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    Uma Antessala Vermelha - Daniela

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    Mensagem por Lnrd em Qua Mar 13, 2019 7:14 pm

    A fome devia ser enorme pra justificar aquele cachorro coberto de sarna lambendo o sangue do chão, ignorando o estrondo do tiro, os gemidos de agonia vindos do rapaz esquelético e os berros do senhor em frente ao carro com a porta da frente aberta: “... pra aprender a respeitar os outros, vagabundo!”. Uma música sobre “dinheiro” e “piranhas” escapava o veículo, trilha sonora ao vivo.

    Os pneus carecas da moto mal tinham parado de girar quando os primeiros celulares apareceram no cruzamento, aparentemente mais interessados em registrar a situação do que em ligar para uma ambulância ou qualquer outra autoridade.
    Por trás do capacete de tubarão, o garoto chorava e dizia coisas sem sentido, gritando pela mãe. O segundo disparo, finalmente, afugentou o cão de focinho empapado daquele mel avermelhado.

    Projéteis cortavam o nevoeiro das bombas de gás quando, completado o prazo judicial para o fim da greve, a Guarda Nacional entrava em conflito com a PM na tentativa de refrear o movimento iniciado após as polêmicas declarações do governador sobre “vagabundos que só querem saber de dinheiro”. O exército também movia-se nas ruas nessas 44h de paralização, mas, sem surpresa, as prioridades eram a Ilha e a Zona Norte. Uma policial guiava um colega de farda que tinha o rosto ensanguentado e a mão em um dos olhos.

    Na quadra universitária, uma briga era apartada com dificuldade. Eram 20h e alguns poucos grupos, ainda com mochilas a tiracolo, tentavam aproveitar o início da calourada. Apesar de a expectativa de público naquelas condições ser baixa, esperava-se que ao menos quem vivia nas proximidades começasse a chegar em uma, uma hora e meia. Ao menos “se” a festa continuasse: a confusão era justamente porque uma frente de estudantes gritava, com alguns documentos em mãos, que o Centro Acadêmico era um antro de drogas e exclusão. “Privilégio!?”, gritava o rapaz do abaixo-assinado, vestindo uma camisa da seleção e um boné com os dizeres “respeito” sobre a bandeira nacional.

    Na TV, a âncora atualizava o status do conflito entre agentes da lei para, em seguida, entrarem imagens amadoras sobre consequências da falta de policiamento: de uma loja saqueada para uma briga num bar para um ônibus incendiado para um rapaz linchado na frente de um shopping. As matérias seguintes – a denúncia sobre o recebimento de uma bicicleta como propina que recaia em um senador de oposição e uma sequência de especialistas falando sobre as propriedades da banana – criavam uma narrativa aparentemente desconexa. “Tudo ladrão”, reclamava o vigia do museu.
    - Mais alguém vem? – havia perguntado de subido à diretora do setor de documentação enquanto ela passava mais cedo, disfarçando algo no telefone.
    - Não sei. – respondeu – Era pra todo mundo participar desse corujão, mas essa história de greve... .
    - A população que leva a pior... – começou ele, mas a senhora apenas continuou o caminho, mais preocupada com o prazo para o envio das papeladas do que com a opinião política daquele “subalterno”.

    Num cruzamento qualquer, após um assassinato qualquer, alguém tocava o rastro do ferimento, difícil distinguir se do corpo levado ou do que parecia um animal, agora esbagaçado pelo trânsito. Uma foto enviada. Passos que se distanciavam.

    O vento agitava as árvores naquela noite, enquanto algumas nuvens, tapando a lua nova, jogavam um pano sobre a feiura daquela cidade.


    ***

    NOTA IMPORTANTE: a aventura em questão foi iniciada em outro fórum, porém será continuada aqui. Para acompanhar o desdobramento até o momento, ver http://santadomina.forumeiros.com/t14-daniela-fernandes
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    Mensagem por Lnrd em Dom Mar 17, 2019 8:22 pm

    Pouco iluminado e austero, tal qual se esperaria de um túmulo de concreto, o Museu de História Africana ameaçava cuspir apenas os ossos corroídos daquelas almas desgraçadas que trabalhavam numa noite em que se supunha apenas o vazio.

