ainulindalë)


    A armadura virou-se para a direção de um homem que despertava em frágil nudez, instintivamente apontando a brilhante ponta da arma naquela direção. Estava razoavelmente próxima e notou perfeitamente o pedido por cautela.

    Não pode deixar de perceber um outro. Mais distante, despertara em maior desespero, maior choque, apesar da mesma vulnerabilidade à hostilidade daquele cenário, igualmente despido de roupas e armas. Com mais terreno servindo de separação e proteção contra ele, limitou-se a posicionar a tocha de forma a melhor perceber a ambos.  Quase ao mesmo tempo, entretanto, uma terceira figura ergueu-se, surgindo como se aquele chão fosse dela uma estranha cama. Ou berço. Ou túmulo.

    Não podia ignorar que ele permanecia com as mãos levantadas. Era de se esperar que aquilo fosse interpretado como gesto de segurança. Um convite para refrear a tensão, baixar guarda. E, talvez justamente por isso, parecera surtir efeito contrário. Poderia ser uma distração.

    Dando um passo de recuo, procurou perceber se não havia mais alguém à espreita, cobras se aproximando, facas prontas para atacar enquanto aquele lá chamava para si a atenção. Mas nada veio. Ao menos não naquela hora.

    Deixou-se então acompanhar, numa aura emudecida, aquele que revolvia os arredores, procurando por algo, não, alguém. Dava tempo para que os sentidos retornassem à mente dele, fazendo-o se acalmar. Mas não tentara intervir, cobrando dele silêncio. Quem sabe esperasse que uma nova criatura o escolhesse como alvo, aguardando o instante do ataque para poder também separar dela a cabeça disforme. Se o faria a tempo de salvar a involuntária “isca”, isso era outro assunto.

    Mas aquele quadro não foi o que se sucedeu. Ao menos não de imediato, o que não era grande alento. De toda a maneira, era provável, quase certo, que ouvira o questionamento do confuso ressuscitado. Porém, por algum motivo, não fez menção de responder, deixando a pergunta no ar. Parecia manter a atenção voltada aos arredores até ter certeza de poder tomar alguma atitude.

    E então falou. E de lá emergiu uma voz cansada, apesar de distinta, das que pertencem a pessoas íntimas à caserna, batizadas nas guerras. Ignorara, com aquele gesto, o pedido de silêncio, talvez por concluir que aquele volume não seria mais suficiente para alertar outro warg na região; pior, talvez por achar crer que, àquela altura, não fazia mais diferença, visto também que vinha mesmo com uma labareda acesa. Ou a espada em punho era pra se proteger doutra coisa?

    De toda a forma, fizera uma solicitação simples e objetiva:
    - Quem são vocês? Apresentem-se.

    O pedido era fácil de entender. Mas havia “algo” estranho em como soava. Algo para além do tom abafado que o elmo fechado dava. Algo que atrapalhava a compreensão do que era dito.

    As palavras lá estavam, sem dúvida, e o sentido também. Porém a forma como os sons eram emitidos e articulados entre si era estranha aos ouvidos. Como se as frases fossem ditadas por alguém de alguma nação longínqua, cuja cultura é totalmente outra, apesar de dividir uma origem e um passado comum.
    - As pessoas têm falado de gente como vocês. Fugitivos da Morte. Vieram com os demônios. Mau agouro – tornou a falar naquele dialeto bizarro, quase numa meia resposta àquele questionar anterior, denunciando que sabia previamente, ou pudera deduzir de antemão, ao menos algo sobre aqueles desconhecidos. Por outro lado, deixava antever uma possível má disposição contra os daquele tipo.

    Isso, vindo de alguém com ferro em mãos, não era bom sinal.
    - Vocês devem começar a falar rapidamente. A velha disse para não lhes fazermos mal, mas não darei chance para mortos-vivos.

    Fazermos”. Havia mais que aquela única estátua. Naquele lugar ou nalguma distância? Ou fora um bem colocado blefe?

    Ao fundo daquele encontro, uma sutil nota começara a assomar. Era mais um incômodo que um som. Ao menos enquanto estava apenas num estado de inanunciada ameaça. Até que houve um súbito estalo e aquela nota elevara-se, preenchendo todo o espaço entre o vale e as nuvens, e também as frestas de todas as coisas moventes e inertes lá dentro.

    O barulho da ruptura era de tal forma alto e aterrorizante, daqueles que fazem os corpos instintivamente se recolherem, que parecia ser o próprio ar acima das cabeças das coisas rachando, o estalar das fundações das incomensuráveis torres que sustentam os brilhos celestes. Quem quer que estivesse por baixo daquela pesada proteção de guerra, entretanto, não se moveu. Em seguida, um enorme e longo rugido, mas que não parecia pertencer a um animal. Era mais a própria terra urrando, uma voz emergindo dalguma garganta das profundezas, ou, ao contrário, vento sendo sugado pela enorme trombeta dum abismo nascendo.

    Ao longe, por trás das cadeias de montanhas, um clarão vermelho cresceu, seguido de turbilhões de fumaça, num sinal de que longe, muito longe, as coisas estavam ainda piores. Aterrorizantes gritos de aves carniceiras se somaram à sinfonia lúgubre.
    - A terra se revolve.

    Se o mesmo ocorresse na desolação em que se encontravam, as coisas não ficariam nada, nada bem. Ao menos aquilo tudo devia ter assustado as feras. Ou não.

    Um relâmpago cortou a noite seca.
    A Longa Noite do Fim do Mundo Cbbca410
    Christiano Keller
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    A Longa Noite do Fim do Mundo Empty Re: A Longa Noite do Fim do Mundo

    Mensagem por Christiano Keller Hoje à(s) 1:36 pm

    Arthur Blackbeer,

           Arthur presenciou a cena exótica que se desenrolou. Algo muito estranho estava acontecendo. Acordar pelado no meio de um vale escuro com criaturas estranhas e um soldado armado é de arrepiar. Uma velha falou sobre nós? Mortos-vivos? Gente como vocês? Fugitivos da Morte? Demônios? Mau agouro? São ainda perguntas mais estranhas para serem respondidas por quem não sabe o que está acontecendo.

           - Calma ai camarada. Eu sou Arthur Blackbeer, faço e vendo cerveja. Arthur então se levanta e completa: Levaram até minhas roupas, onde estamos? Que história é essa de fugitivos da morte e uma velha que falou sobre vocês? Arthur tenta usar seus sentidos para encontrar os outros que estão presentes. Quem são? O que são? No entanto Arthur usa a mão esquerda esticada para frente na direção da luz para cobrir a luz em seus olhos. A escuridão é um importante esconderijo para as ameaças e o brilho intenso atrapalha.

           O sentimento de sobrevivência passa pela mente de Arthur, o que havia acontecido? Onde estava sua carga? Quanto tempo se passou? Arthur passa a mão pela cabeça para procurar por algum ferimento que possa ter feito seu corpo apagar. Também pensa nas coisas que comeu e bebeu para buscar por sabores estranhos que possam tê-lo feito dormir.
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      Data/hora atual: Sab Out 19, 2019 2:40 pm