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    Uma Antessala Vermelha - Daniela

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    Uma Antessala Vermelha - Daniela

    Mensagem por Lnrd em Qua Mar 13, 2019 7:14 pm

    A fome devia ser enorme pra justificar aquele cachorro coberto de sarna lambendo o sangue do chão, ignorando o estrondo do tiro, os gemidos de agonia vindos do rapaz esquelético e os berros do senhor em frente ao carro com a porta da frente aberta: “... pra aprender a respeitar os outros, vagabundo!”. Uma música sobre “dinheiro” e “piranhas” escapava o veículo, trilha sonora ao vivo.

    Os pneus carecas da moto mal tinham parado de girar quando os primeiros celulares apareceram no cruzamento, aparentemente mais interessados em registrar a situação do que em ligar para uma ambulância ou qualquer outra autoridade.
    Por trás do capacete de tubarão, o garoto chorava e dizia coisas sem sentido, gritando pela mãe. O segundo disparo, finalmente, afugentou o cão de focinho empapado daquele mel avermelhado.

    Projéteis cortavam o nevoeiro das bombas de gás quando, completado o prazo judicial para o fim da greve, a Guarda Nacional entrava em conflito com a PM na tentativa de refrear o movimento iniciado após as polêmicas declarações do governador sobre “vagabundos que só querem saber de dinheiro”. O exército também movia-se nas ruas nessas 44h de paralização, mas, sem surpresa, as prioridades eram a Ilha e a Zona Norte. Uma policial guiava um colega de farda que tinha o rosto ensanguentado e a mão em um dos olhos.

    Na quadra universitária, uma briga era apartada com dificuldade. Eram 20h e alguns poucos grupos, ainda com mochilas a tiracolo, tentavam aproveitar o início da calourada. Apesar de a expectativa de público naquelas condições ser baixa, esperava-se que ao menos quem vivia nas proximidades começasse a chegar em uma, uma hora e meia. Ao menos “se” a festa continuasse: a confusão era justamente porque uma frente de estudantes gritava, com alguns documentos em mãos, que o Centro Acadêmico era um antro de drogas e exclusão. “Privilégio!?”, gritava o rapaz do abaixo-assinado, vestindo uma camisa da seleção e um boné com os dizeres “respeito” sobre a bandeira nacional.

    Na TV, a âncora atualizava o status do conflito entre agentes da lei para, em seguida, entrarem imagens amadoras sobre consequências da falta de policiamento: de uma loja saqueada para uma briga num bar para um ônibus incendiado para um rapaz linchado na frente de um shopping. As matérias seguintes – a denúncia sobre o recebimento de uma bicicleta como propina que recaia em um senador de oposição e uma sequência de especialistas falando sobre as propriedades da banana – criavam uma narrativa aparentemente desconexa. “Tudo ladrão”, reclamava o vigia do museu.
    - Mais alguém vem? – havia perguntado de subido à diretora do setor de documentação enquanto ela passava mais cedo, disfarçando algo no telefone.
    - Não sei. – respondeu – Era pra todo mundo participar desse corujão, mas essa história de greve... .
    - A população que leva a pior... – começou ele, mas a senhora apenas continuou o caminho, mais preocupada com o prazo para o envio das papeladas do que com a opinião política daquele “subalterno”.

    Num cruzamento qualquer, após um assassinato qualquer, alguém tocava o rastro do ferimento, difícil distinguir se do corpo levado ou do que parecia um animal, agora esbagaçado pelo trânsito. Uma foto enviada. Passos que se distanciavam.

    O vento agitava as árvores naquela noite, enquanto algumas nuvens, tapando a lua nova, jogavam um pano sobre a feiura daquela cidade.


    ***

    NOTA IMPORTANTE: a aventura em questão foi iniciada em outro fórum, porém será continuada aqui. Para acompanhar o desdobramento até o momento, ver http://santadomina.forumeiros.com/t14-daniela-fernandes
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    Re: Uma Antessala Vermelha - Daniela

    Mensagem por Lnrd em Dom Mar 17, 2019 8:22 pm

    Pouco iluminado e austero, tal qual se esperaria de um túmulo de concreto, o Museu de História Africana ameaçava cuspir apenas os ossos corroídos daquelas almas desgraçadas que trabalhavam numa noite em que se supunha apenas o vazio.

    Se sequência coincidente e terrível ou maquinação cósmica macabra, aquela “hora extra” amaldiçoada, em meio à paralização da força policial, caminhava para se converter em “momento final” – desfecho prematuro às histórias que ali convergiam.