    Se sequência coincidente e terrível ou maquinação cósmica macabra, aquela “hora extra” amaldiçoada, em meio à paralização da força policial, caminhava para se converter em “momento final” – desfecho prematuro às histórias que ali convergiam.

    No cômodo dos computadores, escritório decorado no aspecto tétrico e impessoal dum imaginário “impessoal”, “profissional”, a visão de descompostura soava mais grotesca: o estagiário de classe alta, sempre de roupas alinhadas e nunca repetidas, tremia com o rosto vermelho de choro, coroado por um olho roxo de inchado. O restante da equipe, igualmente subjugada, permanecia acuada com as mesmas faixas cinzas nas bocas e pulsos.
    Estavam à mercê dum possível – e prometido – abate.

    Dalí, apenas a sempre altiva diretora do setor de documentação, mesmo reduzida a mais uma refém amarrada e amordaçada, mantinha algo de digno e impassível no olhar, determinada a encarar o que fosse de cabeça erguida.

    No centro da sala estava Maicon, o vigia moço que tivera o azar de cair naquele turno trágico.

    Com um feio corte na cabeça, tinha olhos arregalados que, cravados na direção da porta, tentavam dizer algo à garota que acabara de se atirar no recinto.
    Fosse o que fosse, era tarde demais. Daniela, suja pela queda numa poça de sangue, irrompera no centro do furacão, livre arbítrio sob a mira de um revolver.
    - Não se mexe – disse uma voz não só grave, mas abafada por trás de uma máscara de ovelha.

    A figura estava de pé a um canto, aparentemente encarando-a.
    E não estava sozinha: outras duas figuras similares ameaçavam com armas as pessoas presentes.

    Foi então que uma terceira emergiu da escuridão de além do corredor, bloqueando o caminho da pobre estagiária.

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    Mensagem por Francisco em Sex Mar 22, 2019 9:05 pm

    "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!" - sua cabeça faz um barulho estrondoso diante do absurdo daquela situação!

    O que estava acontecendo ali?!

    Após abrir a porta de súbito, Daniela não consegue anunciar seu assombro diante das manchas vermelhas em sua roupa. A imagem da diretora ali amordaçada e amarrada lhe toma a fala antes que algo pudesse ser pronunciado.

    Ela arregala os olhos e percebe outros sujeitos subjugados a atuar aquela trama maldita. Seus colegas de trabalho lhe parecem mórbidos, como se estivessem assustados demais para falar algo. E como não estarem?!

    Então Dani volta os olhos para o que está bem diante dela. O jovem vigia que lhe atendera na porta principal estava ali, lhe apresentando um semblante igualmente apavorado. Atenta, Dani fixa o olhar no vermelho na cabeça do homem. Sua pupila dilata! Ela não quer pensar no que está pensando. Em seguida ela olha para as manchas na sua roupa... A aflição toma conta de seu corpo de forma que ela tenta verbalizar algo, mas não consegue nada além de um breve gaguejo - um rastro de algo a ser dito, mas que parecia ter parado na garganta da moça quando ela, com cenho franzido olha novamente para o homem, encarando seus os olhos e seu ferimento.

    Ele parece querer dizer algo a ela. Mas se diz, Daniela não ouve. Uma voz abafada, anunciando nitidamente uma ordem curta, atravessa sua mente no mesmo instante, uma voz que rasga o padrão das vozes que foram silenciadas naquela sala pelo horror e pelo medo do que estava acontecendo. Acostumada a presenciar as abordagens brutais da polícia na sua comunidade, Dani teve seu corpo treinado. E ele não falha. Responde automaticamente à ordem: as mãos dela seguem caminho rápido para a sua nuca. Só então Dani percebe o monstro que lhe ameaça. Não era um policial. Mas outro. Uma forma humanoide, mas com rosto macabramente tranquilo de uma ovelha (a porra de uma ovelha!). E essa forma não era a única. Outras duas pessoas ameaçavam os demais funcionários do Museu.

    Dani não sabia se aquilo era um assalto, sequestro ou algo assim, mas já era capaz de supor que, independente do que fosse, aquela noite faria sacrifícios para a morte. É isso o que acontece quando uma arma é empunhada.

    Ela tenta ainda pensar em explorar discretamente o espaço, as mesas, alguma coisa que pudesse ajuda-la de alguma forma (embora ela mesma nem soubesse como - talvez só quisesse manter um pouco de esperança), um telefone, câmeras de segurança da sala. Mas suas intenções são interrompidas quando ela sente uma presença se aproximar dela por trás.
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    Mensagem por Lnrd em Sab Mar 23, 2019 3:01 pm

    Um ruído abafado – uma pequena risada? – escapara da figura que tinha Daniela sob a mira. De alguma forma, a reação dela em levar as mãos à cabeça parecera-lhe engraçada. Mórbido senso de humor.

    Com a segurança de quem pode impor respeito à base da violência, a voz voltava a falar com ela, cuspindo mais ordens. "Larga suas coisas devagarinho".
    Não a ela, mas ao resto da gangue, os pedidos continuaram noutro tom:
    - Traz mais fita e revista ela – Teria, obviamente, ajudasse para lidar com aquela nova peça em jogo, mais um peão descartável no esquema das coisas.

    A sala, na qual a estagiária não raro podia ser encontrada – a mesma que tinha chances de se tornar o cenário do assassinato dela, reduzindo toda a história dela a um desenho tosco de boneco sobre o piso –, era basicamente um retângulo, quase um corredor largo, com nove computadores enfileirados de cada lado.

    De pé à entrada, a moça via-se ladeada, à esquerda, por um armário sem graça e cinzento. À direita, um pequeno balcão atendendo quem chegava.
    Era nessa mesma cômoda que se encontrava o aparelho que gelava a água de um grande garrafão, uma bandeja com garrafas térmicas de café supostamente quente, e os itens do recepcionista ausente: um computador, materiais em geral – canetas, cola, uma tesoura, alguns prendedores de papel – e o telefone sem fio. Era justamente detrás dela que vinha o revólver ameaçando Daniela.

    Longe de Daniela, perto da porta para a próxima sala – a qual, era possível ver pelas janelas de vidro, estava completamente revirada – estava o resto do grupo amarrado e amordaçado, igualmente sob a pacificação do terror.
    Isso é, afora Maicon, no meio do ambiente.

    Não era sem ironia aquela situação: o escritório era justo uma das áreas que, ao contrário do resto da construção, possuíam sinal Wi-Fi. Mesmo que sinal de celular em si, seria possível avisar alguém pela internet.
    Se ela ainda tivesse um telefone.

    Mas mesmo que ainda o tivesse, dificilmente conseguiria utilizá-lo, coagida daquela forma.

    Fosse qual fosse a intenção daquelas pessoas, manter reféns naquela sala não parecia uma ideia das melhores. Havia muitos itens espalhados e partes metálicas que poderiam ser utilizadas para cortar amarras etc. Os próprios terminais de comunicação seriam uma alternativa fácil, se ficassem a sós por tempo suficiente.

    Ao que parecia, restava apenas obedecer e aguardar.

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    Mensagem por Francisco em Seg Mar 25, 2019 10:08 am

    Sem saber ao certo qual o seu destino, Daniela sente o desespero de saber que aquela poderia ser sua última noite enquanto um corpo vivo. Havia uma arma apontada para ela e isso não era um bom sinal.

    Ela tinha de escapar, de fugir! Tinha de salvar sua vida acima de tudo! E caso fosse amarrada, suas chances de ação diminuiriam. Embora não soubesse exatamente o quê ou como, ela sabia que alguma coisa tinha de ser feita. E logo!

    Quando ouve uma ordem para que largue as coisas no chão, seu corpo passa a tremer - um tremor que veio naturalmente por medo e adrenalina, mas que poderia ser usado a seu favor, ela pondera.