    No cômodo dos computadores, escritório decorado no aspecto tétrico e impessoal dum imaginário “impessoal”, “profissional”, a visão de descompostura soava mais grotesca: o estagiário de classe alta, sempre de roupas alinhadas e nunca repetidas, tremia com o rosto vermelho de choro, coroado por um olho roxo de inchado. O restante da equipe, igualmente subjugada, permanecia acuada com as mesmas faixas cinzas nas bocas e pulsos.
    Estavam à mercê dum possível – e prometido – abate.

    Dalí, apenas a sempre altiva diretora do setor de documentação, mesmo reduzida a mais uma refém amarrada e amordaçada, mantinha algo de digno e impassível no olhar, determinada a encarar o que fosse de cabeça erguida.

    No centro da sala estava Maicon, o vigia moço que tivera o azar de cair naquele turno trágico.

    Com um feio corte na cabeça, tinha olhos arregalados que, cravados na direção da porta, tentavam dizer algo à garota que acabara de se atirar no recinto.
    Fosse o que fosse, era tarde demais. Daniela, suja pela queda numa poça de sangue, irrompera no centro do furacão, livre arbítrio sob a mira de um revolver.
    - Não se mexe – disse uma voz não só grave, mas abafada por trás de uma máscara de ovelha.

    A figura estava de pé a um canto, aparentemente encarando-a.
    E não estava sozinha: outras duas figuras similares ameaçavam com armas as pessoas presentes.

    Foi então que uma terceira emergiu da escuridão de além do corredor, bloqueando o caminho da pobre estagiária.

    Francisco
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    Re: Uma Antessala Vermelha - Daniela

    Mensagem por Francisco Hoje à(s) 9:05 pm

    "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!" - sua cabeça faz um barulho estrondoso diante do absurdo daquela situação!

    O que estava acontecendo ali?!

    Após abrir a porta de súbito, Daniela não consegue anunciar seu assombro diante das manchas vermelhas em sua roupa. A imagem da diretora ali amordaçada e amarrada lhe toma a fala antes que algo pudesse ser pronunciado.

    Ela arregala os olhos e percebe outros sujeitos subjugados a atuar aquela trama maldita. Seus colegas de trabalho lhe parecem mórbidos, como se estivessem assustados demais para falar algo. E como não estarem?!

    Então Dani volta os olhos para o que está bem diante dela. O jovem vigia que lhe atendera na porta principal estava ali, lhe apresentando um semblante igualmente apavorado. Atenta, Dani fixa o olhar no vermelho na cabeça do homem. Sua pupila dilata! Ela não quer pensar no que está pensando. Em seguida ela olha para as manchas na sua roupa... A aflição toma conta de seu corpo de forma que ela tenta verbalizar algo, mas não consegue nada além de um breve gaguejo - um rastro de algo a ser dito, mas que parecia ter parado na garganta da moça quando ela, com cenho franzido olha novamente para o homem, encarando seus os olhos e seu ferimento.

    Ele parece querer dizer algo a ela. Mas se diz, Daniela não ouve. Uma voz abafada, anunciando nitidamente uma ordem curta, atravessa sua mente no mesmo instante, uma voz que rasga o padrão das vozes que foram silenciadas naquela sala pelo horror e pelo medo do que estava acontecendo. Acostumada a presenciar as abordagens brutais da polícia na sua comunidade, Dani teve seu corpo treinado. E ele não falha. Responde automaticamente à ordem: as mãos dela seguem caminho rápido para a sua nuca. Só então Dani percebe o monstro que lhe ameaça. Não era um policial. Mas outro. Uma forma humanoide, mas com rosto macabramente tranquilo de uma ovelha (a porra de uma ovelha!). E essa forma não era a única. Outras duas pessoas ameaçavam os demais funcionários do Museu.

    Dani não sabia se aquilo era um assalto, sequestro ou algo assim, mas já era capaz de supor que, independente do que fosse, aquela noite faria sacrifícios para a morte. É isso o que acontece quando uma arma é empunhada.

    Ela tenta ainda pensar em explorar discretamente o espaço, as mesas, alguma coisa que pudesse ajuda-la de alguma forma (embora ela mesma nem soubesse como - talvez só quisesse manter um pouco de esperança), um telefone, câmeras de segurança da sala. Mas suas intenções são interrompidas quando ela sente uma presença se aproximar dela por trás.
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    Re: Uma Antessala Vermelha - Daniela

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      Data/hora atual: Sex Mar 22, 2019 9:20 pm