    Ela olha o bacão ao seu lado e, vagarosamente, segue a ordem de por a mochila no chão.

    Quando volta novamente às mãos à cabeça, ela inicia uma pergunta:
    - Eu não tô passando be... - uma tosse e uma ânsia de vômito são improvisadas para interromper a fala  - posso pegar meu remédi... - ela aponta para a mochila no chão... outro ensaio de ânsia. Seu corpo treme com mais intensidade, agora não por fingimento, mas por medo daquilo dar errado. E, então, antes de terminar a frase ela cambaleia e cai no bancão ao seu lado.
    Propositalmente ela derruba o computador e é a bandeja com as garrafas de café, mas sem deixar se sentir a dor do impacto. Quando cai no chão ela procura levar a tesoura e o celular consigo, pra debaixo do seu corpo aparentemente desmaiado e retraído.
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    Mensagem por Lnrd em Sex Mar 29, 2019 6:32 pm

    A cena é inesperada, um estardalhado de coisas caindo e se espalhando a esmo. O prejuízo daquele computador espatifado era infinitamente menos importante que a perda de uma vida humana, mas provavelmente alguém, num futuro próximo, pensaria ao contrário.

    “Mas o quê?!”, avançara o criminoso de prontidão no corredor atrás da estagiária, irritação a tal ponto que era possível percebê-la mesmo com aquela máscara. “Dá logo um tiro nessa porra””, gritara ao companheiro que estava atrás do balcão e ainda mantinha a moça caída sob a mira do revolver.
    Maicon, levado por um reflexo de preocupação ou dirigido sagazmente numa tentativa de aproveitar a situação, avança na direção daquela confusão, porém fora parado por um estouro alto que o faz despencar pesadamente por cima de um dos computadores laterais, igualmente derrubando tudo.
    O gatilho fora disparado, ecoando naquele ambiente fechado, mas impossível de se ouvir do lado de fora.

    Gritos suspensos, barrados por fitas que enfaixavam as bocas do grupo de reféns, não chegam a ganhar o mundo, reduzidos a murmúrios de pânico e choro.

    A bala marcara o teto, um aviso do estrago que poderia ter feito na carne fraca de alguém.

    Maicon, com olhos desesperados, fitava agora a arma apontada para o rosto ele. Machucara-se um tanto na queda, mas agradecia pelo tiro não ter sido feito na direção dele, apenas um aviso inicial.

    Ainda de cano quente à mão, aquela figura saíra de onde estava, lançando um chute forte arrebentando o nariz do jovem. “Tenta de novo e você morre”, declarou seco e mais equilibrado que o outro comparsa.

    Este, o que viera da escuridão no encalço de Daniela, chegara nela com uma mão pesada, dando nela um puxão brusco, arrastando-a de onde a garota caíra, virando-a com o rosto para cima. “Que porra é essa?”, dizia sacudindo-a, tentando arrancar uma resposta àquele mal súbito.
    As coisas que acompanharam-na naquela queda e por um momento estiveram haviam ficado embaixo dela agora permaneciam apenas espalhadas, porém próximos a ela.
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    Mensagem por Francisco em Dom Abr 07, 2019 9:55 am

    Fingindo o desmaio Daniele não se move, mesmo sentindo-se ainda mais nervosa quando ouve os barulhos das coisas indo ao chão e da voz enfurecida de seu captor. Seu corpo esboça um movimento sutil, mas nada detectável, ela espera.
    Mas ela ouviu um tiro. A isto ela reagiu.
    O temor da bala foi tanto que ela sentira que havia sido nela e em questão de centésimos de segundos desmantelou sua encenação se encolhendo no chão em posição fetal.
    No meio da confusão ela olha rapidamente e tenta identificar quais os objetos caíram próximo a ela, já se preparando para o perigo.
    Mas é interrompida.
    Com força e violência um dos homens mascarados a puxa e ela solta-lhe um grito brabo. Ele a sacode tão brutalmente que ela abre a boca na tentativa de falar, mas não consegue por uns instantes, seu raciocínio também estava a chacoalhar junto com seu corpo.
    Tentando encarar os olhos sob aquela maldita máscara que estava diante dela, ela tenta falar entre tosses e gemidos:
    - Preciso... Preciso - tosse - preciso do meu remédio. - tosse e simulação de falta de ar - Na mochila... Ansiedade.
    Suas últimas palavras são acompanhadas de suas mãos que são levadas à garganta, simulando falta de ar. Ela, em seguida, aponta pra mochila freneticamente, encarando o captor com olhos de desespero.
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    Mensagem por Lnrd em Dom Abr 07, 2019 10:52 am

    Parado como uma nuvem de chuva por sobre o corpo da garota, o bandido acompanha toda a movimentação dela, tentando entender o que ocorria. De súbito, deixou soltar um ruído abafado, curto, como se escapando-lhe uma pequena risada. Sob a máscara, era quase possível sentir que ria do sofrimento dela.
    - Olhaí, acho que vamos economizar uma bala... .

    A figura que mantinha Maicon sob o cano olha a situação e, como se atingido por uma ideia, resolve intervir.
    - Ora, ora... E então? Parece que a garota aí vai morrer... Cadê o livro? – disse voltando-se à chefe de documentação, numa sórdida tentativa de negociação. A vida de Daniela parecia significar muito pouco para comover aquele bando.

    Um dos invasores, um dos que encontrava-se mais distante da porta e mais próximo ao resto da equipe do museu, arranca de uma vez a potente fita que tapava a boca da mulher, claramente provocando uma alta fisgada de dor, apesar de nenhum grito deixar a boca dela. "E então?", voltou a insistir o criminoso principal.

    A mulher olhou para Daniela, sem deixar claro o que se passava pela cabeça dela, rosto tão inexpressivo quanto as bizarras máscaras de ovelha que a ameaçavam.
    Não era exatamente o tipo de situação em que se tinha tempo para dúvida, mas talvez as ameaças ao segurança e àquela menina não fossem o suficiente para fazê-la colaborar.
    - Gaveta 34 do estoque 2. Movemos ontem - respondeu ela, seca.

    "Olha quem resolveu colaborar...", brincou aquele que parecia estar no comando da situação. "Você, pega a mochila e arrasta essa garota", ordenou ao comparsa. "Se você estiver mentindo ela morre... quer dizer, se ela não sufocar antes, então nada de enrolar", voltou a dirigir-se à diretora.

    O companheiro agarrou a mochila pela alça e voltou-se a Daniela, oferecendo ajuda para ela se levantar. “Mademoiselle?”. A sugestão de “arrastar” parecia ser a outra opção.
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    Mensagem por Francisco em Seg Abr 15, 2019 4:28 pm

    Encurralada pelo criminoso, Daniela não consegue tomar outra ação senão a de encara-lo e continuar mantendo sua encenação - que de tão verossímil não parecia mais uma criação voluntária. Aquilo parecia-lhe ser o início de outro surto de ansiedade.

    Eis então ela escuta uma discussão confusa. E que parecia até absurda: homens com rostos de ovelha e armados estavam atrás de um livro!? Como assim!?

    Até então parecia-lhe que eles iriam saquear coisas de valor do museu, computadores, ou até algum artefato específico que pudesse ser contrabandeado para algum colecionador corrupto como tantos por aí. Noutro momento, a jovem até supôs que essa situação fosse parte de um crime de ódio contra a instituição de valorização da cultura africana praticado por neoconservadores racistas-religiosos de algum grupo que pratica e acredita no etnocentrismo (o que explicaria a máscara de ovelha, tendo-a como metáfora clara das "ovelhas que servem a Deus")...

    Mas um livro!? Quem se interessa por livros!? E que livro seria esse que é mais importante que a vida dela e de toda a equipe de trabalho do museu? O vigia foi agredido e quase foi morto há segundos atrás por causa de um livro!? O que poderia conter nele!? Seria a tentativa de apagar algum registo histórico?! Mas qual!? E por quê?!

    Ela tenta lembrar se há algum livro do setor de documentação - onde ela estagia - que poderia valer sua vida.

    Ela volta seu olhar para a chefe de documentação. Sem falar nada, mas seu olhar está repleto de medo e agora de dúvida. A expressão da mulher olhando para ela, parecia-lhe vazia. Ela emite uma localização e Dani tenta lembrar que diacho de livro poderia estar ali no estoque 2.

    Quando ouve a ameaça nítida conferida à sua vida... Puta que pariu... Foi quando deu-se conta de se levasse um tiro ali mesmo, ela seria assassinada por conta de algo que ela nem sabia o que era exatamente... Seus batimentos aumentam e as lágrimas passam a germinar. Daniela arregala os olhos encharcados para a diretora como se estivesse pedindo que se a informação dada fosse uma mentira que ela desmentisse naquele momento.

    Ela observa sorrateiramente o chão próximo à sua própria mão caçando alguma coisa perfurante ou... Meu deus... qualquer coisa que a ajudasse a sair dali, droga!! (muito embora ela estivesse mais desesperada que esperançosa). É quando o homem que estava próximo a seu corpo ironicamente oferece ajuda para ela levantar, pegando-a de surpresa. Ela o encara por um tempo e sem ver outra opção recebe a ajuda trêmula e agora soluçando.
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    Mensagem por Lnrd em Qua Abr 17, 2019 11:23 am

    Como um relâmpago - cujo brilho ilumina, mas só por uma fração mínima, e o ronco pode demorar a chegar - uma possível resposta corta a mente de Daniela. Era, todavia, uma pista estranha.

    Tratava-se de um tomo incomum, redigido por uma rara cronista à época. Tudo indicava que fora realizado sem maiores pretensões, apenas um exercício que misturava uma atração por curiosidades típica duma missão de desbravamento, um impulso por organização de dados característico do arquivismo, e o cuidado da gerência financeira. O título original era um simples “Notas de Negócios”, no qual uma Margareth Müller Casablanca registrara, entre outras impressões da viagem marítima de entre continentes, nomes verdadeiros, origens, “detalhes”, vendedores, compradores, nomes convertidos, valores etc. da “mão de obra” que, durante certo tempo, chegara ao porto velho de Santa Dômina.

    Tais “detalhes” eram o maior destaque. “Guerreira de tribo X”, “professor de Y”, “Nobre” e daí em diante. Sem prever a importância daquilo no futuro, Müller criara uma prova factual de que aquelas pessoas não podiam ter a história reduzida ao fato de serem escravas. Eram, antes, escravizadas, grupos que haviam perdido tudo e sido arrancados brutalmente das vidas que levavam anteriormente.

    Era o que de mais próximo se teria de um livro de heráldica que, apesar de não ter brasões, guardava a chave inicial de uma árvore genealógica. Nele, hoje, poderiam ser traçadas as origens de família para além da humilhação e do apagamento, mas apontando para a vida digna que aquela gente levava antes. Assim como identificava os algozes.

    O impacto de tais papeis era difícil de ser medido, passando anos como um item menor esquecido noutro museu, mas que fora recentemente adquirido pela direção daquela instituição, ganhando uma atenção ainda inicial e merecendo mais estudos.

    Quanto à garota, era carregada por uma mão que apertava com força o braço dela, empurrando-a ao longo do caminho até a sala indicada. Além daquele homem, seguia o "líder", tendo sob a mira a chefa do setor.
    - Alguma pista? – A pergunta viera dum lugar inesperado, acompanhada de duas outras figuras mascaradas.

    Além dos assaltantes da primeira sala, havia pelo menos mais dois no interior daquele bloco de pedra, revirando tudo o que encontravam pelo caminho, vasculhando pelo tesouro que almejavam.
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    Mensagem por Francisco em Dom Maio 05, 2019 7:36 am

    Sem esboçar nenhuma reação, a não ser uma rápida olhada para a diretora, Daniela finalmente lembra-se do tal livro procurado.

    Notas de Negócios, de Margareth Müller Casablanca.

    No dia anterior ao dia desta infeliz (pra não falar maldita) situação, a mesma diretora havia-lhe solicitado uma análise rápida (sondagem de conteúdo e de estado físico) do material assim como registro catalográfico e fotográfico do livro. Na ocasião Daniela ficara espantada com a quantidade de dados estavam ali registrados. Dados imprescindíveis para um desenho histórico feito a tinta vermelho-sangue-de-gente-negra-e-indígena das relações de poder, opressão e escravização de povos fundantes da cidade de Santa Dômina e que fazem de Notas de Negócios um dos mais importantes e necessários documentos escritos recém-adquiridos do museu. O item possuía tantas informações (e tão importantes assim como precisas) que sua análise não havia sido concluída. Era imprescindível para Daniela que ela passasse mais tempo a se debruçar sobre o livro e comparar suas informações com outras, de outros documentos históricos, sob a finalidade de recuperar narrativas perdidas do passado de sua cidade e entender como a Santa Dômina contemporânea, com suas muitas desigualdades, se constitui como uma reelaboração de um passado de dor.

    O livro possui um valor histórico incalculável, isso é fato. O que deixa a estagiária ainda mais intrigada sobre qual interesse nele por parte dos criminosos. Eles pareciam saber bem o que estavam a procurar. Embora ainda esteja embaçado se o desejo pelo livro parte daqueles que estavam a ameaçar a vida das funcionárias e funcionários do museu ou de algum criminoso contratante, algum ladrão engravatado.

    Mas seus questionamentos são interrompidos pela dor sofrida no seu braço por um aperto brusco. De tão forte ela podia jurar que o homem estava sentindo prazer ao machuca-la. “Macho filho dum puto!”, ela pensa. E solta um pequeno grunhido de dor entre uma respiração e outra de sua encenação ofegante.
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    Mensagem por Lnrd em Ter Maio 07, 2019 10:24 pm

    Estavam na sala de conservação, um ambiente protegido contra as ações do tempo e do clima, mas não da ação humana. Possuía uma porta vedada, de climatização, das que volta a fechar-se sozinha quando solta.

    Lá estava a diretora, com uma expressão desafiadora, mas vendo-se obrigada a colaborar. Indicara o suposto lugar do documento, de modo que chegariam ao momento derradeiro: o que fariam os bandidos se o encontrassem lá? Pior, se não o achassem?

    Dois dos homens encontrados no corredor estavam do lado de fora, sob a placa “Estoque 2”, bloqueando a saída. O bruto que tinha Daniela consigo do lado de dentro parecia ansioso, esperando apenas uma desculpa para deixar algum humor terrível aflorar. O outro, o chefe, ia à frente, já alcançando a gaveta 34.
    - Se estiver me enganando... .

    Infelizmente, ou felizmente, o interior daquele depósito móvel continha um tomo, erguido pelo invasor, que se punha a analisa-lo. Tentava identificar se o título batia com o esperado.

    Foi nesse momento que um tiro foi escutado, um estampido não realmente muito alto, conta da porta densa, mas que causara choque naquele silêncio misturado com tensão.
    O barulho não vira da sala onde estavam, mas da inicial, a com o resto da equipe amordaçada.

    “Acho que alguém tentou alguma gracinha”, disse o mais próximo à estagiária. Teria o jovem garoto segurança tentado buscar ajuda e sido morto? Ou alguma das pessoas que trabalhavam naquela maldita noite? Com sorte, teria sido outro disparo para o teto.

    Mas então vieram mais, junto com algumas falas difíceis de entender, abafadas. Uma tentativa de revolta seguida duma chacina?
    - Vai lá ver se algum dedo leve resolveu matar esses putos – gritou o líder, tentando fazer-se ouvir pelos que estavam do outro lado da porta.
    - Vamos logo matar todo mundo, já pegamos essa porra.
    - Espera... .

    A diretora olhava nervosa, como se sentisse que a qualquer momento as coisas terminariam de forma trágica.
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    Uma Antessala Vermelha - Daniela Empty Re: Uma Antessala Vermelha - Daniela

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